30.3.05



As voltas que o mundo dá

Durante muito tempo nossa família morou no Bairro Peixoto, onde a Laura e eu crescemos brincando na praça Edmundo Bittencourt. Havia um bambuzal que nos parecia enorme e perigoso, e um jardineiro, se não me engano o seu Rosa, que era o terror das crianças.

(Olhando assim à distância, nem é difícil imaginar por quê: provavelmente, nós éramos o terror dele, coitado, quebrando plantas e pisoteando o jardim.)

Minha avó morava com meus tios no alto da Santa Clara e, quando chegava do trabalho, Papai ia visitá-la. Volta e meia íamos com ele. Uma das minhas lembranças mais nítidas de infância é subir a Décio Vilares de mãos dadas com meu Pai, rumo à casa dos tios.

No caminho, cruzávamos com um ou outro conhecido. Isso significava um breve boa tarde, em alguns casos uma pequena pausa.

Mais complicado era quando encontrávamos o rabino Lemle.

Meus pais deixaram a religião na Europa. Papai não conseguiu se reconciliar com a idéia de um Deus que permitia acontecimentos como os que ele havia presenciado e vivido, e tornou-se ateu; Mamãe tem lá suas dúvidas. Por causa dessa peculiaridade familiar, aliás, devo ter sido uma das crianças a saber mais cedo a distinção entre ateu e agnóstico -- e a ficar me questionando de que lado exatamente eu estava.

A dúvida persiste até hoje; mas isso são outros quinhentos.

O fato é que Papai era amigo do rabino, que gozava de grande prestígio e consideração lá em casa. Quando se encontravam, os dois se deixavam ficar, conversando animadamente em alemão. Eu ficava indócil. Primeiro porque não falava alemão; depois porque, ainda que falasse, estava mais interessada em passear do que em ficar parada ouvindo conversa de adultos.

O tempo passou.

Há alguns anos, uma jovem repórter chamada Marina Lemle veio trabalhar comigo no Globo. Observei o nome pouco comum, e perguntei se conhecia o rabino.

Ora, como não? Era neta dele.

Mundinho pequeno!

Agora, acabo de ler um texto comovente que Marina escreveu para o nominimo sobre sua família. Seu bisavô, o sogro do rabino, assassinado em março de 1933, é considerado, oficialmente, a primeira vítima dos nazistas.

Ela, porém, só descobriu isso há coisa de um mês, por acaso, numa conversa com a avó.

Quando perguntou o porquê da demora da revelação, recebeu a mais típica das respostas que uma mãe judia pode dar:

-- Achei que você não ia querer saber. Eu quis te poupar.

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