20.8.11

ATENÇÃO!!!


O Blogtequim está encerrando as atividades... aqui.


Uma versão novinha em folha está funcionando ali na esquina, sob a URL


cronai.wordpress.com


Vamos continuar o papo por lá. Todos os 14 mil posts criados até hoje já estão no ar, e há umas novidades bonitinhas, mas o mais importante é que vocês venham todos para que o nosso internETC. continue sendo o que sempre foi, um animado blog de amigos.


Em tempo: não se esqueçam de fazer a mudança do endereço nos seus marcadores.


A gerência agradece.


Servimos bem para servir sempre.



19.8.11

Nada é tão simples quanto parece

Ainda falta MUITO para que eu fique contente com o template do blog. Há vários problemas com ele, além da impossibilidade momentânea de trazermos de volta a caixa de comentários da Echo, com a qual já estavamos todos acostumados (o Fábio está tentando encontrar um jeito de encaixá-la no modelo fechado que o Blogger inventou).

Por enquanto, o que mais me impede de ser feliz com ele é que ele simplesmente ignora as características que ele mesmo marca para as fontes. Quando escrevo no Blogger, direto, tudo sai conforme o combinado; mas se o texto vem do Word ou se é enviado por email, a bagunça é geral. Acho isso horrível. Para mim, um blog tem que ter sempre a mesma tipologia, e nas mesmas cores, salvo exceções realmente excepcionais.

Este foi, por sinal, um dos motivos pelos quais resolvi varrer o velho template: com as novas funcionalidades do Blogger, os modelos antigos ficaram obsoletos e difíceis de administrar direito.

Pelo visto, a mesma coisa acontece com os novos.

Estou fazendo umas experiências no Wordpress, para ver como me saio lá.

De qualquer forma, um blog que acaba de fazer dez anos, como o internETC., merece mudar de ares um pouquinho...

Muito obrigada pela paciência de vocês, que estão sendo cobaias das minhas experiências de design.

18.8.11

Fonseca

Uma coisa e outra


Na semana passada, dei meu pitaco sobre os saques na Inglaterra. Não tenho credenciais "científicas", digamos assim, para tecer maiores julgamentos; não sou psicóloga nem socióloga, apenas uma observadora à distância, como a maioria de nós. Escrevi o que me parecia óbvio: "O que a publicidade nos apresenta como passaporte para a felicidade é, no seu avesso, o caminho para uma desilusão e uma frustração tão grandes que, um dia, podem explodir sem mais nem menos na rua."

No sábado, o jornal publicou uma ótima entrevista com Zygmunt Bauman, feita pelo Fernando Duarte, em Londres. Aos 85 anos, Bauman é considerado um dos sociólogos mais importantes do planeta. O que ele disse confirmou o que eu havia intuído: o quebra-quebra inglês foi o motim dos consumidores excluídos.

Não tenho a menor idéia de como podemos sair da roda-viva doentia do consumo, sobre a qual construímos a nossa economia, e da qual todos somos vítimas, em maior ou menor grau; mas é fundamental que algo se faça nesse sentido, ou estaremos condenados à infelicidade perpétua.

Bauman diz que, além disso, precisamos repensar a maneira como medimos o bem-estar:

"A busca da felicidade não deve ser atrelada a indicadores de riqueza, pois isso apenas resulta numa erosão do espírito comunitário em prol de competição e egoísmo. A prosperidade hoje em dia está sendo medida em termos de produção material, e isso só tende a criar mais problemas."

Nada mais verdadeiro. Andei pela Índia, país reconhecidamente pobre, e percebi muitos sinais de contentamento e alegria. No seu exato oposto, a Península Escandinava, que não podia ser mais rica e bem resolvida materialmente, notei muita cortesia, educação e gentileza, mas alegria é palavra que não consigo associar à região. Em nenhum dos casos, porém, me atreveria a falar em felicidade, sensação sutil e difícil de interpretar.

* * *

Tenho, aliás, pensado muito sobre a felicidade, em parte pelas circunstâncias atuais da minha vida, em parte pelo fato de ter feito anos e recebido uma quantidade de votos simpáticos dos amigos, que me desejaram o que habitualmente se deseja aos aniversariantes: felicidade, paz, saúde, prosperidade, calorias que não engordam e assim por diante. 

Lendo as mensagens, me dei conta de que uma só palavra bastaria por todas as outras: felicidade, justamente. Impossível ser feliz sem um mínimo de saúde, de paz, de prosperidade e do que mais possa ser julgado essencial à vida, e que varia, naturalmente, de pessoa a pessoa. Afinal, este vago estado de espírito pressupõe o equilíbrio de todos os outros sentimentos e condições na travessia da corda bamba que nos leva do nada ao lugar nenhum. Desejar felicidade é, pois, desejar tudo.

* * * 

Quando era criança, adorava um jogo de tabuleiro chamado Careers, em que cada jogador escrevia num papelzinho a sua receita de sucesso. Ganhava quem atingisse primeiro a sua meta. A receita consistia de uma mistura de três ingredientes: fama, dinheiro, felicidade. Uma receita típica seria, por exemplo, 50 felicidades, 10 famas e 40 dinheiros. 

Parecia tão fácil! Ainda assim, a vida não deixa de ser uma espécie de Careers ao vivo, com uma quantidade substancialmente maior de ingredientes e combinações.

* * * 

Ando interessada em Lhasa, a capital do Tibete. Depois de ler um bocado, fui ao Google procurar umas fotos. Encontrei 2.440.000 – das quais pelo menos 2.439.000 de cachorrinhos. Entre essas milhares de fotos de Lhasa Apsos aparecem, aqui e ali, algumas tímidas imagens da Potala. E só. Grande decepção.

* * * 

Outra decepção: a iluminação do Cristo, inaugurada em março, que achei que alguém fosse consertar imediatamente. Achei errado. Pelo visto, as autoridades estão contentes com aqueles canhões de LEDs horrorosos, que de tão fortes apagam os detalhes da estátua. Visto de lado, o coitado do Cristo perdeu até a magia de flutuar misteriosamente: na montanha, logo atrás dele, enfileiram-se três refletores perfeitamente visíveis, que acabam com o mistério de vez. Um pavor.

Em compensação, o belo painel do Espaço Criança Esperança, no morro do Cantagalo, voltado para a Lagoa e inspirado em obra de Portinari, fica às escuras assim que anoitece. Faz sentido?

* * *

Há filmes que nunca deveriam ser assistidos de novo. No fim-de-semana, sugeri aos amigos que vissemos "Curtindo a vida adoidado", o famoso Ferris Bueller's Day Off. Filmado em 1986, com um jovem Matthew Broderick no papel principal, ele era, na minha lembrança, um dos filmes mais divertidos de todos os tempos, quase no mesmo patamar de "Apertem os cintos, o piloto sumiu".

Todos adoraram a idéia; todos adoravam "Curtindo a vida adoidado". Chegamos a ficar com inveja da Heliana, que nunca tinha assistido o filme, pela experiência que ia viver.

Pizza e refrigerantes a postos, lá fomos nós. O filme começou. Passados dez minutos, a Heliana perguntou: "Vocês estão gostando?". Ligeiro murmúrio. Dez minutos depois: "Mas vocês estão gostando mesmo?" Murmúrios mais audíveis.

-- Era muito engraçado...

-- Eu me diverti demais quando assisti...

Mais dez minutos: "Vocês juram que achavam este filme engraçado?!"

-- Era engraçado sim...

-- Era outra época...

O Tom se lembrava até da cena da parada.

Desistimos no meio. Ainda demos um fast forward para que o Tom conferisse a tal cena, mas nem isso se salvava. Arrasados com o enterro da nossa última quimera, mudamos para "Human Planet", documentário da BBC, e fomos felizes para sempre, até o fim do último DVD.

(O Globo, Segundo Caderno, 18.8.2011)

Mais um teste



Enviado por Samsung Mobile

Muita calma nessa hora!

Não, vocês não cairam no endereço errado. Este é o nosso bom e velho blog de sempre, temporariamente aninhado numa casa nova, feita por mim mesma, com os recursos mais simples do Blogger.

Aconteceu que, de ontem para hoje, deu a louca no Blogger, a ferramenta que uso para escrever e publicar os posts. Ele ficava rodando no vazio, sem entrar nunca na versão de edição. Primeiro achei que fosse problema do Opera, cuja versão mais recente baixei e estava testando. Fechei o Opera. Fui para o Chrome; mesma coisa. No iPad, com o Safari, idem, e no Samsung Tab mesmo problema, dessa vez no Dolphin, um excelente browser para Android. Estava claro que o problema não era com os browsers ou com as máquinas, mas com o Blogger em pessoa.

Tive que postar a crônica de hoje por email (que é como escrevo esta mensagem).

Fiquei tão chateada que resolvi mudar logo tudo. Eu adoro a carinha tradicional do blog, mas ela estava precisando de uma recauchutagem há tempos, até porque estava demorando demais a entrar. A operação novo template correu sem maiores problemas, exceto que a caixa de comentários -- sempre ela! -- sumiu.

Logo depois de enviar essa mensagem para o blog, vou escrever para Fábio "The Man" Sampaio para que ele, mais uma vez, nos tire dessa.

Por enquanto, peço a vocês um pouquinho de paciência. Essa ainda não é a cara nova definitiva do blog; é só uma experiência. O template antigo está guardado, e se for o caso, volta novamente.

O estabelecimento agradece a compreensão de todos, e pede desculpas pelo transtorno.

13.8.11

Pequeninas poderosas



  
Uma das minhas lojas online favoritas é a americana Photojojo.com. Através de um design descolado, de muita interação com os clientes e de uma newsletter cheia de boas idéias (e não só produtos) ela conseguiu conquistar o coração de todo mundo que gosta de brincar de fotografia.

Brincar de fotografia, reparem, não é o mesmo que fotografar. A Photojojo.com não é uma B&H da vida, carregada com os equipamentos mais sofisticados; ao contrário, ela se especializa em soluções low-tech e em brinquedinhos, mesmo, como miniaturinhas de câmeras, canecas que, na parte exterior, imitam nos mínimos detalhes lentes poderosas – com modelos Canon e Nikon para satisfazer a todos – e coisinhas que fazem a alegria de quem gosta dessa brincadeira.

Exemplo típico do espírito da loja é uma lente Diana para DSLRs. Ou seja: por apenas US$ 60, você pode transformar a sua carésima e sofisticadésima câmera Canon ou Nikon numa verdadeira Lomo, e conseguir fotos horríveis e fora de foco sem qualquer esforço! O pior, confesso, é que fiquei muito tentada...

Mas o que mais gosto no estoque da Photojojo são os acessórios para celular. Essa semana, recebi minha compra mais recente: três minúsculas lentes que aumentam potencialmente o poder fotográfico dos aparelhos. Para quem usa celular em vez de câmera, elas representam um upgrade bem superior ao seu valor de US$ 49 (mais US$ 31 para envio – rápido – para o Brasil).

As lentinhas são uma tele, uma grande angular que se transforma em macro e, maravilha das maravilhas, uma olho de peixe sensacional. Das três, a menos relevante é a tele; a diferença que faz é pequena.

A grande angular cumpre bem o seu serviço. Faz um pouco de vignetting (aquelas manchas pretas que às vezes aparecem nos cantos da foto) mas, caramba, estamos falando de uma lentinha minúscula de alguns tostões, e não de uma lente Sigma de centenas de dólares...

Já a macro, que aparece quando a gente desenrosca a parte superior da grande angular, é ótima e difícil de usar, como acontece com as macros: é preciso achar a distância certa no olho e ter uma mão muito firme.

E a fisheye, ou olho de peixe, é uma das coisas mais divertidas que já vi. Imaginem transformar a humilde câmera do seu aparelho numa potência capaz de captar todo o entorno? Ela é ótima para paisagens, fotos de grupo, o que for.

O sistema, que se adapta a praticamente qualquer celular com câmera, é muito bem pensado, e vem com um anel de ferro achatadinho que se cola ao redor da lente do próprio celular (cada lente vem com dois desses anéis, de modo que comprando o trio fica-se com anéis de sobra para eventualidades); elas têm ímãs poderosos na base que se agarram ao anel e ficam bem presas. A sensação do conjunto na mão é de um instrumento estável, tanto que tive coragem de por o celular com lentinha e tudo para fora da janela para fotografar.

Os resultados dessas três belezinhas vocês conferem aqui na página.

* * *

Fiz uma outra compra na Photojojo que ainda não testei, mas que me pareceu muito prática: um rebatedor de flash para flashes embutidos de DSLRs. Detesto flash, mas quando a luz é dirigida para o teto, aquele efeito horrível melhora muito. Este rebatedor é uma clássica solução low-tech, uma peça de plástico espelhada por dentro que se põe por cima do popup da câmera. Na semana que vem eu conto (e mostro) como funciona.

* * *

O aplicativo da semana é o Photo Caddy, que existe tanto em versões Android quanto iOS. Não é novo, mas é excelente: um guia de bolso para as diversas situações que alguém que fotografa pode encontrar: aéreas, submarinas, lua, fogos de artifício, plantas, por aí vai.  Abre-se o tópico desejado e lá estão dicas e sugestões, equipamento ideal, espaço para notas individuais e observações de outros usuários. Excelente! Dois detalhes, porém: ele é em inglês e é pago (US$ 3,99).


(O Globo, Economia, 13.8.2011)


Quem quiser brincar de QR com o smartphone, é só apontar pro código acima para ver o álbum que fiz com as fotos das lentes; para quem quiser ver por aqui mesmo, basta clicar AQUI.

12.8.11

Piadinhas infames

Chegaram pelo email, como sempre. Adorei. 




Um grupo de amigos de 50 anos discutia para escolher o restaurante onde iriam jantar. Decidiram-se, finalmente, pelo Restaurante Tropical, porque as  garçonetes usavam mini-saias e blusas muito decotadas.

Dez anos mais tarde, aos 60, o grupo reuniu-se novamente e mais uma vez discutiu para escolher o restaurante. Decidiram-se pelo Restaurante Tropical, porque a comida era muito boa e havia uma excelente carta de vinhos.

Passaram-se mais dez anos e, aos 70, o grupo reuniu-se novamente e mais uma vez discutiu para escolher o restaurante. Decidiram-se pelo Restaurante Tropical, porque lá havia uma rampa para cadeiras de rodas e até um pequeno elevador.

Dez anos depois, aos 80, o grupo reuniu-se e mais uma vez discutiu para escolher o restaurante. Finalmente decidiram-se pelo Restaurante Tropical. Todos acharam que era uma grande idéia, porque nunca tinham ido lá...





O PCC, facção do crime organizado de São Paulo, seqüestrou ontem, em Brasília, 24 deputados da Câmara Federal e alguns Senadores. Eles estão solicitando US$ 1.000.000,00 para sua libertação. Se o valor de resgate não for cumprido em 24 horas, vão banhá-los com combustível e os queimarão vivos.

Estamos organizando uma coleta e necessitamos da sua ajuda!

Veja o que conseguimos até agora:

- 580 litros de Gasolina Aditivada

- 320 litros de gasolina Premium

- 175 litros de gasolina convencional

- 125 litros de diesel

- 98 litros de Biodisel

- 380 maços de caixas de fósforos

- 214 isqueiros

- 7 lança-chamas

- 108 sacos de carvão

- 1 retroescavadeira

Pedimos que não mandem álcool, pois há o risco do mesmo ser consumido pelos deputados.


Se você não reenviar essa mensagem é porque não tem coração... 

A Pipoquinha da portaria


Para quem andava com saudades dela, aí está a nossa estrelinha comunitária. 

Está linda, gordinha e carinhosa como sempre, e o Zé e a Sílvia, cada vez mais apaixonados pela "filha"...

11.8.11

Uma dica para Rejane




  
“Graças a você ganhei no meu aniversário dois exemplares de ‘Cidade Máxima’, de Suketu Mehta, tendo quase sido presenteada com um terceiro”, escreveu a Rejane Serksnys. “Este último não chegou a ser comprado, porque a minha amiga me avisou antes que, por indicação sua, seria o meu presente de aniversário. Como você anda influindo até na compra de meus presentes, gostaria de ter a sua indicação para fazer a troca do segundo Bombaim. Qual a sua dica?”

Quem recebe uma mensagem tão simpática só pode mesmo dar  risada, e mostrá-la para os amigos. É o que estou fazendo. Ao mesmo tempo, vai que alguém mais esteja precisando de uma dica de livro? Vocês já leram “Fernando Pessoa, uma quase autobiografia”, de José Paulo Cavalcanti Filho? A edição é da Record, tem 734 páginas que podem amedrontar as almas mais delicadas e é, sem trocadilho, um grande livro. As tais 734 páginas passam rápido, muito mais rápido do que gostaríamos.

* * *

Antes, um parênteses. Algumas pessoas reclamam que não falo suficientemente de livros de autores brasileiros. Têm razão. O problema é que estou cercada de autores brasileiros, o que significa que, escrevendo sobre o livro de um amigo, corro o risco de magoar outros dez sobre cujos livros não disse palavra. Não porque não tenha, necessariamente, gostado do seu trabalho, mas apenas porque a crônica é um espaço livre que deve ter seu rodízio de assuntos.

E por que esse papo agora? Porque, há tempos, penso em explicar isso a assessores de imprensa, autores e patrulheiros de modo geral. Parênteses fechado.

* * *

Pensei muito na dica para a Rejane. “Cidade máxima” é uma reportagem extraordinária, um trabalho de pesquisa meticuloso alinhavado com uma prosa da melhor qualidade. Não poderia sugerir a ela nada menos do que isso. E aí me lembrei do livro de José Paulo Cavalcanti Filho, ao qual se pode aplicar a mesmíssima definição.

José Paulo foi atrás do seu personagem com uma tenacidade exemplar. Não deixou um papel por revirar, uma carta por ler. Andou pelo mundo atrás de Pessoa e dos seus amigos, juntou os pontos onde havia pontos a juntar, usou as palavras do próprio Pessoa para reconstituir a sua vida e, onde faltaram essas palavras, preencheu os claros com informação impecável, inteligência e sensibilidade. Ele nos traz, com riqueza de detalhes, o Portugal em que viveu Pessoa, com seus hábitos, personagens e modas; até receitas, para que o leitor curioso possa ter o gosto de experimentar o que alimentava o poeta.

Vale acrescentar que essas receitas funcionam muito bem. Todas foram testadas por Maria Lecticia, mulher do autor, pesquisadora e historiadora da culinária nordestina, que, aqui e ali, fez algumas adaptações, especialmente em relação a ingredientes que já não se encontram mais.  

Além da vida de Fernando Pessoa, acompanhamos também as andanças e o trabalho de José Paulo. O resultado é que, quando acabamos de ler essa biografia magnífica, temos dois novos amigos: Fernando Pessoa e José Paulo Cavalcanti Filho.

Eu, que tenho boa estrela, já conhecia o último de longa data; mas confesso que pouco sabia a respeito de Fernando Pessoa. Ou, por outra, sabia aquilo que sabemos todos, meio por alto, e mais um tantinho que aprendi na bela edição de “Fernando Pessoa, uma fotobiografia”, de Maria José de Lencastre, publicada pela Imprensa Nacional portuguesa em 1981.

Do livro de José Paulo, porém, emerge um homem completo, retratado em praticamente todos os momentos da vida; uma figura real, que passa a ocupar o lugar da abstração que, em maior ou menor grau, tínhamos em mente.

Troque o seu “Cidade Máxima” excedente por este “Fernando Pessoa”, Rejane. Você não vai se arrepender. E ah, sim: ainda que atrasado, parabéns pelo aniversário!

* * *

As causas de um quebra-quebra como o de Londres são complicadas demais para que eu sequer tente entendê-las, quem dirá explicá-las; mas um ponto, me parece, não pode deixar de ser ressaltado, o da distorção de valores gerada pelo consumismo pornográfico que nos cerca.
Como eu já escrevi algumas vezes, antigamente usavam-se vestimentas cujo valor variava de acordo com material e acabamento, assim como os sapatos podiam ser melhores ou piores mas, em essência, cumpriam apenas as funções de proteger e enfeitar os pés.

Hoje não. Deixamos de comprar roupas e calçados para consumir griffes e conceitos, e passamos a ser julgados menos pelo que somos do que pelo que temos. O que a publicidade nos apresenta como passaporte para a felicidade é, no seu avesso, o caminho para uma desilusão e uma frustração tão grandes que, um dia, assim como um bueiro da Light, podem explodir sem mais nem menos na rua.

Isso, claro, é só parte da equação, porque nada justifica o vídeo mais revoltante que vi dos acontecimentos. Um rapaz está ferido, sentado no chão, encostado a uma parede. Outros se aproximam, um o ajuda e o põe de pé... para que os outros possam abrir a sua mochila e roubá-lo! Aí, sinceramente, todas as minhas teorias vão para o brejo. O ser humano, como sempre diz o Millôr, é um animal inviável.

* * *

Por falar em animais inviáveis: quando é que as autoridades brasileiras vão perceber que a população adulta do país tem suficiente capacidade para decidir o que quer ou não quer assistir?! Até aqui, tudo o que este lamentável episódio de censura conseguiu foi fazer a fama de um filme que não merece sequer ser mencionado.


(O Globo, Segundo Caderno, 11.8.2011)

7.8.11

Toró na rede



Enviado por Samsung Mobile

Matilda

Mario Moscatelli: aventuras de um mangue-formador

Foto de Pedro Kirilos


Estava um dia um cidadão calmamente podando as arvorezinhas do mangue à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas quando um rapaz, que passava na calçada, chamou-o às falas:

-- Ei, você! O que é que você pensa que está fazendo?!

-- Podando as árvores, como se pode ver.

-- Você não pode mexer nelas. Eu plantei esse mangue!

-- Você?

-- Eu mesmo. Com o professor Moscatelli.

-- Eu sou o Moscatelli.

Grande saia justa! O rapaz, que não via o professor há dez anos, queria sumir no chão. Moscatelli deu uma volta na conversa e ambos se despediram entre risadas. Afinal, estavam do mesmo lado. Mas nem só quem plantou pessoalmente alguma das mudinhas do mangue tem orgulho dele; hoje, todo mundo que freqüenta a Lagoa tem o maior apego pelo seu ecossistema, e está pronto a defendê-lo.

Nem sempre foi assim. Até os anos 90, a Lagoa era um absurdo biológico e urbanístico. Um espelho d’água magnífico, plantado numa paisagem deslumbrante... e completamente abandonado pelo poder público. Nas pracinhas que existiam no Cantagalo e no Parque dos Patins os brinquedos quebrados eram uma ameaça às crianças; os assaltantes que trabalhavam ao longo das margens eram uma ameaça aos adultos; e as constantes mortandades de peixes eram, se não uma ameaça, uma desgraça aparentemente inevitável.

Um dia, um jovem biólogo nascido em Copacabana, parcialmente criado em Roma e que militava em Angra, viu uma tainha saltar na água da Lagoa.

-- Eu não tinha nenhuma familiaridade com essa área, -- diz Moscatelli. – Vi aquele peixe e pensei, “Ué, mas isso é peixe de água salobra... esse troço aqui tem a ver com mangue.” Fui à Fundação Osvaldo Cruz e, num periódico de 1936, encontrei um estudo de Lejeune de Oliveira sobre a comunidade biológica da Lagoa, que confirmou o que eu havia imaginado.

Ao dizer que Moscatelli militava em Angra, não uso o verbo à toa. Seus pais tinham casa na cidade e ele ficava indignado em ver como o meio-ambiente, em tese protegido por legislação desde 1965, vinha sendo sistematicamente agredido. Tomou a si as dores da natureza e passou a lutar contra os predadores, primeiro com a ajuda da Sociedade Angrense de Proteção Ecológica, depois sob as asas da prefeitura, que chamou-o para a Secretaria de Meio Ambiente.

-- Em 1988, aos 24 anos, depois de fazer algumas denúncias na extinta TV Manchete, recebi meu primeiro convite para calar a boca, -- lembra ele. -- Um segundo programa não foi ao ar, e comecei a receber ameaças sinistras.

 O que acontecia, basicamente, é que o seu trabalho na prefeitura contrariava os interesses da indústria imobiliária local. As ameaças passaram a ser dirigidas também a outros membros da família. Em breve, a situação ficou tão tensa que uma ONG alemã achou mais prudente tirá-lo do país por uns tempos.

Conversando os colegas em Berlim, Moscatelli teve grande dificuldade em explicar porque uma pessoa que apenas queria ver a lei cumprida corria risco de vida. Para os alemães, aquilo era um contrasenso. Por outro lado, viu as suas esperanças renovadas: lá também a recuperação ambiental havia sido vista com ceticismo pela população que, com o tempo, abraçou a causa de corpo e alma.

Depois de um ano, voltou ao Brasil, disposto a recuperar o manguezal da Lagoa. Era uma experiência inédita no país, onde acreditava-se que, uma vez destruído, um mangue não se refaz. Experiências em outras regiões tropicais desmentiam essa crença. Moscatelli transformou a Marajó do pai no “mangue-móvel”, e passava a semana trazendo mudas de Angra para o Rio. Para desespero da mãe, cultivava as plantinhas no apartamento dos pais, em Copacabana.

Dona Maria Cristina, feroz italiana do Sul, manifestava claramente o seu descontentamento; seu Giuseppe, italiano do Norte e diplomata por excelência, entrava com os panos quentes – mas mesmo ele estava cheio de dúvidas em relação ao projeto do filho. O que ele estava plantando não era exatamente um jardim convencional; valia a pena ter todo aquele trabalho para que, mais dia menos dia, alguma autoridade resolvesse arrancar tudo?

Não eram dúvidas infundadas. No começo dos anos 90, quando o mangue começou a tomar forma na Lagoa, as discussões a seu respeito eram intermináveis. A toda hora aparecia alguém nos jornais ou na televisão para dizer que 1) a Lagoa não era região de mangue; 2) o mangue fedia; 3) o mangue atraía mosquitos; 4) as árvores tirariam a vista do espelho d’água. Uma pessoa menos determinada teria desistido.

O que acabou com a polêmica foi a volta, lenta e gradual, da fauna. As garças foram as primeiras a chegar. Na sua esteira vieram socós, martins pescadores, savacus, frangos d’água... até marrecas já foram avistadas. Há caranguejos na lama, e a quantidade e a variedade de passarinhos aumenta ano a ano.

O plantio das árvores foi só parte desta redenção. Mais importante foi a verdadeira guerra travada contra o despejo de esgoto na água. A Cedae cismava em dizer que estava tudo bem; Moscatelli insistia em afirmar o contrário. Em 2002 chegou a se fantasiar de morte e a passear pela orla oferecendo cocôs de plástico à população, para dar mais ênfase ao seu argumento.

 Suas palavras encontraram eco na sociedade, que organizou e participou dos célebres abraços na Lagoa, ridicularizados por quem não levava os ecologistas a sério, mas muito eficazes para atrair a atenção da mídia e conscientizar a população. As ações culminaram com uma auditoria na rede de esgotos da Lagoa. Descobriu-se que, entre 1985 e 2000, a Cedae investira apenas 1% da sua arrecadação na manutenção do sistema. 55% dos troncos coletores tinham mais de 60 anos.

-- Já era caso arqueológico! Cocôs históricos percorriam aquelas tubulações...
Caímos na risada. Estavamos conversando às margens da Lagoa, como não podia deixar de ser. E, nesse momento, fomos interrompidos por Carlos Henrique dos Santos, 43 anos, taxista, que aproveitava o dia de sol para passear com a tia.

-- Com licença? Sou seu fã, acho maravilhoso o trabalho que você vem desenvolvendo! Adoro quando você vai em cima dos homens, a gente tem mesmo que lutar pelo que acredita.

-- Quanto você pagou de cachê a ele pela participação, Moscatelli?

Mais risadas, mas Carlos Henrique fez questão de deixar claro que estava falando de coração aberto.

-- Tenho a maior admiração e respeito por esse homem. O trabalho dele é o máximo!

E, cá entre nós, é mesmo. É muito fácil destruir um ecossistema que leva milhares de anos para se formar, mas é preciso muita tenacidade e paciência para recriar a vida.

-- Na série Star Trek há personagens encarregados de visitar outros planetas e criar condições de vida. São os terra-formadores. Gosto de pensar em mim mesmo como um mangue-formador. Mas acho que isso estava escrito. Meu nome é Mario, mar e rio, que formam os manguezais. Sou canceriano, o signo do caranguejo, clássico habitante do mangue, regido pela lua, responsável pelas marés... Não tinha como escapar ao meu destino.

A dedicação integral de Moscatelli aos seus mangues chegou a criar alguns momentos de stress no casamento com Lucia, uma agrônoma bem-humorada que, com o tempo, passou a achar perfeitamente normal o modo de vida do marido.

-- A gente acaba se acostumando – diz ela. – Passar fim-de-semana plantando manguezal vira rotina. As meninas (Carolina, de 14 anos, e Giovanna, de nove) nem concebem o mundo longe de plantas, comigo no Jardim Botânico e o pai às voltas com o mangue.

A família é o grande esteio do nosso mangue-formador, que nela encontra a força e o apoio para seguir lutando. Depois da Lagoa, ele foi cuidar, com igual intensidade e dedicação, de outras áreas da cidade. Praticamente não há mangue no Rio que não tenha a sua intervenção, como Gramacho, onde plantou 35 hectares e cuida de outros 100, o Canal do Cunha no Fundão, a Baía de Guanabara...  No complexo lagunar da Barra e de Jacarepaguá, trava, atualmente, uma batalha semelhante à que travou em relação à Lagoa. O projeto Olho Verde conta com o apoio da Camara Comunitária da Barra.

-- Aquelas cinco lagoas viraram latrinas. 80% do que está lá é lama e lixo, sendo que na Tijuca existe até lixo hospitalar. Na condição em que estão, elas podem até produzir cianobactérias, que são uma das causas de câncer do fígado, -- desespera-se. – Da última vez que sobrevoei a região, há alguns dias, contei 185 pneus, 35 sofás, uma máquina de lavar, uma caixa d’água de mil litros, um jumento morto, vários aparelhos de televisão... Quer dizer, em pleno Século XXI, ainda não aprendemos nada!

O atual sonho de Moscatelli é que, até 2014, este verdadeiro esgoto a céu aberto esteja limpo, e a caminho da regeneração. Se isso acontecer, a cidade poderá mostrar ao mundo, durante as Olimpíadas, uma linda paisagem.  Caso contrário...

-- A Natureza tem limites. Eu ando extremamente preocupado com o que vejo. Estou com um sentimento ruim, como um elefante antes de uma tsunami. O tempo está acabando. Dinheiro eu tenho certeza que existe, mas a má gestão é crônica. Fico perplexo com isso, porque, no fundo, deixar um legado para os nossos filhos é o que todos nós queremos. Políticos inclusive, por difícil que seja acreditar nisso.


(O Globo, Rio, 7.8.2011)

6.8.11

Florzinha



Enviado por Samsung Mobile

De mãe para mãe







 A coluna hoje não é minha. É da Flavia Rocha Azevedo, que me mandou uma linda história que resolvi passar para vocês. Acho que, atualmente, todos nós estamos precisando de notícias assim.  

“Na semana passada, voltando para Singapura, botei o iPhone na mochila, de onde ele caiu no aeroporto do Galeão. No meio da confusão de malas de bordo, mochilas, filho tagarela de um lado para o outro, só percebi a perda dentro do avião, quando fui pegá-lo para desligar durante o vôo.

Fiquei arrasada. Torci para que tivesse caído no taxi (o motorista é nosso conhecido). Infelizmente, ao chegar em São Paulo, o motorista me disse que não tinha encontrado nada... Pânico total! A pessoa que o encontrou poderia entrar no meu Facebook e no meu email. Me senti tão invadida que liguei para minha mãe pedindo que mudasse todas as senhas, e lá ficou ela, perdida no mundo tecnológico. Amaldiçoei o dia em que não coloquei senha no celular, culpei o Rafa por não ter percebido que ele tinha caído... Fiquei pensando em quanta coisa a gente escreve nos emails, quantas informações estão ali a um simples toque de quem souber procurar.

Depois comecei a pensar nos vídeos e fotos que tirei durante a viagem para o Rio e que ainda não tinha copiado para o computador. Pensei nessas imagens e em tantas outras coisas que estão no meu iPhone. No vôo para Doha dormi mal, cheguei até a sonhar que alguém postava no meu Facebook: “Flavia Rocha está chorando porque perdeu o iPhone e não vai recuperá-lo!” Enfim, fiquei com aquela sensação de impotência que a gente fica quando vacila.

Chegando em Doha fui direto para o iPad para tentar mudar as senhas, E eis que vejo um email da minha mãe:

“Oi filha, me ligou uma pessoa super humilde que trabalha na limpeza do aeroporto pois encontrou seu celular, na verdade ele pediu para um amigo, mais esperto, ligar. Muito legal!!!!! Ele mora na Ilha e eu vou amanhã buscar. Depois veremos como lhe mando, mas fica tranquila, são pessoas do bem.”

Chegando em Singapura, tive o relato mais fofo da minha mãe. Ao chegar na rua onde esse senhor mora, os seus filhos vieram recebê-la todos felizes. Contaram que adoraram brincar com os joguinhos e que curtiram ver os vídeos daquele neném que fala engraçado. A esposa veio entregar o celular e disse, com lágrimas nos olhos, que, depois de ver o vídeo do Gabriel comendo macarrão decidiu encontrar alguém que soubesse mexer no celular para poder devolver, ela não queria que eu ficasse sem aqueles vídeos e fotos...

Fiquei super tocada com todo o episódio, não só por pensar que ainda existem pessoas honestas no mundo mas, sobretudo, por perceber que aquela mãe pensou em mim como mãe e fez o esforço de procurar um número do Rio em um celular de Singapura para devolver as fotos e  vídeos para a mãe do neném que fala engraçado.

Ela comentou também que os funcionários do aeroporto encontram muitos celulares o tempo todo, e que a Infraero não dá o menor suporte para encontrar os donos. Alô, Infraero!!!

Meu iPhone está a caminho de casa. E eu tiro meu chapéu para tamanha sorte e para essa história super legal. Viva, viva, viva!”

* * *

A dica de aplicativo é o Watermyphoto, para iPhone, que produziu os reflexos que vocês vêem nas fotos de hoje, e virou tendência no Instagram, onde meio mundo anda alagado. Mas a brincadeira não é exclusiva do mundo Apple. Quem quiser dar um brilho nas suas fotos via PC tem várias opções de applets, que, a bem dizer da verdade, já fazem isso há pelo menos vinte anos. Em bit.ly/n7Jsrn o reflexo é estático; em bit.ly/oKah1C, são criados gifs animados em que água se mexe.

Divirtam-se!


(O Globo, Economia, 5.8.2011)