23.12.04





Um Rio de tentações


"O Rio de Janeiro é o melhor lugar do mundo para quem quer viver com saudade do Rio de Janeiro". A frase, do inigualável Marcos Sá Corrêa, abre o prefácio de um dos mais lindos e nostálgicos livros da temporada, "Orla carioca", de Claudia Braga Gaspar -- tentação em que é praticamente impossível não cair nessa época do ano, em que décimo terceiro e livrarias abarrotadas de novidades conspiram contra a economia doméstica, o sofá por estofar e a infiltração do corredor -- que, ao contrário da pobre Capivara da Lagoa, passou por diversos bombeiros, mas permanece firme e irredutível, no mesmo lugar.

Até que, considerando-se o habitual apuro editorial da Metalivros, "Orla carioca", a R$ 88, nem chega a ser tão caro. O problema é quando à mesma cesta básica acrescentam-se os igualmente irresistíveis "O Rio de Janeiro na rota dos Mares do Sul", de Pedro da Cunha e Menezes (que foi capa aqui do Segundo Caderno ainda outro dia), "Rio de Janeiro 1900-1930, uma crônica fotográfica", de George Ermakoff, e "O Brasil do século XIX na Coleção Fadel", com texto de Alexei Bueno.

Confesso: tenho um fraco por livros bonitos, sobretudo aqueles que falam da minha terra e me mostram o que apenas imagino.

Ler "Orla carioca" e ver as figurinhas é de matar qualquer carioca de saudade, até (e sobretudo) do que nunca viu. As descrições falam de águas outrora cristalinas e cheias de peixes, de revoadas de pássaros brilhantes, de borboletas de todas as cores borboleteando aos milhares pelas matas; as ilustrações trazem o que se perdeu.

A imaginação atravessa os séculos, acompanhando a meticulosa documentação das transformações sofridas pelas nossas praias, ilhas, lagoas.

Paradoxalmente, o que mais me entristece numa leitura dessas não é o passado, mas sim o presente -- e, por tabela, o futuro. Por deslumbrante que tenha sido, o que passou, passou; não adianta chorar tanta beleza derramada, ainda que o nó na garganta insista em provar o contrário. Mas como podemos aceitar o que está acontecendo agora, diante dos nossos olhos? Como podemos assistir, impassíveis, à destruição da nossa cidade?!

É duro demais conviver com a falta de amor e de compreensão dos governadores acasalados, que até hoje não perceberam por que esta cidade (ainda) é maravilhosa. É igualmente duro notar -- e sentir na pele -- o desprezo absoluto com que o governo federal trata o Rio de Janeiro.

* * *


Mas chega de choro! Essas já são mágoas de rotina, agruras do cotidiano; agora é Natal, tempo de aproveitar a festa, o parcelamento suave no cartão de crédito e as promoções do comércio -- de preferência sem dor na consciência. Economizar é bom, mas gastar é ótimo.

Difícil mesmo, pelo menos no meu caso, vai ser arranjar tempo para curtir as ricas comprinhas; até porque, além dos livros de arte, que são uma festa para os olhos mas em geral se lêem rápido, caí também em tentações mais parrudas.

Neste exato momento, do alto da mesinha de cabeceira, vários títulos me contemplam. Noto um certo ar de censura nos livros, sobretudo nos que já estavam na fila -- mas como é que eu, que adoro trens e sou fascinada pela Ásia, poderia resistir ao "Grande bazar ferroviário", de Paul Theroux? Ou fazer de conta que não vi "A ilha no centro do mundo", de Russell Shorto, olhando para mim? O livro, diz o subtítulo, é "a história épica da Manhattan holandesa e da colônia esquecida que formou a América". Não é promissor? Já com "Equador", de Miguel Sousa Tavares, eu estava em falta: todos me dizem, há tempos, que é extraordinário.

Depois fui chamada por "Aventuras e descobertas de Darwin a bordo do Beagle", de Richard Keynes, e "A imagem do mundo, dos babilônios a Newton", de Arkan Simaan e Joëlle Fontaine. Finalmente, quando já ia saindo da loja, "A língua exilada", de Imre Kertész, piscou na minha direção. Se o título não me engana, esta língua é o húngaro, que aprendi antes do português; e que de fato vivia exilada na Rua Décio Vilares, onde cresci na Babel de idiomas de um lar centro-europeu.

"Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra", de Mia Couto, veio comigo porque me ganhou à primeira folheada. Agora, que já vou em meio à saga de uma família moçambicana que me lembra os Buendía, estou feliz: fiz uma ótima compra. Também fiz uma ótima compra quando, numa espécie de ponto final à gastança, peguei o "Auto-de-fé", de Elias Canetti. Este já li há anos, mas a nova edição é da Cosac & Naify, e se há uma coisa à qual não resisto é aos cosac&naifys.

Ainda há dois livros a respeito dos quais eu queria falar, dois livros a respeito dos quais, na verdade, passei o ano inteiro pensando em escrever: "Sal", de Mark Kurlansky, originalíssima história deste nobre elemento sobre o qual já se construíram impérios, hoje reduzido à ignomínia dos famigerados saquinhos de papel; e "Um balcão na capital, memórias do comércio na cidade do Rio de Janeiro", livro muito mais terno e encantador do que o título deixa entrever.

Mas aí me espichei na rede por um instante e, quando dei por mim, o ano já tinha passado.

Feliz Natal, amigos!

(O Globo, Segundo Caderno, 23.12.2004)

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