17.4.03



Nós não usamos black-tie

A colunista decide esquecer que há uma guerra lá fora, mas a vida light também tem seus problemas

Uma praga terrível abate-se sobre a noite carioca: as grandes festas estão sendo organizadas por paulistas. Antes que me entendam mal: não tenho nada contra paulistas, claro, nem contra festas. Também não tenho nada contra festas paulistas e até me lembro de uma ou duas, excelentes, em que me diverti muito. Em São Paulo.

No Rio, a combinação não funciona, ainda que as fotos fiquem maravilhosas na “Caras”. A diferença entre o que é divertido em São Paulo e o que é divertido no Rio mostra-se quase intransponível. Por exemplo, não há hipótese de um carioca achar interessante um programa marcado para as oito em que, às onze, ainda não tenha sido servida uma gota de álcool. Até eu, que não bebo, acho esquisito. Mas isso aconteceu, mais uma vez, no domingo passado, numa festa que — como costuma acontecer com as comemorações paulistas — me seduziu pela localização: a Escola Naval, na Ilha de Villegaignon.

Antes de me pôr a caminho, devia ter lembrado de outro comes & bebes que, no começo do ano, me ganhou com aceno semelhante. O convite falava apenas numa ilha, sem dizer qual. Ora, quem resiste a uma ilha misteriosa? Ninguém, é claro: e foi assim que, numa noite tormentosa, todos os dois mil convidados surpreenderam a organização ao comparecer pontualmente para o embarque, junto com outros tantos penetras, num lugar onde cabiam no máximo 500 pessoas. Passei uma hora terrivelmente aflitiva no cais, de onde fiz meia volta e tomei o rumo de casa; no caminho, parei numa pizzaria e fui feliz sozinha.

* * *

O principal problema das grandes farras paulistas no Rio é, justamente, a estratégia. A gente sai com a nítida impressão de que quem montou aquilo no papel nunca viu o cenário na vida real, tal o desconhecimento de causa. Uma festa numa ilha, como idéia, é tudo de bom — sobretudo se o nome da ilha for mantido em segredo até o último momento. Na prática, é um desastre, e qualquer organizador carioca sabe disso. Por isso, aliás, é que nunca se fazem grandes badalações nas ilhas.

A Ilha de Villegaignon, porém, não é bem uma ilha, já que se chega a ela de automóvel. Fica ali atrás do Santos Dumont, logo depois da cabeceira da pista, e deve ser um dos lugares mais deslumbrantes do Rio. Infelizmente, a festa foi dentro de uma tenda, de onde não se via nada. Exatamente igual a uma outra, ainda — esta realizada há coisa de dois anos, no Forte de Copacabana. Imaginem aquela locação deslumbrante... embrulhada para presente!

Esta do Forte foi, por sinal, uma celebração exótica. Black-tie. Vamos combinar: black-tie no Rio é o que há de triste! Ninguém tem roupa, o improviso é geral e, no fim, fica todo mundo tão mal vestido quanto qualquer excursão latino-americana ao inverno europeu, a lã toda da família e dos conhecidos passeando de ônibus na neve.

Mas tergiverso. Voltando às tendas: elas revelam o que parece ser uma das grandes diferenças entre nós e os paulistas. Eles não ligam a mínima para a vista — no que, aliás, fazem muito bem, considerando que moram em São Paulo. No entanto, não passaria pela cabeça de um carioca levar alguém aos pontos mais lindos da cidade e, depois, botar uma tenda entre este alguém e a vista. Se é para ficar do lado de dentro, vamos para o Golden Room, ora.

Comentei isso com uma amiga que havia chegado antes de mim e que, àquela altura, já havia bebido bem uns cinco copos d’água.

— Ah, você não está sabendo de nada! — disse ela. — Não foi pela vista que escolheram a Escola Naval; foi pela segurança.

Outra amiga, ali ao lado, completou:

— Sim, sim: acharam que as pessoas iam se sentir melhor protegidas pelos militares...

Não caímos na gargalhada porque estávamos com muita fome. A experiência da nossa geração com a “proteção militar” não chega a ser um passeio — coisa que os organizadores do Rio, cidade tradicionalmente do contra, sabem muito bem, às vezes até por experiência própria.

Qualquer que seja o motivo, porém, a Escola Naval não é a escolha feliz que parece ser. O trânsito até lá é afetado pelos vôos do Santos Dumont — e o atraso causado pela cancela que retinha os carros na cabeceira da pista teve conseqüências. O jantar seria antes, o show, depois. Por causa dos aviões, e para desespero geral, o show foi antes.

Acho que é por isso que nenhum dos meus amigos, nem mesmo os que cobrem a noite, foi à Escola Naval antes.

* * *

Devo dizer, contudo, que eu me diverti muito. Nunca saio de casa sem uma das minhas duas câmeras digitais —- e, nessa noite, havia um prato cheio para mim (além do da Pizzaria Guanabara, aonde fui parar com os amigos estressados com a Lei Seca). A entrada para a tenda era um túnel especialmente pensado para as tais fotos maravilhosas da revista “Caras”. Entre as luzes, as cores e as idiossincrasias da máquina, acabei fazendo a minha festa particular.

Rogo às empresas que têm algo a comemorar no Rio, contudo, que pensem carinhosamente em chamar gente da terra na hora de inventar novidade. Afinal, nem todo mundo anda com câmera digital por aí.

* * *

Enfim. Essas são trivialidades da noite de uma cidade sitiada, bobagens sem importância diante do que anda acontecendo dos portões da Escola Naval para lá. E, antes que o amigo paulista comece a escrever indignado para o jornal, aviso: para cá de Bagdá, nem isso chega a ser muito sério.

(O GLOBO, Segundo Caderno, 17.4.03)

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