9.4.11
7.4.11
Sobrou para os gatos
Costumo escrever a crônica entre segunda e terça. Na semana passada, às oito da noite da terça, eu ainda não havia conseguido uma única linha. Tinha começado e recomeçado, experimentado um assunto e outro, mas faltava liga a tudo. Grande problema! O Segundo Caderno de quinta-feira é fechado relativamente cedo na quarta. Como sou um animal noturno, ter essa manhã à disposição significa apenas que posso entrar pela madrugada à vontade, vale dizer uma terça espichada.
Andei pela casa, brinquei um pouco com o Toró (que, como todo filhote, está sempre disposto a correr atrás de umas bolinhas de papel) e me deitei no chão da sala, olhando para o teto – lugar de onde, curiosamente, sempre vem alguma inspiração.
Dessa vez, nada.
Fui à geladeira, pesquei um cachinho de uva, voltei para o escritório e, em absoluto desespero de causa, resolvi, pura e simplesmente, descrever o espaço onde me encontrava emocionalmente: o fundo do poço.
A crônica foi escrita de forma singela, mais ou menos como, na escola, escrevíamos as redações com tema dado pela professora, como “Minhas férias” ou “Um dia de sol”. Eu nunca poderia imaginar a sua repercussão, muito menos a quantidade de emails cheios de preocupação e carinho que recebi de leitores que, embora não conheça, são meus amigos.
Agradeço a todos de coração. Tenho esperança de, um dia, conseguir responder a cada um, pessoalmente -- mas confesso, desde já, que há um certo otimismo nessa esperança. Assim peço que, por favor, não imaginem que não dei valor às suas palavras se por acaso não receberem resposta; saibam que, ao contrário, elas foram da maior importância, e me deram alento num momento muito difícil da vida.
* * *
Entre tantos emails e mensagens no Twitter, no Facebook e no blog (só lá foram 170 comentários), fiquei espantada ao descobrir como tenho vizinhos e colegas de profundeza. Como constatou a Monca, quando os comentários do blog andavam mais ou menos pela metade:“Mon Dieu! Olhando daqui, o fundo do poço parece um continente superpovoado.”
Também fiquei com essa impressão; e, no fim da semana, depois de ler tantos emails aflitos e confessionais, acabei mesmo com a certeza de que ir ao fundo do poço é muito mais freqüente do que se imagina. Se não percebemos isso no dia a dia é que quem está no fundo do poço aprende a disfarçar.
A tristeza, ao contrário da depressão, é uma emoção relativamente simples de explicar e de entender. É o avesso da alegria, e em geral suas causas são compreensíveis por todos, por triviais que sejam. Tristeza se cura com uma noite bem dormida, com um ombro amigo, com meia dúzia de chopes, com uma ida ao shopping.
O fundo do poço, porém, é mais complicado. Quem está lá (aqui) embaixo enfrenta alguns preconceitos, a começar por uma auto cobrança cruel, em que a gente se culpa de não estar “reagindo”, como tanto recomendam os amigos.
É preciso parar tudo para por os pingos nos ii: alguém pode “reagir” contra uma perna quebrada? Não, claro que não. Pode-se tratar da perna quebrada – mas é mais fácil cuidar de uma perna quebrada que está bem à vista de todos do que da descida ao fundo de um poço que ninguém vê.
* * *
Do outro lado da caixa postal, aquele que não foi ao fundo do poço, as coisas também não andam nada boas. Acompanho a luta constante dos protetores e das ONGs de defesa animal para educar a população nas suas relações com os bichos. É uma dura batalha contra a maldade, o preconceito e a idéia de que bichos são objetos que podem ser abandonados de qualquer jeito, em qualquer lugar.Pois na segunda, essa luta tão digna sofreu um grave revés. Numa cena da novela “Insensato coração”, a personagem da Camila Pitanga vê um gatinho lindo em cima do capô do carro e pede à amiga que o pegue, porque ela está grávida:
-- Eu não posso pegar não, pega para mim, Claudinha?
-- Você não adora gato?
-- Eu adoro, mas não posso. Não posso nem chegar perto. A Sônia disse, eu corro risco de pegar toxoplasmose, é perigoso.
A cena está no You Tube, onde a vi, na terça, depois de receber uma enxurrada de emails indignados – e com toda a razão. Se pegar em gatos durante a gravidez fosse perigoso, todas as veterinárias grávidas estariam correndo risco. Felizmente, elas são bem informadas e sabem que só se pega toxoplasmose dos gatos ingerindo as suas fezes; e, para tornar o processo ainda mais complicado, desde que eles, gatos, estejam contaminados com a doença.
O diabo é que uma cena desinformada dessas, em pleno horário nobre, joga por terra anos de trabalho educativo. Não gosto nem de pensar na quantidade de gatos que serão abandonados – ou deixarão de ser adotados -- porque alguém ouviu na novela que as grávidas não podem sequer se aproximar deles!
Só para esclarecer: no Brasil, a principal causa de toxoplasmose é a ingestão de hortaliças mal lavadas e de carne crua ou mal passada. Às grávidas recomenda-se -- como, aliás, a todo mundo – lavar bem as mãos depois de limpar a caixa de areia dos gatos. E isso por noções básicas de higiene, e não por medo de toxoplasmose, que não dá em gato doméstico que come ração.
Para quem quiser maiores informações sobre a conexão entre gatos e toxoplasmose: http://bit.ly/eNUFcD. Este link leva, entre
outros posts, a uma crônica que publiquei aqui mesmo em setembro de 2003.
Faz tempo que a gente bate nessa tecla.
(O Globo, Segundo Caderno, 7.4.2011)
5.4.11
E, com vocês, Bob Hope e James Cagney
Bob Hope dançando tudo bem -- mas James Cagney? Alguém imaginaria? A cena é do filme The Seven Little Foys, de 1955.
4.4.11
Resultados óbvios de uma pesquisa inútil
O CES, Consumer Electronics Show – também chamado no Brasil de a CES, por causa da tradução implícita de “show” por feira – é o maior espetáculo da terra para quem curte eletro-eletrônicos, gadgets, computadores e tendências com tomada ou bateria de modo geral. Realiza-se na primeira semana de janeiro em Las Vegas e, em termos de timing, é quase tão inconveniente quanto a posse de políticos marcada para o primeiro dia do ano. Tal qual a posse dos políticos, pode-se dar a esse luxo porque, para o povo da área, é imperdível; de modo que, entra ano sai ano, milhares de geeks deixam o conforto do lar para enfrentar os aeroportos em seu pior momento e tomar o rumo do Velho Oeste. Sou uma das pessoas que vem fazendo isso há anos; 2011 não foi exceção.
Este ano, os grandes assuntos da feira, que determina o que será consumido num futuro imediato ou muito próximo, foram os onipresentes tablets e os aparelhos 3D, de câmeras fotográficas e smartphones a telas gigantescas. Os tablets, ninguém duvida, vieram para ficar. Mas em relação ao 3D há divergências. Não é à toa que a tecnologia, que já vem desde os anos 50, volta e meia dá sinais de vida – para logo submergir novamente.
Agora, uma pesquisa realizada pelo Vision Critical ao longo do último mes e divulgada ontem, revela que a maioria dos americanos, ingleses e canadenses não tem intenção de comprar um aparelho de TV 3D tão cedo. Americanos e ingleses descrentes estão em 81% e 84%, respectivamente; os canadenses, mais taxativos, entram na casa dos 95%, chegando aos 98% em alguns estados.
Alguma surpresa? Pessoalmente, acho que esta pesquisa, como tantas que se fazem por aí, apenas chove no molhado. Assistir TV em 3D é uma experiência esdrúxula e desconfortável, sobretudo para quem já usa óculos; e, sobretudo, inútil, porque a maioria do conteúdo apresentado não precisa da terceira dimensão. Somos perfeitamente capazes de imaginar os planos e perspectivas de uma cena sem auxílio artificial. Mesmo no cinema, passada a novidade de “Avatar”, o 3D é uma gracinha perfeitamente dispensável. Amigos que assistiram à pré-estréia de “Rio” estão loucos para ver o filme de novo – em 2D!
A única área em que vejo o 3D tendo algum sucesso é nos games, onde a sensação de imersão no universo do jogo pode ser de fato ampliada nas três dimensões. Smartphones e pequenos gadgets que, naturalmente, precisam ser vistos de frente, e normalmente o são por uma só pessoa, também podem dar certo.
A TV doméstica em 3D, porém, tem um longo caminho a percorrer para conquistar o público, se é que conseguirá fazê-lo. O mundo inteiro acaba de passar por uma mudança radical de tecnologia – todos nos lembramos de quando compramos o nosso primeiro plasma ou LCD (e muitos ainda sequer o fizeram); as telas planas conservam, portanto, a mística de maravilha tecnológica com que, no outro dia mesmo, chegaram ao mercado. Vai ser difícil convencer o consumidor, que acabou de trocar de TV, que o seu lindo aparelho de 46 polegadas já está obsoleto...
* * *
Descoberta muito interessante do leitor Carlos Lauria. Vejam só:“Recebi na minha conta do Gmail duas mensagens vindas de uma pessoa que não conheço. Fui checar os destinatários das mensagens e vi que havia um endereço lauri.a.carlos. Estranhei o fato de vir para mim, pois o meu endereço é lauria.carlos. Ativei os detalhes da mensagem e, ao lado do endereço que a pessoa colocou, havia uma nota do Gmail: "Sim, esse é você. Clique e saiba mais". Resumindo: graças ao erro daquela pessoa, descobri que você pode colocar e retirar pontos à vontade de um endereço do Gmail que ele não está nem aí. Ele sempre desconsidera os pontos. Então eu posso escrever meu endereço como lauria.carlos ou lauriacarlos ou lauri.a.carlos (como fez a outra pessoa) e a mensagem sempre chegará para mim. Posso colocar até l.a.u.r.i.a.c.a.r.l.o.s que vai chegar.”
(O Globo, Economia, 2.4.2011)
1.4.11
Tim Rescala escreve sobre a OSB
"Imaginemos a seguinte circunstância: o técnico Dunga, diante de problemas de baixo rendimento de alguns jogadores da seleção brasileira, na véspera da estreia da seleção na Copa do Mundo da Africa, manda todos os jogadores convocados, titulares e reservas, para o chuveiro, ou melhor, de volta ao Brasil. Tendo apoio irrestrito da CBF, ele escala então o time de juniores, prometendo contratar, tão logo quanto possível, os melhores craques da Europa para formar uma seleção dos sonhos e ganhar a copa.
Imaginemos outra situação: a presidente Dilma Roussef, logo após tomar posse e anunciar seu ministério, após identificar que dois ou três ministros estão agindo em desacordo com seu plano de governo, demite todo o seu ministério. Mas, como ela conta com o apoio total de sua base, nomeia, como novos ministros, jovens vereadores de seu partido, prometendo, porém, substituí-los o mais rápido possível, por políticos estrangeiros experientes, encantados com a possibilidade de viver num país tropical.
Ou ainda: o diretor de uma novela de TV, dois dias antes de sua estreia, insatisfeito com três atores que não decoram seus textos , muda todo o elenco da novela. Com total apoio dos donos da emissora, forma um novo elenco com alunos de cursos de teatro, prometendo, porém, contratar os melhores atores de Hollywood, tão logo seja possível, reconquistando a audiência perdida.
Essas são três situações hipotéticas, é claro. Isso não aconteceria, nem numa república de bananas, quanto mais num país, potência em potencial, recém visitado pelo homem mais poderoso do mundo. Sem chances. Isso só acontece em filmes, mesmo assim classe B, com roteiro um tanto inverossível.
Mas, como já disse Garcia Marquez, na América Latina a realidade suplanta a ficção. Eis que na Orquestra Sinfônica Brasileira aconteceu coisa muito próxima dessas situações hipotéticas. O maestro implodiu a orquestra.
E como ficamos todos nós, que, de alguma forma, temos algo a ver com música ( e com cidadania, respeito, democracia…)? Estupefatos, de boca aberta, sem acreditar naquilo que soaria implausível num país sério, como teria dito De Gaulle, outrora o homem mais poderoso da França. Porém, como estamos num país onde as punições para ilícitos mais do que comprovados ficam adiadas para o ano seguinte, nada mais nos supreende e nos toca.
Aliás, não sabemos mesmo quem vai tocar no lugar dos músicos que foram tocados pra fora da OSB. Talvez, assim como acontece os partidos, se crie uma OS do B - Orquestra Sinfônica do Brasil, pois a Orquestra Sinfônica Brasileira propriamente dita parece já não existir mais. Não se sabe. O que se sabe, pelo que se vê, é que o presidente americano não é o único homem mais poderoso do mundo.
Há outros."
Amigos queridos
Não tenho palavras para agradecer o carinho, a força, as palavras de estímulo. Faz muito bem ao coração o afeto de tantos amigos, conhecidos ou não; graças a vocês, o dia foi suave e bom.
Infelizmente as paredes do meu poço são muito concretas: há dois meses o Millôr está internado, e em nenhum momento desses 60 dias recobrou a consciência.
A angústia de saber que ele está lá mas não está, ou não está por completo, traz reflexões particularmente dolorosas.
É a vida, com certeza -- mas de mãos dadas com o seu avesso.
Infelizmente as paredes do meu poço são muito concretas: há dois meses o Millôr está internado, e em nenhum momento desses 60 dias recobrou a consciência.
A angústia de saber que ele está lá mas não está, ou não está por completo, traz reflexões particularmente dolorosas.
É a vida, com certeza -- mas de mãos dadas com o seu avesso.
31.3.11
No fundo do poço
O fundo do poço é igual à boca do poço, só que é diferente. No fundo do poço tudo parece continuar na mesma. Os dias se sucedem, os problemas e os livros na mesinha de cabeceira se acumulam, as contas chegam, o elevador para para manutenção, chove e faz sol como a meteorologia é servida. A aparência de normalidade é tão angustiante que dá vontade de gritar. Para quem está no fundo do poço, “normalidade” é um estado que não existe.
Problemas e contratempos que, na superfície, têm enorme significado, passam a acontecer num universo paralelo, sem substância. No fundo do poço nada tem importância além do que realmente importa: a pedra no peito, o medo de pensar, o pavor do silêncio, a ausência de sinais de vida verdadeira.
* * *
O ar é pesado no fundo do poço, mais ou menos como a água que, em mergulhos profundos, é tão pesada que achata as bolhas de ar. Quem já esteve no mar sabe como é. É por isso que, no fundo do poço, às vezes até respirar dói.* * *
O mundo e as pessoas são diferentes vistos do fundo do poço; os gestos – ou a ausência deles – ganham dimensões às vezes amplificadas, às vezes distorcidas, como imagens vistas à distância num deserto escaldante. Por outro lado, se há uma vantagem no fundo do poço, é a nitidez com que se percebem os sentimentos, nossos e dos outros.Amigos próximos que não dão sinal de vida talvez não sejam tão amigos ou tão próximos; conhecidos distantes, às vezes até geograficamente, revelam-se surpreendentemente próximos. No fundo do poço, qualquer carinho reverbera nas paredes e, como um eco, é por elas amplificado; um abraço mais apertado, um olhar que diz “Estou aqui”, um email. O silêncio, inversamente, escorre poço abaixo, como uma gosma gelada, criando dúvidas e distâncias onde, em circunstâncias normais, nada existiria. Mas, eu não sei se já disse, no fundo do poço não há circunstâncias normais.
* * *
A vida não para no fundo do poço, mas se torna bastante difícil. Acordar é uma decisão penosa, e muitas vezes inútil: acorda-se na cama para pouco depois se adormecer no sofá. Nos dias bons dorme-se o tempo todo no fundo do poço, um sono pesado e sem sonhos. Nos dias ruins quase não se dorme, porque basta fechar os olhos para que os sonhos se transformem em pesadelos. Os dias bons, felizmente, são maioria.* * *
No fundo do poço o cérebro é, na melhor das hipóteses, um orgão inútil. Não serve para nada. É incapaz de se lembrar de um nome, de um número ou de tarefas a cumprir. Não consegue se concentrar o suficiente para a leitura de um livro, ou para que um filme faça sentido: no fundo do poço, um filme é apenas uma sucessão de imagens desconexas e desinteressantes, incapazes de segurar o olhar.Reduzido ao seu nível mais primário de funcionamento, o cérebro serve apenas para executar tarefas simples, como jogar Angry Birds ou subir fotos para o Instagram.
Mas não me entendam mal: um cérebro imprestável desses é uma benção, porque nos dias em que funciona como deveria, o cérebro é a mais eficiente máquina de lembranças e pensamentos torturantes.
* * *
Nada vale a pena no fundo do poço: sair de casa, andar pela cidade, ir ao shopping, criar ikebanas, montar quebra-cabeças. Dizem que exercício ajuda, mas para fazer exercício é preciso chegar à academia, e para chegar à academia é preciso sair de casa – sair de casa sendo, talvez, uma das coisas mais difíceis de se executar no fundo do poço. Até encontrar os amigos é complicado, porque as conversas se tornam tão difíceis de acompanhar quanto a atmosfera feliz que costuma reger tais encontros.Viajar quebra um pouco essa rotina asfixiante, mas na verdade não resolve nada, apenas leva o fundo do poço para outra paisagem.
* * *
Os gatos sabem o que é o fundo do poço e evitam perder seu bípede de vista. Fazem turnos de colo e de demonstrações de afeto e, à noite, esquecem suas eventuais divergências para dormir todos juntos na cama, formando uma pequena barreira de bigodes contra os maus espíritos.* * *
O fundo do poço tem poder. Quanto mais tempo se passa no fundo do poço, mais tempo se passa no fundo do poço. Lutar contra o fundo do poço é praticamente impossível. Pode-se fugir dele por pequenos intervalos de tempo, com simulacros mínimos de normalidade: acender bastõezinhos de incenso, fazer as unhas, passar hidratante, cortar o cabelo, usar perfume. Não adianta nada, mas despista.* * *
Só se pode ver o fundo do poço com a ajuda da indústria farmacêutica. A seco, o fundo do poço aperta o coração, corta a respiração e vira um buraco negro de dimensões e conseqüências inimagináveis. Um tarja preta bem receitado permite, porém, que se veja o fundo do poço como ele é – como se nos víssemos a nós mesmos de um outro plano, uma outra dimensão. O fundo do poço não desaparece, mas torna-se compreensível, uma esfinge enfim decifrada.* * *
Não se consegue chorar no fundo do poço.(O Globo, Segundo Caderno, 31.3.2011)
27.3.11
Nova conversa sobre velhos vícios
Uma das queixas de quem já se viciou no Instagram (vale dizer praticamente todo mundo que já subiu uma foto para o site) é que é impossível acompanhar as fotos de um PC. Não mais. Graças ao denodado engenheiro de software Rakshith Krishnappa, um indiano de Bangalore que trabalha na Intel mas nas horas vagas desenvolve brinquedinhos para facilitar a vida das pessoas, está no ar o Gramfeed (www.gramfeed.com), onde se podem não só ver as fotos postadas como também curtir e escrever comentários, tarefa muito mais simples num teclado de verdade do que no tecladinho do iPhone. Muito prático!
A única coisa que o programa não permite fazer, por enquanto, é subir fotos através do computador, porque a Instagram não liberou a API para isso. Acho que agiu bem. A graça do Instagram é a mobilidade e o uso do celular. Se tudo puder ser feito a partir dos computadores, ele vai se tornar apenas mais uma comunidade fotográfica, e perder aquele plus a menos, digamos assim, que o torna tão especial.
* * *
Março chegou, março quase passou, e nada da versão Android do Instagram prometida para esse mês. Já era tempo: a brincadeira fica meio sem graça restrita apenas a usuários de iPhone. Há todo um mundo de smartphones Android espalhados por aí cujos donos têm, com certeza, muito a mostrar.* * *
O Android Market brasileiro está na fila de espera também para o novo Angry Birds Rio; e é outra frustração ver que a recém-lançada Appstore da Amazon não vale ainda para o Brasil. Lá o joguinho está em primeiro lugar entre os aplicativos gratuitos. É que a Amazon appstore estreou oferecendo de graça a versão paga do game, e pretende ter sempre um presente do tipo para os usuários.O jogo, que ocupa o primeiro lugar também na lista da Appstore da Apple, está caprichado, com trilha sonora em ritmo de samba e efeitos especiais cinematográficos na marcação dos pontos. Tem 60 níveis em dois cenários, o barracão dos contrabandistas de animais silvestres e a fuga pela floresta. No barracão dos contrabandistas, os passarinhos têm que derrubar as gaiolas onde estão presos outros pássaros; na floresta, devem dar cabo de micos, que tomaram o lugar dos porcos como inimigos número um das penosas.
O primeiro cenário é facílimo e chega a desapontar um pouco pela falta de maiores dificuldades estratégicas; no segundo, as coisas ficam mais complicadas e, consequentemente, mais divertidas. Detalhe importante: há espaços reservados na abertura do jogo para updates com novos cenários em maio, julho, outubro e novembro. Detalhe sem importância, mas muito engraçadinho: no barracão dos contrabandistas, há um passarinho que pia em português: “Aquiiiii!”.
* * *
Aliás e a propósito: sobre a queda-de-braço entre o Ministério da Justiça e a Apple em relação aos jogos, meu amigo Tom Taborda faz uma observação muito pertinente em relação à postura das nossas autoridades:“Típica inversão de valores brasileira: rigor com joguinhos e absoluto descaso com Normas Técnicas nacionais. Se a Apple pretende vender seus produtos aqui, deveria ser obrigada a respeitar nosso teclado ABNT2.
Na Apple Store de Portugal é possível comprar o teclado Bluetooth não apenas no padrão português, mas também nas seguintes configurações regionais: Belga, Italiano, Inglês (US), Francês, Alemão, Suíço, Sueco, Russo, Inglês (UK), Dinamarquês, Holandês, Norueguês e Espanhol...
Sem falar que lá esse teclado custa 71,00 € (~R$ 168 ) e aqui, com a opção única do padrão americano, sai a R$ 230.”
Pois é.
(O Globo, Economia, 26.3.2011)
25.3.11
24.3.11
E la nave va
A FOSB, fundação que administra a Orquestra Sinfônica Brasileira, conseguiu, enfim, o que queria: tornar a OSB uma orquestra conhecida internacionalmente. Ao longo das últimas semanas, desde que foi anunciada a avaliação de desempenho individual num período crítico, quando os músicos voltavam de férias, ela virou assunto em todas as rodas musicais, e emails chegam de todas as partes para os administradores e para o maestro Roberto Minczuk. Do que tomei conhecimento -- do Conselho Executivo da Organização Canadense dos Músicos de Orquestra Sinfônica, que representa nada menos de 1.100 profissionais, ao Sindicato dos Músicos e Bailarinos da Hungria, passando pelos Sindicatos dos Músicos de Israel, da Noruega e da Bulgaria – a maioria manifesta repúdio à atitude da FOSB e solidariedade aos músicos da OSB. Sobrou até para mim, de uma forma inusitada.
No começo da semana, recebi o email de um amigo de longa data do Flickr, uma comunidade de fotografia. Este amigo atende por Ranabass, e nunca o conheci por outro nome – até a chegada dessa correspondência. Ele me pediu que defendesse os seus colegas da OSB, naturalmente sem saber que eu já o tinha feito. Estava horrorizado com o que soubera através de malas diretas da International Conference of Symphony and Opera Musicians e da FIM (Federação Internacional de Músicos). Meu amigo Ranabass, vim a saber, chama-se George E. Dimitri, e é contrabaixista da Orquestra Sinfônica de Fort Worth, Texas.
Este, como eu disse, foi um email inusitado, pela procedência; mas recebi muitos outros daqui mesmo. Destaco dois, pelo conhecimento e pela importância indiscutíveis dos remententes.
“Como cantora e, de acordo com a informação do livro da OSB (pag. 168), a que mais atuou com esta orquestra, não poderia deixar de manifestar o meu aplauso a esta coluna que hoje disse o que muitos pensam e não têm coragem de expor”, escreveu Ruth Staerke, a quem já aplaudi tantas e tantas vezes. Pouco depois, entrou na caixa postal o email de Nelson Portella, outro dos meus ídolos líricos:
“Seu artigo de hoje é absolutamente definitivo a respeito da OSB. Na minha carreira de tantos anos, vivi constantemente nos maiores teatros de ópera do mundo, sobretudo na Europa, e tive o privilégio não só de trabalhar sob a batuta de grandes diretores, como também de vê-los trabalhar. Parabéns!!! Nós, músicos que lutamos pela seriedade e honestidade sem as quais não se pode fazer boa música, precisamos demais de artigos como esse.”
* * *
Enquanto isso, na Urca, ainda na sexta-feira passada, o colegiado de professores do Instituto Villa-Lobos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Unirio, produzia um documento a respeito do caso. Transcrevo na íntegra, pelos sérios problemas apontados:“Os professores do Instituto Villa-Lobos da Unirio, por meio deste documento, querem expressar sua preocupação com os critérios que vêm determinando as relações entre a direção artística e os jovens músicos que compõem a OSBJ (Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem).
Os alunos têm sido levados a atuar em lugar da orquestra profissional, expondo-se sem preparo adequado a situações que poderão acarretar efeitos negativos no seu desenvolvimento. A truculência com que são tratados os instrumentistas da OSBJ; as lições de antiética implícitas na obrigatoriedade de substituir músicos profissionais, alguns dos quais seus professores; os critérios pedagógicos utilizados na solução de problemas que não deveriam ser da alçada de uma orquestra jovem, utilizada como substituta da orquestra principal; a pressão exercida pela direção da OSBJ através da manipulação de bolsas de estudos, para assegurar a presença e a obediência dos jovens são, a nosso ver, atitudes inaceitáveis por parte de quem trabalha com formação profissional. Preconizado como “Projeto Pedagógico da OSB” por seu diretor artístico em diversas manifestações na mídia, este conjunto de ações soa ridiculamente cômico, não fosse maléfico. Os professores do Instituto Villa-Lobos da Unirio se posicionam frontalmente contra este estado de coisas e pedem aos responsáveis que voltem à razão e ao bom senso, deixando que as desavenças com os músicos profissionais sejam resolvidas em seu âmbito, sem envolver os alunos que já estarão, nesta altura dos acontecimentos, suficientemente marcados por decisões autocráticas desequilibradas e indefensáveis, sobretudo quando afetam jovens que procuram – dentro de um mundo que privilegia e incentiva não o SER mas o TER – o caminho correto para a realização dos seus sonhos.”
* * *
Recebi também um telefonema muito cordial de Eleazar de Carvalho, presidente da FOSB. Ele me explicou que as avaliações não seriam realizadas para efeitos de demissão, coisa que os músicos não entenderam, e reconhece que houve um problema de comunicação na raiz da crise. O fato é que os músicos que faltaram às avaliações – entre eles alguns dos mais conceituados instrumentistas brasileiros -- estavam em vias de demissão, “não por motivos artísticos, mas por insubordinação”. De forma que, por paus ou por pedras, a FOSB parece ter chegado ao ponto que levou à revolta inicial dos instrumentistas: demissão em massa. Uma nova mesa redonda estava marcada para ontem, quarta, mas como escrevo na terça, não sei o que ficou acertado. Eleazar de Carvalho me disse que tanto as avaliações quanto as demissões têm o respaldo da lei. Não duvido disso. O problema é que nem sempre o que é legal é justo ou correto.23.3.11
Adivinha quem veio para jantar (e almoçar e tomar café e...)
A Bia e o Sérgio viajaram e deixaram os Tatuís aqui em casa. Está sendo uma farra! Eles até já se acostumaram ao fato da vó estar sempre de camera em punho. Os gatos estão lidando bem com a situação: Tutu some, Toró e Lolinha mantêm prudente distância, e Lucas, Matilda e Tiziu se deixam agarrar sem problemas.
20.3.11
Emergência felina!
Pessoas, a Marcia está com dez (!) emergências felinas e, de quebra, um monte de complicações em casa. Vamos adotar ou descobrir amigos que estejam querendo adotar gatinhos? O contato é mreltz@terra.com.br, e os bichinhos só serão doados a pessoas que pratiquem a posse responsável, ou seja, que tenham telas de segurança nas janelas e varanda, dêem cuidados veterinários e muito amor aos bichinhos... Ela conta a história de todos eles (alguns na colagem que fiz, acima):
"1. Irmãos Palitinhos: Os Palitinhos foram deixados na minha porta, dentro de uma caixa. Muito magrinhos, pele e osso. A primeira refeição eles tremiam, rosnavam, estavam desesperados. Hoje estão lindos e fofos. A Olivia Palito foi muito bem adotada. Agora é a vez do Palitinho Amarelo, ele é muito carinhoso, meigo, se joga no chão de barriga prá cima pedindo carinho; e o Palitinho Cinza: ainda um pouco assustado, mas esperto,curioso e gosta de brincar . Esta dupla é linda, deve ter aproximadamente uns 5 meses.
2. Natasha e Ninotchka: Estas lindas gatinhas são filhas daSofia , que vivia na rua e teve os filhotes no telhado de um lava a jato, em Niteroi. Três irmãos já foram adotados, assim como a mãezinha Sofia também foi adotada, pelo mesmo casal que adotou a cachorrinha atropelada resgatada na minha rua. A Natasha e a Ninotchka ficaram muito traumatizadas com o resgate, pois foram as últimas a ser resgatadas, e foram maltratadas, além de nunca terem tido contato com humanos (só com "cerumanos"). Elas estão na casa de uma amiga, um anjo que caiu do céu, que pacientemente foi "adocicando" as meninas, dando carinho , amor e segurança. Agora elas estão uns doces. Estão em Copacabana.
3. Frajolinhas - vítimas de maus tratos por parte de um policial psicopata: gata mãe (Meg) e 2 filhotes, de cerca de 4 meses, a Milla e o Alfie.
Recebi um email no dia de Natal da esposa de um policial, pedindo ajuda, uma vez que ele havia ameaçado envenenar os animais. Eles são:
- A pequena "Milla": Ela sofreu 2 traumas: caiu de um sotão e foi pisoteada pelo policial. Sofreu lesão na coluna, mas a "proteção divina" impediu que ela ficasse paralítica.Ela tem uma vida normal, anda, corre, brinca com o Alfie e, com uma pequena dificuldade, tenta subir em lugares mais altos. O trauma maior é psicológico, pois, quando ela se assusta ou sente muita necessidade, acaba fazendo cocô e xixi no chão. Como não tenho espaço, acabo mantendo a Milla a maior parte do tempo dentro do banheiro ou trancada na caixa de transporte. Ela chora porque quer sair para brincar, e, infelizmente, não posso dar a atenção e o espaço que ela precisa. Precisamos de um lar urgente para esta doce menina. Iniciamos um tratamento de acupuntura na pequena "Milla", e estamos confiantes no resultado.
- Alfie: Um moleque que gosta de fazer travessuras, brincar . E muito fofo.
- Meg (mãe da Milla e do Alfie) : Ela foi "largada" aqui em casa e estava com "prolapso retal", ou seja, parte do intestino para fora do ânus. Muito assustada e traumatizada. Levei ao veterinário, que fez a cirurgia e hoje está bem. Ela é uma doce gata, gosta de receber carinho, mas é muito triste. Deve ter sofrido muito nas mãos desse policial. Descobrimos já no final da gestação que ela estava prenha. Foi feita uma cesariana, pois ela não podia parir naturalmente, por causa do prolapso retal, mas os bebês morreram pouco depois de nascidos. Nesta cirurgia ela já foi castrada.
4. Nina (mãe) e Xica (filha): as duas estão castradas e vacinadas. A Xica tem 6 meses. A Nina foi resgatada na minha rua. Em janeiro/2010 ela teve uma ninhada, e um homem roubou todos os filhotes, com 1 semana de vida. Uma senhora ficou cuidando da Nina, na rua, e ela ficou prenha novamente. Então eu tirei ela da rua. A Nina é uma gata muito especial, não dá trabalho, é muito falante, adora conversar. E obediente, calma, mas tem dificuldade para aceitar outros gatos. Com jeitinho e paciência até se consegue uma aproximação. Seria muito bom se ela fosse adotada junto com sua filhota Xica . A Xica também é muito fofa, gosta de ver TV, de brincar.
5 - Marley: O gatinho tigradinho, de branco e cinza, de aproximadamente 4 meses.Acredito se tratar de mais uma vítima das pessoas que estavam com o Frajolinhas (o policial do mal) .Resumindo : apareceu na minha casa um menino com um gatinho todo enfaixado numa caixa de papelão . Ele contou mil histórias, se contradizia muito . Eu disse que não poderia ficar com o gatinho e ao ir embora, o menino largou a caixa na esquina e saiu correndo. Corri até a esquina porque o gatinho saiu da caixa e se escondeu debaixo de um carro. Acabei resgatando. Ele estava com muita fome, sede e dor. Levei para o ortopedista , que já fez a cirurgia (fratura de úmero).
O Marley está bem, corre, brinca, faz muito "romrom", gosta de colo, usa a caixinha de areia. Ele manca um pouquinho, mas não impede de ser um "moleque". Aproveitamos a cirurgia ortopédica e já foi castrado. Agora é só encontrar uma família amorosa para este lindo menino."
19.3.11
A Apple e os games
“Prezada Senhora Cora, sou leitora assidua de sua coluna no O Globo, e muito aprecio-a”, escreveu a leitora Ana C. “Entretanto, gostaria de entender, como a senhora comenta sobre downloads de games para o iPhone, se a loja da iTunes Brasil, não possui sequer o Angry Birds... ou seja, nós, brasileiros, para comprarmos qualquer desses joguinhos teriamos que ter endereço, por exemplo, na Argentina, conforme verifiquei em várias dicas de usuários do aparelho Apple. Assim, agradeceria muitíssimo se a senhora conhecer outro caminho para baixar as divertidas versões dos pássaros zangados, e pudesse compartilha-lo. Ou, se assim não for, seria bom que a senhora informasse em seus comentários, que tais jogos não estão disponíveis para quem não tem endereço fora do pais.”
A leitora Ana C. – que não passaria pelo crivo da seção de cartas do jornal, onde deveria dar nome completo, telefone e endereço – tem razão. iPhones, iPods e iPads ligados à Appstore Brasil são seres mutilados, incapazes de baixar joguinhos (e músicas, e filmes, e episódios de seriados de televisão – mas este já é um handicap que dividem com inúmeros outros países).
Na raiz do problema está um impasse burocrático que ninguém sabe quando será resolvido – se é que o será algum dia. É que a Apple e o Ministério da Justiça brasileiro têm classificações diferentes para games, e não conseguem chegar a um acordo em relação a isso. O Ministério exige que cada um deles seja analisado previamente antes de permitir a sua circulação no país; mas a quantidade de joguinhos que entra no mercado a cada dia faz com que a Apple considere a exigência impossível de ser cumprida.
Durante algum tempo se falou num compromisso entre Ministério e Apple, pelo qual o primeiro abriria mão da análise individual de cada jogo se a segunda adaptasse o seu sistema de classificação aos padrões locais, mas mesmo este compromisso, aparentemente razoável, deu em nada. Consta que a Apple se manteve intransigente na manutenção do sistema de classificação americano.
Acho que com isso perde a Apple, que está deixando de faturar um dinheiro sério via Appstore Brasil, mas perdem, sobretudo, os usuários brasileiros, que ficam à margem de uma das principais vertentes da cultura digital.
Como a Apple não é de perder dinheiro onde poderia estar ganhando, a conta pode ser debitada ao excesso de burocracia e de impostos que pauta a vida brasileira: até onde se sabe, a empresa de Steve Jobs preferiu jogar a toalha a arrecadar uma considerável fortuna. A Apple é acusada de ter sido intransigente e pouco simpática nas negociações, mas o fato é que até os argentinos podem baixar joguinhos nos iPhones e iPads, ao passo que nós ficamos de fora da brincadeira..
O usuário de produto Apple brasileiro que queira andar dentro dos preceitos da lei (e da manutenção da garantia do seu produto) é vítima de uma teia de complicadores: de um lado a espécie de reserva de mercado cultural que impede o download de games e de músicas e filmes, e, do outro, a prisão ao iTunes, única e espantosamente mal resolvida forma de transferir conteúdo entre os gadgets e o computador. Quando se pode complicar a vida do freguês, para que simplificá-la, não é mesmo?
Mas, voltando ao começo: a leitora Ana C. pergunta se eu conheço “outro caminho para baixar as divertidas versões dos pássaros zangados”, e se posso compartilhá-lo. Como em geral escrevo sobre os games sem fazer referência à plataforma, a resposta é um duplo sim: conheço outro caminho e é claro que posso compartilhá-lo.
Basta usar aparelhos baseados em Android, como o Samsung Tab ou os incontáveis smartphones com o sistema da Google. O Market, equivalente da Appstore, conseguiu chegar a um acordo satisfatório com o MJ, e lá se encontram todas as versões do Angry Birds, para não falar em centenas de outros jogos, como os irresistíveis Fruit Ninja e Ant Smasher, ou os viciantes Bejeweled e Jewellust.
Há versões lite gratuitas de muitos deles (Angry Birds inclusive) e os preços das versões completas são modestos, tipicamente entre R$ 2 e R$ 5.
17.3.11
Sem final feliz
De repente, uma onda gigantesca sai do mar e acaba com tudo, alegrias e preocupações, felicidade e desespero, lucro e prejuízo, amor e ódio. Onde havia a engenhosa obra humana que é uma cidade em pleno funcionamento já não há nada, a não ser lama e escombros. A vida que sobrou precisa continuar; mas como se continua depois de ver o mundo acabar em dez minutos? Qual é a escala de valores que se aplica? O que passa a ser prioritário? A idéia de que a vida se reduz ao mínimo denominador comum, às necessidades mais imediatas, é suposição de quem vê a catástrofe de longe. Lá, em meio ao caos, é possível que nada tenha tanto valor quanto uma foto, uma carta, um recorte de jornal, provas materiais do que existiu um dia. Ou não. Haverá talvez quem incorpore a nova realidade e passe a imaginar que o que havia antes não passava de uma alucinação coletiva, um sonho ao contrário.
Ainda assim, a civilização e a educação, duas irmãs que fazem diferença, escaparam ilesas da tsunami. Não se verificaram roubos, saques ou ataques de histeria destinados às câmeras de TV. Foi um assombro para quem assistiu a tudo do outro lado do mundo e, com certeza, é um consolo para quem está lá, e não precisa acrescentar à já longa lista de vicissitudes o medo do seu semelhante. O Japão provou que o ser humano não precisa ser necessariamente violento, boçal e amoral. Resta saber quantos séculos mais nós precisaremos para alcançar este estágio.
* * *
A crise da OSB é um retrato fiel de como é tratada a cultura no Brasil: de cima para baixo, sem diálogo ou transparência. Como já sabem todos a essa altura, um belo dia o maestro e diretor artístico da orquestra (que em qualquer lugar civilizado do planeta seriam pessoas diferentes, mas aqui são uma só), achou por bem convocar os músicos para “avaliações de desempenho”. Ora, músicos de orquestra são, pela própria função, avaliados com freqüência pelo público e, sobretudo, pelo próprio regente, com quem ensaiam constantemente. Um maestro que pede uma “avaliação de desempenho” dos seus músicos está, no fundo, confessando-se incapaz de avaliá-los – ou buscando uma saída covarde para demitir desafetos.Os músicos, mais ou menos como os povos dos países da rua árabe, revoltaram-se contra a tirania das provas, humilhantes para quem passa a vida ensaiando e tocando; a administração tenta defender um modelo autoritário indefensável; e, em conseqüência, os assinantes das séries programadas para os próximos meses terão de se conformar com a OSB Jovem, que é um conjunto simpático, porém sem responsabilidade para tanto – afinal, como o nome diz, é composta por jovens, que recebem uma bolsa modesta para ensaiar duas vezes por semana, dado que ainda não terminaram os estudos e têm outras obrigações a cumprir. Usar a OSB Jovem em concertos vendidos pela OSB é sacrificar além do dever os seus componentes e, acima de tudo, é submeter o público a um estelionato cultural e artístico.
A OSB pode não ser a melhor orquestra do mundo, mas é a orquestra que é. Não é dizer pouco. Tem 70 anos de tradição, tem músicos excelentes e, sim, tem seus altos e baixos; mas, curiosamente, os altos acontecem sempre que é regida por um bom maestro. Todos nós, cariocas que gostamos de música clássica, devemos a ela a lembrança de alguns concertos memoráveis.
Se o senhor Roberto Minczuk não está satisfeito com a orquestra que rege, que procure outra que o aceite, em vez de buscar formas torpes e dissimuladas para desfazer uma orquestra boa, digna e capaz.
* * *
Enquanto isso, em Campinas, apesar dos protestos de ambientalistas, foram assassinadas, na calada da noite, cerca de 15 capivaras, que viviam isoladas num lugar chamado Lago do Café. Segundo a prefeitura, que teve consentimento do Ibama para a chacina, parte do grupo era portador do carrapato estrela, transmissor de febre maculosa, doença frequentemente fatal para humanos.Detalhe: quem transmite a doença são os carrapatos, não as capivaras. As capivaras, pelo tamanho, são apenas mais fáceis de exterminar. Depois de mortas, elas foram zelosamente tratadas com carrapaticida pelos funcionários da prefeitura.
A ordem dos acontecimentos seria uma piada de mau gosto se não tivesse levado à morte tantos animais inocentes. Mal comparando, é como se agora virasse moda matar político para exterminar a corrupção. Por menos simpatia que eu tenha pela classe, impõe-se antes o combate à corrupção, ainda que os políticos sejam seus principais vetores.
16.3.11
15.3.11
Cora Ronai shared an Instagram photo with you
Hi there,
The Instagram Team
Cora Ronai just shared an Instagram photo with you:
Thanks,The Instagram Team
14.3.11
Cidade Luz
Le Flâneur (music by The XX) from Luke Shepard on Vimeo.
Cerca de duas mil fotos foram usadas neste projeto de Luke Shepard, um estudante da Universidade Americana de Paris. AQUI há uma entrevista com ele.
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