15.7.10

Vocês se lembram dessas gatinhas?







Hoje fui com Paulinho e Mamãe levar a Jandira em casa, e aproveitei para visitar as gatinhas do Thiago. Vocês se lembram delas? Eram aqueles dois projetinhos de gato que foram amamentados a conta-gotas aqui no sítio...



Estão lindas, saudáveis e muito boazinhas, e têm três irmãs que também foram abandonadas e adotadas pelo Ezequiel, pela Jandira e pelo Thiago.

Se alguém quiser ver mais fotos, tem um albinho aqui.

Hora de comer cana

Bom dia!

Dois filmes



Não cheguei a ver “Sex and the city” na televisão. Quando o filme saiu, achei que seria uma boa oportunidade para tentar entender o porquê do auê em torno da série. Mas aí aconteceu uma coisa, e logo aconteceu outra, e um dia não tive tempo e no outro me atrasei e assim sucessivamente até que o filme saiu de cartaz. Logo em seguida o DVD chegou às lojas, mas com um preço ridículo, e deixei para lá. Um tempo depois, passando por uma liquidação, encontrei-o a um preço bom, comprei e fiquei contente porque, afinal, descobriria tudo. Mas aí vocês sabem como é: apareceu um filme mais importante, depois chegou uma leva de indianos imperdíveis, na sequência recebi uma novela coreana em 40 capítulos, sem falar que muitos e muitos livros interessantes foram publicados, e ou bem a gente lê ou bem vê DVD, de modo que lá continuou ele num canto, esperando a vez, que só chegou sábado passado. Com isso fui, provavelmente, a última pessoa do mundo a ver “Sex and the city”, parte um.
Odiei.

Eu sei que todo mundo já viu – mas, tirando o fato de que ninguém sabe representar no filme, o que são aquelas mulheres para lá dos quarenta se portando feito clichês de adolescentes?! O que são aqueles homens que significam menos do que bolsas de grife?!
O que é aquele senso de humor doentio?!

Uma histérica joga fora uma relação de anos porque o namorado ficou assustado na hora de casar (reação plenamente justificável, considerando-se a noiva), e viaja com as amigas para o México para curtir a fossa; não acha graça em nada, mas quando outra histérica faz nas calças porque bebeu um gole de água local, cai na gargalhada – porque, como disse uma terceira histérica, “quando algo for realmente engraçado você vai rir”... hel-lo? Então é este o tão decantado humor de “Sex and the city”?! Piadinha com cocô?! Mais patético, impossível.

Impossível? Não, nada é impossível neste filme. Mais para a frente uma quarta histérica, que só pensa em sexo, espera pelo namorado deitada em cima da mesa, pelada, com o corpo coberto de pedaços de sushi. É para ser sexy? Ou pura e simplesmente asqueroso?

Está de bom tamanho? Não, não, tem mais: essa mesma histérica compra um cachorro minúsculo que só pensa em sexo (oh, não diga!) e que agarra, desesperado, qualquer almofada ou bolsa que se apresente... e todo mundo acha isso tão engraçado quanto a diarréia mexicana. Quanta sofisticação, quanta maturidade.

Socorro!!!

* * *

Liguei para a Bia:

-- Estou vendo “Sex and the city”. É a pior coisa que já vi na vida.

-- Ah, dizem que este segundo filme é mesmo um lixo! O primeiro era menos pior.

-- Ahn?! Menos pior?! Mas eu estou vendo o primeiro!

* * *

O meu problema com “The sex and the city” não é que seja a porcaria inominável que é; é que, sendo tão vulgar e primitivo, tenha feito tanto sucesso. Que espécie de mundo se diverte com essa exposição acintosa de preconceitos e de boçalidade? Não gosto nem de pensar.

* * *

No dia seguinte, ainda abalada pela experiência, e convencida de que o cinema e a cultura americanos estão realmente decadentes, resolvi aproveitar o final da Copa para pegar uma sessão vazia e descomplicada. Fui assistir “Toy Story 3” – que mudou o meu estado de espírito de forma radical.

Não se iludam pensando que este é um filme para crianças só porque foi feito em computação gráfica; como no resto da trilogia, sobretudo na segunda parte, que é um mergulho dramático em graves problemas metafísicos, os brinquedos e os perigos que eles enfrentam são metáforas para as questões que nos acompanham a vida inteira – solidão, abandono, envelhecimento, morte.

Andy cresceu, vai para a universidade e não tem mais uso para os brinquedos. O que será deles? Durante a arrumação do quarto, que será herdado pela irmã pequena, a mãe aponta seus três possíveis destinos: eles podem ir para o sótão, para o lixo ou para uma creche que sempre precisa de brinquedos novos. Andy decide que irão para o sótão, mas, por uma série de equívocos, os coitados quase vão parar no lixo, de onde escapam rumo à creche.

A trama se adensa. O que parecia ser um paraíso revela-se uma prisão sufocante, com direito a guardas sádicos e criaturas de aspecto ameaçador; há um bebê semi-detonado, por exemplo, que é mais assustador do que qualquer concierge de campo de prisioneiros. A questão inicial – para onde vão os brinquedos – passa a ser secundária diante do novo drama: como fugir do horror.

Há ação de sobra para manter crianças e adultos entretidos, mas desconfio que os adultos aproveitam muito melhor as sutilezas de enredo, até porque os adultos, ao contrário das crianças, sabem perfeitamente que os brinquedos não são para sempre, a infância não é para sempre, nada é para sempre.

* * *

Como conciliar as partes de um mundo em que as crianças se formam com os filmes magníficos da Pixar, e passam a assistir “Sex and the city” quando crescem? Minha esperança é que as partes sejam mesmo irreconciliáveis, e que o nível de exigência das futuras platéias de filmes para gente grande enfim cresça e apareça.


(O Globo, Segundo Caderno, 15.7.2010)

12.7.10

Nossos classificados



Pessoas, o Paulinho, que chega na quarta-feira, está vendendo o equipamento fotográfico: uma Nikon D40, em perfeito estado, com lentes Nikkor 18-55mm e 55-200mm. De quebra, vem junto a bolsa para carregar tudo.

Sai a R$ 1.100,00.

Adora uma rede...

Um vôo pelo Rio








Quando o PC nasceu, em 1981, o Flight Simulator já tinha uns bons anos de estrada, em versões para o Altair e para o TRS-80. A versão para o IBM-PC foi lançada em 1982, com gráficos CGA, e todo mundo que via demonstrações deste hoje quase ridículo joguinho ficava de queixo caído:

-- Oh! – exclamava um. – Que espetáculo!

-- Ah! – deslumbrava-se outro. – Parece um cinema...

É claro que não parecia, mas para quem vinha de monitores monocromáticos, aquela cor primitiva e chapada era o que havia de mais próximo a um milagre. Ninguém nunca tinha visto nada igual, o que explica porque tanta gente perdia horas pilotando aviões imaginários em equipamentos que dependiam mais da boa vontade de quem via do que aquilo que efetivamente mostravam. Não sei de outro jogo que tenha feito tanto sucesso, por tanto tempo, com um público tão variado. Atualmente na sua versão X, ele continua sendo, de longe, o jogo de aviação mais popular do mundo.

E por que isso agora?

Porque ainda estou sob o efeito de um sensacional vídeo que vi no You Tube, e que tem tudo a ver – e nada a ver – com o Flight Simulator: o passeio de um aeromodelo pelo Rio de Janeiro.

Voar um aviãozinho por controle remoto não tem nada a ver com o Flight Simulator, que pretende ser uma simulação de cabine de comando; mas voar em fantasia é sempre voar em fantasia, e ainda que a cabine virtual do FS esteja em outra praia, depois de ver o aeromodelo voltar todo bem comportado às mãos do seu piloto, a primeira coisa que me veio à mente foi que lá estava, afinal, um exemplo perfeito de simulação de vôo – um passo além dos limites da tela.

Quem me chamou a atenção para esse show de beleza e de habilidade técnica foi o CAT, que encaminhou o link do vôo para a sua lista com a mensagem original dos autores Leno e Gabriel:

“Compartilho com vocês o vôo que fizemos ontem decolando do Viaduto da Av. Paulo de Frontin, passando por dentro do Rebouças, pela Lagoa Rodrigo de Freitas, atravessando pelo Jardim de Alá e pousando na Praia do Leblon.

Mais um feito do nosso mundialmente famoso Gabriel que é o Mané Garrincha do aeromodelismo FPV, First Person View, ou vôo em primeira pessoa. Modalidade onde o piloto controla o aeromodelo através de uma tela de TV recebendo uma transmissão da imagem captada pela aeronave."

Aí está o resumo da coisa, mas só vendo para entender porque este feito foi tão notável; não deixem de assistir, em http://bit.ly/9pS4mY. Lá no blog houve quem reclamasse da segurança, mas quem fez o melhor resumo das reações coletivas foi o Mario Wilson:

“Primeiro, uma colocação ponderada: Não deviam ter feito a passagem do aeromodelo pelo Rebouças. O risco de distrair ou assustar um motorista e causar um acidente era grande. Isso é reprovável. Por favor, não repitam.

Uma colocação emocional: Sensacional! As imagens da cidade e a habilidade do piloto foram espetaculares! Uma dos melhores vídeos que já vi!

Aspectos práticos: Se puderem estabilizar a imagem um pouco mais, creio que o Exército, a Polícia e a revista Playboy vão querer conversar com os pilotos...”


(O Globo, Revista Digital, 12.7.2010)

11.7.10

Que desperdício!

Olé!

E não é que o Polvo Paul, maior estrela desta Copa, acertou tudo?!

Viva o Polvo!

(E eu continuo achando que o segundo lugar, numa Copa, é muito pior do que o terceiro: o terceiro é uma vitória, o segundo é uma derrota.)

O futuro do livro, volume 1



Enquanto meio mundo bate cabeça para saber se o futuro do livro está nas versões online ou nos clássicos em papel, os sócios Índio Brasileiro Guerra Neto e Ricardo Almeida juntaram as duas vertentes, mexeram bem, atraíram, em pouco mais de um ano, quase 3.500 autores, e agora contemplam, contentes, o espetáculo do crescimento. Eles são os donos do Clube de Autores, que funciona com um pé em cada tecnologia: os autores sobem suas obras em formato digital, e os leitores as encomendam na forma de livros em papel, com orelha e tudo.

O sistema tem pelo menos duas grandes vantagens em relação aos processos tradicionais de autopublicação. Para início de conversa, o autor não precisa pagar nada para pôr sua obra ao alcance dos leitores; depois, como a impressão é feita sob demanda, exemplar a exemplar, não há encalhe. Em suma: desperdício zero! De quebra, a divulgação também fica mais simples, já que o site do Clube funciona como uma espécie de bem fornida livraria virtual, com cerca de três mil títulos à venda.

Com 90 mil visitantes por mês, o site não pode se queixar de falta de movimento; mas, para agitar ainda mais a freguesia, realiza-se, neste momento, o Primeiro Prêmio Clube de Autores de Literatura Contemporânea, que permite aos visitantes votarem nos seus livros favoritos. O grande vencedor, que será anunciado no final do mês, ganhará cinqüenta exemplares do seu livro e um espaço para lançá-lo em plena Flip, em Paraty.

Como todo mundo que trabalha na indústria editorial, Índio Brasileiro Guerra Neto, sócio-diretor do Clube de Autores, reage com certo ceticismo quando o assunto é o fim do papel. Não foi isso que viu ao longo deste último ano, em que o Clube de Autores saiu do zero para quase 30 mil exemplares vendidos. A marca impressiona sobretudo quando se leva em conta o fato de que o Clube trabalha com autores virtualmente desconhecidos, e sem qualquer forma de publicidade tradicional:

-- Nós usamos apenas a internet, -- diz Índio, que se define não como um editor, mas como um facilitador de edição. – Muito marketing viral, presença em comunidades e mídias sociais.

Entender o que é a internet e usá-la a seu favor é o grande elo de ligação do Clube com seus autores. O tradutor Fábio M. Said, por exemplo, autor de livros de genealogia e de tradução, é um perfeito exemplo do netizen que se sente como um peixe nas águas do Clube de Autores. Há três anos, ele deixou a Bahia para trás e foi viver na Alemanha, numa cidadezinha a poucos quilômetros de Bonn e de Colônia:

-- Moro quase na roça, mas perto de tudo e, sobretudo, com boa qualidade de vida. Como meu trabalho de tradutor é basicamente na internet, não importa onde eu esteja geograficamente.

Tampouco importa onde seus livros estejam; quem quiser lê-los, deve procurá-los online, seja no Clube de Autores ou no lulu, um serviço semelhante, mas com sede nos Estados Unidos. O que não falta são “mapas” para encontrá-los, pois Fábio usa com perfeição todas as ferramentas que a Web 2.0 põe a seu alcance: Twitter, YouTube, SlideShare, Prezi, Flickr, Orkut... Além disso, cada um dos seus livros tem a sua própria página na rede.

-- Atribuo o sucesso das vendas à divulgação que tenho feito continuamente na internet, -- diz ele. -- Não realizei nenhum evento presencial de lançamento. Como eu moro na Alemanha e meu público leitor está no Brasil, toda a estratégia tem que ser mesmo on-line.

Pois deu tão certo essa estratégia que seu livro “Fidus Interpres: a prática da tradução profissional”, está em nono lugar entre os mais vendidos do Clube de Autores. Um bom ponto de partida para descobrir o trabalho de Fábio online é ir até http://fidusinterpres.com.

A médica Lêda Rezende, também baiana, mas geograficamente mais próxima dos seus leitores – mora em São Paulo há 12 anos – é outra que tem absoluta intimidade com a rede. Autora de quatro livros, que vão de ficção a poesia (entre eles o romance “Vitral”, finalista do Primeiro Prêmio Clube de Autores de Literatura Contemporânea), foi uma das responsáveis por lançar, ainda em 1995, uma Enciclopédia de Psicanálise na internet:

-- A Internet não é um monstro assustador para mim, -- diz Lêda. – O projeto da Enciclopédia foi arrojado e tão inovador que custou a ser aceito por muitos profissionais da área, mesmo se tratando de uma profissão “subversiva”, como costumam rotular... Acredito que essa familiaridade com a internet foi um dos motivos pelos quais me senti imediatamente à vontade com o estilo do Clube de Autores.

Como Fábio, ela também está muito contente com os resultados, e surpresa com a repercussão e com as vendas de seus livros. Gosta especialmente da facilidade de fazer tudo de casa, no tempo livre.

O Clube atrai escritores de todos os tipos, atuando em todas as áreas possíveis e imagináveis, de administração (137 títulos) a turismo (22), passando por ciências humanas (200), espiritualismo (188), culinária (12) e ficção (689). Ao contrário dos contratados das editoras comerciais, que recebem percentuais de remuneração fixos, geralmente abaixo dos 10%, são eles que escolhem quanto querem ganhar de direitos autorais. Este percentual se reflete, é claro, no preço final dos livros, que no momento oscila entre R$ 27 e R$ 135. Todos consideram o sistema de prestação de contas do site simples e transparente.

Rachel Costa, a Kel, carioca de 26 anos que começou a vida literária escrevendo fanfics (historinhas paralelas às tramas dos livros escritas por fãs) da série “Crepúsculo”, está muito satisfeita com a experiência. Seu primeiro romance, “The Colt’s secret” (em português, apesar do título), segue a linha das fanfics que fizeram sucesso na internet, em http://kelcosta.net, contando aventuras de jovens vampiros. Kel não só é uma das autoras mais bem sucedidas do site, como uma das dez finalistas do Primeiro Prêmio Clube de Autores de Literatura Contemporânea.

-- Para um livro que não é vendido em livrarias e não possui selo editorial famoso, acho que as vendas estão satisfatórias, -- diz Kel. – Estou com a continuação de “The Colt's Secret” quase pronta, acho que essa história vai precisar de mais uns três ou quatro livros, mas não pretendo ficar sentada esperando alguém se interessar por ela. Felizmente já tenho um vasto grupo de leitores e sei que o que eu publicar, eles compram, de modo que vou seguindo em frente.


(O Globo, Segundo Caderno, 11.7.2010)

Almoço improvisado na vó

8.7.10

Matilda e Lolinha

Uma aventura no Caribe



Na época da Bolha, que aconteceu em outra encarnação, entre os anos 80 e 90, eu era feliz e sabia. Empresas de tecnologia brotavam como cogumelos em dia de chuva, regadas por uma quantidade de dinheiro nunca vista, e todas queriam mostrar suas instalações e produtos, e apresentar seus executivos e cientistas. O importante era fazer barulho, mostrar que existiam e que estavam cheias de gás.

Naqueles tempos pré-internet, a única forma de fazer isso era levando a imprensa até lá, onde quer que “lá” fosse. Não havia jornalista de informática (sim, assim chamava-se a tecnologia naqueles tempos) que não viajasse uma ou duas vezes por mês. Saia-se daqui numa terça ou quarta, trabalhava-se, voltava-se na sexta. Para quem detestava viajar, era um inferno; para quem gostava, era ótimo. Os mais aventureiros chegavam, de vez em quando, a emendar uma viagem que terminava numa que começava.

Graças a essa roda-viva, estive nas fábricas e laboratórios mais famosos, conheci nomes que hoje correspondem a lendas, mas que, na época, pertenciam a mortais comuns, e visitei uma quantidade de cidades exóticas, algumas até mais de uma vez. Poughkeepsie, Rochester e Mountain View, por exemplo, faziam parte do circuito básico da informática, e me deixavam com muita inveja do povo da moda, que ia a desfiles em Milão e Paris. Os momentos mais emocionantes da indústria aconteciam em Las Vegas, Atlanta ou Orlando; eu só pensava na turma do cinema, que fazia festivais em Cannes, Veneza e Berlin.

De qualquer forma, essa quantidade de viagens tinha um efeito colateral do qual nunca vi ninguém se queixar: milhas, muitas milhas. Com as quais, afinal, a gente sempre podia viajar mais um pouco.

Eu aproveitava as minhas para fazer upgrade e levar vida de rica nos aviões, e para esticar na ponta das viagens que terminavam na sexta-feira. Em vez de voltar para o Brasil, ia para o Caribe, passava o sábado mergulhando e voltava para casa domingo, feliz como uma baronesa de opereta.

* * *

Pois foi assim que, numa sexta-feira à tarde, embarquei em Boston, rumo a Miami; de lá eu ia para Saint Martin, encontrar a minha turma de mergulho na Scuba Fun Caraïbes. Logo depois de mim embarcou um cavalheiro extremamente bem-vestido que, pelo visto, conhecia o avião inteiro, a começar pelo piloto. Enquanto ele cumprimentava gente a torto e a direito, perguntei ao passageiro a meu lado quem era ele.

-- Esse é o governador de Massachusets, -- disse o passageiro que, na seqüência, se levantou, cumprimentou o governador e entabulou com ele uma conversa que durou até o momento em que o embarque foi dado por terminado.

O passageiro e eu trocamos mais algumas palavras, e depois nos dedicamos, cada qual, a seus afazeres de bordo. Eu tinha inúmeras anotações para arrumar, ele pilhas de correspondência para pôr em ordem. Pilhas mesmo: era tanta papelada que, a certa altura, algumas cartas escorregaram do braço da poltrona e caíram no meu colo. Estavam endereçadas a uma atriz norueguesa.

-- Você é agente dela? – perguntei, enquanto as devolvia.

-- Não, -- disse ele. – Sou ex-marido.

-- Puxa. Como é que alguém consegue se tornar ex-marido de uma mulher maravilhosa como aquela?

-- Sim, ela é mesmo extraordinária, mas viver a dois nunca é fácil, -- disse o ex-marido, caindo naquela intimidade instantânea que a gente às vezes desenvolve com estranhos quando está em viagem. – Ela é perfeccionista ao extremo e exige tanto dos outros quanto de si mesma; mas, infelizmente, nem todo mundo é ela, não é? Ela acorda todo santo dia antes das seis da manhã, sempre no maior bom humor – você sabe lá o que é isso?

Por acaso eu sabia, sim. Na verdade, os problemas que ele enfrentava eram iguaizinhos aos meus. Passamos o vôo trocando confidências. Ele estava indo para Key West para pegar o barco e passar o fim-de-semana velejando sem rumo pelo Caribe. Quando soube que eu estava indo mergulhar, perguntou aonde eu ia, e em que hotel ficaria hospedada. Perguntou também se eu ficaria aborrecida se viesse me visitar.

-- Não, imagina, pelo contrário, -- respondi. – Estou indo para Anguilla, vou ficar no Cap Juluca.

-- Ah, ótima escolha, conheço bem esse hotel! – exclamou ele, contente.

Quando o avião pousou nos despedimos, e saí correndo para pegar a conexão. No avião para Saint Martin, senti uma pontinha de remorso por ter dispensado uma aventura tão romântica e, sobretudo, por ter mandado um senhor tão simpático para a ilha errada. Depois, pensando melhor, me dei conta de que não existem ilhas erradas para milionários que velejam sem destino pelo Caribe, e fiquei mais tranqüila.

Mas o mais estranho dessa história toda é que a única coisa que me lembro a respeito do visual do ex-marido é que ele calçava os sapatos mais bonitos que já vi no pé de qualquer homem.

* * *

Dica muito rapidinha de livro: “Juventude”, de J. M. Coatzee, o extraordinário escritor sul-africano. O livrinho (tem apenas 184 páginas; a edição é da Companhia das Letras) é um romance de formação em que nada realmente acontece, mas em que tudo é novo, rápido e surpreendente. Uma jóia.


(O Globo, Segundo Caderno, 8.7.2010)

7.7.10

O melhor personagem da Copa

Vejam do que é capaz um aeromodelo!



Quem me mandou o link para este maravilhoso filminho foi o CAT. Veio com o seguinte texto:
"Caros,

Compartilho com vocês o vôo que fizemos (Leno e Gabriel) ontem decolando do Viaduto da Av. Paulo de Frontin, passando por dentro do Rebouças, pela Lagoa Rodrigo de Freitas, atravessando pelo Jardim de Alá e pousando na Praia do Leblon.

Mais um feito do nosso mundialmente famoso Gabriel que é o Mané Garrincha do aeromodelismo FPV, First Person View, ou vôo em primeira pessoa. Modalidade onde o piloto controla o aeromodelo através de uma tela de TV recebendo uma transmissão da imagem captada pela aeronave."

Não é o máximo?!

(Comentário do meu amigo @Cardoso no Twitter: "Roberto Carlos a 300Km/h feito com graves restrições orçamentárias?")

Os pombos provocam o dia inteiro...

5.7.10

Xperia 10: alguns milímetros a mais





De todos os sistemas operacionais móveis que conheço, o Android é, atualmente, o meu favorito. Duas coisas, porém, ainda me impedem de ser completamente feliz com um aparelho Android: a vida modesta das baterias nos que testei até agora, e a ausência de uma câmera de respeito.

O Motorola Milestone, por exemplo, que a meu ver continua sendo o melhor Android disponível no Brasil, padece de bateria fraquinha, embora tenha uma câmera bastante razoável. Seu irmão Dext tem uma bateria melhor, um teclado sensacional mas, infelizmente, deixa a desejar como câmera.

Por essas e outras é que eu punha tanta esperança no Sony-Ericsson Xperia 10. Os aparelhos da SE costumam aproveitar bem as suas baterias e, sobretudo, são conhecidos pelas câmeras imbatíveis. Imaginem: um Android com uma câmera de respeito? Sonho total!

Mas... Pois é, pois é. Há sempre uma conjunção adversativa na vida dos apaixonados por smartphones. Meu caso de amor com o Xperia acabou comprometido, de saída, pelo tamanho do brinquedinho. Não gosto de celulares muito pequenos, mas descobri, com ele, que há um tamanho máximo para cada mão. Adorei o aparelho, mas para um caso tórrido e passageiro; continuo, contudo, na busca de um companheiro para o dia-a-dia, de um celular perfeito para chamar de meu.

Começando do começo: como seria de esperar de um Sony-Ericsson, o Xperia 10 é lindo. O design é impecável, assim como a interface. Tudo é bem pensado e bem acabado no aparelho. A tela, sobretudo, chama a atenção: afinal, tem 4”, o que é uma enormidade em termos de celular. Mas é a partir dela que começam os problemas: um telão desses consome uma energia danada e, ao mesmo tempo, cobra o seu preço em tamanho.

A olho nu, vistos um ao lado do outro, o Xperia 10 e o iPhone 3GS têm praticamente o mesmo tamanho; o Xperia tem 3,5mm a mais de altura e cerca de um milímetro a mais de largura. Na mão, essa diferença irrisória parece ser mais. (Felizmente a Sony-Ericsson sabe que nem todos os usuários nasceram iguais, e lançou algumas variantes interessantes do seu atual carro chefe: o Xperia 10 Mini já está nas paradas, e o Xperia 10 Mini Pro, que acaba de ser lançado na Europa, tem, inclusive, um esperto tecladinho Qwerty.)

Como o Dext, da Motorola, o Xperia 10 usa a versão 1.6 do Android, relativamente antiga. Isso não chega a ser grave, até porque comenta-se que está para sair um update para a versão 2.1.

Como se esperava, a câmera de 8MP é uma das melhores do mercado, se não a melhor. Além disso, o software de tratamento de imagem da SE é ótimo, e dá ao usuário enorme flexibilidade com suas figurinhas. Essa flexibilidade se nota também na hora de rever fotos, vídeos, música. Tudo fica junto numa mesma área, denominada “Mediascape”: é só dar um toque e navegar à vontade pelos arquivos.

Nessa hora, o Xperia 10, com sua tela sensacional e seu som excelente, é rei: um tabletinho campeão para curtir todo o conteúdo que cabe no seu cartão de 8Gb.


(O Globo, Revista Digital, 5.7.2010)

Ela adora coco

Obras aquáticas?

Um lindo dia

1.7.10

Uma cesta, duas gatinhas

A pátria de notebook



Na segunda-feira passada, mais uma vez, os usuários do Twitter calçaram as suas chuteiras metafóricas e postaram-se em frente aos aparelhos de TV, com um olho no jogo e outro nos smartphones ou notebooks com que se conectam, transformando o microblog na maior de todas as Fan Fests.

Lá estavam brasileiros tuitando de todos os cantos do mundo, do coleguinha Jorge Pontual procurando pela torcida chilena em Nova York (@JorgePontual: “Não achamos a torcida chilena em Nova York, só a brasileira”), ao presidente da Microsoft para Asia e Pacífico, Emilio Umeoka, que mora em Singapura, e mata as saudades do Brasil em tempos de Copa acompanhando a torcida tuiteira (@eumeoka “Adoro os comentários do jogo, pessoal, saudades do Brasil!!! Vamos lá pro segundo tempo!!! Go Brasil!!!”).

* * *

Claro que a “multidão” de cada um depende do número de pessoas seguidas. A essa altura todo mundo sabe, mas não custa repetir, que cada um vê, na sua tela inicial do Twitter, os comentários daqueles a quem segue. O pobre do Eike Batista (@eikebatista), por exemplo, tem uma vida muito solitária quando abre a sua twit-janela, que só dá vista para os manda-chuvas da Rússia (@KremlinRussia_E) e dos Estados Unidos (@BarackObama), para o Luciano Huck (@HuckLuciano), para o Kaká (@RealKaka) e para um fake da chanceler alemã (@Angie_Merkel). Já pensaram o que é assistir à Copa nessa companhia?! Coisa de cortar os pulsos.

Seguir muita gente também não é bom, porque corre-se o risco de cair numa cacofonia incompreensível. Há reis do Twitter que seguem gente aos milhares; não consigo descobrir como se entendem na confusão. Jurei para mim mesma, várias vezes, que nunca seguiria mais de mil pessoas, para evitar o excesso de ruído. É claro que não consigo ficar nesse número, porque cada vez há mais gente, e mais gente divertida, juntando-se à tribo. É claro também que nem todas as 1.192 pessoas que eu sigo tuitam ao mesmo tempo, o que mantém a área razoavelmente tranqüila.

* * *

E o que se tuitava durante o jogo? Copa, Copa, Copa – ninguém tem mais outro assunto, com exceção de meia dúzia de nerds internacionais que não tomaram conhecimento, e da Yoani Sanchez que, em Cuba, provavelmente também não tem como saber o que está acontecendo (@yoanisanchez: “Los abuelos descansan en mi jardín http://cli.gs/d8A6Y” – aliás, recomendo a todos visitar este link, onde ela escreve uma pequena e emocionada homenagem a seus avós paternos).

Fiz, mais uma vez, um apanhado do que a turma andou comentando ao longo do jogo. Não se deixem desanimar pelas arrobas – que, reconheço, atrapalham a leitura. Essa partida teve muitos lances interessantes!

@tiacris: “E dê-lhe o país parado mais uma vez. Ô, desgraça!”

@Cavallini: “A moça que trabalha na minha casa não curte jogo, mas não pode ir pra casa pq não tem ônibus. Beira o ridículo essa paralização.”

@Anabmoser: “O Brasil deveria jogar somente nos finais de semana. O Brasil não pode parar para ver a seleção. Adoro festa, mas não aguento mais feriado.”

@sandrofortunato: “Técnico do Chile preocupadíssimo! Se ficar no 0 x 0 e tiver prorrogação, capaz de eles perderem o vôo.”

@EpocadeCopa: “Mick Jagger facts: No dia em que Mick Jagger nasceu, a Inglaterra foi surpreendentemente eliminada pelos EUA na Copa do Mundo de 1950.”

@ CoelhoArnaIdoC: “Lúcio é cheio de ser religioso. Mas dentro de campo parece um capeta. Só falta dizer prum adversario: vai tomar no c# em nome de Deus.”

@katylene: “Parabéns, Kaká! Com 10 cartões amarelos você ganha o DVD autografado da Aline Barrosh.”

@pedroneschling: “Tá bom, Kaká. A gente já entendeu que você não é a Sandy. Agora calma, tá?”

@alvaroleme: “Saiu gol agora porque o Mick Jagger tinha ido comprar um refri pro Lucas.”

@riqfreire: “Cheguei ontem, tô entendendo nada. O pessoal que comemora antes tá ouvindo o jogo no rádio, na parabólica ou onde?”

@hugomaluco: “Ver transmissão em HD é que nem casar com mulher gostosa. O visual é bom, mas vc é o último a saber.”

@riqfreire: “Com esse delay, a gente que tem TV digital virou a vanguarda do atraso?”

@aperteoalt: “Aqui em casa eu me emociono quando ouço a galera gritando gol. E depois me emociono quando vejo.“

@silviamarques: “Como vai a vida na Matrix? O Brasil vai se tornar um país melhor por causa de um jogo?”

@violinha: “Agora a gente já pode torcer pra Alemanha salvar o mundo do Maradona correndo pelado...”

@biabraune: “Link ao vivo com família evangélica de jogador não tem graça. Saudades de Seu Edevair e outros parentes encharcáveis em alegria e cervejas.”

@romani83: “O bom do intervalo é que dá pra ficar olhando pro Twitter sem ter que ficar prestando atenção na televisão, né?”

@doni: “Se a vuvuzela é mesmo um lance cultural, a África do Sul é um país de retardados.”

@Cardoso: “Povos que já desenvolveram uma linguagem neste momento estariam cantando "está chegando a hora" mas... FUÖÖÖÖÖ”

@rafitosmachado: “O Kaká acabou de falar "P*ta que p*riu" ou "Obrigado senhor por mais esta oportunidade de um chute pra fora"?

@aleboechat: “O Kaká falou palavrão. Espero que ele não seja sorteado pro antidoping: vai dar positivo pra bala juquinha.”


(O Globo, Segundo Caderno, 1.7.2010)

29.6.10

Geeeeeeeeeeeente!!!



Hoje é aniversário da Néria, a nossa querida Boa Idéia (codinome mais acertado dos sete mares).

Parabéns!

Tudo de bom!

Muitas felicidades!

Mistério em Botafogo




Na Rua São Clemente 101, bem perto do metrô, há uma lojinha chamada Realce Confecções. A Laura gosta dessa lojinha, que fica no caminho para casa. E hoje me ligou, preocupada:

-- Fiz uma compra lá há mais ou menos duas semanas. Depois notei umas caixinhas de jóias na vitrine, que me interessaram, mas a loja estava fechada. E aí é que está a parte estranha: ela continua fechada! Se a proprietária tivesse saído de férias punha alguém no seu lugar, ou pelo menos uma placa na porta avisando aos clientes. Se estivesse doente, a família avisaria. Mas não há nada disso, apenas uma loja fechada como se alguém tivesse saído à noite para voltar no dia seguinte... E já começam a aparecer bilhetes colados na porta, do tipo "Vim trazer o seu vestido, mas você não estava".

Laura é leitora contumaz de romances policiais e tem uma imaginação e tanto, mas que é esquisito uma loja que vai bem ficar fechada tanto tempo, lá isso é.

-- Além disso, -- observa Mamãe -- você não entrava direto na loja, como acontece em geral. Você tinha que tocar uma campainha, e aí a porta era aberta... Pode ser que a senhora que cuidava da loja tivesse medo de alguma coisa.

Diante disso, pergunto: o que é que a gente pode fazer num caso desses? A quem se comunica o caso? Existe alguma delegacia ou repartição especializada em vagas suspeitas?

28.6.10

Eine Kleine Welt Musik



Este é o grupo MoCarta. Há mais coisas deles no YouTube!

N97 Mini: o fim de um amigo



Há alguns anos li a pesquisa de um fabricante de celulares que apontava os encontros inesperados com vasos sanitários como principal causa de óbito dos aparelhos. Homens perderiam mais celulares dessa forma do que mulheres, porque costumam carregar os celulares no bolso traseiro da calça, ao passo que elas os carregam na bolsa. Outros motivos bizarros e comuns de perda de telefone: aparelhos mastigados por cachorros e submetidos a ciclos completos ou parciais de máquinas de lavar.

Essas informações pitorescas, porém inúteis, me voltaram à lembrança essa semana, quando, pela primeira vez em tantos anos, perdi um celular por acidente. Foi na hora do jantar. Tiziu, o pretinho básico que foi incorporado à Famiglia Gatto no último Réveillon, e que foi abandonado antes de poder aprender com a mãe o pulo do gato, tentou subir na mesa. Errou o salto, mas conseguiu agarrar a ponta do descanso da sopeira -- e saiu arrastado tudo o que estava no caminho, pratos, talheres, celular.

O pobre N97 Mini serviu de amortecedor para a dita sopeira que, com tal apoio luxuoso, não quebrou. Em compensação, além da tela, o aparelhinho sofreu uma amassada radical no chassis: na parte de cima a moldura de metal ficou torta e, na parte inferior, a tampa da bateria não encaixa mais. Vou levá-lo à autorizada, mas acho que é perda total.

O pior é que, depois do susto, o Tiziu reapareceu com uma cara de grande surpresa:

-- Nossa, o que é que aconteceu por aqui?!

* * *

Enquanto isso, no Gizmodo, surgem as primeiras fotos de iPhones 4 quebrados. Um ficou com aspecto ainda pior do que o meu falecido N97 Mini depois de uma queda besta de pouco mais de um metro de altura, quando o dono estava saindo de um carro e o celular escorregou do seu bolso.

Outros tiveram destinos mais acidentados, e pelo menos um foi vítima de assassinato por motivo fútil – um idiota resolveu jogar um novinho no chão, repetidas vezes, só para ver o que acontecia. Está certo que cada um pode fazer o que bem entender com o seu dinheiro, mas esse tipo de destruição gratuita devia sofrer algum tipo de penalidade.

* * *

Na mesma noite em que o N97 Mini morreu fiz uma foto do engarrafamento da Lagoa, com todo mundo fugindo rumo ao feriadão da Copa. Fiquei impressionada como o aparelhinho se saiu bem, como foi capaz de separar as áreas escuras das iluminadas. Mandei a imagem pro blog pensando nisso e, por associação de idéias, admirei mais uma vez a eficiência do seu mecanismo e do teclado que fica escondido por baixo da tela. Ele foi um grande companheirinho.

* * *

E, por falar em Série N, a Nokia anunciou, na quinta-feira, que deixará de usar o Symbian nos seus topos de linha. Daqui para a frente, ela passará a usar o MeeGo, um sistema baseado em Linux que junta o trabalho que a Intel vem desenvolvendo com o Moblin ao que a própria Nokia desenvolve com o Maemo. O Symbian ainda continuará em cartaz por uns tempos em aparelhos mais baratos da Nokia, da Samsung e da Sony-Ericsson.


(O Globo, Revista Digital, 28.6.2010)