28.11.03




De patinhos feios a objetos de desejo

Nos supermercados de Seul é comum ver os produtos mais triviais cuidadosamente embalados para presente: latas de óleo, pacotes de macarrão, açúcar, sabão em pó, biscoito. Um amigo explicou: é que os coreanos trocam tantos presentes entre si que o gesto passou a representar apenas isso, um gesto. Pouca gente tem bala na agulha para cumprir o ritual com objetos cobiçáveis; menos gente ainda tem tempo para trocar todos os presentes de que não gostou; e ninguém, absolutamente ninguém, tem espaço em casa para acumular tanta quinquilharia.

Faz sentido — mas, ainda assim, me pareceu bem frustrante. Adoro atum em conserva, por exemplo, mas acho que ficaria muito desapontada se ganhasse um presente todo bonitão e, na hora H, descobrisse que era uma lata de atum. E olhem que uma lata de atum tem mil e uma utilidades culinárias, ao contrário de tantas bobagens que a gente ganha apenas para passar adiante. Os coreanos têm, nota-se, mais lógica sentimental do que a gente.

* * *

Lembrei dessa história semana passada, numa livraria. Quando eu era criança, os livros eram autênticos presentes coreanos. Eu adorava livro, vivia lendo, mas ficava indignada quando uma visita trazia livro de presente. Afinal, lá em casa, livros eram artigos de primeira necessidade, incluídos na dotação orçamentária. Presentes de verdade tinham que ser supérfluos ou, no mínimo, bonitos, luxuosos — e, naquela época, salvo raríssimas exceções, os livros que se faziam no Brasil eram uns monstrengos bem feinhos*.

Hoje, pelo contrário, é preciso procurar muito numa livraria para encontrar um presente coreano. Os livros brasileiros não podiam ser (ou estar?) mais atraentes; e não estou me referindo apenas aos de arte, tradicionalmente bem cuidados. Até as editoras universitárias estão fazendo um bonito. As capas são sedutoras, o papel é da melhor qualidade, a mancha gráfica é generosa. A indústria descobriu, enfim, que não basta um bom texto para seduzir o consumidor, e trouxe à tona o lado sensual dos livros. Bons de ver e de pegar na mão, de folhear e acariciar.

Vejam, por exemplo, “Na sala com Danuza.2”. Injustiça chamá-lo de “nova edição”. É um livro todo novo, não só pelos acréscimos e modificações do texto, como pelo projeto gráfico ma-ra-vi-lho-so da Pinky Wainer. Num mundo de celebridades efêmeras, nada como encontrar o artigo genuíno: Danuza Leão tem um senso de humor afiado, é inteligente e sabe tudo. O máximo.

* * *

Quando vi “Passaporte”, de Fernando Bonassi, editado pela insupe'ravel Cosac & Naify, foi paixão à primeira vista. Igualzinho a um passaporte na cor, no tamanho e na textura, “Passaporte” é o livro de viagem que eu gostaria de ter escrito. Em cada página, há o retrato perfeito não de um lugar, mas de um estado de espírito local. O livro é uma coleção de pequenas fotos em palavras, instantâneos de grande precisão e densidade atômica.

Devo confessar que tenho um fraco pela Cosac & Naify, que faz os livros mais tentadores que conheço. Livros livros, de verdade, daqueles de ler, e não apenas de ver figurinhas. Embora, em alguns casos, aconteça uma feliz convergência, como na “História da arte italiana”, de Giulio Argan, puro deslumbramento. Ao contrário de “Passaporte”, tão pequetitinho, são três alentados volumes, num total de 1.400 páginas que deixam a gente sem saber o que fazer. Olha-se tudo primeiro, e depois se começa a leitura, ou começa-se a leitura e depois se descobrem as ilustrações, devagarinho, puxadas pelas palavras? Ó dúvida cruel! Como sou impetuosa, estou fazendo tudo ao mesmo tempo, lendo, olhando, indo e vindo entre os volumes. Taí. Se fosse pecado, eu estava frita.

* * *

O melhor de tudo é que a Cosac & Naify não é uma exceção. Mesmo a Ediouro, que durante décadas fez livros visualmente indigestos até para as traças, está brilhando. Literalmente: “Egito: um olhar amoroso”, de Robert Solé, traz a lateral das páginas gloriosamente prateada. Não é só bonito; é também excelente leitura, apresentando um Egito personalíssimo, de A a Z, cheio de curiosidades e idiossincrasias.

* * *

Para quem quer tempos mais modernos ou localidades mais próximas: “A capital da solidão”, de Roberto Pompeu de Toledo, em amorosa edição da Objetiva. Nunca pensei que alguém conseguisse escrever uma história de São Paulo ao mesmo tempo informativa e poética, mas Roberto Pompeu de Toledo conseguiu. O livro é rico e extraordinário, um prazer do começo ao fim.

* * *

A gente sabe que o ano acabou quando os vizinhos contratam alpinistas para escalar as palmeiras do jardim e cobri-las de luzinhas.


(O Globo, Segundo Caderno, 27.11.2003)

* Update: Um leitor bibliófilo me escreveu muito sentido, mandando uma lista de lindas edições do passado. A lista não tem nada dos anos 60/70, décadas a que me refiro, mas fico pensando se não injusticei meus amigos livros ao chamá-los de monstrengos.


Para angloparlantes

Dez grandes perigos de se viver na blogosfera. Ótimo! Válido também, com algumas modificações, para fotologueiros...




Real Time: Keaton e Tutu me ajudando com o trabalho.

27.11.03





Mais uma fotinha de celular: a fila do Estação Botafogo. Ah, sim: lá no fotolog tem fotos novas (e noturnas!) da capivara...



Naturalmente


Aí está: é assim que se fotografa uma cobra! A Indiana Jones da foto é a portuguesa Isabel Catalão, craque em fotos de batráquios, répteis e outros bichos que, em geral, põem a gente pra correr.

Especialista reconhecida no mundo todo, Isabel mantém um dos melhores fotologs que conheço: não deixem de conferir!

Tudo o que ela faz é bom, de animaizinhos minúsculos a castelos.


Nem tão hoax assim...

Infelizmente, a questão dos animais torturados em São Paulo procede. Vejam o que explicou a Cássia Schittini, jornalista e coordenadora de projetos da ONG Projeto Esperança Animal:
"É a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo que promove cursos em que animais são submetidos à vivisseção e sacrificados. Apesar de terem nomes semelhantes, a Irmandade e a Faculdade são entidades distintas: a Irmandade só cede as instalações para a Faculdade. Os cursos são pagos e extra-curriculares. As ONGs de proteção aos animais receberam denúncias de que 19 cães seriam queimados em aulas práticas em novembro para que os estudantes pudessem se familiarizar com o tratamento de queimaduras. Isso ainda não ocorreu porque o ano letivo está acabando, mas suspeitamos que esses experimentos devem ser retomados no próximo ano. Ou quem sabe a faculdade tenha resolvido cancelar esse curso porque os protestos foram muitos. A primeira denúncia contra a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo surgiu em uma reportagem de Marici Capitelli, do Jornal da Tarde, em meados deste ano.

Eu, pessoalmente, até admito que algumas experiências possam ser feitas em nome da boa ciência. Condeno o abuso. Ontem, 97 (noventa e sete!!!) cachorros seriam enviados do CCZ de Diadema para a Faculdade de Medicina de Botucatu, da UNESP. Só não foram porque roubaram o caminhão da Unesp na estrada. Essas foram as informações que foram passadas para dez ativistas que estavam protestando em frente ao CCZ. Esses transportes ocorrem semanalmente. Uma amiga, médica, disse que em todo o seu curso de medicina foram utilizados somente quatro cachorros como cobaias. E ela ainda acrescenta que não aprendeu nada com isso.

Os CCZs de Diadema, São Bernardo do Campo e Ribeirão Pires estão enviando cães para servirem de cobaias, semanalmente, para as faculdades de medicina da Santa Casa, Botucatu, Metodista, Unisa e Anhembi-Morumbi. A União Internacional Protetora de Animais (UIPA) abriu o processo 213/2003 contra essas faculdades no Ministério Público de São Paulo, alegando que os procedimentos ferem a lei 9605/98, de Proteção ao Meio-Ambiente. A People for Ethical Treatment of Animals (PETA) também acaba de entrar nesta luta, investigando e acatando denúncias da PEA.

Aproveito para pedir a todos que se preocupam com o assunto para apoiarem o projeto de lei 1691/2003, que regulamenta os experimentos em animais no Brasil. Maiores informações no link www.apasfa.org/Diversos/deputados.html

Agradeço pelo espaço,

Cassia Schittini
Projeto Esperança Animal
www.pea.org.br
Não preciso nem dizer, mas tenho a maior admiração por gente que protege animais. Já a respeito do que sinto por quem pratica crueldades contra seres vivos achando tudo perfeitamente normal não consigo dizer nada.

Sei que estudantes de medicina são, coitados, freqüentemente forçados a usar cobaias, mas nada do que li até hoje me convenceu da real necessidade disso. Há pouco tempo era igualmente "necessário" e "normal" fazer crianças abrirem rãs e sapos vivos para ver seus coraçõezinhos batendo, a título de "educação".

Também sei que cientistas usam toda a espécie de animal para testar produtos e procedimentos cirúrgicos, mas tampouco estou convencida da necessidade dessas experiências. Acho que sou mais radical do que a Cassia.

Nenhuma espécie merece sofrer em nome de outra.

Parênteses: alimentação é outra história. As espécies se alimentam umas das outras. É natural. Mas não é natural cegar um macaco para ver como reage um cérebro privado de visão, por exemplo. Fecha parênteses.

Vamos pôr a coisa nesses termos: se alguém sugerisse que os assassinos que mataram o casal de adolescentes em São Paulo fossem usados em pesquisas científicas, a sociedade inteira reagiria, horrorizada.

Agora me digam: no que é que aqueles seres monstruosos são melhores do que os pobres cães que serão queimados em nome da ciência?




Ontem quem me fez companhia no temporal foi o Palm Zire. Há várias fotos do toró no Fotolog.

26.11.03





Aí está a árvore! Estava sendo testada ontem à noite.

Infelizmente, este ano, rompendo com a tradição, o blog foi furado pelo Globo.

Não me conformo...




Foto de telefone! Fiz ontem, durante o temporal, com o Nokia 7650. Está tal e qual saiu do telefone; não tem nem corte.


Curiouser and curiouser...

No dia 9 de outubro, meu colega e amigo Sergio Rodrigues publicou este lindo artigo no No Minimo. Só li agora*. Ele chegou à mesma conclusão do Shirts -- mas com algumas semanas de antecedência.

Confiram:
" “Naquela época eu ensinava latim e italiano num ginásio de Budapeste. Uma vez por semana freqüentava um café onde se reuniam meus amigos lingüistas. Um deles estudava o sogdiano, outro preparava um ensaio sobre os pronomes voguis, um terceiro acabara de publicar dois grossos volumes de contos tcheremissos. Só interessados em idiomas exóticos, tinham verdadeira paixão pelas línguas difíceis e desprezavam minhas modestas excursões no domínio neolatino.” Por trechos como esse é que se confirma o que todo mundo anda dizendo: é bom demais esse Chico Buarque, não?

Bem - não, nada disso. Quer dizer, o novo livro de Chico é ótimo, mas o trecho que abre este artigo não foi extraído dele e sim de um duplo de “Budapeste”, como Zsoze Kósta é duplo de José Costa. Um livro que, escrito a partir dos anos 40 e lançado em 1975, compartilha com o grande best-seller do momento dois traços fundamentais: a oscilação entre a capital húngara e o Rio de Janeiro (com a diferença de que parte daquela para chegar a este, enquanto o herói buarquiano faz o caminho inverso) e a coragem de mergulhar de cabeça nos abismos da língua, das línguas, da linguagem.

Até fazer essa descoberta eu nem pretendia escrever sobre “Budapeste”, apesar da sintonia de sua alma metalingüística com uma coluna como esta, dada a filosofices sobre o tema. Cheguei a achar, diante da acolhida entusiasmada que o livro de Chico teve na imprensa, que o pessoal já falara demais dele. Acreditava que nenhum texto em torno do texto interessaria mais ao leitor, a quem só caberia agora embarcar na primeira frase - “Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira” - e se deixar levar. Ou não. Pegar ou largar. Mas eu estava enganado.

Confesso que não sei bem o que fazer da minha descoberta. Sei, porém, o que não fazer. O tal duplo de “Budapeste” é uma coletânea de artigos chamada “Como aprendi o português e outras aventuras”, do erudito Paulo Rónai (Editora Globo). Nem ficção é, e se o início da coluna levou alguém a esperar uma denúncia de plágio ou influência excessiva, lamento. Não se trata de nada tão sensacional. Mesmo assim, as correspondências entre as duas obras são impressionantes.

De um lado, encontramos o brasileiro José Costa, que por acaso ou fastio começa a construir uma nova identidade - uma identidade húngara - no dia em que a música de um idioma incompreensível o subjuga e mesmeriza. “Sem a mínima noção do aspecto, da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a faca.”

Do outro lado, temos a presença comovente de um jovem húngaro, Paulo Rónai, e sua paixão também gratuita pelo português, numa Budapeste que estava a poucos anos de se tornar quintal da Alemanha nazista. “A mim, sob seu aspecto escrito, (o português) dava-me antes a impressão de um latim falado por crianças ou velhos, de qualquer maneira gente que não tivesse os dentes. Se os tivesse, como haveria perdido tantas consoantes?”

José, antes de virar húngaro, se espanta: “Cortei o som, me fixei nas legendas, e observando em letras pela primeira vez palavras húngaras, tive a impressão de ver seus esqueletos: ö az álom elötti talajon táncol”. Paulo, às vésperas de virar brasileiro, fica abismado: “E olhava espantado para palavras como lua, dor, pessoa, veia, procurando apanhar o que nelas restava das palavras latinas, cheias e sonoras”.

O que se descreve nos dois livros, a partir desse momento mágico em que novas palavras reinauguram o mundo, é a aventura da reinvenção da própria vida dos narradores. Uma, a de Paulo, aventura épica, no cenário da maior tragédia do século 20 e provavelmente de todos os tempos. A outra, a de Zsoze, aventura besta, circular, de significado fugidio, prenúncio de um século em que até as grandes tragédias prometem nos chegar esvaziadas de sentido.

Se percursos e estilos são diferentes, resta o bastante de solo comum para que o livro de Rónai nos ajude a entender “Budapeste”. Não, o romance de Chico Buarque não é uma ode à busca da palavra exata, como andam dizendo por aí (lugar-comum mais vazio que esse, só o espanto com a capacidade do autor de “reconstruir” uma cidade que nunca visitou, como se o livro tivesse alguma pretensão realista). O sortilégio da prosa diabolicamente bem urdida, ponto mais forte do Chico escritor, parece ter confundido o pessoal. Ode à busca da palavra exata é toda a obra do autor desde “A banda”. O que distingue “Budapeste” é quase o contrário, uma confissão de fragilidade do indivíduo falante - fragilidade tão grande que borra a própria idéia de autoria - diante da língua que ele fala.

Ou melhor: diante da língua que o fala. Chico e Rónai nos descortinam o encantamento com o fato óbvio - mas pouco considerado - de que as línguas nos falam tanto quanto são faladas por nós. (Sergio Rodrigues)

* Confesso: ando mesmo atrasada com as minhas leituras. Motivo? Leituras, leituras, leituras. Em outras plavras, numa outra língua, information overload.

25.11.03



Que viagem...

A Laura me mandou este artigo que saiu em São Paulo. Não tinha visto. Achei curiosa a tese do autor; ainda não li o livro do Chico.

Como aprendi o húngaro

"Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira." Impossível eu não me fascinar por um livro que começa assim. Sempre fui dessa mesmo opinião. Mas, ao mesmo tempo, é difícil resistir à tentação - a de debochar dos estrangeiros. Até minha querida filha Maria de vez em quando pede para o pai gringo pronunciar a palavra "proseco" diante das suas amigas. Atendo o pedido quando estou de bom humor. E todas dão aquelas risadas desengonçadas das adolescentes, mesmo que não saibam o que significa esse vocábulo. É uma festa. Fico a admirar como um mero erro de pronúncia pode provocar tamanha alegria.

Quem diz que deve ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira é o José Costa, protagonista de Budapeste, o último romance de Chico Buarque. Não tenho a pretensão de resumir o seu enredo, que é um tanto manhoso e cheio de espelhos, embora o livro seja gostoso e fácil de ler.

Basta dizer, por ora, que Costa está empenhado em aprender o húngaro.

Não está muito claro por quê. Lá pelas tantas ele conta: "Pedi um chope no bar da esquina, vi uma agência de viagens logo em frente, larguei o chope, cruzei a rua e comprei duas passagens para Budapeste".

Costa se apaixona pela língua magiar, pela sua professora de húngaro Krista, e se entrega de corpo e alma ao aprendizado do exótico idioma. Como diz:

"Assim, depois de um mês em Budapeste, já me soava quase familiar a cadência das palavras húngaras, com a tônica sempre na primeira sílaba, mais ou menos como um francês de trás para diante."

Depois de muito estudo apaixonado, Costa, que era um ghost-writer brilhante no Brasil, se habilita "a retocar por conta própria o húngaro das maiores escritores da Hungria". Surge o Zsoze Kósta, a versão húngara do José Costa, e os dois passam a conviver de forma meio atabalhoada dentro da narrativa.

Zsoze acaba escrevendo até mesmo um livro aclamado de poesia na Hungria, como ghost-writer de um festejado poeta que anda sem inspiração.

A história é solta e divertida e se vale, bem mais do que Benjamin e Estorvo, do sutil e irresistível senso de humor do seu autor.

Pensava eu em tudo isso, enquanto lia Budapeste, deitado à noite na cama do meu quarto em Pinheiros, quando fui acometido de uma sensação esquisita. Eu conhecia José Costa de algum lugar. Ou seria o Zsose?

Parecia improvável. Afinal, ele é um personagem de ficção - e recém-lançado ainda por cima.

Mas, quanto mais lia sobre a sua volúpia pelas palavras húngaras, pela sua vontade de dizer kêrekport, kêrekpart, kerékpár, sobre o seu amor pelo aprendizado de um novo idioma que continha toda a história de um povo, toda uma maneira de ser, um ritmo e uma musicalidade, mais eu tinha certeza de que conhecia esse personagem. Não era possível.

Foi lá pela página 63 que me deu o estalo: Zsose Costa é Paulo Rónai! Corri até a estante de livros e procurei até achar o pequeno e maravilhoso livro de crônicas de Rónai, Como Aprendi o Português. Logo na orelha, de 1975, reli: "Paulo Rónai, húngaro de nascimento e brasileiro há meio século, é dessas personagens raras que, de quando em quando, surgem na literatura para não só pôr em contato duas tradições que antes mal se conheciam..."

Na primeira crônica da coletânea, Rónai conta como um húngaro que não conhecia o Brasil acabou se apaixonado pelo idioma do nosso País. Escreve:

"De todos os escritores húngaros que eu conhecia, Desidério Kosztolányi era o único que se aventurara a abordar o estudo do português. Certa vez falou-me nesta língua, que lhe parecia alegre e doce como um idioma de passarinhos. A mim, sob seu aspecto escrito, dava-me antes a impressão de um latim falado por gente que não tivesse dentes. Se os tivesse, como haveria perdido tantas consoantes. E olhava espantado para palavras como lua, dor, pessoa, veia, procurando apanhar o que nelas restava de palavras latinas, cheias e sonoras".

A parti daí, eu já não consegui mais ler Budapeste com os mesmos olhos.

Concluí que havia decifrado a obra do Chico. Ele está tentando criar uma musicalidade a partir das muitas vogais da língua portuguesa, pensei. Pode muito bem ser delírio meu, mas comecei a perceber uma escolha deliberada de termos repletos de vogais. Diz o Zsoze: "Guanabara, murmurei, goiabada, Pão de Açúcar".

Não sei se Chico se inspirou no Rónai, consciente ou inconscientemente. Mas, no fundo, pouco importa.

Ronái dá uma dica para entender a rica música do texto do Chico.

José Costa erra as consoantes ao aprender o húngaro. Aqui no Brasil, nós, os gringos, erramos as vogais. Proseco." (Matthew Shirts)


Clássico

Ouvindo MP3. São mais de 20Gb só num dos HDs, uma espécie de rádio pessoal, sem propaganda, onde tudo o que toca eu gosto, tem melhor?

De repente, uma música me pára: "Negue", de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos, que eu não ouvia há tempos. Não me lembrava de como é bonita essa música. Vocês sabem, né?
Negue o seu amor, o seu carinho
Diga que você já me esqueceu
Pise machucando com jeitinho
Esse coração que ainda é seu
Diga que o meu pranto é covardia
Mas não esqueça
Que você foi meu um dia
Diga que já não me quer
Negue que me pertenceu
E eu mostro a boca molhada
Ainda marcada
Pelo beijo seu
A interpretação é da Bethânia, lógico. Não consigo imaginar outra. Tudo é perfeito, do arranjo ao jeito de cantar dela, escandalosamente bom -- contido, elegante, intenso, inteligente.

24.11.03



Horror! Era só um hoax... ufa!

Hoje de manhã, antes de ir dormir, encontrei uma mensagem terrível na minha mailbox. Tasquei aqui:

Ando muito atrasada com a minha mailbox. A vida está corrida, coisas demais para fazer, tempo de menos. Entre a correspondência atrasada encontrei essa mensagem, enviada no dia 18. Fiquei em estado de choque. Alguém me desminta isso, por favor!
"É com muita tristeza que anunciamos que a partir de hoje na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, animais serão queimados vivos para fazerem testes desnecessários. Alegaram que queimando os animais, saberão os cuidados que deverão ter com os seres humanos queimados... Afinal, a estrutura do ser humano é idêntica a dos animais, o homem tem 4 patas, etc, etc.

Meu Deus, pra que isso? É realmente necessário queimar animais vivos e manter no sofrimento somente
pra comprovar que pessoas queimadas precisam de cuidados especiais?

Por favor, é preciso dar um basta nessas crueldades desnecessárias. Países evoluídos no ramo na medicina já comprovaram que vivissecção é algo desnecessário.

Imprensa, por favor, sei que não é responsabilidade de vocês solucionar esse problema, mas voces tem a chave nas mãos, são formadores de opinião e podem mostrar esse crime para a população, mesmo que de uma forma neutra, deixando que as pessoas tomem seu próprio partido. Aqueles que tem compaixão com certeza serão contra, assim, teremos mais gente ciente desse holocausto, desse inferno que é a Santa Casa.

Divulguem, falem com protetores, vamos até a Santa Casa, vamos nos unir, nos mobilizar, pois não podemos esperar por milagres enquanto nossos animais agonizam. Nos ajudem!!!"
Como é que pode?!

Uma instituição que pretende se chamar "Santa Casa"?!

São inacreditáveis as atrocidades cometidas contra animais em nome da "ciência" -- como se os animais não fossem seres vivos, que sentem e sofrem exatamente como nós.

Freqüentemente me pego pensando que, se há vida além dessa daqui, se houver pelo menos algum plano metafísico em que, um dia, estaremos todos em condições de igualdade, eu não terei, como humana, coragem de olhar nenhum animal no olho.

Com que direito a minha espécie se arrogou o direito de dizimar todas as outras, de torturar e de matar todas as outras assim, sem compaixão e sem remorsos?!

Com que direito alguém queima um animal vivo, de propósito?!

Deus do Céu.

Felizmente, várias pessoas me desmentiram! Era um hoax. Ufa! Pelo menos na Santa Casa não fazem isso. Minhas desculpas à Santa Casa. Que, coitada, deve estar sofrendo tanto com a quantidade de gente que caiu nessa que já fez até desmentido oficial:

"A Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo informa que a acusação que esta recebendo sobre experiências realizadas com animais para estudar níveis de queimaduras é absurda e leviana.
A Diretoria da Santa Casa jamais aprovaria este tipo de experiência.

Não existe, nem nunca existiu, qualquer tipo de experiência com animais queimados.
Informamos, ainda, que a Instituição possui um grupo de voluntários entre médicos e funcionários, que diariamente cuida das dezenas de animais, que são abandonados nos jardins da Santa Casa, alimentando-os e promovendo campanhas de castração.

Lamentamos muito que uma Instituição de Saúde, quatrocentenária, como a Santa Casa, que atende mais de oito mil pessoas por dia sofra tão, injustamente, com denúncias levianas e improcedentes."


Aqui nos comentários, Letra Morta escreveu:
"Notícias com os bichinhos são o seu backdoor cerebral né? A primeira infecção mental que te pegou foi aquela notícia contaminada sobre a toxoplasmose."
É verdade. Notícias ruins sobre animais me abalam completamente. São mesmo ó meu backdoor cerebral... ;-)

No caso da notícia sobre toxoplasmose, porém, foi o contrário: o backdoor foi na BBC BR, que juntou alhos com bugalhos, temperou, pôs fermento e condenou todos os gatos

Êta, nóis...




Há algum médico na casa?

O que é que a gente faz com uma porcaria de dor de garganta que simplesmente não passa?!



Campeãs!

Maria Lenk (88) e Mamãe (79 -- a de óculos), em Salvador, onde participaram do Campeonato Brasileiro de Masters de Natação. Campeoníssimas nas suas respectivas categorias!

Nesse específico campeonato, Mamãe ganhou todas as provas em que se inscreveu (seis individuais e quatro revezamentos). A Maria Lenk idem... :-D

As duas estão entre as dez mais da FINA (Federação Internacional de Natação). Maria Lenk, que é um ícone do esporte brasileiro, e foi a primeira mulher da América Latina a ir a uma Olimpíada, está até no Hall of Fame da natação, em Fort Lauderdale, na Flórida.

Tenho a maior admiração -- e a maior inveja -- da Mami e das suas super-amigas. Acho que aconteceu um mau contato na minha programação genética, porque detesto fazer exercício -- qualquer espécie de exercício. Saí pior até do que Papai que, nem ou mal, fazia, de forma regular e européia, longas caminhadas.

Em tempo: Maria Lenk se acidentou na sexta passada, mas já foi operada e passa bem. Ela está, porém, muito contrariada de perder a próxima etapa do campeonato...



Notícias do mundo, pelos amigos

As fotos podem não ser tão espetaculares, mas são mais íntimas do que qualquer coisa que se tenha (ou se possa) ver na imprensa: o Reino Unido explode em protestos no Fotolog. Aqui um grupo de escoceses encara o frio e faz vigília em Glasgow, ali mãos desconhecidas colaram, num poste, o cartaz que avisa que o assassino está chegando; num mercadinho, uma senhora faz seu protesto solitário; na rua, alguém acrescentou um H às letras que avisam, no asfalto, a parada de ônibus. Bus(h) Stop.

Enquanto isso, na área de comentários, os americanos agradecem a força, apóiam os protestos, vibram com a “recepção”:

“Eu tenho que dizer isso, ainda que saiba que o Fotolog não é político” — desabafa o grande Colorstalker (Tim Connor), um dos melhores fotógrafos da comunidade, no fotolog de um amigo virtual londrino. “Se você acha que Bush é um idiota completo e que, justamente por isso, é extremamente perigoso, por favor faça o que estiver ao seu alcance para tornar a visita dele ao seu país a mais desconfortável possível! Muitos americanos (que Deus perdoe meu país por sua teimosa ignorância) podem ser convencidos de que os franceses e outros europeus não são de confiança, mas os ingleses são geralmente bem-vistos (lutamos ombro a ombro em duas guerras, blá blá blá — e, ainda por cima, meio que falam a nossa língua!). Assim, uma demonstração maciça de resistência à Guerra Sem Fim aos Agentes do Mal vai ser difícil de ignorar por aqui. Precisamos expulsar esse cretino carola & sua corja de hiper-capitalistas da Casa Branca! ”

Pedidos para que os ingleses fiquem com Bush e não o deixem voltar são incontáveis; e algumas respostas são ótimas. Duas das que encontrei sugerem, coincidentemente, que ele seja despachado para uma outra ilha: Elba ou, melhor ainda, Guantanamo.

Num mundo menos selvagem, começamos a ver a mudança das estações. As cores de outono que coloriam os fotologs do Hemisfério Norte vão dando lugar a vários tons de cinza; no fim da semana passada, já nevava em diversos pontos do planeta. Mal posso esperar pelo verão, e pelo contraste entre as nossas fotos a 40 graus esturricantes graus contra as imagens geladas do povo lá de cima...

(O Globo, Info etc., 24.11.2003)


Comentários

Ontem à noite, o website do Fábio Sampaio, onde ficam hospedados os comentários, saiu do ar.

Isso significa que, até a coisa se resolver por lá, o blog está em mono, com um único canal...

É temporário, não se aflijam; logo estará resolvido.

Update: Já temos uma solução provisória. Os comentários estão funcionando em outro servidor. Os comentários antigos estão guardadinhos, podem deixar.


23.11.03





Sessão Nostalgia: com Paulinho, em 1971. Vocês não eram nem nascidos. Acho que nem eu...

21.11.03





Ontem fiz umas fotinhas bem legais do mar e de uns garotos que mergulhavam lá no Leme. Estão, claro, no Fotolog.










Sorria: você está recebendo um telefonema!


O foco não é lá aquelas maravilhas e a resolução podia ser melhor — mas, reparem, todas essas fotos foram tiradas com telefones celulares! Há poucos anos, a gente ficava admirada quando falavam; hoje, já acha normal que façam e enviem fotos... e até reclama do resultado. Estamos sendo exigentes demais com essas maquininhas que, afinal, são apenas o primeiro estágio evolutivo de uma nova forma de comunicação.

O MMS (Multimedia Messaging System, ou sistema de mensagens multimídia) promete ser uma revolução tão radical quanto, à sua época, foi o telefone. Naquele tempo, pessoas que se comunicavam por escrito passaram a se falar à distância; hoje, quem fala vai passar a transmitir imagens, registrando comentários visuais do seu cotidiano: as flores que chegaram direitinho, o carro que quebrou em pleno trânsito, a beleza da tarde. Essas pequenas imagens não devem ser julgadas pelos parâmetros habituais que se aplicam às fotografias (foco, resolução, profundidade de campo etc.) mas sim pela eficiência do recado, pelo inusitado da composição, pelo inesperado da cena. Elas são informação, e não memória.

O impacto da novidade é previsível. Hoje já se vendem mais celulares com câmera do que câmeras digitais. Junto com eles, porém, espalha-se pelo mundo uma onda de preocupação com a privacidade das pessoas: há países em que os telefones celulares já estão sendo banidos de áreas públicas, como bares e academias de ginástica.

O fato é que câmeras fotográficas criam, ao seu redor, um estado de alerta, permitindo aos possíveis alvos das fotos um mínimo de defesa. Mas os celulares com câmera, pequenos e ainda pouco conhecidos, não despertam nenhuma desconfiança. Resultado: milhões de fotos de gente pagando mico, na maior inocência, cruzam os ares rumo a outros celulares. Ou — pior! — rumo à internet, onde já existem vários blogs e fotologs que dispensaram o computador, sendo atualizados diretamente através de telefones.

Algumas empresas jornalísticas já descobriram o potencial dos celulares 3G. A principal delas é a BBC, que há cerca de um mês transmite, com regularidade, reportagens inteiramente produzidas nos telefones dos seus correspondentes. Todas deixando muito a desejar em termos de imagem — mas, em compensação, trazendo para o noticiário a visão, em tempo real, de um mundo em que tudo, afinal, é visível.

(O Globo, Info etc. especial sobre telefonia móvel, 20.11.2003)