Keaton, pensando no sentido da vida...
6.12.03
Haja pixel!
Um amigo me mandou, há alguns dias, o link para uma foto extraordinária, que só tive sossego para ver agora: uma imagem do Bryce Canyon montada a partir da colagem de 196 fotos de 6 Megapixels cada.São 40,784 x 26,800 pixels no total, ou seja, cerca de 1.09 bilhão de pixels.
É muito pixel!
Mais uma façanha de Max Lyons, que vem se dedicando a fazer imagens digitais cada vez maores e mais detalhadas. Para quem gosta de foto digital e lê inglês, passear por lá oferece bem mais do que lindas figurinhas.
5.12.03
Plantão Capivara
A capivara vascaína está ficando muito exibida!Logo depois de ser flagrada pelo Marcelo Soares, posou para o RockRJ, inteiramente na dela.
Já já começa a se queixar de que não agüenta mais a vida de estrela, e que os paparazzi não lhe dão sossego...
Notícias da Bia
A Bia está bem melhor.Além do tratamento médico de primeira que recebeu, várias distrações a estão ajudando a não pensar nas queimadurinhas.
A Mayra, amiga dela desde pequenininha -- sim, meninos, a Mayra (1m77) já foi pequenininha! -- está passando uns dias aqui em casa antes de seguir para Barcelona, para onde está se mudando de vez.
Os gatos, muito sensíveis, estão fazendo o que podem para mostrar que estão solidários: sobem no trabalho, mordem a canela, pedem colo.
Finalmente, um frila que era para ser uma entrevistinha simples, a ser entregue na semana que vem, revelou-se um compêndio de celebridades, com um monte de entrevistas... a ser entregue ainda hoje!
Resultado: o Bipe mergulhou em telefonemas, apurações, textos.
Foi dormir ainda agora.
Não só está doidinha, como está deixando a Mayra, aos gatos e a mim igualmente birutas.
Em suma, a casa voltou (quase) ao normal.
4.12.03
Um grande susto, uma grande amiga
Tivemos um acidente doméstico no domingo passado.A Bia foi pôr uma pizza no forno, que explodiu quando ela se abaixou para ver se estava ou não acesso. Eu, trabalhando sossegada no escritório, levei o susto da minha vida quando ouvi ao mesmo tempo o barulho e o grito dela; voei para lá, sem ter idéia do que havia acontecido -- o barulho podia ser qualquer coisa, de geladeira caindo a terremoto -- e a encontrei no meio de um monte de fuligem, com os cabelos ainda fumegantes, a cara toda preta, chorando de dor.
Coitado do meu bípede!!!
Passei a mão no telefone e liguei para a querida Dra. Vânia, que muitos de vocês conhecem como Bia Badaud. Cirurgiã plástica com grande experiência em tratamento de queimados mas, sobretudo, muito bom senso e muito coração, ela era exatamente a pessoa de quem a gente precisava.
Nós nunca havíamos nos encontrado em pessoa antes, mas, para mim, isso não fazia nenhuma diferença. De ler constantemente o que escreve, tanto aqui nos comentários quanto no seu próprio blog, eu tinha certeza de que não havia ninguém melhor para acudir a sua quase xará.
Dito e feito. Logo a nossa doutora estava aqui. Olhou a Bia, medicou-a, tranquilizou-a.
Tranquilizou igualmente a mãe da Bia, assaz assustada -- e que nem sabe como agradecer a competência, a atenção e o carinho da amiga. Que, no dia seguinte, como médica e amiga ciosa, estava de novo aqui, fazendo curativo, conversando, nos deixando contentes e alegres.
Felizmente, a maioria das queimaduras da Bia foi superficial; o nariz ficou um pouco mais bem passado do que devia, mas com os devidos cuidados não ficará marcado.
Ontem ela já voltou ao trabalho, onde foi prontamente apelidada de Rena do Nariz Vernelho.
PS: Com o coração do Keith Haring vai um agradecimento muito especial também para o Marquinhos, um dos nossos melhores amigos, também médico e muito querido, que acudiu com remédios, carinho e histórias engraçadas para fazer a gente rir depois do susto.
Há meninos brancos em Angola
E o céu de Silva Pinto, simplesmente magnífico"Não me digas que em Angola não há um garoto branco... um velho de olhar terno para fotografar?” — perguntaram, dia desses, ao Silva Pinto, o amigo angolano de tantos brasileiros, mestre em registrar os fatos (sem perder a ternura jamais). Uma provocação seguida do que eu, admiradora do seu trabalho, considerei no mínimo um desaforo: “Não alteres muito os tons ao céu com programas de fotografia... perde a graça.”
Não é à toa, porém, que o homem tem aquela elegância toda. Confiram sua resposta:
“Garoto branco, garoto negro, garotos “todos iguais, todos diferentes”, todos garotos, será que assim é, será que é assim que as coisas acontecem na minha realidade. Bom, como tu deves saber eu vivo em Luanda, Angola, vivo em África onde a população negra é maioritária. Em Luanda, há garotos brancos, sim, há meninos e meninas brancas, há meninos e meninas negras. Se me perguntares se vivem todos da mesma maneira, estou tentado a dizer-te, sem te mentir, que não, que a esmagadora maioria dos meninos negros da minha terra não vive da mesma maneira que a maioria dos meninos brancos.
Os meninos brancos de Luanda, são, em regra, filhos de expatriados trabalhadores das petrolíferas, das ONGs, das companhias estrangeiras, do Corpo Diplomático acreditado em Angola, e de poucos cidadãos europeus que por razões profissionais cá se fixaram ou por cá se deixaram ficar. Majoritariamente estrangeiros, portanto, vivem nos luxuosos e caríssimos bairros residenciais de Luanda, em enormes casas cercadas de muros altos bordejados de arame farpado ou cacos de garrafa com guarda fardado à entrada, não têm falta de água nem de electricidade, freqüentam as escolas privadas caras de Luanda, não andam a pé, deslocam-se de carro com motorista, não têm paludismo, têm piscina no jardim, não comem uma bucha sentados no chão, têm pai, têm mãe, têm cartão de vacinas, sabem onde nasceram, sabem o dia e a hora em que vieram a este mundo, têm brinquedos, têm sonhos de menino, não são surrados por dá cá aquela palha pelo primeiro que aparece e tem necessidade de descarregar raivas antigas, dormem o sono tranqüilo e fresco dos anjos velados por uma bábá de serviço (essa sim, quase sempre negra) que até fala a sua (deles) língua.
Fotografar estes meninos será sem dúvida tarefa interessante, será também tarefa muito árdua. Imagina tu o que me fariam se me apanhassem empoleirado num escadote de câmera apontada a fotografar as crianças loirinhas e lindas do Sr. Fulano de Tal, em amena brincadeira à volta de uma piscina, numa qualquer tarde quente? No mínimo seria acusado de qualquer coisa bizarra. Os meninos que eu posso fotografar são os meninos com quem eu cruzo na rua diariamente, que me chamam Tio, que têm fome (alguns), que sorriem, que choram, que brincam, que não têm guardas nem babás, que têm como piscina o charco no passeio feito pela última chuva ou pela conduta de água da Epal que estoirou e nunca foi reparada, que não têm hora de regressar a casa, ou porque simplesmente não a têm, ou porque ninguém os espera para jantar.
Os velhos de olhar terno, esse já é outro assunto. A esperança de vida em Angola, como deves saber, é de tal forma das mais baixas do mundo que encontrar um velho já é difícil, então encontrar um com olhar terno será, direi eu, um acaso muito feliz. Sabes, eu não exploro a miséria, seria até muito fácil para mim fazê-lo, nem a tristeza, eu não invento a dor nem o sofrimento, eu não fabrico poses nem sorrisos, eu não fabrico imagens chocantes pelo simples prazer de incomodar. Por uma questão de princípios e de respeito próprios, e pelos outros que fotografo, eu só capturo o que me toca, nada do que fotografo é falso ou artificial, tudo o que vês nas minhas fotos existe, é palpável, é natural, é verificável.
Vem ver ou pergunta a quem já viu, como é que é um céu da minha terra, um pôr-do-sol da minha terra. Quem sabe eles se lembrem e te digam que é… simplesmente magnífico. Se quiseres, os ajustamentos que faço às minhas fotos no computador são os mesmos que, há uns anos atrás, se faziam no ampliador, quando se escolhiam os tempos de exposição, fabricavam máscaras para proteger zonas e queimar mais outras, se utilizavam determinados reveladores e emulsões para se obterem determinados resultados. Se já fizeste cópias de contacto, tiras de teste, escolheste filmes e papéis em função de efeitos que queres criar, deves saber do que estou a falar. Os meus azuis são mesmo azuis, as minhas cores são mesmo cores. Não as altero, não as modifico, não as fabrico, estão aí para quem as quiser apanhar.
Agora, sejamos realistas, e deixemo-nos de falsos purismos. A fotografia é uma arte, é emoção, mas também é técnica. Ou por acaso supões que os grandes fotógrafos não usam filtros, não polarizam os céus, não ajustam contrastes? Se calhar, eles não o fazem, mas tem quem faça por eles…
Valha-me Nossa Senhora dos Recados, que isto hoje já vai longo.
Volta sempre.”
(O Globo, Segundo Caderno, 4.12.2003)
Outro texto que vocês leram antes aqui; mas achei que seria uma pena deixá-lo restrito ao universo ainda reduzido das pessoas que lêem blogs e vão ao Fotolog, tendo aquele lindo espaço disponível lá no jornal...
3.12.03
Plantão Capivara
A capivara do Vasco foi vista ontem!Fiquei muito contente, já não tinha notícias dela há alguns dias. O melhor é que, dessa vez, foi até fotografada.
Aí vai o relato do feliz caminhante que a encontrou:
"Ontem à noite, andando pela Lagoa, encontrei a famosa capivara! O bichinho estava em frente à igreja Nova Vida, logo depois do Clube Náutico, comendo o capim à beira d´água.Valeu, Marcelo, muito obrigada!
Não é que é enorme? Depois de três flashes ela resolveu ir embora, e calmamente mergulhou na água. Realmente um barato!"(Marcelo Soares)
2.12.03
Naturalmente
Um dia começaram a aparecer no Fotolog umas fotos deslumbrantes de bichinhos esquisitos, daqueles que costumam pôr a gente para correr, como cobras, sapos e outros seres escorregadios. As fotos eram macros gloriosas, tão boas que a gente jurava que o dono daquele específico fotolog, o Naturalmente, estava tirando aquelas maravilhas de publicações especializadas.E não é que estava mesmo? Mas não, não se trata de um caso descarado de plágio. Quem está por trás do Naturalmente é a portuguesa Isabel Catalão, fotógrafa especializada em répteis e anfíbios, e autora de algumas das mais lindas fotos de natureza que já vi. Várias delas vão, mesmo, parar nas grandes revistas e nos salões de exposições de museus e universidades do mundo todo, que Isabel percorre como conferencista.
Quando está em casa, ela colabora, particularmente, com o grupo de herpetologia do Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (ufa!). Quer dizer: pouca gente conhece cobras e lagartos como ela — e nem pensem que aqueles closes de serpentes sorridentes e sapos saltitantes se obtém com zoom, à distância. A moça é valente mesmo, e trabalha sempre a poucos centímetros dos seus modelos.
Nos momentos em que deixa o seu mundinho animal, Isabel Catalão fotografa os sítios históricos de Portugal — e, claro, dá um show de bola. Tinha que ser: afinal, castelos medievais não se mexem, não pulam e, sobretudo, não mordem. Para ver as fotos deslumbrantes dessa Indiana Jones das imagens, vá ao seu fotolog, em www.fotolog.net/naturalmente. E, para saber mais sobre ela (e ver mais umas fotinhas) vá ao seu website, em www.isabelcatalao.com.
Você nunca mais vai ver um sapo com os mesmos olhos.
(O Globo, Info etc., 1.12.2003)
Sim, sim, vocês leram (quase) o mesmo texto aqui antes.
Vantagens da publicação online, em geral, e do blog, em particular... ;-)
1.12.03
Uma espécie de Fotolog antigo
A Laura acaba de me ligar no auge do entusiasmo: descobriu The Web Gallery of Art, um dos websites mais bonitos do ciberespaço. Nele, há quase 12 mil reproduções de pintura e escultura européia produzida entre os anos 1150 e 1800. Muitas obras estão comentadas, há biografias dos artistas mais importantes e a navegação está extremamente bem resolvida.Os quadros podem ser encontrados usando-se os mais diversos critérios de busca; há visitas guiadas, que facilitam a compreensão da galeria e das ligações artísticas e históricas entre as obras; e pode-se até usar um navegador com tela dupla, que permite carregar dois quadros ao mesmo tempo, para facilitar comparações. Não há nenhum dispositivo impedindo a cópia das imagens, que podem também ser enviadas como cartões eletrônicos.
A galeria é um autêntico tesouro, uma espécie de Fotolog da Grande Arte. Permite até que se escute música do período que se está vendo. Não se recomenda a ninguém que precise realizar algum trabalho urgente (ou, aliás, qualquer tipo de trabalho) que vá até lá.
Em tempo: este site é húngaro...
30.11.03
Vamos ajudar a Suipa!
Muitos de vocês conhecem o Riccardo Naman aqui dos comentários. Ele é da Suipa, uma sociedade que realmente trabalha em prol dos animais de rua, e que sobrevive única e exclusivamente de doações e do trabalho de voluntários; não recebe um ceitil do governo.Pois lá no fotolog do Riccardo eu vi a imagem acima, com um pedido de help. Transcrevo o que ele escreveu:
"Chegou a hora de fazer um pedido aos meus amigos. Preciso que vocês me ajudem com uma cota de R$ 15, para que possamos comprar URGENTE uma unidade de resgate para a SUIPA. Tenho certeza de que não será dificil, e que vou conseguir isso dos meus amigos!Historinha edificante sobre nossos políticos: no governo passado, quando o Conde (é, esse mesmo, o vice-governador da Rosinha) era prefeito, prometeu à Suipa um grande terreno, onde os bichos poderiam ser bem abrigados. Foi uma festa -- que deu muitas matérias em todos os jornais, onde o Conde apareceu nas fotos, sorridente, ao lado do povo da Suipa e de alguns animais.
Precisamos salvar mais vidas.
Recebemos, diariamente, e-mails e telefonemas de pessoas que viram um animal ser atropelado e não têm como ajudá-lo, levá-lo para a SUIPA ou mesmo para outro veterinário... Também recebemos ligações de pessoas que querem esterilizar, vacinar, consultar seus animais e não têm carro, e de pessoas que querem doar jornais, produtos para o nosso bazar, eletrodomésticos, etc.
Infelizmente, por não ter um veículo próprio, a SUIPA quase nunca pode ajudar essas pessoas e, principalmente, ajudar os pobres FOCINHOS CARENTES que precisam de nós.
Pensando nisso, decidimos fazer uma campanha para angariar fundos e comprar um veículo. Pensamos em um Fiorino, do tipo furgão, que não é muito caro e pode ser adaptado para transportar gatos e cães de pequeno, médio e grande porte.
Para facilitar as doações, criamos cotas de valores pré-fixados:
Cota 1 - R$ 15,00 (são necessárias 1.670 doações para comprarmos o veículo) Cota 2 - R$ 25,00 (são necessárias 1.000 doações para comprarmos o veículo) Cota 3 - R$ 40,00 (são necessárias 625 doações para comprarmos o veículo) Cota 4 - R$ 65,00 (são necessárias 385 doações para comprarmos o veículo) Cota 5 - R$ 100,00 (são necessárias 250 doações para comprarmos o veículo)
Doacões poderão ser feitas -- até por cartão de crédito -- lá mesmo no SITE.
Quem quiser a conta para depósito, aí vai:
Banco Itaú
Agência 0584
Conta 32833-0
Favorecido: Sociedade União Internacional Protetora dos Animais
CNPJ: 00.108.055/0001-10
Só peço que me passem um email com o nome e dizendo que fez o depósito para naman@ajato.com.br."
MENTIRA.
Na época, eu mesma conversei com ele, que me garantiu que a situação estava encaminhada, resolvida, o escambau.
TUDO MENTIRA.
A Suipa nunca recebeu o tal terreno.
E eu vou me lembrar disso nas próximas eleições.
Alô, gente: socorro para os humanos, também...!
Escreve a minha amiga Bia Badaud, médica gente boa:"Os bancos de sangue do Rio 'tão vazios.
Tem gente morrendo, por isso, por aqui.
Só lembrando, porque aids você evita, e tal, já acidentes, nem sempre se evita.
Eu gostaria de ver uma campanha por doação de sangue, também.
Que fizesse as pessoas não só enfeitarem o blog, mas partirem pra ação.
Sei lá.
Ainda estou chocada com a morte do garoto a quem não pudemos ajudar, porque não tinha sangue nos bancos."
Gatinhos da Fal!
Tem gente que acha o máximo bicho com pedigree. Eu, por exemplo. A diferença é que o que eu considero pedigree é meio diferente do que as pessoas que curtem bichinhos de raça levam em conta.Por exemplo: estão disponíveis em São Paulo, nesse exato momento, alguns gatinhos da mais alta estirpe. São uns
Se você é paulista e sabe o valor que tem uma coisa dessas, corra. Acho que ela está aceitando encomendas pelo seu famoso Livro de Visitas.
29.11.03
Água!
Chove calamitosamente no Rio; sete pessoas já morreram. Pode, isso?! Gente ainda morrer por causa de chuva...A inauguração da árvore de Natal da Lagoa acontece hoje, sábado, às 20h. Rubber Vall sugeriu, e eu achei legal, a gente marcar um ponto de encontro para os fotologgers cariocas que estejam por lá e queiram dar um alô uns pros outros.
Na minha opinião, baseada em observação da festa nos anos anteriores, isso não vai ser muito fácil; mas, se a gente estiver na área, não custa tentar, né?
A idéia, então, é fazer uma espécie de mini meetup, às 19h, no primeiro quiosque do lado de Ipanema, logo depois da árvore para quem vem do túnel. Este quiosque é pequeno, fica meio escondido entre as árvores e é bem na beira da ciclovia.
28.11.03
Diálogo
Do Silva Pinto, extraordinário fotógrafo angolando, respondendo a um (como sempre!) anônimo covarde que se assinou "Black and White" nos comentários do seu fotolog:Black and White: "Não me digas que em Angola não há um garoto branco...um velho de olhar terno para fotografar? E já agora um pedido... não alteres muito os tons ao céu... com programas de fotografia... perde a graça... ao naturele... é bem mais bonito. Abraço!"É por gente assim que vale enfrentar os "engarrafamentos" do Fotolog, as centenas de adolescentes malcriados, as fotos que não sobem, os comentários que se perdem no ar, os spammers de guestbooks e todas as ciberpragas do mundo virtual.
Silva Pinto: "Garoto branco, garoto negro, garotos “todos iguais, todos diferentes”, todos garotos, será que assim é, será que é assim que as coisas acontecem na minha realidade.
Bom, como tu deves saber eu vivo em Luanda – Angola, vivo em África onde a população negra é maioritária. Em Luanda, há garotos brancos sim, há meninos e meninas brancas, há meninos e meninas negras. Se me perguntares se vivem todos da mesma maneira, estou tentado a dizer-te, sem te mentir, que não, que a esmagadora maioria dos meninos negros da minha terra não vive da mesma maneira que a maioria dos meninos brancos.
Os meninos brancos de Luanda, são em regra, filhos de expatriados trabalhadores das petrolíferas, das ONG’s, das companhias estrangeiras a operar em Angola, do Corpo Diplomático acreditado em Angola, e de poucos cidadãos Europeus que por razões profissionais cá se fixaram ou por cá se deixaram ficar. Maioritariamente estrangeiros portanto, vivem nos luxuosos e caríssimos bairros residenciais de Luanda, em enormes casas cercadas de muros altos bordejados de arame farpado ou cacos de garrafa com guarda fardado à entrada, não têm falta de água nem de electricidade, frequentam as escolas privadas caras de Luanda, não andam a pé, deslocam-se de carro com motorista, não têm paludismo, têm piscina no jardim, não comem uma bucha sentados no chão, têm pai, têm mãe, têm cartão de vacinas, sabem onde nasceram, sabem o dia e a hora em que vieram a este mundo, têm brinquedos, têm sonhos de menino, não são surrados por dá cá aquela palha pelo 1º que aparece e tem necessidade de descarregar raivas antigas, dormem o sono tranquilo e fresco dos anjos velados por uma bábá de serviço (essa sim, quase sempre negra) que até fala a sua (deles) língua.
Fotografar estes meninos será sem dúvida tarefa interessante, será tb tarefa muito árdua. Imagina tu o que me fariam se me apanhassem empoleirado num escadote de camera apontada a fotografar as crianças loirinhas e lindas do Sr. Fulano de Tal, em amena brincadeira à volta de uma piscina, numa qualquer tarde quente? No mínimo seria acusado de qualquer coisa bizarra. Os meninos que eu posso fotografar, são os meninos que eu cruzo na rua diariamente, que me chamam Tio, que têm fome (alguns), que sorriem, que choram, que brincam, que não têm guardas nem bábás, que têm como piscina o charco no passeio feito pela última chuva ou pela conduta de água da EPAL que estoirou e nunca foi reparada, que não têm hora de regressar a casa, ou porque simplesmente não a têm, ou porque ninguém os espera para jantar.
Os velhos de olhar terno, esse já é outro assunto. A esperança de vida em Angola, como deves saber, é de tal forma das mais baixas do mundo que encontrar um velho já é difícil, então encontrar um com olhar terno, será direi eu, um acaso muito feliz. Sabes, Black and White, eu não exploro a miséria, seria até muito fácil para mim fazê-lo, nem a tristeza, eu não invento a dor nem o sofrimento, eu não fabrico poses nem sorrisos, eu não fabrico imagens chocantes pelo simples prazer de incomodar. Por uma questão de princípios e de respeito próprios, e pelos outros que fotografo, eu só capturo o que me toca, nada do que fotografo é falso ou artificial, tudo o que vês nas minhas fotos existe é palpável, é natural, é verificável.
Vem ver ou pergunta a quem já viu, como é que é um céu da minha terra, um pôr do sol da minha terra. Quem sabe eles se lembrem e te digam que é…SIMPLESMENTE MAGNÍFICO. Se quiseres, os ajustamentos (contraste & brilho) que faço às minhas fotos no computador são os mesmos, que há uns anos atrás se faziam no ampliador, quando se escolhiam os tempos de exposição, fabricavam máscaras para proteger zonas e queimar mais outras, se utilizavam determinados reveladores e emulsões para se obterem determinados resultados. Se já fizeste cópias de contacto, tiras de teste, escolheste filmes e papéis em função de efeitos que queres criar deves saber do que estou a falar. Os meus azuis são mesmo azuis, as minhas cores são mesmo cores. Não as altero, não as modifico, não as fabrico, estão aí para quem as quiser apanhar.
Agora, sejamos realistas, e deixemo-nos de falsos purismos. A fotografia é uma arte, é emoção, mas tb é técnica. Ou por acaso supões que os grandes fotógrafos, não usam filtros, não polarizam os céus, não ajustam contrastes? Se calhar eles não o fazem, mas têm quem faça por eles…
Valha-me Nossa Senhora dos Recados, que isto hoje, já vai longo.
Volta sempre."
O curioso nessa história é que a minha percepção do trabalho do Silva Pinto sempre foi o oposto da do tal Black and White; o que eu mais gosto nas suas fotos é que ele não banaliza a miséria. Percebe-se a miséria, é óbvio, porque ela está lá; mas o que ele retrata é outra coisa, é o cotidiano, são as pessoas, eventualmente alegres, nos seus afazeres e nos seus momentos de lazer.
Em suma, ele está mais para Cartier Bresson do que para Sebastião Salgado, se é que vocês me entendem.
Em terra estranha
UM PASSAPORTE HÚNGARO"Um passaporte húngaro" engana na sua aparente simplicidade. O que parece ser uma espécie de gincana malsã pelos corredores da burocracia é, no fundo, uma reflexão sobre a impotência do indivíduo diante da engrenagem do estado — e, ao mesmo tempo, a comemoração dos seus pequenos e eventuais triunfos, perceptíveis numa estampilha aqui, num carimbo acolá.
Há bem mais do que a busca por um passaporte aqui, mas cabe ao espectador chegar às suas próprias conclusões sobre a História, sobre os dramas da imigração, sobre a tragédia da condição de estrangeiro.
Para mim, filha de judeus húngaros, ficou, acima de tudo, a sensação de que era da minha família que se estava falando. Não dos Rónai, em si; mas da minha família humana.
(O Globo, Rio Show, 28.11.2003)
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