14.8.07
13.8.07
12.8.07
Notícias do Irineu
A Famiglia Gatto ainda não adotou o Irineu. O coitado é muito carente, está tentando conquistar a Keaton (que, pelo menos, não faz mais FSSS! para ele) e a Netcat, que, ao contrário do que se imaginaria, não tem lá muita paciência com recém-chegados.
O Lucas, o Mosca e a Tati não querem papo de jeito nenhum; Pipoca e Tutu olham de longe.
A pata já está muito bem, mas ele ainda está fraquinho, com diarréia e dor para urinar -- apesar do exame de urina não acusar nada estranho.
Amanhã o Alex vem dar outra avaliada nele.
Irineu é mesmo muito mansinho e carinhoso; tem mania de ficar lambendo a gente, como se fosse um cachorro.
Tentei explicar a ele que gatos não fazem isso, mas não adiantou.
O Lucas, o Mosca e a Tati não querem papo de jeito nenhum; Pipoca e Tutu olham de longe.
A pata já está muito bem, mas ele ainda está fraquinho, com diarréia e dor para urinar -- apesar do exame de urina não acusar nada estranho.
Amanhã o Alex vem dar outra avaliada nele.
Irineu é mesmo muito mansinho e carinhoso; tem mania de ficar lambendo a gente, como se fosse um cachorro.
Tentei explicar a ele que gatos não fazem isso, mas não adiantou.
11.8.07
Do departamento
"Fale-me em cultura que saco a minha Lugger":
É, eu sei, estou fugindo ao Primeiro Mandamento de Millôr Fernandes, Não se amplia a voz dos idiotas. Mas é que, às vezes, o que um idiota escreve dá margens a boas respostas.Sem falar que espicaçar petista de vez em quando é uma ótima diversão.
"O que de fato incomoda Cora, e este post demonstrou, é a falta de cultura de Lula.É ou não é engraçado? A Laura respondeu:
Para Cora, o grande defeito do presidente é não ter aproveitado a oportunidade de adquirir a cultura que Cora e seus amigos possuem. O conhecimento dos clássicos... A cátedra na Sorbone de FHC, a postura nobre de um Serra.
Incomoda a nossa Cora a falta de refinamento cultural. Cora é culta e anda com os cultos, seu blog é culto, seus amigos tbm.
Cora sempre tão corretamente culta é capaz de textos bastantes agressivos, que destoam de outros textos seus e revelam uma outra Cora.
Cora no fundo é preconceituosa, mas não se deu conta. Que pena!"
"Nossa, a coisa está ficando braba. Chamar a Cora de culta, agora virou xingamento...A Mariana Martins também se manifestou:
Você me desculpe, mas eu ainda acho que cultura é importante, sim. Deve ser coisa de família, toda constituída por professores.
Você não acha, não? Que pena.
A cultura é o único legado que temos para transmitir a nossos filhos, e é uma grande maneira de evitarmos aquela coisa chata - a repetição da história. Mas de uns tempos para cá, como o seu comentário bem demonstra, valorizar a cultura é ser preconceituoso.
Legal mesmo é ser bem inculto, se possível bêbado, desonesto e cruel (e antes que alguém se revolte com as acusações: a carapuça vai servir em quem vesti-la).
Pelo que parece, cultura no Brasil de hoje é aquela coisa que não serve para nada, nem para os ricos - que a substituem por dinheiro e empáfia - nem para os patrulhadores de blogs, que a substituem por falsa humildade.
Mas raras vezes vi alguém assumir tal postura com semelhante orgulho... (Laura Rónai)
"aaaarrgghhhhh
me esforço para não ter preconceitos, de raça, credo ou nível social, mas de gente que não gosta de cultura EU TENHO PRECONCEITO!!!!
que horror!!!!!!!!!!!!!!!!
voce, do alto da sua empáfia anti-cultura, não percebe que esta é a única maneira de aproximar classes sociais????
porque se o sujeito gosta de arte, não me interessa a cor ou o credo (ou o "status"), vou ter como me aproximar dele.
se o sujeito é bronco, vamos nos enroscar em qualquer tópico...
não me interessa o ensino formal, me interessa o interesse de aprender sempre.
isso é cultura!" (Mariana Martins)
A coleção completa está logo aí embaixo, na resposta à Lu.
Fala, Matilda!
"Nossa, parece que ninguém aceitou o cházinho de camomila oferecido lá embaixo, os ânimos andam fervendo por aqui. Até o "¡No pasarán!" de La Pasionaria (frase original de Petain en Verdún) foi citado.
E agora é a classe média, não era a 'zelite' dominante que não queria o povo no poder?
Citando Dolores Ibárruri, que citava Emiliano Zapata, "Antes morir de pie que vivir de rodillas",
Eu vou de Sóror Joana Angélica: "Para trás, bárbaros. Respeitem a casa de Deus. Ninguém entrará no convento, a menos que passe por cima do meu cadáver!"
(Convento da Lapa, 19 de fevereiro de 1822, Guerra da Independência do Brasil)
Isso aqui é o meu país, TAMBÉM!
É o país da classe média TAMBÉM!
Não vai virar uma ditadura de novo, quero que os netos que um dia terei cresçam livres, podendo falar bem ou mal do governo sem ataques nem patrulhas.
Bom e prestável é só quem concorda, é? Se não concorda era 'zelite', agora é classe média burra 'que esperneia, cansadíssima', facista, da TFP, é vassalo do COISO, preconceituoso (preconceituoso é o pensamento da ministra que acha que não querer conviver com brancos é natural), é odioso, é da 'gangue de FHC', não acredita no Granma (esse jornal 'livre' que é o porta-voz do governo cubano, mas isso é só um detalhe, claro), etc e etc...
Ah! Me poupem, que a crise das bolsas está estourando:
(dados de ontem)O índice Dow Jones caiu 199,24 pontos, ou 1,5%, para 13.458,62. O Nasdaq caiu 1,4%. Na Austrália, o indice IDX apresentava uma baixa de 2,82%. Na Coréia, o índice KS11 perdia 3,97% de seu valor. O indice Nikei estava em baixa de 2,56%. O real teve desvalorização de mais de 2% diante do dólar, que atingiu R$ 1,927. A Bovespa fechou com queda de 3,28%, atingindo 53.430 pontos. O presidente americano, George W. Bush, tentou acalmar os mercados financeiros nesta quinta-feira, ao afirmar que a inflação e o desemprego permanecem baixos nos Estados Unidos e que "as bases da nossa economia são fortes".
Tá!
Sensação ruim de que vem crise por aí e, sabe andar de carro numa estrada cheia de curvas, buracos, despenhadeiros e você não confia no motorista?
Pois...
Tudo vai bem quando a economia vai bem...
Já vi que vou ter pesadelos: black friday agora, subprime, BNP Paribas, governo de países fortes injetando cordilheiras de dinheiro para segurar as bolsas e o mercado, fortunas de empréstimos para guerras burras devidas a Ásia, fortunas sem lastro, o mundo é meio ovo de codorna, bolhas, bolhas, bolhas, crash, crash, crash...
E o carro desgovernado na beira de um precipício e eu dentro dele...
¡No pasarán!
Aonde?!" (Matilda Penna)
10.8.07
Resposta à Lu
(dos comentários)
Lu, você, e quem mais quiser, tem, obviamente, plena liberdade de ser petista. E eu tenho (por enquanto) plena liberdade de achar que quem ainda defende o petismo e o Lula perdeu completamente o senso crítico.
Não tenho mais como discutir política com qualquer resquício de seriedade com gente para quem o PT e o Lula são dogmas intocáveis.
Acho patética a defesa habitual -- "a zelite não engole um trabalhador na presidência". Isso é de um primarismo assustador, até porque Lula já não era "trabalhador", no sentido demagógico da palavra, há décadas.
O que eu realmente não engulo na presidência (e em todos os níveis de governo) é o desperdício do dinheiro público, a corrupção, a falta de vontade de realizar as mudanças de que o país tanto precisa.
Não engolia com Sarney, Collor, Itamar e FhC, e continuo não engolindo com Lula. Roubo é roubo, não tem ideologia que perdoe.
Agora, o que eu detesto particularmente neste governo (entre tantas outras coisas) é a propaganda enganosa: um partido que sempre que se vendeu como o último reduto da moralidade batendo todos os recordes de corrupção anteriores, que já não eram pequenos.
Até eu, que nunca votei no Lula, e que achava que o PT faria um péssimo governo por falta de capacidade administrativa, jamais teria imaginado que, no poder, o PT roubaria tanto, e seria tão imoral, quanto qualquer PFL da vida.
Com a diferença que o PFL não se acha o sal da terra, a tal ponto que mudou de nome, já que de atitude não muda mesmo.
Voltando ao caso específico do Lula, o que me incomoda nele não é o fato de ter origens humildes. Isso a maioria de nós tem, no Brasil. O Millôr, órfão aos dez anos, chegou a dormir na rua. Eu mesma sou filha de imigrantes que chegaram com uma mão na frente outra atrás, fugidos do nazismo, e aqui tiveram que recomeçar a vida do zero. O Serra, que o PT tanto demoniza, é filho de feirante.
O que me faz desprezar o Lula (entre tantas outras coisas, como a covardia e a cara de pau de dizer que não sabe de nada) é a sua completa falta de curiosidade, a sua falta de vontade de aprender.
Se eu tivesse tido a sorte que ele teve, de ser sustentado por outros durante 30 anos, eu também não teria ido para uma universidade, porque acho estudos formais muito chatos. Mas teria aprendido mais línguas, teria lido mais livros, teria visto todos os filmes... enfim, teria feito o possível para me tornar uma pessoa mais rica, não na acepção dele, mas na minha.
Ao contrário do Lula, tive que trabalhar a vida inteira, e vou ter que trabalhar até morrer. O que eu ganho é o que me sustenta. Não tenho economias, não tenho ações, não tenho imóveis além do meu apartamento. Consegui criar dois filhos maravilhosos, ambos trabalhadores. Nenhum é um gênio reconhecido pela Telemar, nenhum conseguiu dinheiro suficiente para garantir o futuro da família pelas próximas dez gerações, mas me orgulho imensamente de ambos.
Sabe como é, eu sou antiga: ainda acho que a honestidade realmente não tem preço.
Não tenho mais como discutir política com qualquer resquício de seriedade com gente para quem o PT e o Lula são dogmas intocáveis.
Acho patética a defesa habitual -- "a zelite não engole um trabalhador na presidência". Isso é de um primarismo assustador, até porque Lula já não era "trabalhador", no sentido demagógico da palavra, há décadas.
O que eu realmente não engulo na presidência (e em todos os níveis de governo) é o desperdício do dinheiro público, a corrupção, a falta de vontade de realizar as mudanças de que o país tanto precisa.
Não engolia com Sarney, Collor, Itamar e FhC, e continuo não engolindo com Lula. Roubo é roubo, não tem ideologia que perdoe.
Agora, o que eu detesto particularmente neste governo (entre tantas outras coisas) é a propaganda enganosa: um partido que sempre que se vendeu como o último reduto da moralidade batendo todos os recordes de corrupção anteriores, que já não eram pequenos.
Até eu, que nunca votei no Lula, e que achava que o PT faria um péssimo governo por falta de capacidade administrativa, jamais teria imaginado que, no poder, o PT roubaria tanto, e seria tão imoral, quanto qualquer PFL da vida.
Com a diferença que o PFL não se acha o sal da terra, a tal ponto que mudou de nome, já que de atitude não muda mesmo.
Voltando ao caso específico do Lula, o que me incomoda nele não é o fato de ter origens humildes. Isso a maioria de nós tem, no Brasil. O Millôr, órfão aos dez anos, chegou a dormir na rua. Eu mesma sou filha de imigrantes que chegaram com uma mão na frente outra atrás, fugidos do nazismo, e aqui tiveram que recomeçar a vida do zero. O Serra, que o PT tanto demoniza, é filho de feirante.
O que me faz desprezar o Lula (entre tantas outras coisas, como a covardia e a cara de pau de dizer que não sabe de nada) é a sua completa falta de curiosidade, a sua falta de vontade de aprender.
Se eu tivesse tido a sorte que ele teve, de ser sustentado por outros durante 30 anos, eu também não teria ido para uma universidade, porque acho estudos formais muito chatos. Mas teria aprendido mais línguas, teria lido mais livros, teria visto todos os filmes... enfim, teria feito o possível para me tornar uma pessoa mais rica, não na acepção dele, mas na minha.
Ao contrário do Lula, tive que trabalhar a vida inteira, e vou ter que trabalhar até morrer. O que eu ganho é o que me sustenta. Não tenho economias, não tenho ações, não tenho imóveis além do meu apartamento. Consegui criar dois filhos maravilhosos, ambos trabalhadores. Nenhum é um gênio reconhecido pela Telemar, nenhum conseguiu dinheiro suficiente para garantir o futuro da família pelas próximas dez gerações, mas me orgulho imensamente de ambos.
Sabe como é, eu sou antiga: ainda acho que a honestidade realmente não tem preço.
9.8.07
Não tem perdão
Se eu acreditasse em Castigo Divino, estaria mais feliz imaginando que, um dia, em algum lugar, Lula teria de prestar contas pelo seqüestro (há versões conflitantes) pela devolução a Fidel dos dois boxeadores cubanos, assim como Getúlio já teria pago por ter entregue Olga Benário aos nazistas.
Num país onde boa parte da população é de imigrantes, onde tanta gente encontrou pouso seguro fugindo de ditaduras e, sobretudo, onde tanta gente se beneficiou da decência dos países para onde correu durante a ditadura daqui, entregar em tempo recorde dois homens inofensivos e indefesos a um país onde a tortura e a pena de morte são moeda corrente devia ser crime hediondo.
E se não é, na lei, é sim, do ponto de vista moral.
No outro dia ainda eu escrevi aqui nos comentários que não tinha problemas em me relacionar com quem defende Lula.
Fui precipitada.
Não há defesa possível quando o suposto dirigente de um país teoricamente livre como o Brasil presta vassalagem a um ditador, sacrificando inocentes em nome de meia dúzia de caixas de charutos personalizados.
Num país onde boa parte da população é de imigrantes, onde tanta gente encontrou pouso seguro fugindo de ditaduras e, sobretudo, onde tanta gente se beneficiou da decência dos países para onde correu durante a ditadura daqui, entregar em tempo recorde dois homens inofensivos e indefesos a um país onde a tortura e a pena de morte são moeda corrente devia ser crime hediondo.
E se não é, na lei, é sim, do ponto de vista moral.
No outro dia ainda eu escrevi aqui nos comentários que não tinha problemas em me relacionar com quem defende Lula.
Fui precipitada.
Não há defesa possível quando o suposto dirigente de um país teoricamente livre como o Brasil presta vassalagem a um ditador, sacrificando inocentes em nome de meia dúzia de caixas de charutos personalizados.

Irineu e os outros
Na segunda-feira retrasada, assim que cheguei da Espanha, tive que ir ao banco tratar de um assunto tenebroso; cheguei nervosa e saí arrasada. A agência fica num edifício que dá para o estacionamento do Globo e, por acaso, havia lá um gatinho abandonado que me seguiu, me esperou pacientemente na porta e, depois, me acompanhou até a entrada do jornal.Ali há uns bancos -- dos outros, bonzinhos, de madeira -- encostados à parede. Sentei para arrumar as idéias, gatinho ao lado. Gatos são ótimos conselheiros para toda a sorte de problemas. Percebem quando estamos aflitos e têm o poder de nos ajudar a pôr os dramas na devida perspectiva: são práticos e objetivos. Aquele filhote magro e sujo não era exceção. Ele sabia que eu precisava de apoio moral e me distraiu até que as nuvens mais negras se dissipassem
O dia seguinte era meu aniversário. O inferno zodiacal estava por pouco e, afinal, dinheiro é o de menos quando se tem saúde e felicidade. Para não falar na sorte, que inventa coincidências: como se a vida, ao me aprontar uma cilada absurda, oferecesse, com a outra mão, uma alegriazinha quadrúpede de consolo.
* * *
Na quarta, levei uma tigela e ração para o jornal. O gatinho estava magro demais, precisava comer. Minha idéia era cuidar dele lá, mantendo-o debaixo do olho, mas sem levá-lo embora. No estacionamento há um entra-e-sai muito divertido para um gato, e dócil como era, o pequeno alvinegro não teria dificuldade em fazer amigos. Cheguei e lá estava ele, dormindo encostado ao meio-fio, pronto para ser atropelado.Acordou quando me aproximei e se atirou à ração. Estava horrivelmente fedorento: debaixo da pata dianteira direita, que nem conseguia encostar no chão, havia uma ferida purulenta. Tentei descobrir o que acontecera. Ninguém fazia idéia. Tudo o que consegui saber é que o gatinho fora abandonado há cerca de uma semana, e que vinha emagrecendo desde então. Um dos rapazes do estacionamento já até comprara ração, mas o bichinho tinha medo dos fundos, onde ficam as motos, único lugar onde as tigelinhas de água e comida ficariam a salvo do pessoal da limpeza.
Trabalhei pensando no gatinho. Levá-lo para casa seria maluquice: a Família Gato, composta de sete véinhos rabugentos, não ia aceitar um pirralho novo assim sem mais nem menos. Por outro lado, do jeito que estava, o coitado não durava uma semana... Quando saí, peguei uma caixa de papelão, catei-o no estacionamento e fomos juntos para casa. Eu trataria dele e depois encontraria um bom lar para abrigá-lo.
Antes mesmo disso, porém, ele já tinha sido batizado pelo Nelson Vasconcelos:
-- Um gato no estacionamento? Tem que se chamar Irineu...
O Globo, para quem não sabe, fica na Rua Irineu Marinho, nome do fundador do jornal. O nome pegou na hora, até porque o Irineu tem muita cara de Irineu. Tem um jeito circunspecto e engraçado, acentuado por longos bigodes brancos.
* * *
Irineu passou a primeira noite em casa de quarentena, no quarto da Bia. Não causou maior comoção, porque os gatos mal me viram chegar. No dia seguinte tomou um banho que revelou que estava ainda mais magro do que parecia. O veterinário diagnosticou uma verminose daquelas e uma cistite enjoada. O machucado da pata, tirando a gravidade da infecção e o seu aspecto horroroso, não pedia outra coisa além de antibiótico. Ao todo, se tudo corresse bem, Irineu passaria dez dias lá em casa, em tratamento, antes de seguir seu destino.A quarentena foi mantida durante os próximos dias. Sempre que se traz um bicho novo para casa é bom deixá-lo separado dos outros por um tempo, para evitar eventuais contaminações e, também, para que os donos da casa se acostumem com o cheiro do recém-chegado, e com a idéia de que há mais um quadrúpede na área.
Aos poucos, fui liberando o Irineu: primeiro um tiquinho à toa, depois por períodos maiores. No começo muito fraquinho, ele basicamente me seguia até a sala, espichava-se no tapete e lá ficava. A Famiglia Gatto, extremamente cabreira, observava de longe. Os mais valentes se aventuravam: chegavam perto, cheiravam o forasteiro, cheiravam, cheiravam... e FSSSSSSSS!, saíam correndo.
Venho usando todos os meus truques de psicologia felina para que não se sintam mal. Faço de conta que não estou nem aí para o pequeno e me desmancho em carinhos com eles. Dou petiscos. Faço bolinhas de papel que atiro em todas as direções. Pois sim! Os véinhos me olham altaneiros e viram as costas, para que fique bem claro que estão me ignorando.
Enquanto isso, Irineu progride a olhos vistos. É um dos gatos de melhor índole que já conheci; não só aceita tomar remédio como,depois,se aninha no colo pedindo carinho. Está mais gordinho, a ferida da pata secou e, ante-ontem, saiu correndo pela casa, brincando com uma bolinha. Já anda interessadíssimo nos outros gatos.Acho que sua mãe deve ser uma tricolor, pois segue a Keaton para todo lado, chorando baixinho. Identifica-se com a Netcat, quase igual a ele, e tenta brincar com a Pipoca siamesa, que é pequenina e tem o seu tamanho.
Ainda não conseguiu conquistar ninguém -- a não ser o bípede de coração mole que escreve essas mal tecladas, e que desconfia que o Irineu nunca mais vai embora.
(O Globo, Segundo Caderno, 9.8.2007)
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Irineu
Na segunda-feira passada, assim que cheguei da Espanha, tive que ir ao banco lá do jornal, por um assunto de grana tenebroso; cheguei nervosa e saí arrasada. Mas havia lá um gatinho abandonado que me seguiu, que me esperou na porta do banco e que me acompanhou, miando, até a entrada do jornal.
Fiquei brincando com ele. Estava sujo, magro e fedorento, mas era um ronronante carinhoso e engraçado.
Na terça comemorei meu aniversário com o Millôrzinho. Falei sobre o gato, e sobre a coincidência de ele estar lá naquele momento: como se a vida, aprontando uma cilada absurda, oferecesse, com a outra mão, uma felicidadezinha quadrúpede como consolo.
Na quarta, levei uma tijela e um pouco de ração para o jornal; o bichinho precisava de comida. Quando fui procurá-lo, lá estava ele, dormindo encostado ao meio-fio, numa vaga, correndo risco de ser atropelado.
Acordo quando me viu e se atirou na ração. Percebi que a pata dianteira direita estava bem machucada: ele nem a encostava no chão. Enquanto isso, a Neide já vinha com duas tijelinhas e uma garrafa d'água -- um conquistador nato, o gatinho!
Os rapazes do estacionamento disseram que ele fora abandonado há cerca de uma semana. Eles tinham comprado ração, mas o bichinho tinha medo dos fundos, onde ficam as motos, e onde o pessoal da limpeza deixaria as tijelinhas quietas.
Depois que ele comeu bastante, conferi a pata. Estava inchada, cheia de pus, horrível. Não podia ficar daquele jeito. De modo que, quando vim para casa, peguei uma caixa de papelão e trouxe-o junto comigo.
Antes mesmo disso ele foi batizado pelo Nelson:
-- Um gato no estacionamento? Tem que chamar Irineu...
(O Globo fica na Rua Irineu Marinho)
O nome pegou na hora. Quando cheguei em casa, já o apresentei ao Zé como Irineu.
O Alex veio vê-lo no dia seguinte. Deu-lhe um banho, constatou que estava magérrimo (o pelinho meio longo disfarçava a magreza) e cheio de vermes. O machucado da pata, tirando a gravidade da infecção, não é sério.
No momento, ele está em quarentena no quarto da Bia. É um gato de ótima índole: tomou banho e se deixou secar com secador, aceita os remédios que eu dou e pede carinho o tempo todo.
A Famiglia Gatto está MUITO cabreira, e me dando o tratamento que mereço, ou seja, me ignorando solenemente.
Tento manter a paz fazendo muito carinho em todos, distribuindo atum, frango e fígado, mas, com exceção do Mosca, que faz qualquer negócio por comida, os outros não estão embarcando nessa -- comem os petiscos e continuam me dando um gelo.
Hoje de manhã deixei o Irineu passear pela casa. Ele está muito curioso em relação aos gatos, mas até agora só tomou FSSSSS pela proa.
Normal.
Voltou pro quarto, de onde vai sair aos pouquinhos.
A minha idéia inicial era cuidar dele para passá-lo adiante, mas tenho a impressão de que, como a Pipoca, a Tutu e o Mosca, os outros "temporários", ele já se estabeleceu...
Fiquei brincando com ele. Estava sujo, magro e fedorento, mas era um ronronante carinhoso e engraçado.
Na terça comemorei meu aniversário com o Millôrzinho. Falei sobre o gato, e sobre a coincidência de ele estar lá naquele momento: como se a vida, aprontando uma cilada absurda, oferecesse, com a outra mão, uma felicidadezinha quadrúpede como consolo.
Na quarta, levei uma tijela e um pouco de ração para o jornal; o bichinho precisava de comida. Quando fui procurá-lo, lá estava ele, dormindo encostado ao meio-fio, numa vaga, correndo risco de ser atropelado.
Acordo quando me viu e se atirou na ração. Percebi que a pata dianteira direita estava bem machucada: ele nem a encostava no chão. Enquanto isso, a Neide já vinha com duas tijelinhas e uma garrafa d'água -- um conquistador nato, o gatinho!
Os rapazes do estacionamento disseram que ele fora abandonado há cerca de uma semana. Eles tinham comprado ração, mas o bichinho tinha medo dos fundos, onde ficam as motos, e onde o pessoal da limpeza deixaria as tijelinhas quietas.
Depois que ele comeu bastante, conferi a pata. Estava inchada, cheia de pus, horrível. Não podia ficar daquele jeito. De modo que, quando vim para casa, peguei uma caixa de papelão e trouxe-o junto comigo.
Antes mesmo disso ele foi batizado pelo Nelson:
-- Um gato no estacionamento? Tem que chamar Irineu...
(O Globo fica na Rua Irineu Marinho)
O nome pegou na hora. Quando cheguei em casa, já o apresentei ao Zé como Irineu.
O Alex veio vê-lo no dia seguinte. Deu-lhe um banho, constatou que estava magérrimo (o pelinho meio longo disfarçava a magreza) e cheio de vermes. O machucado da pata, tirando a gravidade da infecção, não é sério.
No momento, ele está em quarentena no quarto da Bia. É um gato de ótima índole: tomou banho e se deixou secar com secador, aceita os remédios que eu dou e pede carinho o tempo todo.
A Famiglia Gatto está MUITO cabreira, e me dando o tratamento que mereço, ou seja, me ignorando solenemente.
Tento manter a paz fazendo muito carinho em todos, distribuindo atum, frango e fígado, mas, com exceção do Mosca, que faz qualquer negócio por comida, os outros não estão embarcando nessa -- comem os petiscos e continuam me dando um gelo.
Hoje de manhã deixei o Irineu passear pela casa. Ele está muito curioso em relação aos gatos, mas até agora só tomou FSSSSS pela proa.
Normal.
Voltou pro quarto, de onde vai sair aos pouquinhos.
A minha idéia inicial era cuidar dele para passá-lo adiante, mas tenho a impressão de que, como a Pipoca, a Tutu e o Mosca, os outros "temporários", ele já se estabeleceu...
3.8.07
Intel inside
Mais uma semana de noticiário, e seremos 189 milhões de especialistas em aeronaves...
Descoberta curiosa do Galante: o Airbus trabalha com dois sistemas diferentes, um baseado num chip Motorola 68000, o outro num Intel 80186.
Os spoilers são controlados pelo sistema Intel.
Descoberta curiosa do Galante: o Airbus trabalha com dois sistemas diferentes, um baseado num chip Motorola 68000, o outro num Intel 80186.
Os spoilers são controlados pelo sistema Intel.
2.8.07
Entre a Idade Média e a banda larga
Gilberto Gil está prestes a entrar no palco montado na arena de touros de Zaragoza, Espanha. Lá, pouco antes, o público misturado de brasileiros e espanhóis enfrentara, com notável resignação, a apresentação de uma mocinha bonitinha, chatinha e bem intencionadinha, que cantou as dores do mundo e adormeceu meia platéia. De repente, ouve-se aquela voz burocrática que lembra aos espectadores que devem desligar os celulares, e que é proibido fotografar ou filmar o espetáculo.Só que, na abertura de “Banda larga”, a voz informa que se pode filmar, fotografar e gravar à vontade. Como nos bons tempos do Grateful Dead, a arte é livre. Quando a cortina se abre, há, previsivelmente, um mar de câmeras, filmadoras e celulares clicando em frente ao palco. Aqui e ali ouvem-se os lamentos de quem deixou a máquina em casa.
A simples presença de Gil levanta o povo que cochilava nas cadeiras. Antes mesmo que ele abra a boca, todos já estão de pé, elétricos, aos pulos. A emoção dos brasileirinhos de Zaragoza é contagiante e comovente; ali eles estão de novo em casa, dançando e cantando o que conhecem, na língua em que cresceram. Os espanhóis demoram um pouco a pegar, mas logo entram no clima. Festa total. Gil conversa com a platéia em castelhano; em dado momento, embatuca numa palavra, pede ajuda aos brasileiros. O socorro é imediato.
-- Quando eu contar lá em casa que corrigi o ministro da Cultura, ninguém vai acreditar! – vibra uma garota, deslumbrada.
Muitos dos vídeos e fotos produzidos pelo público durante a turnê, que começou em Aveiro em 6 de julho e termina em Marciac em 6 de agosto, pipocam pela internet, no You Tube, no Flickr, no Fotolog e na própria página de “Banda larga”, no vaivém que é a essência da rede, e que Gil compreendeu como poucos.
* * *
No dia anterior, em Valencia, eu estava trancada num centro de convenções gigantesco, dividindo a banda mais larga que já encontrei na vida com cerca de seis mil pessoas, num acampamento nerd chamado Campus Party. Lá havia de tudo, de gente construindo pequenos robôs engenhosos a desenvolvedores de jogos e aplicativos, passando pela vasta maioria a quem só interessavam mesmo os games e a velocidade alucinante com que se podiam baixar coisas.Tudo completamente século XXI, das máquinas poderosas ao combustível dos pilotos: alguns chegavam a montar as latinhas vazias do Red Bull que os mantinha pilhados em torres imensas e estruturas complexas. A qualquer hora do dia ou da noite em que se entrasse num dos dois pavilhões, havia gente conectada; a idéia geral era deixar para dormir depois, quando se voltasse para casa. Campeonatos eletrônicos se sucediam, celulares e computadores eram hackeados diligentemente.
* * *
As quatro horas de estrada que separam Valencia de Zaragoza atravessam o coração rural da Espanha. A paisagem, imemorial, é a mesma que se vê, com poucas variações, em séculos de pintura, das iluminuras caprichosamente pintadas pelos monges da Idade Média às telas de Van Gogh: campos infindáveis de feno, girassóis a perder de vista, o céu azul de doer. Fora da estrada, o silêncio é tão poderoso quanto o sol. Há pássaros, às vezes, mas a sensação predominante é a de uma estranha suspensão do tempo. Nossos ouvidos urbanos não estão mais acostumados à terra em estado bruto, ao ar parado em que não se ouve sequer o farfalhar de uma folha.Os campos são pontilhados por velhas casas de pedra abandonadas e pequenas aldeias fantasma. Essas são as testemunhas mais eloqüentes das mudanças que aconteceram no século passado. Onde antes eram necessárias dezenas de pessoas para cuidar da terra, hoje basta meia dúzia de operadores de máquinas. Perdeu-se em poesia, ganhou-se em produtividade. Não se pode ter tudo.
* * *
Castelos em ruínas enfeitam o alto dos montes. O mais espetacular é o de Daroca, onde parte das muralhas que cercavam a cidade ainda está de pé. Um habitante do século XV não notaria grande diferença no traçado das ruas e na disposição das casas, e penso como será passar a vida nesse povoado onde o tempo parou. Fico com a impressão de que não há televisão ou internet capazes de romper a barreira das muralhas, das cabeças e das almas, da vida pequena, das casas habitadas por gerações e gerações consecutivas, da repetição infinita do trabalho do campo. A beleza da vista lá do alto é de tirar o fôlego, já bastante reduzido pela subida íngreme num calor de 40 graus. Aproveito a ocasião para agradecer ao Todo Poderoso por não ter nascido lá.* * *
Saí na quinta-feira de Valencia, assisti ao show do Gil e voltei de Zaragoza na sexta. O que era para ser apenas uma quebra na rotina da Campus Party acabou virando uma viagem metafísica. Eu ainda estava pensando em quantos séculos atravessei naqueles dois dias, em quantas centenas de anos foram devoradas pelas instruções lacônicas do GPS do carro – “a duzentos metros prepare-se para virar à esquerda”, “siga em frente”, “saia pela saída” – enquanto subia a ladeira que levava à Feira de Valencia, situada num bairro de periferia.Ao lado do cemitério, na rua tinindo de limpa, vizinhos conversavam em cadeiras dispostas na calçada. Um vira-lata dormia no chão, dois gatos olhavam de longe e, no céu, os primeiros contornos de uma lua quase cheia prometiam uma noite linda.
Cumprimentei as pessoas com um aceno de cabeça, como se fazia antigamente, virei a esquina e entrei no prédio frio e monumental da Feira. Estava de volta ao século XXI.
(O Globo, Segundo Caderno, 2.8.2007)
1.8.07
Feitiço contra feiticeiro
Há mais de um mês encomendei na Amazon, antecipadamente, o meu exemplar de Harry Potter.
Até agora não chegou.
Já esbarrei com o livro na Espanha e em todas as livrarias daqui, já sei a história toda e estou me segurando para não comprá-lo de uma vez.
O pior é que dois livros que encomendei depois chegaram hoje direitinho, bem dentro do prazo.
* suspiro *
Até agora não chegou.
Já esbarrei com o livro na Espanha e em todas as livrarias daqui, já sei a história toda e estou me segurando para não comprá-lo de uma vez.
O pior é que dois livros que encomendei depois chegaram hoje direitinho, bem dentro do prazo.
* suspiro *
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