7.4.05




Mundos sujos: ficção e realidade

Um ótimo livro cubano e uma pergunta às autoridades que defendem Duda Mendonça, o Intocável

"Entro numa farmácia e encontro uma prateleira estocada com dez marcas de escovas de dentes, cada uma oferecendo dez modelos diferentes; cada modelo, dez cores; cada cor, dez escovas pendendo de ganchos. Deve haver umas dez mil escovas de dentes em exibição e os fregueses caminham alheios à abundância que os cerca; os dez mil esmaltes de unha; os dez mil prendedores de cabelo; os dez mil batons."

Por acaso, fui para Miami com um livro singularmente apropriado para a viagem: "Mundos sujos", de José Latour. Eu não sabia nada a respeito do livro ou do autor, exceto pelos blurbs da capa e da contra-capa, isto é, aquelas frases pinçadas de resenhas assinadas por gente de quem nunca ouvimos falar, ou recortadas de jornais que não lemos ou nos quais já perdemos muito da fé, como o New York Times -- mas que, apesar de tudo, continuam a exercer com bastante eficiência o papel de propagandistas:

"Latour mantém o suspense e apresenta grandes surpresas... Uma visão iluminadora da condição cubana" (The Times); "Um romance notável" (Washington Post); "Uma leitura rica e veloz" (Los Angeles Times); "Um romance bom demais para ser encerrado dentro de um gênero" (The New York Times).

Para minha felicidade, desta vez era tudo verdade, a começar pela entusiástica declaração do NYT, estampada na capa. "Mundos sujos" é, de fato, um bom policial, mas o que o faz um ótimo livro é a sensível contraposição de dois estilos de vida igualmente decadentes e viciados, ainda que totalmente distintos.

De um lado, a Havana miserável dos cubanos desprotegidos, destituídos de tudo, inclusive (e sobretudo) de fé em Fidel Castro; do outro, a Miami resplandecente do consumismo desenfreado e arrogante, onde ter é cada vez mais importante do que ser.

A ligação entre esses dois universos diametralmente opostos é Elliot Steil, pacato professor cubano sem grandes ambições que, por artes do destino, acaba em Miami, enredado simultaneamente numa vendetta inesperada e num interessante e plausível caso de amor com Fidélia, mulher de boa formação que chegou ao mesmo tempo da ilha e que, como ele, tenta encontrar algum sentido no novo país.

É dela a voz do primeiro parágrafo, que pesquei de um recurso comum, mas muito bem usado por Latour, para manter certa distância entre a trama policial e as considerações filosóficas que tece sobre seus dois mundos: às vésperas de empreender a travessia que vai mudar a vida da família, Fidélia decide escrever um diário da aventura. Assim, enquanto Elliot age, ela questiona o que deixou para trás e o que vê à sua volta.

* * *

José Latour, o autor, mora em Havana, tem 65 anos e já escreveu sete livros. Este é seu primeiro romance em inglês, idioma no qual tem um título muito mais sutil do que este "Mundos sujos" que lhe pespegaram em português. Chama-se "Outcast", desajustado, pária, pois assim é o seu protagonista, visto com desconfiança em Havana, e pouco à vontade em Miami.

Sem amigos no Partido Comunista, sem parentes que lhe mandem dólares dos Estados Unidos, Elliott é obrigado a se virar, em Cuba, com um salário de professor, que dá pouco mais de dois dólares por mês. Como tantos de seus compatriotas, vive no limite da sobrevivência, sustentado, aqui e ali, por uma teia de pequenas infrações. Não é uma vida boa ou digna; mas não são as dez mil escovas de dente da farmácia de Miami que podem preencher as lacunas de nostalgia das vidas que um mundo sem solução deixa à deriva.

Latour não doura nenhuma das pílulas que oferece ao leitor. Cuba só parece mais humana porque nela Elliott está em casa; ainda assim, não há nenhuma compaixão à vista nas revelações de Fidélia, que expõem a perversidade natural da miséria. Tampouco há salvação no consumismo selvagem de Miami, que há tempos perdeu qualquer fio terra com as reais necessidades humanas. Não há ninguém inteiramente honesto em lugar algum, embora de um lado e de outro se encontrem pessoas bem intencionadas.

Já é muito, e está de bom tamanho.

* * *

Enquanto isso, no mundo sujo de cá, os policiais que tiveram a audácia de prender Duda Mendonça, o Intocável, continuam a ser implacavelmente perseguidos. Numa entrevista à revista "Consultor jurídico", o delegado Antônio Rayol revelou que ele e seus colegas já foram chamados para se explicar em cinco diferentes sindicâncias apenas nos dois últimos meses -- e ainda podem sofrer as conseqüências de um processo disciplinar.

Eu só queria saber a quantas sindicâncias o Marqueteiro Mor do Rei, notório torturador de aves preso em flagrante, teve que responder no mesmo período.


(O Globo, Segundo Caderno, 7.4.2005)

6.4.05



Apesar disso...

Fenomenal esta panorâmica da Praça de São Pedro que descolei lá no Pedro Dória; apenas desliguem o som, porque é daqueles sites que atacam com música.


Feeding frenzy

Escrevi um comentário enorme ao post anterior; aí, quando ele estava prontinho, a Keaton pulou em cima da mesa e mandou tudo pro espaço...

* sigh *

Agora vou escrever aqui, que é à prova de gato.

"Feeding frenzy" é a expressão que se usa para definir a maluquice que dá nos tubarões quando sentem sangue na água; eles ficam ensandecidos e desandam a devorar tudo o que vêem pela frente, inclusive uns aos outros.

Às vezes se usa em relação à mídia.

Pois acho que estamos assistindo ao maior feeding frenzy de todos os tempos.

Uma série de fatores leva a isso e, de todos, a fé talvez seja o menos importante.

Para início de conversa, morreu o rosto mais conhecido do planeta -- que era, simultaneamente, o líder espiritual de uma parcela considerável do mundo ocidental, e o chefe de um estado com prática milenar na organização de Grandes Eventos.

Nem a Coroa Britânica consegue fazer melhor. Não só o Vaticano é insuperável no cerimonial, como tem um cenário imbatível, o que é elemento fundamental em termos de mídia.

De modo que TODAS as grandes emissoras de TV mandaram para Roma seus principais correspondentes; que, uma vez lá, precisam justificar o dispendioso deslocamento produzindo o máximo possível de material.

Nenhuma emissora quer, ou pode, correr o risco de não dar algo que outra tenha dado; nenhuma quer, ou pode, perder a chance de mostrar aos telespectadores como é ágil, dinâmica e antenada com os acontecimentos e sentimentos do mundo.

Quanto mais gente vai para o Vaticano, mais se justifica a cobertura monstruosa -- que mostra, sem parar, quanta gente está chegando.

Ora, quanto mais gente a TV mostra, mais gente quer ir.

Ninguém quer ficar de fora da festa -- porque no fundo é isso, uma tremenda festa. Não duvido nada que logo apareçam ambulantes vendendo camisetas-souvenir do enterro do papa, se é que já não apareceram.

Primeiro se falava em um milhão de fiéis velando o papa; depois, em dois milhões; agora, já se fala em quatro milhões.

Também não há chefe de estado que não queira aproveitar essa magnífica oportunidade de aparecer sem precisar dizer nada além de banalidades. É prestigioso estar lá, ao lado dos demais chefes de estado. Igualmente envaidecidos por estarem lá, entre outros chefes de estado.

E aí a cobertura aumenta, porque cada emissora mostra não só a chegada do seu chefe de estado particular e de sua comitiva, como a dos grandes líderes mundiais.

Para não falar nas autoridades de maior ou menor escalão, nos severinos, nos diplomatas, nos príncipes da igreja, nas celebridades ou nas freirinhas a caráter que dão aquele toque tão característico à cerimônia.

Ou, Deus nos livre, do atentado terrorista que todos temem mas que tantos, secretamente, esperam -- mais ou menos como os espectadores de Fórmula 1 que assistem as corridas esperando pelo desastre que vai render tantas imagens, vistas de todos os ângulos, em todos os telejornais.

É uma ocasião verdadeiramente única.

Nunca se viu nada igual, até porque, quando o outro papa morreu, o mundo foi pego de surpresa -- e a era das celebridades ainda não tinha começado.

Ao mesmo tempo, o papa é talvez a única super-celebridade a respeito de quem a mídia pode criar todo este auê sem ser acusada de futilidade -- ou sem, honesta e sinceramente, se sentir fútil.

Há católicos espalhados pelo mundo todo; e mesmo não católicos têm sido triturados, com competência, pelas gigantescas engrenagens do marketing da piedade a bom mercado.

Vejam quantos líderes espirituais de outras religiões já não se manifestaram; e pensem em quantos mais não estão loucos para se manifestar, para fazer coro com o mundo e, assim, confirmarem que são pessoas de prestígio, cuja voz é digna de ser ouvida em tão grave momento.

Quanto mais a onda cresce, mas cresce a onda.

A morte de Lady Di, em que a mídia alimentava os populares que alimentavam a mídia, foi uma pequena amostra do que nos espera.

E, naquela ocasião, ainda havia uma ou duas vozes de bom senso para lembrar que, afinal, o mundo continuava girando.

Agora, percam as esperanças; o mundo enguiçou de vez.

É um ótimo momento para dar um tempo na televisão e por os livros e os filmes em dia.

5.4.05



* sigh *

Como é que nós vamos resistir a esta cobertura lamuriosa da morte do papa?!

De hoje a sexta, gente aos prantos, locutores de voz embargada, especulações sobre o próximo papa, biografias dos brasileiros bem cotados, etc.; na sexta, o enterro.

Perdão, o enterro, só assim, não: O MAIOR ENTERRO DE TODOS OS TEMPOS.

Dá pra imaginar?

No sábado, o day-after; no domingo, um apanhado da semana inteira; na segunda, as romarias de fiéis...




Olha só quem virou a Musa do Movimento...


Por falar nisso...

Só para constar:

O promotor Márcio Mothé Fernandes, do MP/RJ, "convidado" a depor na sindicância que apura as supostas "irregularidades" cometidas pelos policiais que tiveram a má idéia de prender Duda Mendonça, o Intocável, mandou este email para o delegado Antônio Rayol:
"Caro Dr. Rayol,

lamento profundamente as notícias que tenho lido na imprensa acerca da diligência que presenciei. Como tenho reiterado, nenhuma irregularidade foi por mim presenciada, do início ao fim da peração. Sinceramente, não imaginava que a Polícia Federal do meu País fosse uma instituição que sofresse tamanha influência política, o que muito me envergonha.

Independente de tudo, vi aves torturadas por pessoas transgressoras da lei, cabendo exatamente aos agentes da lei a prisão dos criminosos, sob pena até mesmo de prevaricação. Sugiro que o Dr. Homero Freitas, coordenador da Central de Inquéritos do Ministério Público Estadual por dois mandatos consecutivos também seja ouvido, além das outras duas promotoras (Ana Lúcia Mello e Ana Paula Petra).

Não consigo entender como um policial com quase três décadas de atuação, cumprindo o seu munus, respaldado por quatro promotores responsáveis por todas as áreas de atuação (crime ambiental, coordenação criminal, menores e crimes na circunscrição da Barra) sofra punições por ter cumprido o seu papel.

Torço para que o órgão de proteção da classe de vocês, assim como a nossa Associação do MP e a CONAMP os defenda.

Um forte abraço e que Deus continue iluminando as pessoas sérias e idealistas, que pautam suas carreiras na lei, sobremaneira na Magna Constituição, que manda aplicar a lei a todos, indistintamente.

Márcio Mothé."
Tudo o que eu posso acrescentar é que não é apenas o promotor que se envergonha pelo país diante do que está acontecendo.

4.4.05



Disse tudo

Jabor, para variar, dá um show de bola.

Acho que se deixou influenciar um pouco pelo melodrama 24/7 armado pela TV em torno do papa, mas ainda assim mandou muito bem -- e, sobretudo, chegou a uma conclusão irretocável:
"Se há alguma coisa de que precisamos hoje é de uma nova ética, de um pensamento transcendental, de uma espiritualidade perdida."


Shrek II

Depois de 34 anos, Charles e Camilla superaram todos os obstáculos e, finalmente, estão prontos para se casar. Enfrentaram a rainha, os súditos e a imprensa, e mudaram o lugar e a data da cerimônia diversas vezes, até, finalmente, há coisa de um mês, decidirem pela próxima sexta-feira, dia 8 de abril.

Mesmo dia do enterro do papa.

Ao qual -- diz a BBC -- Charles, como representante da Coroa Britânica, terá que comparecer.

* sigh *

Não, realmente não se fazem mais contos de fada como antigamente.


Afinal, quem este delegado pensa que é?!

O delegado Antonio Rayol, responsável pela prisão do marqueteiro Duda Mendonça numa rinha de galos foi, como todo mundo já sabe, afastado do cargo.

O que nem todo mundo sabe é que o delegado e os colegas que participaram da operação vêm, desde então, sofrendo prejuízos de toda a ordem, inclusive familiar.

Numa entrevista à rádio da Federação Nacional dos Policias Federais, Rayol revela que ele e seus colegas já foram chamados para se explicar em cinco sindicâncias apenas nos últimos dois meses, e ainda podem sofrer as conseqüências de um processo disciplinar.

Também, quem mandou mexer com o amigo do rei?!

Duda Mendonça, enquanto isso, continua livre, leve, solto e... miliardário. Goza do maior prestígio junto ao governo, que resolveu premiá-lo com mais algumas contas publicitárias para que nos engane com o nosso próprio dinheiro e, provavelmente, continua se dedicando às brigas de galo.

Agora, afinal, a polícia já está devidamente alertada para o que acontece a quem ousa importuná-lo.






M3: Miami a mil

Antigamente, todos os telefones tocavam do mesmo jeito. Naquela época remota, a única forma de fazer um barulho suficientemente alto para chamar a atenção era instalando uma campainha nas caixas dos aparelhos. O tempo passou mas, embora novos ruídos tenham sido inventados, até hoje os telefones fixos continuam repetindo variações monocórdias do velho trrrim trrrim de seus ancestrais.

No mundo da telefonia móvel, porém, passado aquele primeiro momento em que mais de cinco variantes eram luxo, o som virou rei; tanto que a primeira coisa que alguém faz quando compra um aparelho novo é escolher um toque que combine com o seu estado de espírito. As antigas campainhas sobrevivem a título de gozação ou nostalgia; a associação entre os celulares e a música vem de berço, e a cada dia torna-se mais intensa.

Na semana passada, no M3, Miami Music Multimedia, trepidante evento que junta, num saco só, música eletrônica, moda, tecnologia, arte digital e marketing, uma das vertentes mais quentes do temário foi esta ligação -- dos ringtones, hoje uma das maiores fontes de renda de artistas e produtores, à evolução inevitável dos celulares à categoria de players, verdadeiros iPods falantes.

Dançando com a música

Para a Motorola, patrocinadora do evento, este caminho é tão evidente que fala (ou toca) por si só: praticamente todos os seus novos telefones podem ser usados como rádios e/ou players, graças a cartões de memória que prometem chegar, breve, aos 2Gb, e a micro-altofalantes que simulam surround sound em 3D.

A ênfase na música é tão grande que o V360, um dos aparelhos apresentados em Miami, não tem, a rigor, nada demais — exceto o conteúdo, 100% MTV. Neste modelo, além dos ringtones e wallpapers, também as imagenzinhas para MMS têm o look característico da emissora. A linha se chama "Seqüestrados pela MTV".

-- Antes a gente fazia o que a tecnologia nos permitia fazer -- diz Jean-Pierre Le Cannellier, diretor de estratégia para a América Latina. -- Agora podemos nos dar ao luxo de fazer aparelhos que as pessoas querem ter, que são objetos de desejo. Unir o conteúdo à forma é apenas conseqüência natural disso.

A Motorola tem também uma parceria no forno com a Apple, cujo objetivo é trazer o iTunes para os celulares. Seus primeiros filhotes seriam anunciados em Miami mas, exceto por um disco de controle à la iPod num dos protótipos apresentados, nada ainda se viu de concreto nessa área.

MOM, uma mãe para os músicos

A sigla que não saía das bocas em Miami era MOM, de Music Over Mobile. Ela tem a ver com ringtones, mas vai além: no cenário imaginado pelas indústrias de música e de telefonia, em breve será prática normal fazer download direto no telefone.

O MP3, pesado demais, não se presta a isso, mas o AAC+, por exemplo, é uma possibilidade viável; e, claro, todo mundo espera maior largura de banda. Mas isso virá.

-- A fusão entre celulares e players é inevitável -- observou Alberto Moriondo, diretor mundial da Motorola para soluções de entretenimento (leia-se games, música e multimídia). Bem ao espírito do M3, as entrevistas rolavam à beira das piscinas do Raleigh e do Surfcomber, hotéis chiques de Southbeach. Moriondo, um italiano simpático, poliglota e descontraído, estava cercado de maquininhas interessantes que provam o seu ponto, e que chegam ao mercado no fim do ano:

-- Sinceramente, para que você vai sair de casa carregando um player e um celular se pode ter um player assim no telefone?

Bom ponto. Os players, diga-se, são o Santo Graal do mundo dos gadgets; todos sonham em fisgar uma fatia do glorioso mercado do iPod, mais desejado dos badulaques contemporâneos.

Leis idiotas: um grave precedente

No dia seguinte, atrás da mesma piscina, numa tenda armada debaixo de um calor de 30 graus, Lawrence Lessig, professor de direito da Universidade de Stanford, autor de "O futuro das idéias" e do conceito de Creative Commons, alternativa mais adequada ao mundo digital do que o ultrapassado copyright, manifestava preocupação com o rumo que estão tomando as leis relativas à distribuição de conteúdo digital nos Estados Unidos:

-- Sempre que aparece uma nova tecnologia, ela é seguida de processos em que os detentores de diretos acusam os autores da novidade de piratas. Vem sendo assim desde a invenção da pianola, processada pelos editores de música. A diferença é que, até aqui, o Congresso sempre legislou a favor dos piratas, garantindo com isso o progresso tecnológico e criativo.

-- Agora, por causa de pressões da RIAA e da MPAA, e por uma incompreensão do que está em jogo, há um movimento no sentido de se engessar a tecnologia, e mantê-la parada no tempo -- observa lessig. -- Eu sou contra o uso das redes P2P para se roubar música da Britney Spears, digamos -- embora não entenda por que alguém possa querer fazê-lo -- mas acho a existência do P2P como forma de distribuição vital para as manifestações culturais que possa vir a proporcionar, como a cultura do remix.

O mais grave é que uma lei que transforma em marginais praticamente todos os estudantes do país acaba sendo descumprida e, naturalmente, considerada idiota; mas quando alguém se convence de que a lei é idiota, este é o primeiro passo para a desmoralização do sistema legal como um todo, que passa a ser visto não como um conjunto de leis desenvolvido para proteger o cidadão, mas sim como uma arma para manter o privilégio de uns poucos.


(O Globo, Info etc., 4.4.2005)



Meus gatinhos bípedes!

Vejam que maravilha de presente esperava na mailbox: uma foto dos meus gatinhos bípedes feita pelo Paulinho hoje de manhã!

Tudo bem: avó é avó e aquelas coisas que a gente sabe -- mas, honesta e sinceramente, essas crianças não estão a coisa mais linda do mundo?!

Podem elogiar à vontade que eu não me aborreço não... ;-)

3.4.05









Foram me chamar,
eu tou aqui,
o que é que há...

A Família Gato, no melhor cumprimento das suas atribuições, deseja a todos um ótimo domingo... ;-)

2.4.05



À espera do próximo papa

Durante os próximos dias, vamos ter uma overdose de papa: cadernos nos jornais, especiais de televisão, CDs e DVDs nas bancas, websites...

O que não falta é material.

João Paulo II teve uma vida notável; além disso, nunca houve papa mais filmado e fotografado em toda a história mundial.

Ressalta-se que este foi o "papa peregrino", o papa que mais países visitou, o papa que foi até o povo -- mas o fato é que este foi o primeiro papa da era da mídia, o primeiro papa de um tempo de televisão universal, jatos confortáveis e cultura de celebridades.

Este foi o primeiro papa realmente pop.

Homem indiscutivelmente carismático, ele soube aproveitar tudo isso com grande talento. Teve uma importância política inquestionável e tornou-se uma figura familiar a todos, a tal ponto que, neste momento, o mundo inteiro está abalado com a sua morte, independentemente de credo.

Mas espero, contra todas as evidências e previsões, que o Vaticano escolha agora um papa mais antenado com o outro lado dos tempos: um papa que não condene o divórcio e o homossexualismo, que não seja contra o exercício de um papel maior das mulheres na igreja e, sobretudo, que não lute contra o uso de camisinhas na prevenção da Aids.

O mundo está frágil demais, a vida está difícil demais para que os católicos ainda tenham que se torturar com dogmas que trazem, em si, a garantia da mais plena infelicidade.
















Pif-Paf

Essas são fotinhas que fiz durante o lançamento da edição comemorativa dos quarenta anos do Pif-Paf, ontem à noite. Millôr chegou às sete ao Centro Cultural dos Correios, onde está montada uma linda exposição dos seus desenhos, e ficou dando autógrafos até às dez e tanto, quando fomos jantar.

A edição, idéia do Paulo Caruso primorosamente levada a cabo pela Eliana (também Caruso), é uma pasta com o conjunto das oito edições do Pif-Paf; as revistas ficaram o máximo, iguaizinhas aos originais de 40 anos atrás.

Foi uma noite bonita e simpática, cheia de amigos e de vibrações positivas: um momento muito feliz.

1.4.05



Polêmicas, polêmicas...

Há uma boa polêmica rolando no Samjaquimsalva, blog do Renato Parada, que descobriu muitas semelhanças entre duas entrevistas supostamente exclusivas do Woody Allen, uma delas para a Isto É.

Quer dizer: eram duas há três dias.

Hoje são, se não me engano, seis.

As perguntas e respostas estão de fato parecidíssimas. Não acredito em plágio, no caso, porque seria burrice demais dar cut&paste no texto de um colega e achar que ninguém descobriria.

Não acho improvável que o jornalista da Isto É tenha, de fato, jantado com Woody Allen; mas também não acho improvável que o estúdio tenha distribuído uma entrevista em press release, à qual ele possivelmente recorreu depois da conversa.

Não teria sido desdouro nenhum para ele dizer que compôs a sua matéria com trechos da entrevista que não pode gravar (Woody Allen não queria gravador) e trechos de material do estúdio.

A meu ver, a existência de um release é a única coisa que pode justificar a semelhança entre as várias versões dessa entrevista; afinal, não se muda o texto de declarações que vieram por escrito.






Novos habitantes

Vejam só quem acabou de chegar de Minas! São as galinhas d'angola e os peixinhos que encomendei do Fernando, lá de Caxambu: a peças são lindinhas, alegres e muito bem acabadas, como vocês podem ver.

Já estão devidamente instaladas, os peixinhos no quarto da Bia e as duas galinhas, ainda meio cabreiras com a mudança, num movelzinho da sala.

O Fernando aceita encomendas por telefone (35) 3341-2559 ou email.


Não, este não está sendo um bom dia

Madrugada num jornal com os nervos à flor da pele: há coisa de uma hora soubemos que grupos de extermínio mataram 27 pessoas na Baixada.

O jornal já estava sendo rodado.

Sabem aquele lance de "Párem as máquinas?"

É mais interessante no cinema do que na vida real.

A piora do estado de saúde do papa era a manchete, passou para baixo, entrou a notícia da matança no lugar.

Pois agora acaba de chegar a informação de que o papa teve uma parada cardíaca.

São 2h54.

E eu, que estou quieta escrevendo matéria de tecnologia, vou embora antes que aconteça mais alguma coisa.




Love, love, love

Recebi por email: não são a coisa mais linda?!

Tomara que tenham muitos filhotinhos, e que eles sejam a cara dos pais... :-)

31.3.05



RIP

Finalmente morreu a coitada da Terri Schiavo. Enquanto isso, George W. Bush & Sra., precavidos, tomaram providências legais em relação ao que deve ser feito com eles caso se encontrem na mesma situação que a lançou ao estrelato -- mas, em nome da sua "privacidade", não divulgaram o conteúdo dos documentos.

Discretos, eles.

Pois para mim, isso só tem uma leitura: façam o que eu mando, mas não o que eu pretendo que me façam.

Claro:

  • Quem acha válido ficar em estado vegetativo não precisa fazer nada; a indústria médica cuida disso sozinha, obrigada. Como todo mundo sabe, difícil não é ligar, é desligar;

  • Se a decisão dos Bush fosse igual ao que dizem que pensam, seria uma excelente jogada política divulgar o conteúdo dos seus testamentos. Vocês acham que Bush ia perder essa oportunidade?!

    Esta hipocrisia me revolta DEMAIS; assim como me revolta o que estão fazendo com o papa.

    Deixem o pobre homem morrer em paz, caramba!

    É assim que age uma Igreja que se diz humana e cheia de compaixão?!

    Uma Igreja que acredita na eternidade da alma?!

    Mas se a alma é eterna, por que não deixá-la seguir seu rumo?!

    ARGHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

    Só para constar, porque tenho família sensata e discreta, que de fato me ama, e, felizmente, não tenho um bando de urubus pelas costas brigando pelo poder:

    Se um dia eu virar um vegetal, ou chegar ao nível de sofrimento do papa, me deixem tirar o time de campo o mais rápido possível. Quero ir em paz, sossego e dignidade.

    Não sei se um blog tem valor legal para me garantir isso, mas pelo menos o que não me falta aqui são testemunhas...









  • Livin' la vida loca

    Às vezes, fugir do mundo não é uma opção de todo ruim

    Miami é uma festa. O verão ainda nem deu as caras e o povo já cozinha ao sol das praias mais bem cuidadas da América Latina. O fervo começa cedo, ou termina tarde; tudo depende do ponto de vista. Janta-se às sete, mas às três os bares de South Beach já estão cheios. A galera que dançou até às quatro da manhã numa boate pode ser vista duas quadras adiante, meia hora depois, fazendo fila para entrar em outra, onde um novo set de DJs começa os trabalhos às cinco. Depois disso não sei o que acontece; sou de um modelo antigo, que precisa dormir um pouco de vez em quando, e isso atrapalha a investigação.

    É verdade que caí na cidade bem em meio ao M3, Miami Music Multimedia, grande celebração da música eletrônica e de um jeito clubber de ser, mas não é à toa que ele se realiza lá. Se todos os alto falantes de todos os carros envenenados que circulam por Miami fossem ligados ao mesmo tempo, o som daria a volta ao mundo várias vezes. Felizmente os carros sossegam enquanto os donos bebem, de modo que o som não ultrapassa as fronteiras do condado. Miami dorme e acorda ao bate-estaca do techno, que escapa, em todas as suas variantes, gêneros e sub-gêneros, de uma festa aqui ou um carro acolá.

    * * *

    Não gostar de Miami é uma reação tão comum que, dessa vez, fui disposta a fazer uma reavaliação. Minha disposição natural em relação ao mundo, de modo geral, é gostar; não gosto de não gostar. Além disso, uma cidade como Miami é tão complexa, e tem tantas nuances, que chega a ser absurdo generalizar. Não existe uma Miami, assim como não existe um Rio de Janeiro; existem milhares de Miamis, feitas à imagem e semelhança de quem as vive. Alguém pode detestar uma viagem que adoraria se ficasse hospedado dois quarteirões adiante; o bairro que um dia é um tédio, no outro pode ser uma revelação. Não há absolutos.

    Isso, objetivamente. Subjetivamente, as cidades, como as pessoas, têm um jeito de ser, uma aura, karma ou lá como se chame, com o qual a gente vai ou não vai -- e não há racionalização que mude isso.

    Miami é linda e bem cuidada, tem praias que me enchem de inveja pelo azul caribenho e pela água quentinha, os bandos de pássaros que se vêem por toda a parte são alegres e confiantes mas, com tudo isso, não consigo fugir do lugar comum. Não consigo gostar de Miami.

    O hotel ótimo, o tempo maravilhoso, uma lua que nem te conto -- e algo indefinível que me dava uma vontade louca de fugir correndo e voltar para casa. Não sei exatamente o quê, mas imagino um conjunto de fatores, a começar pelos rios de dinheiro que correm por todos os lados. Dos carros impossíveis às roupas duvidosas, tudo tem uma única finalidade: proclamar para o mundo o elevado status financeiro dos donos. Mas pior do que assistir a este show bizarro de riqueza -- que sequer chega a ser característica exclusiva de Miami -- é saber o que o torna possível. Afinal, dez entre dez corruptos da América Latina consideram a cidade o seu segundo lar.

    A cidade não tem culpa disso, coitada, nem os habitantes que dão duro e ganham o seu pão honestamente; mas é o tal do karma. O fato é que olho para aqueles condomínios de luxo elegantíssimos, finíssimos, metidíssimos-íssimos-íssimos... e a única coisa que me vem à cabeça é a fita do juiz Nicolau, na plenitude de sua obscenidade, fazendo o tour do apartamento milionário.

    * * *

    Miami estava, naturalmente, siderada pelo caso Terri Schiavo. O ódio pelo marido me pareceu universal -- como se os pais, principais responsáveis pelo circo armado em torno da pobre moça, fossem anjos de candura, e estivessem agindo movidos pelos melhores sentimentos.

    O comportamento das partes, cada qual tentando prejudicar mais a outra, me lembrou, mal comparando, a situação dos hospitais no Rio, em que a população, como Terri Schiavo, é o que menos importa.

    Nessa história sem mocinhos, o que eventualmente poderia ter sido um debate importante e necessário sobre os limites da vida transformou-se num espetáculo degradante e deprimente, estrelado por advogados, políticos e celebridades religiosas.

    Depois a gente estranha que a garotada se jogue nas raves 24 horas por dia e se desligue do mundo...

    (O Globo, Segundo Caderno, 31.3.05)

    30.3.05





    Inclusão digital

    Deu na Agência Estado...e nem é primeiro de abril!
    Petista discursa contra exame de próstata que o fez ver estrelas

    Durante 25 minutos, Sargento Isidório do PT usou a tribuna para detalhar o exame, reclamar do profissionalismo do médico, além de confessar que se sentiu "deflorado"

    Salvador - Reflexões sobre as agruras do exame de próstata, ocuparam grande parte do tempo da sessão de ontem da Assembléia Legislativa da Bahia. Tudo porque o deputado Manoel Isidório de Santana de 43 anos, o Sargento Isidório do PT, usando o tempo cedido pela liderança da oposição na Casa, fez um áspero discurso contra o referido exame, ao qual havia se submetido pela primeira vez na parte da manhã e conforme suas palavras ainda estava "vendo estrelas" por uma suposta violência do médico.

    O exame é o mais recomendado para se prevenir o câncer de próstata e consiste no toque da glândula com o dedo através do ânus. Classificando o exame de "angustiante", e exortando a Medicina a criar outro método que não "penalize" tanto os pacientes, Sargento Isidório se inflamou na tribuna e fazia questão de mostrar com gestos exagerados e gritos, como o doutor foi rude.
    Embora afirmasse não querer se estender muito no assunto, por considerar "desmoralizante para um pai de família", o deputado petista foi descrevendo detalhes, enquanto seus colegas se divertiam no plenário. Entre outras coisas, reclamou do fato de ser enganado sobre a forma como o exame de toque é feito e repetiu que "foi horrível" e quase desmaia.

    Ele gastou cerca de 25 minutos como tema que provavelmente seria encerrado se o deputado e médico Targino Machado (PMDB) não tivesse pedido um aparte para criticar o discurso apologético de Sargento Isidório contra o exame. Foi o suficiente para o petista voltar à carga repetindo toda à sua "desagradável" experiência. Uma das coisas que deixou o Sargento Isidório mais indignado é que após o exame, o médico abriu a porta e chamou o próximo paciente "como se nada tivesse acontecido", enquanto o petista saiu do consultório sentindo-se "deflorado". (Biaggio Talento)


    As voltas que o mundo dá

    Durante muito tempo nossa família morou no Bairro Peixoto, onde a Laura e eu crescemos brincando na praça Edmundo Bittencourt. Havia um bambuzal que nos parecia enorme e perigoso, e um jardineiro, se não me engano o seu Rosa, que era o terror das crianças.

    (Olhando assim à distância, nem é difícil imaginar por quê: provavelmente, nós éramos o terror dele, coitado, quebrando plantas e pisoteando o jardim.)

    Minha avó morava com meus tios no alto da Santa Clara e, quando chegava do trabalho, Papai ia visitá-la. Volta e meia íamos com ele. Uma das minhas lembranças mais nítidas de infância é subir a Décio Vilares de mãos dadas com meu Pai, rumo à casa dos tios.

    No caminho, cruzávamos com um ou outro conhecido. Isso significava um breve boa tarde, em alguns casos uma pequena pausa.

    Mais complicado era quando encontrávamos o rabino Lemle.

    Meus pais deixaram a religião na Europa. Papai não conseguiu se reconciliar com a idéia de um Deus que permitia acontecimentos como os que ele havia presenciado e vivido, e tornou-se ateu; Mamãe tem lá suas dúvidas. Por causa dessa peculiaridade familiar, aliás, devo ter sido uma das crianças a saber mais cedo a distinção entre ateu e agnóstico -- e a ficar me questionando de que lado exatamente eu estava.

    A dúvida persiste até hoje; mas isso são outros quinhentos.

    O fato é que Papai era amigo do rabino, que gozava de grande prestígio e consideração lá em casa. Quando se encontravam, os dois se deixavam ficar, conversando animadamente em alemão. Eu ficava indócil. Primeiro porque não falava alemão; depois porque, ainda que falasse, estava mais interessada em passear do que em ficar parada ouvindo conversa de adultos.

    O tempo passou.

    Há alguns anos, uma jovem repórter chamada Marina Lemle veio trabalhar comigo no Globo. Observei o nome pouco comum, e perguntei se conhecia o rabino.

    Ora, como não? Era neta dele.

    Mundinho pequeno!

    Agora, acabo de ler um texto comovente que Marina escreveu para o nominimo sobre sua família. Seu bisavô, o sogro do rabino, assassinado em março de 1933, é considerado, oficialmente, a primeira vítima dos nazistas.

    Ela, porém, só descobriu isso há coisa de um mês, por acaso, numa conversa com a avó.

    Quando perguntou o porquê da demora da revelação, recebeu a mais típica das respostas que uma mãe judia pode dar:

    -- Achei que você não ia querer saber. Eu quis te poupar.

    29.3.05




    Deu no Joaquim

    De Eduardo Dussek no show de fim de semana na Casa de Cultura Laura Alvim: "Quando vocês virem esses poodles ridículos de pompom na patinha e no rabo, não ri não. É essa gente que aumenta juros e sacaneia o povo que volta assim pagando carma."
    Pois eu li e imediatamente lembrei da foto que fiz em Miami. Quem teria sido este pobre quadrúpede humilhado numa encarnação anterior?

    Jornalistas & viagens

    Nos comentários do post em que eu elogiava o desempenho do Razr V3, o Rogério escreveu o seguinte:
    "Pego carona no post ressentido da Vilma para, sem ressentimento, levantar uma discussão saudável sobre viagens a convite de Motorola, Samsung e quejandas: na sua opinião, onde está o limite entre jornalismo e propaganda?"

    Jornalismo de tecnologia não é hard news, Rogério. Não é jornalismo investigativo ou de denúncia (embora, eventualmente possa ser isso também); é um jornalismo de comportamento e de serviço, em que a gente basicamente observa tendências, fala de lançamentos, dá dicas de uso.

    Um telefone como o Razr V3, por exemplo, que motivou a tua pergunta, é uma obra de arte. O que há de design, trabalho e conhecimento por trás da sua criação é um prodígio; o fato de ser fabricado com fins comerciais não o torna menos digno de admiração.

    Ora, por que só os produtos que se apresentam como arte podem ser elogiados sem que leitores de má índole achem que a gente está levando jabá?! Por que o elogio de um filme é jornalismo do mais alto nível, e o elogio de uma câmera digital é propaganda?!

    Essa visão antiga e tacanha me aborrece, porque acho um player como o iPod ou uma câmera como a P200 muito mais dignos de louvor do que a maioria dos filmes em cartaz.

    Afinal, qual é a alternativa que os "puros" propõem diante de um produto revolucionário? Dizer que "uma grande empresa lançou um telefone fenomenal", sem mencionar a empresa ou o celular? Fazer de conta que os gadgets que nos cercam não existem? Abordar a sua criação e existência de um ponto de vista estritamente econômico, sem manifestar qualquer sentimento?

    Ah, me poupem! Que tal deixar a hipocrisia de lado e nos portarmos feito adultos do Século 21?

    Como "consumidora de notícias", aliás, poucas coisas me irritam mais do que a obsessão das emissoras de televisão, Globo sobretudo, em esconder nomes e marcas; nada me soa mais falso -- e, conseqüentemente, mais enervante -- do que ouvir nos telejornais que algo aconteceu "num hotel da Zona Sul" ou num "shopping em São Paulo". Num mundo de marcas cada vez mais fortes e onipresentes, manter essa postura supostamente olímpica é sonegar informação.

    * * *

    Tenho por regra só falar dos produtos de que gosto -- vale dizer, só falar bem. Isso, por dois motivos. O primeiro é prático e objetivo. Há mais computadores, celulares, câmeras e players do que espaço para se escrever a seu respeito; e, obviamente, são mais merecedores deste espaço os bons produtos.

    O segundo motivo é puramente sentimental. Uma vez descasquei uma câmera que testei. Na seqüência, recebi meia dúzia de emails sentidíssimos de gente que tinha comprado justamente a tal câmera. Me lembro particularmente de dois leitores, um que levou tempos a convencer a mulher a fazer a compra, outro que gastou nela os poucos trocadinhos que tinha, contra os conselhos dos pais.

    Minha coluna os ridicularizou perante suas famílias, e isso me deu uma sensação péssima. Quase fui às casas dos sujeitos pedir desculpas, e explicar pros seus familiares que eles não tinham feito uma besteira tão grande, que ninguém podia adivinhar que marca tão conhecida faria algo tão ruim, etc. etc.

    Quanto às viagens a convite de empresas, são tema controvertido na imprensa mas, em certas áreas, a meu ver, fazem parte do métier. Em tecnologia, a melhor forma de saber como as empresas estão pensando o futuro, e de ter noção do que vem por aí, é indo aos seus eventos -- e isso, não sendo o Wall Street Journal ou o New York Times, só se faz a convite.

    É assim também que se conhecem os novos lançamentos da indústria automobilística ou da aviação, assim que se conseguem entrevistas com atores de filmes em lançamento, bandas em turnê ou "n" outras coisas -- e nem por isso as matérias ficam menos interessantes.

    A meu ver, não é viajar a convite de empresas, gravadoras ou estúdios que afeta a credibilidade de um jornalista, mas sim a falta de sinceridade e/ou conhecimento no que escreve.

    O famoso Jayson Blair, por exemplo, como todos os jornalistas do New York Times, só viajava com as despesas pagas pelo jornal.

    * * *

    Um dos problemas mais complicados das viagens de trabalho, sejam elas pagas por A, B ou C, é a inveja e o rancor que despertam. Tenho provas concretas disso aqui no blog; você mesmo viu uma delas.

    Para quem está de fora, tudo parece muito bacana -- e é mesmo, mas até certo ponto.

    É muito bom rodar o mundo e conhecer novos lugares; é consideravelmente menos bom acordar às sete da manhã depois de quatro horas de sono e passar o dia numa sala de conferências.

    Algumas viagens dão excepcionalmente certo e são muito agradáveis, como a que fiz ao Panamá; outras são desastres completos, em que a gente só se salva com muita esportiva e bom humor.

    Os mesmos atributos, em suma, de que a gente precisa para manter a área de comentários de um blog... ;-)

    28.3.05




    Lei de Murphy

    Postulado Único das Prioridades do Correio Eletrônico:

  • Quanto mais importante for o email, maior será a chance de se perder pelo caminho; inversamente, todos as correntes, spams oferecendo Viagra e relógios falsificados e mensagens contaminadas com worms e vírus diversos chegarão, íntegras e sem problema, ao local de destino.

    Pois vejam se não é isso mesmo:
    Cora,

    A marioria dos emails encaminhados para o Fernando, de várias partes do Brasil e exterior, seguiram direto para a firma Oficina de Papel, em Belo Horizonte.

    A proprietária da firma, Nicia Mafra, fez o favor de avisar por telefone ao Fernando, que não tem micro. A hospedeira do site do Fernando, a Netsulminas, errou ao configurar o e-mail; por isso ele nunca recebeu um sequer.

    A senhora Nícia Mafra está reenviando os emails não deletados para minha caixa postal. Já enviou um para O Globo avisando do problema; e recebeu outro, enquanto falávamos indicando o blog da Cora, pois ela não possuía o jornal.

    A firma dela trabalha com papel reciclado desde 1998, dá apoio aos catadores de papel de BH, tem convênios com a prefeitura e promove cursos sobre o assunto, inclusive enfocando a parte gráfica --participou, recentemente, do encontro latino americano promovido pela Tupigrafia, um grupo do Orkut.

    Em breve aviso o novo email do Fernando, através do qual os contatos devem ser feitos.

    Esther
  • 26.3.05

    untitled

    untitled

    To te manjando...

    untitled

    Sorria! Voce esta na Barra!

    untitled

    untitled

    untitled



    Pra não dizer que a viagem está perfeita...

    Bom dia, pessoas! Não sei se vocês chegaram a reparar, mas os posts de ontem foram todos feitos pelo celular. O bichinho está se saindo melhor que a encomenda.

    Mal parei no hotel, foi um dia cheio, sem chances de fugir para computadores.

    O 3M continua pelo fim-de-semana com muitas apresentações de música, mas a parte das palestras e mesas redondas terminou ontem à tarde.

    Antes da festa de encerramento fui com colegas brasileiros a um mall que fica a meia hora aqui do hotel. Um queria comprar um iPod, a outra uma câmera e eu, desta vez, queria comprar umas calças para andar de bicicleta e umas coisas de gato: shampoo para os banhos infreqüentes, filtro pro bebedouro, catnip e uma coisa chamada Feliway que a Bia descobriu e que impede que eles marquem território (problema comum com o Mosca, a Peste Mijona).

    Aí vi uma estrutura de três andares daquelas de carpete, para arranharem, a preço muito bom (menos de U$ 30) e não resisti.

    É um trambolho, mas só de pensar na alegria deles curtindo o brinquedo novo... De modo que lá vim eu com a coisa.

    Quando fui fazer as malas e abri a caixa para ver como podia diminuir o volume, surprise: está faltando uma das peças! Telefonei para a loja eles foram muito gentis, mas não tem filial para esses lados.

    Quer dizer: na ida pro aeroporto vou ter que dar uma volta e pedir ao motorista que pare lá para trocar a peça.

    Tsk.

    Cerumano tinha que vir com seguro contra burrice. Como é que eu não conferi a caixa?! Afinal, se fosse eletrônico eu teria conferido no ato...

    Bom, pessoas, vou à luta.

    Hoje é dia livre: para compras, para fotos, para bater perna.

    Ainda quero comprar um tripé legal (obrigada, Lu Misura!) e passear por aí com a Lumix.

    Boa Páscoa para todos!

    untitled

    Estou muito bem impressionada com este telefone. Ele eh delicado mas estah dando conta do trabalho pesado. O roaming da Claro tambem estah impecavel.

    25.3.05

    untitled

    untitled

    Amiguinhos

    untitled

    Telinhas

    untitled


    Esta deve ter sido uma das poucas vezes que Lawrence Lessig fez uma palestra sem slides.

    Esta deve ter sido também uma das pouquíssimas vezes em que senti falta de slides, porque ele é simplesmente campeão de apresentações bacanas.

    De qualquer forma, esta foi a ÚNICA VEZ em que os dois vimos um keynote speech na areia, debaixo de uma barraca, num dia de sol a pino, calor de rachar.

    Doideira?

    Com certeza.

    Mesmo assim foi um show. O que este homem entende de direito autoral, a visão que tem do assunto e o talento com que explica a questão compensam qualquer perrengue.

    Adorei!

    untitled

    Lawrence Lessig

    untitled

    Bye now!

    untitled

    untitled

    Faz party... ;)

    24.3.05

    untitled

    Acordar cedo nao e' problematico so' pra mim,..

    untitled

    Trabalhando. Wi-fi.





    O mineiro desesperado e o holandês voador

    Fernando Henrique Ferreira, 48 anos, casado, pai de família, tem um ateliê em Caxambu. Fabrica peças em papel machê, que vende para o exterior através da ONG Mãos de Minas. Em novembro de 2004, durante uma feira de artesanato em Belo Horizonte, um importador holandês chamado Jan Piet Hartman ficou interessado no seu trabalho, apresentado no estande do Sebrae e, por telefone, convidou-o para um encontro no Hotel Boulevard.

    Fernando pôs o mostruário no carro e foi para a capital. As peças que levou causaram tão boa impressão que o holandês encomendou, no ato, 1.500 peixes e 3.325 objetos de decoração variados -- araras, tucanos, galinhas d?angola, pequenas cenas de praia. Os dois acertaram o preço total de R$ 25.450, dos quais 25% seriam pagos no início de janeiro, e o restante contra a entrega, em princípios de março.

    Fernando voltou entusiasmado para Caxambu: não é todo dia que um artesão do interior recebe uma encomenda dessas. Para poder aprontá-la a tempo, contratou seis auxiliares diretos e 40 terceirizados. Investiu tudo o que tinha na compra de material e no pagamento dos trabalhadores.

    Quando janeiro chegou, a encomenda ia adiantado. Fernando telefonou para a Brasil Trade, em Maceió, para pedir o adiantamento prometido. Mas Marcelo Gomes, sócio brasileiro de Jan Piet Hartman, disse que o parceiro se enganara, e que o sinal só seria pago no fim do mês.

    Sem capital, Fernando se viu obrigado a vender o carro e os poucos bens que possuía -- um freezer e uma televisão -- para dar continuidade ao trabalho. No fim do mês, ainda sem notícias do dinheiro, ligou para o próprio Jan Piet, com quem havia combinado a transação. Ficou sabendo então que o gringo mudara de idéia: agora, estava às voltas com um negócio de calçados em Franca, e não tinha mais interesse no artesanto.

    No ateliê humilde de Caxambu, mais de três mil peças bonitas e coloridas esperam por comprador. Hoje, porém, elas são a única coisa alegre da vida de Fernando, que está atolado em dívidas, sem o carro de que depende para viver e sem esperanças de resolver a situação. É que, como acontece regularmente no artesanato, não há contrato escrito entre as partes; os Jan Piets da vida enriquecem em Amsterdam, enquanto os Fernandos vão à falência no interior do Brasil.

    * * *

    Esta história, assim mesmo como está aí, mais ou menos com essas mesmas palavras, foi contada por Esther Maria Duarte Bittencourt, moradora da região e autora do excelente blog "Porcas e parafusos" -- um perfeito exemplo do jornalismo individual que a Internet permite.

    -- Este senhor já era meu comprador, só que a gente não se conhecia antes -- me disse Fernando, ao telefone. -- Ele adquiria as peças através da ONG (Mãos de Minas). Desta vez me procurou diretamente. Não dava para imaginar que faria uma coisa dessas. É um homem educado, bem vestido, de fino trato. Ficamos amigos. Sei que fui ingênuo, mas, acredite, acordo apalavrado é o que mais tem aqui no interior, a gente trabalha sempre assim. Aceitei também porque, sem a ONG, a transação ficava mais lucrativa.

    Pela transação "mais lucrativa" que o levou à ruína, Fernando receberia cerca de R$ 5 por peça. Descontem-se daí todas as despesas envolvidas e o resultado é um grande nó no estômago.

    Ler o que Esther escreve, aliás, é descobrir mais um pedaço de Brasil desesperado:

    "Caxambu é uma cidade no Sul de Minas Gerais com tudo para dar certo", diz ela. "Doze fontes de água mineral medicinais e um parque agradável, sem qualquer projeto turístico. Imagine uma única fonte de água mineral medicinal numa cidade do exterior e como estaria o turismo nesta cidade!

    Caxambu está às moscas. Hotéis fecham as portas, outros demitem os funcionários. Lojas vão à falência. O Hotel Glória, um dos mais tradicionais, lançou um plano de demissão voluntária, mas nenhum funcionário deseja perder os direitos trabalhistas. O único cinema local fechou as portas porque não consegue pagar o IPTU.

    Então, se não tem para quem vender na cidade sem turista, o que faz o artesão? Ou fica nas mãos do atravessador, o que acontece com freqüência, ou filia-se à ONG que não tem como absorver toda a produção da região. Entre um talvez ou oitenta centavos, melhor a última opção.

    E é assim que acontece. Para nós que temos ferramentas tecnológicas, que lemos jornais e livros, temos educação formal e estamos antenados com o mundo, esta história beira o realismo fantástico. É por isso que as novelas da Globo que abordam este tema fazem tão pouco sucesso no interior. Aqui, a realidade supera qualquer coisa que a imaginação invente."

    * * *

    Quem desejar mais informações sobre o trabalho de Fernando pode acessar o site www.ateliedepapel.com.br.

    Enquanto existe.

    (O Globo, Segundo Caderno, 24.3.05)


    Miami a mil

    Ufa! Finalmente de volta ao meu quartinho -- literalmente. O Loews, onde estou, é um hotel super luxuoso, que se expandiu comprando o Moritz mais modestinho ao lado, e é deste que vos tecla esta blogueira. Os confortos (e os preços) são os mesmos do Loews, mas o espaço... que diferença!

    O quarto tem até um tamanho legal; é no banheiro que o velho hotelzinho se faz lembrar, na ducha que podia ser mais forte, na pia estreita. Mas a cama é divina e não vejo a hora de aproveitá-la.

    Vim para o M3, Miami Music Multimedia, em que se discute a música na era digital sob os mais variados aspectos; na sexta, o keynote é de um dos meus ídolos, o advogado Lawrence Lessig (sim, crianças, um dos meus ídolos é advogado!), a pessoa que melhor vi pensar a questão dos direitos autorais no mundo pós-internet.

    É dele a concepção do Creative Commons, um tipo de licença muito mais adaptável aos novos tempos do a velhíssima noção binária de protegido/domínio público do sitema de copyright tradicional.

    Aí à esquerda, em ciberheróis, há um link para a página dele.

    Vim a convite da Motorola, que está aproveitando o evento para lançar não só seus novos aparelhos, como alguns conceitos de marketing de música e de telefonia móvel bem interessantes; vou falar disso em maiores detalhes depois.

    Fico só até sábado, quando tomo novamente o rumo de casa. Dessa vez não vai dar para visitar os meus bipinhos queridos em Austin, porque tenho muito trabalho no Rio; o dia foi tão corrido, aliás, que ainda nem consegui falar com o Paulinho.

    O tempo está legal, e Miami -- pelo menos neste trecho chique e metido em que estou -- é uma festa: muitos carros de luxo, muita gente bonita, muito dinheiro rolando. Dá a impressão de que, com exceção das camareiras de hotel, das faxineiras e dos carregadores (todos de origem latina), ninguém tem mais de 30 anos ou menos de 1m80.

    Talvez porisso essa seja hoje uma cidade tão esquisita, glamurosa e cheia de adrenalina na superfície, mas artificial e melancólica no coração movido a Red Bull.

    Eu acho que gostava mais daqui quando ninguém gostava, quando esses hotéis que hoje são o ó do borogodó eram apenas velhos hotéis decadentes, e a cidade era um lugar cafona e bolorento, cheio de velhinhos refugiados de Nova York.

    untitled

    Lixo

    Restos de festas