Enquanto eu fazia as malas para voltar de Las Vegas, onde fui à peregrinação anual dos nerds para o CES (Consumer Electronics Show), minha sobrinha Julia mandava notícias de Buenos Aires, aonde vai, sempre que pode, para ter aulas de tango:
“Oi, tia! Aqui estou novamente, pela quinta vez. O negócio da freqüência é que a gente vai virando meio porteña. Por exemplo: quando estive em Buenos Aires pela primeira vez, achei o metrô o máximo. A passagem custa só 1,10 pesos, o equivalente a uns 50 centavos de real. Além de barato, muito bom, com cinco linhas que levam para todos os cantos da cidade. E os portenhos? Lindos, educados... tudo de bom.
Voltando agora, vários meses depois, já com aquela intimidade que permite criticar, desci no metrô com ganas de xingar todo mundo. É que a passagem é um bilhete de papel, e esse bilhete, em vez de ficar preso dentro da roleta, entra por um lado e sai pelo outro. A prefeitura espalha um monte de latas de lixo, para evitar a sujeira. Mas adianta? Indo pela 9 de Julio, e caminhando para pegar a linha D, passei por quatro latas meio vazias. O chão, em compensação, parecia coisa de brasileiro, com bilhete por todo canto!
A minha percepção mudou um bocado, é claro, mas infelizmente Buenos Aires mudou também. A pobreza aumentou a olhos vistos. Mais mendigos, mais lixo, cidade menos cuidada. Para você ter idéia, minha amiga Inês Bogado, campeã mundial de tango, voltou a dançar na praça em San Telmo. Quase todo mundo que conheço está em situação financeira pior do que estava em fevereiro. Sem falar na nuvem negra de luto pela morte do Nestor Kirchner, que continua pairando sobre a cidade. Ainda se podem ver, em frente à Casa Rosada, bilhetes do tipo “Força Cristina!” com flores, algumas meio murchas, outras agüentando o calor, que é menor do que o do Rio, mas mesmo assim existe.
A questão da morte do Kirchner, aliás, como tudo o que acontece em política, é coisa delicada. Rolam boatos de que ela teria um caso com o chofer, e que por isso não há que se ter pena da moça. Enquanto isso, os pró-Cristina ficam mais do que irritados com qualquer referência ao suposto love affair, e as discussões são medonhas... vai saber o que aconteceu! Caso com chofer ou não, acho que perder marido deve ser difícil e, de todo modo, isso é noticia velha.
Uma novidade que me parece muito bizarra é o pessoal medindo o preço das coisas pelo real, como nós fazíamos no Brasil com o dólar na época do cruzeiro. Eu era novinha naquele tempo, mas nunca vou esquecer que ganhava um dólar por semana de mesada... Ruim para eles, bom para nós, que estamos com moeda forte e, ainda por cima, ganhamos um reforço na auto-estima. Meus professores de tango, por exemplo, passaram a cobrar 230 pesos, no lugar dos 200 que se pagava em fevereiro passado, porque o valor equivale a cem reais.
Falando de tango, continuo super apaixonada, mas sempre me revolto um pouco. O tango aqui é uma das bases do turismo, empregando bailarinos, coreógrafos e dezenas de outros profissionais, além de manter abertas as várias casas de milonga e de shows. Quando me perguntam como comecei a dançar, respondo que comecei pelo samba de gafieira e fui caminhando pelas danças de salão. E ninguém nunca sabe o que é samba de gafieira! Ouvem a palavra “samba”, pensam no sambódromo, em mulatas e em purpurina, e não conseguem conciliar essas imagens com a criatura quase transparente e um tanto acima do peso que têm diante de si. A minha revolta é que nós temos uma dança tão legal quanto a deles, e não estamos mostrando isso para o mundo! Quando o samba por acaso aparece em competição americana de dança de salão, é uma mistura sem pé nem cabeça com uma salsa de permeio. Nada contra o sambódromo ou contra as escolas, é só que o samba não é feito só disso, não.
Por outro lado, música brasileira está bombando. Entrei em mais de uma loja onde se podia ouvir de musica ambiente uma boa MPB. Escutei Chico e Caetano na rua mais de uma vez. E até passei mais tempo do que pretendia numa loja de jóias de prata porque estava tocando aquela música da bailarina que não tem defeito. Péssimo para o meu cartão de crédito!
O baque financeiro, porém, não está sendo dos piores. O peso é barato mas, independente disso, as coisas são baratas em si. Quando o Gui esteve aqui fomos almoçar num lugar super chique e romântico. Uma gracinha chamada El Ultimo Beso. Pagamos menos de 200 pesos. No Rio, um lugar do gênero sairia por mais de 200 reais. As roupas, além de baratas, são também muito criativas. Se você fizer compras em Palermo, dificilmente achará uma peça que sirva a um propósito só. É saia que vira vestido, calça que vira saia... até blusa que vira bolsa eu vi. Só falta inventarem um biquíni que vire vestido de noiva, se bem que aqui quase não tem biquíni, uma vez que não tem praia. Pois é: não tem praia! Taí, apesar de quase portenha, meu coração carioca não corre riscos. Cidade maravilhosa mesmo é a nossa! Beijos da Ju”
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