29.6.10

Geeeeeeeeeeeente!!!



Hoje é aniversário da Néria, a nossa querida Boa Idéia (codinome mais acertado dos sete mares).

Parabéns!

Tudo de bom!

Muitas felicidades!

Mistério em Botafogo




Na Rua São Clemente 101, bem perto do metrô, há uma lojinha chamada Realce Confecções. A Laura gosta dessa lojinha, que fica no caminho para casa. E hoje me ligou, preocupada:

-- Fiz uma compra lá há mais ou menos duas semanas. Depois notei umas caixinhas de jóias na vitrine, que me interessaram, mas a loja estava fechada. E aí é que está a parte estranha: ela continua fechada! Se a proprietária tivesse saído de férias punha alguém no seu lugar, ou pelo menos uma placa na porta avisando aos clientes. Se estivesse doente, a família avisaria. Mas não há nada disso, apenas uma loja fechada como se alguém tivesse saído à noite para voltar no dia seguinte... E já começam a aparecer bilhetes colados na porta, do tipo "Vim trazer o seu vestido, mas você não estava".

Laura é leitora contumaz de romances policiais e tem uma imaginação e tanto, mas que é esquisito uma loja que vai bem ficar fechada tanto tempo, lá isso é.

-- Além disso, -- observa Mamãe -- você não entrava direto na loja, como acontece em geral. Você tinha que tocar uma campainha, e aí a porta era aberta... Pode ser que a senhora que cuidava da loja tivesse medo de alguma coisa.

Diante disso, pergunto: o que é que a gente pode fazer num caso desses? A quem se comunica o caso? Existe alguma delegacia ou repartição especializada em vagas suspeitas?

28.6.10

Eine Kleine Welt Musik

video

Este é o grupo MoCarta. Há mais coisas deles no YouTube!

N97 Mini: o fim de um amigo



Há alguns anos li a pesquisa de um fabricante de celulares que apontava os encontros inesperados com vasos sanitários como principal causa de óbito dos aparelhos. Homens perderiam mais celulares dessa forma do que mulheres, porque costumam carregar os celulares no bolso traseiro da calça, ao passo que elas os carregam na bolsa. Outros motivos bizarros e comuns de perda de telefone: aparelhos mastigados por cachorros e submetidos a ciclos completos ou parciais de máquinas de lavar.

Essas informações pitorescas, porém inúteis, me voltaram à lembrança essa semana, quando, pela primeira vez em tantos anos, perdi um celular por acidente. Foi na hora do jantar. Tiziu, o pretinho básico que foi incorporado à Famiglia Gatto no último Réveillon, e que foi abandonado antes de poder aprender com a mãe o pulo do gato, tentou subir na mesa. Errou o salto, mas conseguiu agarrar a ponta do descanso da sopeira -- e saiu arrastado tudo o que estava no caminho, pratos, talheres, celular.

O pobre N97 Mini serviu de amortecedor para a dita sopeira que, com tal apoio luxuoso, não quebrou. Em compensação, além da tela, o aparelhinho sofreu uma amassada radical no chassis: na parte de cima a moldura de metal ficou torta e, na parte inferior, a tampa da bateria não encaixa mais. Vou levá-lo à autorizada, mas acho que é perda total.

O pior é que, depois do susto, o Tiziu reapareceu com uma cara de grande surpresa:

-- Nossa, o que é que aconteceu por aqui?!

* * *

Enquanto isso, no Gizmodo, surgem as primeiras fotos de iPhones 4 quebrados. Um ficou com aspecto ainda pior do que o meu falecido N97 Mini depois de uma queda besta de pouco mais de um metro de altura, quando o dono estava saindo de um carro e o celular escorregou do seu bolso.

Outros tiveram destinos mais acidentados, e pelo menos um foi vítima de assassinato por motivo fútil – um idiota resolveu jogar um novinho no chão, repetidas vezes, só para ver o que acontecia. Está certo que cada um pode fazer o que bem entender com o seu dinheiro, mas esse tipo de destruição gratuita devia sofrer algum tipo de penalidade.

* * *

Na mesma noite em que o N97 Mini morreu fiz uma foto do engarrafamento da Lagoa, com todo mundo fugindo rumo ao feriadão da Copa. Fiquei impressionada como o aparelhinho se saiu bem, como foi capaz de separar as áreas escuras das iluminadas. Mandei a imagem pro blog pensando nisso e, por associação de idéias, admirei mais uma vez a eficiência do seu mecanismo e do teclado que fica escondido por baixo da tela. Ele foi um grande companheirinho.

* * *

E, por falar em Série N, a Nokia anunciou, na quinta-feira, que deixará de usar o Symbian nos seus topos de linha. Daqui para a frente, ela passará a usar o MeeGo, um sistema baseado em Linux que junta o trabalho que a Intel vem desenvolvendo com o Moblin ao que a própria Nokia desenvolve com o Maemo. O Symbian ainda continuará em cartaz por uns tempos em aparelhos mais baratos da Nokia, da Samsung e da Sony-Ericsson.


(O Globo, Revista Digital, 28.6.2010)

24.6.10

Morreu!!! :-(



Foi na hora do jantar. O Tiziu, que foi abandonado antes de aprender o pulo do gato, tentou subir na mesa. Errou o salto, mas conseguiu agarrar a ponta do descanso onde estava a sopeira -- e saiu arrastado tudo o que estava no caminho, prato, talher, celular.

O pobre do telefone serviu de amortecedor para a sopeira que, graças a ele, não quebrou. Em compensação, além da tela, o N97 Mini sofreu uma amassada radical no chassis: na parte de cima a moldura de metal ficou torta, e a tampa da bateria não encaixa mais na parte inferior.

Teve sopa até no teto, não me perguntem como.

E, depois do susto, o pretinho fajuto reapareceu com uma cara de grande surpresa:

-- Nossa, o que é que aconteceu aqui?!

A Lagoa está toda engarrafada...

Lolinha, sempre a postos

Crime e castigo



O cheiro não era ruim. Queimado de roça é sempre bom, natural, lembra fogueira, lareira acessa e fogão de lenha, ao contrário dos vários queimados urbanos, que exalam fedores químicos e pestilentos. Mas, é claro, não estavamos na roça. Havia alguma coisa errada, e bastou chegar à janela para perceber o que era: o outro lado da Lagoa estava em chamas. O que a gente sente quando vê a paisagem que mais ama no mundo pegando fogo? Tristeza, desespero, impotência.

Não há nada que se possa fazer diante de um incêndio daquelas proporções. Nada, nada, nada -- a não ser assistir à destruição.

Não consegui desgrudar da janela durante toda a madrugada. Algumas vezes tentei ir dormir, e me tranquei no quarto fazendo força para esquecer o cheiro da fumaça. Impossível ficar deitada. Logo estava de volta à sala, conferindo em que direção iam as chamas e torcendo para que aquilo acabasse logo.

Não havia mais trânsito e o único barulho que se ouvia era o das árvores ardendo. A fuligem entrava em casa a despeito das janelas fechadas, e logo estava por toda a parte, dos lençóis ao mouse-pad. No chão da área de serviço encontrei uma peninha meio carbonizada, e caí no choro, pensando nos pássaros mortos.

* * *

Os bombeiros que apagaram o fogo no Morro dos Cabritos passaram o domingo trabalhando. Desciam com os helicópteros até a Lagoa, paravam no ar, recolhiam a água numas caçambas arredondadas, depois se afastavam devagar e iam até os focos de incêndio, onde despejavam a carga. Às vezes molhavam o lado do morro que dá para a Lagoa, e voltavam logo; outras tomavam o rumo do Corte para os lados de Copacabana, e custavam a aparecer de novo.

Passei horas na janela admirando a sua perícia e perdi a conta do número de vezes em que repetiram o procedimento. Enquanto o resto da cidade ficava de olho na televisão vendo o jogo do Brasil, eles davam um solitário show de competência e dedicação. São os meus heróis.

* * *

Não tenho mais paciência com a tolerância politicamente correta que aceita qualquer estupidez que se apresente como “tradição cultural”. É como se a humanidade não evoluísse ou, pior, como se toda ou qualquer evolução fosse algo suspeito e forçosamente inferior às genuínas manifestações das nossas almas primitivas.

Agora mesmo acompanhamos a novela das vuvuzelas da Copa, que acabaram não sendo proibidas na África do Sul porque são uma “tradição cultural”. E daí se a trilha sonora dos estádios perdeu em graça e em pluralidade, e daí se quem não sopra aquelas porcarias não suporta o seu barulho? Tasque-se o carimbo de “tradição cultural” na pior imbecilidade e pronto, ela fica imediatamente acima do bem e do mal.

Baloeiros se fazem de vítimas e posam de heróis na internet sob a alegação de que estão mantendo uma “tradição cultural”, enquanto florestas inteiras são queimadas no Nordeste -- porque as fogueiras de São João são, igualmente, uma “tradição cultural”. E daí que as matas peguem fogo, que plantas e bichos desapareçam, que a devastação seja geral? A lei proíbe balões? Proíbe fogueiras em áreas urbanas? Dane-se a lei.

* * *

Claro que o prejuízo causado por uma vuvuzela ou por todo um enxame de vuvuzelas não se compara à destruição que pode vir no rastro de um balão ou de uma fogueira, mas, ainda que diferentes, essas pragas sobrevivem graças ao mesmo fenômeno. Simplesmente não temos mais coragem de apontar para alguma coisa e dizer que está errada. Touradas? “Tradição cultural”. Farra do boi? “Tradição cultural”. Trote em calouros? “Tradição cultural”.

Ora, sacrificar crianças para aplacar a fúria dos deuses também foi, durante milênios, uma “tradição cultural”. Castrar meninos de voz bonita, então, nem se fala – não houve grande compositor, até o Século XIX, que não compusesse árias para os castrati. Pode existir “tradição cultural” mais tradicional, ou mais cultural?
Mas suspeito que, se tivessem sobrevivido até hoje, mesmo essas práticas infames teriam o apoio de incontáveis defensores, acovardados pela noção de que tudo no mundo se justifica.

* * *

Nossa espécie evoluiu consideravelmente desde que saímos das cavernas, e esta evolução se mede, entre outras coisas, pela afinação da sensibilidade coletiva, muitas vezes imposta na marra. Não adianta combater o egoísmo e a insensatez com penas leves e multas irrisórias.

Comunidades e websites mantidos por baloeiros, por exemplo, têm que ser tão energicamente caçados quanto quaisquer outros sites de promoção de atividades criminosas.

Soltar balão não é um crime menor, não é uma bobagem que se resolva com meia dúzia de cestas básicas. Enquanto for tão simples se safar dessa, os cretinos responsáveis pela destruição de tanta beleza e de tantas vidas vão continuar soltando balões e se achando artistas perseguidos. E, sobretudo, vão continuar rindo da nossa sociedade pusilânime, cada vez mais incapaz de se defender.

* * *

Mudando de assunto: se você, como eu, morre de saudades das crônicas de Copa do Mundo do Artur Xexéo, seus problemas acabaram. Chegou às livrarias o livro mais gostoso da temporada, “O torcedor acidental”, em que ele conta histórias das suas aventuras nos bastidores das quatro Copas que acompanhou. Diversão garantida!


(O Globo, Segundo Caderno, 24.6.2010)

21.6.10

Como se livrar das vuvuzelas



Segundo a Fifa, barulho também é cultura – de modo que continuamos, todos, a sofrer com o infernal barulho das vuvuzelas. Todos? Não! Uma pequena aldeia na Gália, digo, uma grande tribo na internet, resiste bravamente. Já há filtros especiais para o som das vuvuzelas online, e diversas receitas caseiras para filtrar aquele barulho infernal nas transmissões de televisão. Basta dizer que googlando “vuvuzela filter”, com aspas, encontram-se 121 mil resultados; sem aspas são 450 mil.

O truque mais simples, que pode ser usado em qualquer aparelho, por humilde que seja, é ir às configurações de som e baixar os agudos ao máximo. Isso não elimina o som das vuvuzelas, mas remove a parte mais irritante das suas freqüências.

Outro jeitinho básico, que vale para os sistemas surround, é diminuir o volume nas caixas laterais e aumentar o som na caixa frontal. É que as laterais reproduzem o ambiente do estádio em geral, ao passo que a frontal fica com os comentaristas.
Nos aparelhos mais sofisticados, as configurações de som mostram equalizadores gráficos que permitem ajustar a gosto as diversas freqüências. Aí é só bloquear as freqüências de 465Hz e 235Hz, que é onde atuam as insuportáveis cornetas. Não posso dar um depoimento pessoal a respeito da eficácia do esquema porque a minha TV não chega a tanto, mas acredito no Lifehacker, um competente site de soluções simples para problemas complexos. Os anglo-parlantes podem acessar a página em http://bit.ly/dhpy9N.

Pedi ao meu amigo Tom Taborda que me explicasse os equalizadores – gráficos ou não -- e freqüências um pouco melhor:

-- Os equalizadores realçam ou abafam determinadas frequências sonoras, -- disse ele. – Quando a gente “limpa” um long-play antigo, os equalizadores entram em ação nas frequencias onde atuam os chiados dos arranhões. Já as frequências são medidas em Hertz (Hz), 'vibração por segundo'. Nossa audição vai do grave 20Hz (20 vibrações por segundo) até o agudo 20.000Hz = 20kHz. Aliás, à medida em que envelhecemos, perdemos a capacidade de perceber os sons mais agudos. Lembra daquele ringtone que fez sucesso há alguns meses, e que era ouvido só por adolescentes? Era por aí.”

Mas, como tem louco para tudo, há quem esteja fazendo sucesso com... o barulho das vuvuzelas! Para surfar pela web ouvindo a trilha sonora da Copa, é só acessar http://www.vuvuzela-time.co.uk/, e digitar na caixa de diálogo o endereço do site desejado.

(Antes que alguém se assuste desnecessariamente com a ilustração dessa página, esclareço: o jogo “Vuvuzela Hero – Legend of Africa” não existe. O pôster foi feito como distração pelo designer Olybop, fez o maior sucesso e foi parar no Boing Boing. A torcida geral é para que jamais venha a ser lançado.)


(O Globo, Revista Digital, 21.6.2010)

Tiziu, ajudando na faxina

20.6.10

Meus heróis



Os bombeiros passaram o dia trabalhando; os helicópteros iam e vinham, pegavam água na Lagoa, voavam pros focos de incêndio, molhavam a área, voltavam pra Lagoa...

Não pararam nem durante o jogo do Brasil.

Que TRISTEZA!!! Veio com a fuligem...

O incêndio


Video de Tiago Lins (@tcompagnoni, no Twitter)

Cheguei da rua tarde, fui pra salinha de vídeo pra terminar de ver um filme; de repente senti cheiro de queimado, não de queimado urbano, mas de queimado de roça. Dei uma geral na casa, pra ver se tinha alguma coisa fora de ordem, mas estava tudo OK. Quando olhei pela janela da sala, vi o morro em frente em chamas.

Agora passa de duas e meia, a notícia já é velha, mas a tristeza pela mata destruída e pelos bichos mortos é enorme, só superada pela raiva dos imbecis criminosos que insistem em soltar balão. Cadeia é pouco para essas criaturas egoístas e descerebradas!







17.6.10

A Copa vista do Twitter



Assistir à Copa do Mundo no exato ponto geográfico onde acontece não tem preço. Sei disso porque, há quatro anos, assisti à Copa na Alemanha, e adorei a experiência. A primeira vantagem da distância é que a gente não precisa assistir à Copa no Brasil, onde tudo para e, até segunda ordem, todos os outros assuntos ficam em suspenso; a segunda é que, como tudo é novidade, até futebol fica divertido.

Já assistir à Copa no Brasil apresenta diversos problemas para quem não vê muito sentido num monte de celebridades correndo atrás de uma bola de nome étnico. O principal é, naturalmente, achar assunto para conversa. Para crônica, então, nem se fala.

* * *

-- Vai escrever sobre o que essa semana? – perguntou um amigo na segunda-feira.

-- Ainda não sei. Estava pensando na ressaca e nos surfistas do Posto Seis, é tão bonito ver aquele pessoal enfrentando as ondas com os prédios e o Pão-de-Açúcar de fundo...

-- E não vai falar nada de futebol? O Brasil joga amanhã! Vai ser um dia histórico.

* * *

Fui dormir na segunda firmemente decidida a tirar a terça para andar pelas ruas vazias, e escrever sobre um Rio ideal, sem trânsito, sem automóveis para estragar a paisagem, sem assaltantes. Seria uma forma de falar sobre a Copa sem falar sobre a Copa. Acordei no Dia Histórico meio morta de gripe, e nem o sol amistoso que brilhava foi capaz de me convencer a sair de casa.

Consultei as anotações que tinha feito sobre o mar e os surfistas, mas quando entrei no Twitter cheguei à conclusão de que ainda não seria dessa vez que escreveria sobre eles. Não havia nada ar que não fosse Copa do Mundo, a começar pelo #Cala Boca Galvão. E ainda faltavam várias horas para o Brasil entrar em campo.

* * *

-- Vai assistir ao jogo? – ligou uma amiga.

-- Acho que não. Estou gripada, embrulhada num cobertor...

-- Vem para cá. Vem uma turma legal.

-- Estou péssima, não consigo nem pensar em sair de casa!

-- E vai ficar sozinha durante o jogo?!

Ela insistiu. Havia um tom de genuína comiseração na sua voz, e percebi que, para ela (e provavelmente para alguns milhões de outras pessoas) a idéia de ficar sozinha durante um jogo do Brasil na Copa do Mundo era tão terrível quanto, digamos, não ter companhia na noite de Natal. Com a diferença que Natal é todo ano.

* * *

Mas, como sabe todo mundo que se conecta, estar sozinha e ficar sozinha não são necessariamente sinônimos. Continuei debaixo das cobertas, tossi, espirrei, tomei remédio, bebi chá e, às três e tanto, voltei pro Twitter. Estava cheio de gente, e com aquela enorme vantagem da internet: não se ouvia nenhuma vuvuzela. Foi uma festa. Salvei alguns pedacinhos:

@aloumesse: O Brasil escondeu tanto o jogo, que nem os jogadores estão achando mais...

@Marcelo_Fraga Sério, devia ter um dress code na comissão técnica. É uma palhaçada essa roupa do Dunga.

@AndreArruda Suderj informa: Dunga não volta no segundo tempo.

O Ed Motta estava mais ou menos na minha sintonia, e passou o tempo todo do jogo (e mais uns tantos minutos) falando de música e de seriados de televisão:

@EdMotta Midnight Star e um hit dos anos 80 vry funky http://tinyurl.com/37dsyf5 Selo Solar de Los Angeles que tinha também o Lakeside, Whispers etc

@silviamarques Pelo silêncio da torcida, o Brasil tá flopando.

@jotaerreduran: O que é isso? O Dunga pegou o casaco emprestado do porteiro do hotel!

Havia consenso em relação à roupa do Dunga. Todo mundo detestou. Ou quase todo mundo:

@aherchcovitch “Confirmado, Dunga tá de Herchcovitch e eu tenho um igual! Tô feliz”

@claubukowski A julgar pelo time e pelo modelito, o Dunga escolheu a roupa e a filha escolheu os jogadores.

@garotasemfio O Kaká não tá 100%. Até porque 10% é do pastor.

@Floragil2222 Tantos patrocínios, tanto marketing, tanta conversa e nada de futebol!

@geoalexandre Em campo, Robinho e mais 10...

@samadeu Dunga joga na retranca contra a poderosa Coreia do Norte... #quemerda

@ThalitaReboucas O que é esse casaco do Dunga? Pensei que ele fosse a Lisa Minnelli!

@DanielaAF Quero ver a Globo conseguir selecionar os melhores momentos. #missaoimpossivel

@edsonduavy Essa nossa seleção não é hexa. Ela é VEXA.

@vitonez: O SBT exibe 'As tontas não vão ao céu' neste momento. Nos outros canais, ‘Os tontos não vão ao gol'. (via @BrunoAstuto)

@pavarini Dunga de técnico, Galvão narrando e Faustão no intervalo. Morri e fui pro inferno.

@clatogon O Brasil só faz gol no anúncio da Brahma.

@apyus A escalação da Coréia é toda de onomatopéias de espirros.

@marcosrs Gol da bola! Dá-lhe Jabulani!

@Cathala Jabulani 1 X 0 Coréia do Norte!

@giseleh Legal é ver no Terra Argentina "Termina el primer tiempo, Brasil sufre con un 0-0 ante el desconocido Corea del Norte" http://bit.ly/cF74D7

@silva_marina Seu Paulo, Fabio, Moara e Mayara, Dona Neide: a Vila Belmiro faz a diferença com Robinho e Elano.

@samucarioca Entra o jogador de duas sílabas, sai o de três.

@Marcello_Serpa Medíocre. Medíocre. Medíocre. Medíocre. Medíocre. Medíocre. Medíocre. Medíocre. Medíocre. Medíocre.

@brij Goal against Brazil by a North Korean! That's a historic occasion.

O meu amigo do segundo parágrafo estava certo, afinal: acabou sendo mesmo um dia histórico. E, apesar da gripe, até que me diverti com a turma do Twitter. Quem tem conexão, não morre pagão.


(O Globo, Segundo Caderno, 17.6.2010)

16.6.10

A dura vida da bailarina



A Bailarina de Vermelho morou durante muito tempo numa tela de Dégas, e acabou amiga de uma moça que morava ali perto, a Mona Lisa. Isso aconteceu, naturalmente, antes da transferência dos impressionistas do Louvre para o Museu D’Orsay. Um dia, porém, ela cansou de viver naquele espaço reduzido e foi embora, deixando no quadro, em primeiro plano, uma cadeira vazia. Depois disso, e antes também, pintou, bordou e namorou meio mundo: teve casos com Picasso, John Cage, van Gogh – limitações de tempo e de espaço, essas bobagens burguesas, não fazem parte do seu show. Foi vista na Ásia, nos Estados Unidos, na França, na Rússia. Rodou tanto por aí que não sabe mais se é francesa, russa ou brasileira. Onde quer que houvesse uma novidade ou um movimento de vanguarda acontecendo, lá estava ela, metendo o bedelho. Até que sumiu de vez, depois de se acabar num carnaval carioca ao lado de um misterioso folião azul.

“A verdadeira história da Bailarina de Vermelho”, de Alessandra Colasanti e Samir Abujamra, nem tenta descobrir que fim levou a encarnada personagem. Para isso seria preciso, no mínimo, um longa-metragem. O filme contenta-se, assim, em dar sugestões da sua trajetória. Passa por três continentes, tem trechos (falsos) de filmes antigos, vídeos (fajutos) do You Tube e cerca de 70 depoimentos (verdadeiros, ou quase isso) em mais de dez línguas -- tudo em 15 minutos cravados. É um verdadeiro épico de bolso.

A idéia foi de Alessandra, Leca para os íntimos, atriz, diretora, performer e alter ego da Bailarina de Vermelho desde 2006 (há quem diga que é o contrário; há divergências): tudo começou com a peça "Anticlássico" e continuou com incontáveis performances. A bailarina, hoje grande personagem carioca, já tem até um bloco de carnaval, para o qual a própria Leca confecciona tutus.

-- Nós queríamos fazer alguma coisa juntos há muito tempo, -- diz Samir, cineasta (dirigiu o longa "O paraíba", exibido fora de competição no último Festival do Rio). – A Leca descobriu o edital do Rumos Itaú Cultural, nós nos inscrevemos na categoria de filmes e vídeos experimentais de até 15 minutos, ganhamos o prêmio e, com o dinheiro, resolvemos ir a Paris e a Nova Iorque para ampliar a história.

Os dois viajaram com uma câmera na mão e várias idéias na cabeça. A câmera, por sinal, era tão pouco convencional quanto as idéias: uma Canon D7 que, embora filme em Full HD, é, essencialmente, uma câmera fotográfica. Em Paris contaram com a ajuda de Cécile Dano, e em Nova Iorque com Ana Bial. Elas completaram a equipe formada por Nani Escobar (assistência de direção) e pela produtora Vania Catani, da Bananeira Filmes. Cécile e Ana foram assistentes de direção, guias e pontes com atores locais. Além disso, carregaram muitos casacos para Alessandra, que enfrentou o rigor do inverno no Hemisfério Norte vestida com o ligeiríssimo tutu da Bailarina de Vermelho:

-- A gente não sabia onde ou quando ia encontrar uma locação legal, de modo que eu saía de manhã de bailarina e assim ficava até o fim da tarde, -- diz ela. -- Quando encontrávamos um cantinho bom, eu retocava a maquiagem, tirava o casaco, filmava um pouco, pulava de novo dentro do casaco...

Os trajes incongruentes chamaram a atenção dos seguranças do Centro Pompidou, em Paris, que levaram a turma toda para uma salinha fechada, preocupadíssimos com a possibilidade de seu precioso centro cultural estar servindo de cenário para um filme pornô. Esclarecida a questão, deixaram todo mundo ir embora, não sem antes soltar um “Madame, vous êtes très légère!” para Alessandra, “a senhora está com uma roupinha leve demais”. Ué, e ela não sabia?!

Tirando esse episódio, que no fim acabou bem e entrou para o folclore do filme, Samir e Leca ficaram encantados com a receptividade que encontraram. Como todo fake doc de respeito, seu filme mistura realidade com ficção. Há alguns atores em papéis específicos, mas a maior parte dos depoimentos sobre a Bailarina de Vermelho é dada por pessoas que aparecem com suas verdadeiras identidades, do peixeiro do Mali a Tatiana Leskova.

-- Nós contávamos um pouquinho do filme e as pessoas logo ficavam entusiasmadas, colaborando com o maior prazer – lembra Samir. -- A única pessoa que se recusou a dar um depoimento foi um açougueiro muçulmano em Paris, que disse que não podia mentir.

O resto entrou feliz no faz de conta. Ainda em Paris, era preciso encontrar alguém que parecesse ter alguma ligação com o famosíssimo 27 rue de Fleurus. A Bailarina de Vermelho, como é sabido, freqüentou muito Gertrude Stein, que morava lá. Pois não é que a dois passos do célebre endereço havia um senhor perfeito, sentado numa cadeira, pensando na vida?

-- Era um tipo vestido com muito apuro, com um cachecol vermelho no pescoço. Um homem que já foi elegante, e luta para manter a pose. Meio melancólico. De certa forma, poderia ser uma metáfora para a Europa, -- diz Samir. – Nós nos aproximamos, contamos o que estávamos fazendo, perguntamos se ele toparia dar um dos depoimentos. Ele topou na hora, todo feliz. Depois nos pediu um maço de cigarros.

Cécile e os atores franceses ficaram muito impressionados com a tranqüilidade com que Samir e Alessandra interagiam com as pessoas na rua. Na França tudo é mais certinho, mais formal, e, em tese, desconhecidos só se transformam em conhecidos depois de apresentados por conhecidos em comum. A descontração brasileira que corta caminhos fez sucesso.

“A verdadeira história da Bailarina de Vermelho” chega às telas e ao You Tube em setembro. Antes disso, e apesar de desaparecida, a Bailarina volta aos palcos em julho, no Sergio Porto, com “Anticlássico”.

Ah, sim: eu também faço uma ponta na “Verdadeira história”. Tenho uma fala inteira. Digo: “Nunca vi nada igual desde o aparecimento da internet. Ela quebrou todos os recordes do You Tube.” O depoimento é rigorosamente verdadeiro, ou quase. Eu sou eu mesma, e estou na redação. Repeti o que me pediram para dizer, mas quem é que liga para esses detalhes? Também não trabalho mais na redação, mas ninguém é perfeito.


(O Globo, Segundo Caderno, 16.6.2010)

Dois torcedores

15.6.10

Agora tá assim...

O Twitter é muito divertido

Olha como está isso...


Fiz também uma foto com a 10-20:

O caso dos queijos

Ontem eu perguntei à turma do Twitter como conservar queijo Minas -- se jogo fora aquela água, ou se devo usá-la para guardá-lo. Recebi muitas informações interessantes (a maioria recomenda jogar o soro fora) e, no meio, um utilíssimo link para o site da ABIQ – Associação Brasileira das Indústrias de Queijo, com instruções para conservação dos tipos mais comuns de queijo. Vejam o que eles recomendam:
"Queijos com soro: (Minas Frescal) O consumidor deve tirá-lo da embalagem, escorrer todo o soro, embrulhar o produto em filme plástico e guardá-lo num recipiente. Esses pequenos cuidados evitam o aparecimento de leveduras na casca, que deixam o queijo com aspecto de melado, diminuindo sua validade.

Queijos em pedaço s/soro: (Mussarela, Prato, Provolone, Parmesão, Gorgonzola, Cheddar, Gouda) – A dona de casa deve sempre após o uso embrulhar o produto com filme plástico ou papel alumínio para diminuir o contato com o oxigênio, evitando assim o ressecamento da massa e o aparecimento precoce de bolor.

Queijos em fatias s/soro: (Fatiados tipo Prato e Mussarela) – Devem ser mantidos em potes fechados e consumidos no máximo até três dias após serem fatiados.

Queijos cremosos: (Requeijão) – Devem ser mantidos fechados nas embalagens originais e consumidos no prazo estabelecidos pelo fabricante.

Queijos de mofo branco: (Brie, Camembert) – Devem ser conservados embrulhados no próprio papel da embalagem, que já é especial para a melhor conservação."

14.6.10

Surfe no Posto Seis









Twitter: as bandeirinhas da Copa

Perguntinha quase ociosa: adianta escrever sobre qualquer coisa não-Copa do Mundo a partir dessa semana? Digito essas mal tecladas na já distante tarde de quinta-feira, quando vai (ia) ao ar o show de abertura da Copa. No Twitter, que estava devagar quase parando, mesmo quem não estava ligado não tinha outro assunto: “Não estou assistindo a abertura da Copa”, “Saco isso”, “Nem só de Copa se faz o mundo” foram três tuites que pesquei ao acaso. Até o estimado senador Cristovam Buarque (@Sen_Cristovam) entrou nessa: “Não assisti abertura da Copa, muitos me escreveram dizendo q tema foi EDUCAÇÂO. Qual será tema na "Brasil2014"?”

Bom – eu também não sou muito chegada em futebol, mas será que dá para remar contra uma corrente dessas? Não, não dá. E assim me pus a agitar bandeirinhas feito todo mundo fazia por lá – isso, claro, sempre que a indefectível baleia dos dias muito movimentados dava uma chance.

As bandeirinhas são a parte visual de um novo termo: hashflag, composta do símbolo hash (#) e da palavra flag (bandeira). A hashflag é prima-irmã das hashtags, aquelas etiquetas que sublinham os assuntos relevantes, e que são sempre precedidas de jogo da velha. E que, aliás, já escaparam do ambiente estritamente tuiteiro para marcar as conversas que a garotada tem do lado de cá: #ridículo, #adoooro, #fui, por aí.

Se você quiser enfeitar as suas tuitadas com pequenas bandeiras e até com uma linda bolinha branca e preta, aí está a lista completa das hashflags. Lembre-se: é só usar o jogo da velha seguido das três letras do país. A exceção é a bolinha: #worldcup.

Grupo A
África do Sul: #rsa
México: #mex
Uruguai: #uru
França: #fra

Grupo B
Argentina: #arg
Nigéria: #nga
Coreia do Sul: #kor
Grécia: #gre

Grupo C
Inglaterra: #eng
Estados Unidos: #usa
Argélia: #alg
Eslovênia: #svn

Grupo D
Alemanha: #ger
Austrália: #aus
Sérvia; #srb
Gana #gha

Grupo E

Holanda: #ndl
Dinamarca: #den
Japão: #jpn
Camarões: #cmr

Grupo F
Itália: #ita
Paraguai: #par
Nova Zelândia: #nzl
Eslováquia: #svk

Grupo G
Brasil: #bra
Coreia do Norte: #prk
Costa do Marfim: #civ
Portugal: #por

Grupo H

Espanha: #esp
Suíça: #sui
Honduras: #hon
Chile: #chi


(O Globo, Revista Digital, 14.6.2010)

Tá cheio de gente pegando onda

No Posto Seis

Finalmente, um dia quentinho!

10.6.10

Por um punhado de dólares

Morreu ontem de madrugada o Mini, um dos fantásticos gatinhos da Leila. Ela publicou no site da sosgatinhos uma pequena crônica a respeito dele, que trago para cá: Mini foi mesmo um quadrúpede inesquecível.
"Eu morava no primeiro andar de um prédio no Leblon. Meu apartamento tinha um terracinho, como um quintal, construído em cima da garagem. Esse terraço dava fundos para as varandas dos outros apartamentos. Eu morava com seis gatos. Mini é filho da siamesa Nikita e do gato vaquinha Nico. Mini, vaquinha como o pai, foi o menor da ninhada. Faz 15 anos dia 28/06/2008. Nessa época tinha um ano. Bom, um dia volto do trabalho, era terça feira, dia da Lene fazer faxina, abro a porta e vejo bem no meio da sala um relógio Seiko prateado e um bombom Sonho de Valsa. Pensei "a Lene estava com pressa hoje..." Dias depois apareceu na cozinha um chaveiro com as chaves de um Fiat. "Quem esqueceu isso aqui e nem ligou?"

Desci para tomar um sorvete. A síndica me encontrou na portaria e disse meio sem graça que "o coronel do segundo andar disse que seu gato roubou o relógio dele" e fala baixinho: "Vai lá conversar com ele, vai... acho que ele está maluco..." Respondi meio no piloto automático: "Acho que não." Toco a campainha no segundo andar.

O coronel é gentil, adora bichos, diz que o gatinho preto e branco vem sempre ver TV com ele, e um dia pulou a janela de volta pra casa com uma coisa brilhante na boca. Só mais tarde, diz ele, ao procurar pelo relógio que estava no criado mudo e não encontrar...

"Um Seiko prateado?" pergunto, morta de vergonha... claro que era. Vou em casa, volto com o relógio, o bombom e o chaveiro. O coronel agradece, diz que o bombom pode ficar para o gato, mas aquelas chaves não eram do seu carro! Corri na portaria, disse que achei o chaveiro no elevador.

Sempre ganhei presentes de meus gatos: folhas secas, uma lagartixa, um ratinho, baratas mortas, pedaços de papel, coisas assim que os gatos dão mais valor. O Mini não entende muito de estilo, mas sabe como agradar um humano!

Conversando depois com o porteiro de um prédio do outro lado do quarteirão, ouço ele contar a história do gato ensinado da Venâncio Flores que roubava dólares dos apartamentos vizinhos... Mini é uma lenda viva no Leblon."

Mais duas fotos da praia





O mar estava um espetáculo, mas não se pode dizer o mesmo da praia, que praticamente sumiu...

Com Xexeo, ontem à noite



A foto foi feita pela Jussara.

A Ju, aliás, comentou que gostou da roupa. É uma das minhas favoritas; comprei numa outra encarnação, em Hong-Kong, numa loja maravilhosa chamada Shanghai Tang.

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Da última vez que pedi cartões, a encomenda levou uns 20 dias para chegar.

Vida em quatro rodas



Não tenho carro há muitos anos, e sou feliz. Foi assim: um dia, marquei consulta num médico logo ali na Visconde de Pirajá, a cinco minutos de casa. Quinze minutos antes, peguei o carro, e passei os trinta minutos seguintes procurando vaga. Liguei para o consultório, confirmei que a consulta ainda existia apesar do atraso, voltei para casa, parei o carro na garagem e peguei um taxi. Cinco minutos depois estava lá. Como, àquela altura, alguém já entrara na minha frente, tive os próximos quarenta minutos para refletir sobre o atraso de vida representado pelo carro.

Vendi-o no dia seguinte, para desespero da Bia, que ainda morava comigo e gostava da liberdade de ir e vir que ele oferecia. Tentei argumentar que, tão importante quanto a liberdade de ir e vir, era a possibilidade de permanecer, mas há momentos em que a filosofia não resolve nada, e aquele era um deles.

Depois, as coisas se ajeitaram. Passei a usar bicicleta para perto e taxi para longe, nunca mais me preocupei com multas, IPVA, troca de óleo e pneu, e dizem os economistas que, na ponta do lápis, estou gastando muito menos, apesar do preço do taxi. Nunca cheguei a fazer essa conta, que implica uma sofisticação matemática que não alcanço (por exemplo: quanto renderia o dinheiro do carro se fosse aplicado?), mas a impressão que eu tenho é que, elas por elas, os gastos mensais dão mais ou menos na mesma.

* * *

Seria hipocrisia dizer que nunca mais senti falta de carro. Sinto sim. Não para as coisinhas miúdas, ou para o vaivém do dia-a-dia; mas para uma ou outra viagem e, sobretudo, para as pequenas aventuras urbanas, como ir à Pedra de Guaratiba só pelo passeio, ou atravessar a ponte para dar umas voltas sem destino por Niterói.

A vida fica mais perto sem carro. Ir ao cinema na Barra deixou de ser uma alternativa, o Fashion Mall passou a ser longe demais, nunca mais comi na Tia Palmira, no Adegão Português ou no Rei do Bacalhau. Por outro lado, há mais restaurantes e mais lojas na vizinhança do que eu consigo freqüentar, e ir ao cinema na Barra não chega a ser programa de primeira necessidade.

* * *

Pensei nisso tudo porque, no domingo, fui com amigos passear de carro – aquela coisa antiga que se fazia quando eu era criança, quando ainda não existia trânsito e a violência não era parte do menu da cidade. Fomos ver o mar, que estava de ressaca. Saimos do Leblon e só não fomos até Grumari porque a estrada está interrompida desde as últimas chuvas, quando rolaram umas pedras por lá. Ventava, fazia frio e a orla estava quase vazia. Foi lindo e, por alguns momentos, até fiquei com vontade de ter carro novamente.

* * *

Falei nos passeios de carro que fazíamos quando eu era criança como se isso fosse a coisa mais comum do mundo, mas não era. Nunca tivemos carro. Uma vez meu tio Américo, que tinha espírito aventureiro, comprou um Morris, o primeiro carro da família. Foi um alvoroço. Às vezes, num que noutro fim-de-semana, nos reuníamos para, justamente, passear de carro. Era uma ocasião especial, combinada de véspera.

É provável que eu esteja sendo completamente injusta tanto com o tio Américo quanto com o Morris, mas o fato é que não tenho nenhuma lembrança da intrépida viatura em movimento. Em compensação, guardo bem a memória de vários enguiços pitorescos, e de um monte de adultos contrafeitos parados ao lado do carro, esperando o socorro chegar.

* * *

Nossa intimidade com automóveis começou (e terminou) nos Estados Unidos, quando meu Pai foi convidado a dar aulas na Universidade da Flórida, em Gainesville: uma típica cidadezinha americana, onde a vida sem carro é uma impossibilidade. Alguém ia ter que dirigir na casa – e sobrou, é claro, para Mamãe, que aprendeu em tempo recorde.

Logo tínhamos um Rambler Classic, e com ele exploramos uma Flórida ainda muito simpática, quase caseira, sem os excessos turísticos que a Disney traria depois. Ao voltarmos para o Brasil, nos despedimos do nosso amigo de quatro rodas com saudade e tristeza, e voltamos para as nossas linhas de ônibus habituais.

Mas é claro que esta não seria uma história da nossa família se ficasse só por isso. Tenho certeza de que a primeira saída noturna com o Rambler não se transformou em desastre porque nosso anjo da guarda ficou tão perplexo com o que viu que chamou reforços. Não ocorreu a nenhum dos professores da auto-escola explicar à Mamãe que carros tinham farol: como podiam imaginar que alguém não soubesse disso? Tampouco ocorreu a ela perguntar como se dirigia à noite, já que as aulas eram de dia.

De modo que lá fomos nós, com uma lanterna acessa dentro do carro, tentando iluminar o caminho. Papai se prontificou a pilotar a lanterna enquanto Mamãe pilotava o carro, mas como ele não conseguia iluminar o que ela queria ver, ela acabou, sabe-se lá como, acumulando funções. Pois fomos aonde devíamos ir, e voltamos sãos e salvos.

O mais estranho é que nenhum de nós – nem Papai, nem Mamãe, nem o Nonno, muito menos a Laura ou eu – nos lembramos de que, mesmo no Brasil, todos os carros e ônibus tinham utilíssimas lanternas embutidas na carroceria.

No dia seguinte, quando um amigo passou em casa para saber como estávamos nos virando, Mamãe se queixou amargamente do horror que era dirigir à noite.

-- Mas os faróis não estão funcionando?

-- Faróis?

E pronto, fez-se a luz.

Depois a gente se queixa de que a vida não é fácil.


(O Globo, Segundo Caderno, 10.6.2010)

O mar está bem batido!