3.5.10

Twitter: caindo na real





Na última terça-feira, quem fosse desavisado ao restaurante de Roberta Sudbrack, no Jardim Botanico, corria o risco de levar um tremendo susto. Enquanto o térreo exibia os casais elegantes de sempre, sussurando educadamente entre um prato e outro, o segundo andar estava tomado por uma turma ruidosa e alegre, armada de câmeras e de celulares, que não tinha qualquer pudor em espiar o que acontecia na cozinha pela janela que a separa do salão, e tratava a grande Chef com desconcertante intimidade.

Um dos mais famosos templos da Alta Gastronomia carioca estava transformado em cantina popular – e, mais estranho ainda, a Chef parecia muito contente com aquela bagunça toda.

A explicação por trás da inusitada cena atende pelo nome de Twitter. Presença assídua na rede social, @RobertaSudbrack conquistou quase seis mil seguidores com as suas tuitadas espirituosas e animadas, que descrevem o dia-a-dia do restaurante, dos primeiros movimentos da manhã, quando a costelinha é reverentemente posta no forno para assar em fogo muito brando, até o frenesi da noite, quando os pedidos chovem na cozinha e celebridades povoam o salão.

Na amostra, uma pequena sequencia:

“Situação da cozinha nesse momento... bombolonis tirando a sesta... camarões secos curtindo o calorzinho da estufa...”

“...cogumelos (lindos!) saltitando pela cozinha... pargos de brilhantina na careca batendo na porta de entrada... leite maltado apurando...”

“...lentilhas verdes du Puy cantando La Marseillaise e brigadeirinhos cantando mais alto ainda: Brasil, um sonho intenso, um raio vívido... “

“Ou seja... tudo na maior normalidade!”

Uma viagem e tanto, pois não? Mas o melhor é que a Chef dialoga direto com os seus seguidores, às vezes em altos e animados papos. E há fotos pontilhando tudo, seja dos ingredientes, seja dos pratos lindamente arrumados, prontos para entrar em cena.

Resultado: na Terça (quase) Básica do Twitter, todos se sentiam em casa. A verdade é que, acompanhando Roberta, todos nós, de certa forma, fazemos parte daquela cozinha: vivemos juntos os mesmos perrengues e comemoramos as mesmas vitórias. E aqui vale abrir um parênteses para explicar que a Terça Básica é uma opção de preços módicos no restaurante, o que permitiu o comparecimento de$preocupado dos tuiteiros.

A festa não foi só de comida. Foi também de celulares, fotos e tuitadas contínuas noite adentro.

“Tensão nos bastidores... 30 @s pra serem servidas por nós!” tuitou a Chef, às 21h32m. “É muita @!”

“Quase lá... a galera fala viu... e como fala!”

“Nunca vi tanto celular junto!”

“Vixe... que silêncio...”

“Mandei começar a produção de brigadeirinhos e não parar até o sol raiar...”

“Brigadeiros sorridentes passaram por aqui e levaram todas as colheres da casa pra passear na mesa 20!”

“Ou seja... ninguém pede café hoje por favor!”

Graças ao Twitter, onde laços e amizades já haviam sido devidamente atados, e à comida deliciosa que foi servida, as 30 @s viveram uma noite inesquecível. Às 3h23m da quarta-feira, a Chef tuitou mais uma vez:

“Quanta emoção numa noite só... quem é que vai conseguir dormir hoje?”


(O Globo, Revista Digital, 3.05.2010)

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