3.7.11

Entre a alta costura, aventuras e tablets


(Fotos de Monica Imbuzeiro)

O nome de Marcella Virzi devia ser mais conhecido do que é. O problema é que, tendo nascido e optado por viver numa cidade em que jeans e camiseta (limpa) são considerados esporte fino, ela dedica-se, com invulgar talento e grande entusiasmo, a criar roupas dignas de casamentos reais, cheias de transparências inusitadas, bordados elegantes e brilhos caprichadíssimos.

-- O meu talento é esse, -- observa, às vésperas de começar a vender em São Paulo, resignada com o óbvio. – As pessoas de lá se vestem mais. Não digo que se vistam necessariamente melhor; as cariocas inventaram uma elegância despojada que é única. As paulistas, porém, levam roupa mais a sério.

O projeto paulista vem sendo tocado simultaneamente com uma aventura inédita mesmo para Marcella, que sempre foi de grandes aventuras: uma espécie de clube, revista e museu de tudo para tablets, chamado Virzionair. Mas, para saber como ela fez a ponte entre a alta costura e a web 2.0, é preciso dar rewind e descobrir os caminhos por onde andou.

Filha de família tradicional, ela decidiu, aos 15 anos, que a vida que tinha não era bem o que queria. Logo estava rodando pela Europa, mochila às costas, descobrindo pedaços do mundo que lhe pareciam muito interessantes. Parou em Amsterdam, ficou uns tempos por lá e, quando fez a primeira pausa para respirar, estava casada e era directrice de um clube gourmet na Sardenha. Uma vida de sonho, que foi boa enquanto durou – mais precisamente, até o dia em que o marido começou a falar em filhos.

-- Foi aí que eu soube que ia voltar para o Brasil, -- lembra Marcella. – Estava com 24 anos, estava me divertindo muito, mas, já naquela altura, eu tinha o sentimento das minhas raízes, uma sensação de pertencimento. É claro que, na época, eu não tinha idéia do que era isso; hoje sei. Mas sabia que não podia ter um filho europeu, uma criança a quem, mais cedo ou mais tarde, eu iria impor o trauma de uma separação.

Separou-se. Mais tarde, já no Brasil, casou-se com o empresário Claudio Klabin, grande amor da sua vida e ótimo amigo até hoje:

-- O Claudio é um homem extremamente culto e refinado, -- diz ela. – Aprendi muito com ele. Sobretudo, aprendi a sedimentar o conhecimento que estava solto na minha cabeça, coisas que tinha pescado aqui e ali, mas com as quais não sabia o que fazer.

Nos anos 90, Marcella era a própria protagonista da novela das nove. Nora de Beki Klabin, eleita por Danuza Leão a representante máxima da jovem elegância carioca, estava em todas e deu festas memoráveis. Sua foto saia, dia sim e outro também, em colunas e revistas. Ela era alta, magra, elegantérrima e inatingível, quase a personagem de si mesma.

 -- Quando você chega num lugar e todo mundo olha para você, você se sente muito responsável pela forma como se apresenta. Eu sempre fui muito dramática, e carregava nessas tintas. Usava roupas que podiam ter saído de um filme, a tal ponto que, anos depois, quando já estava separada do Cláudio, ele me mandou trocar o guarda roupa todo por uns jeans e umas camisetas, porque homem nenhum teria coragem de me abordar naquele luxo todo...

Rimos. A imagem é engraçada mas enganadora, porque, por trás do verniz social de alto brilho, há uma mulher sólida, com uma cultura rica e diversificada, e dona de um apetite intelectual insaciável. Estamos conversando no seu apartamento, que considero um dos mais bonitos do Rio. A sua criatividade está presente nos mínimos detalhes, de uma pipa comprada na Saara funcionando como luminária a antiguidades egípcias e peças de arte contemporâneas. Com menos talento e mais empolgação, esse mix seria um desastre; mas Marcella tem o raro dom de saber parar.

Seu caminho para as passarelas foi natural. De volta ao Rio, começou a ajudar as produções de amigos fotógrafos; insatisfeita com as roupas que encontrava, começou a fazer as suas próprias. O resto é História, pelo menos no mundo da moda. Marcella criou com um sócio a Mastroianni e Bonaparte, desfez a sociedade, abriu um atelier numa casinha em Ipanema num tempo em que ninguém pensava nisso, foi crescendo, teve duas lojas em shopping e nessa rota teria continuado se o destino não batesse de forma dramática à sua porta: aos 39 anos, foi internada com uma pneumonia causada por uma bactéria resistente a todos os antibióticos. Passou uma semana na UTI, entre a vida e a morte, e salvou-se graças a um remédio experimental enviado dos Estados Unidos.

Passada a fase de convalescença, a Marcella empresária, convencida de que tinha nascido de novo, resolveu tocar os negócios em fogo brando e a vida em chama alta. Engatou um namoro com o fotógrafo Mauro Motta e, um belo dia, inesperadamente, descobriu-se grávida. Antônio Virzi, hoje com quatro anos, nasceu quando a mãe tinha 40.

-- A Marcella que você está vendo aqui começou, mesmo, há cinco anos. Primeiro com a pneumonia, que foi um sinal de alerta, e, logo depois, com o nascimento do Antônio, que foi a melhor coisa que me aconteceu. É impossível ser uma diva proustiana com um bebê ao lado, de modo que busquei, em mim, algum fragmento de Marcella que pudesse se desenvolver como mãe.

A mulher que passava as noites bebendo vinho tinto e lendo Dostoiévski e Sylvia Plath deu lugar à mãe que ouve as mesmas músicas infantis horas a fio; a estilista cuja paleta ia do preto ao preto, passando por todos os tons de preto, deu lugar à que joga com cores ousadas. O próprio apartamento, que reflete o estado de espírito da proprietária, ganhou almofadas lindas, cheias de cores, e um aspecto geral muito alegre.

Simultaneamente, sentindo-se sufocada com a pressão dos negócios, Marcella desmontou tudo, para recomeçar uma nova encarnação da sua grife Virzi – pequena, extremamente artesanal, voltada para menos clientes, e dando, à criadora, mais tempo para Antônio, um pequeno gentleman simpático e elegante como a mãe.

A vida corria tranqüila quando... pois é: mais uma vez o destino, e novamente de forma dramática, veio bater à porta. No final do ano passado, Marcella começou a sentir uma dor que não passava na perna. Recebeu dos médicos um diagnóstico sombrio, com possível ameaça de mutilação. Foi operada às pressas, e despachada pela família para Nova York, onde passou por quatro meses de radioterapia. Passou também por mais uma transformação.

-- Descobri que a vida é agora, -- resume. – A gente sonha com o passado, planeja o futuro, mas vive o dia de hoje. Não dá para adiar planos ou empurrar idéias.

O projeto para tablets é resultado dessa constatação. Marcella busca há tempos uma forma de expressão alternativa à moda. Flertou com o teatro e com a literatura, mas na alta do tratamento, acabou se inscrevendo na New York Film Academy. Não tem pretensões de fazer longas; ao contrário, a idéia é partir para micro-metragens de três minutos, pequenas criações em tempo web. Os filminhos são parte de um projeto maior, que inclui uma quantidade de amigos que têm o que dizer, num mergulho profundo em áreas específicas do Rio, sobretudo arte, design, consumo. Que cidade é essa, que pessoas são essas, que planeta é esse?

É difícil descrever o projeto, misto de revista, blog e imagens, até porque é difícil descrever novas novidades. Marcella ri enquanto apresenta a arte de abertura do Virzionair, que vem desenvolvendo com uma pequena equipe:

-- Não sou tão auto-centrada assim, mas dava para deixar passar esse trocadilho?


(O Globo, Rio, 3.7.2011)

16 comentários:

Cássia disse...

Essa crônica - linda como sempre - me despertou a curiosidade para o mundo dos tablets!
Valeu, Cora!

Que mulher! De garra! Dá-lhe, Marcella! Viver é essencial.

Patrícia M.M. disse...

Essa moça tem um "ar" triste...

Turquezza disse...

Tantas coisas passaram em sua vida, acredito que ela ainda vai querer mudar muita coisa ..............
Existem pessoas especiais assim ......

Nelsinho disse...

Grande crônica, Cora!! E que mulher super interessante, essa Marcella!

moni kr disse...

A Marcella e´muito ímpar mesmo.E´minha amiga no FB e nao sabia absolutamente nada da sua vida extravagante.Ela e´simples,modesta e muito ,muito gentil.Obrigada por me revelar a intensidade da sua vida.Deus a abencoe abundantemente.

Carlos Emerson Jr disse...

E não é que a Marcella é elegante até na hora de "cometer" um trocadilho? rsrs Muito boa crônica e que história fantástica essa mulher tem!

valeriaterena disse...

Muito boa a crônica, bem pra cima.

Ana Clara disse...

Que crônica!
Que mulher !
Lembro do tempo em que ela era "nora da Beki Klabin ".
Boa sorte menina, e uma vida longa.

Lucas disse...

Adorei a matéria, Corinha! Muito bem escrita, as always. E a Marcella é uma pessoa incrível!

Renata VN disse...

Entrevistada e crônica MUITO ESPECIAIS, Cora : gostei muito!

Vou aguardar pra ver e entender melhor o projeto,do qual creio que você fará outra matéria aqui.

Saúde, coragem e realizações,pra todos nós,e muito especialmente pra Marcella, com carinho!...

Cássia disse...

Já passei na loja e já tô namorando o iphone e o ipad.
Não demora muito e eu me rendo!
:catlaugh:

Não resisti... De novo!
:)

Cássia disse...

Cejunior, mate minha curiosidade...
Já tentei entender o trocadilho, mas, tico e teco estão magadando...
rsrsrsrsrsrsrsrs

Me explica?!

Pessoas lindas, por vezes é assim.
O que parece simples fica complexo!
rsrsrsrsrsrsrsrs

Milton T disse...

Como dizia o Ivan Lins, "começar de novo" e ter alguém com quem contar, junto com a força interior, já é meio caminho andado

=)

Monca disse...

Que interessante e comovente! Muito bom, texto lindo, deveras carinhoso.
:-)

Cássia disse...

Valeu, Cejunior!
Tá lá no facebook, mas, bem explicadinho.
;)

Cássia disse...

Bem verdade que agora é que me dei conta: visionária!
;)