18.9.09

Endless Summer


(Foto Bidu)

Três surfistas pegaram as suas pranchas, deram adeus ao trânsito e aos tiroteios e foram atrás de uma onda maior, mais comprida, perfeita.

Embrenharam-se pela Costa Rica.

Uns swells faltaram ao encontro, mas eles viveram uma linda aventura.

O relato da viagem está AQUI.

Funghi, na Bia




Resumão do Twitter

  • Gatos e trabalho não combinam. Como é que a gente pode se concentrar no trabalho disputando o teclado com um gato?!

  • RT @ElGabo: ¿Y qué? ¿Acaso pasaron los tiempos del cólera?

  • Eu entendo o desespero dessa mulher! O chip Oi 31 anos falava de graça de Oi pra Oi em fim de semana por 31 anos.

  • Os 31 anos do chip Oi 31 anos estão hoje em 25 anos. Alguns estão à venda por aí. Não comprem, é roubada: o chip é intransferível.

  • Delicioso blog -- em português -- sobre a Hungria.

  • RT @ashokbanker: An apple a day keeps the doctor away. For lawyers, throw a watermelon.

  • Vai de taxi? Tem o preço da corrida aqui (via @magrassi)

  • O mundo é um ovo. E de codorna.

  • O retorno de Susan Boyle, a diva redonda! Dá-lhes, Susan!!!

  • Tá. E agora chega de falar bobagem e vamos nos dedicar a coisas sérias -- como a nova edição do Guinness Book!
  • 17.9.09

    SOS Felinos & Caninos convida para jantar beneficente

    Onde: Refeitório Orgânico, na Rua 19 de Fevereiro 120, em Botafogo

    Quando: Sábado, dia 19 de setembro, a partir das 18h30

    Quanto: Buffet liberado por apenas R$ 22

    Haverá mercadorias à venda, e parte da renda será revertida para os bichinhos amparados pelo projeto.

    Por favor, tragam doações: rações (gatos ou cães, adultos ou filhotes), latinhas tipo whiskas, remédios (flotril ou similar, vermífugos, doxy, vitaminas, etc.), caminhas, bolsas ou caixas de transporte, toalhas, jornais.

    Qualquer doação será bem recebida!

    Se você não puder ir ao jantar, ou se preferir fazer a sua doação de casa, pode usar o PagSeguro (veja na homepage do site, em www.sosfelinos.org.br ou fazer depósito no Itaú, ag. 0407, cc 28564-2, em nome de Roseli Acosta Bastos.

    O projeto mantém cerca de cem animais, prepara-os para adoção, cuida de castrações, e atende a outros tantos na comunidade.

    A sua ajuda é muito importante!

    (Maiores informações com a Roseli: cel. (21) 9962-1526)

    Adeus, Mary.





    Canção do exílio








    “Acabo de ler sua coluna de hoje, sobre Budapeste, e vupt, sento ao computador para me comunicar com esta autêntica alma gêmea de tribo, tão rara no meu universo. Também sou filha e neta e tudo o mais de húngaros. Sou a primeira criatura da família a nascer fora de lá, as far as I know.

    Mas não foi só isso que me comoveu. Tenho vários amigos húngaros. O que me soou incrivelmente familiar foi a sua descrição da cidade. Cresci no mesmo caldo cultural em que se falava de Budapeste com esta aura magnífica que introjetei em cada célula minha.

    A família do meu pai era proprietária de um dos 22 jornais que você menciona. Só os três filhos vieram para o Brasil em 38, 40 e 46 respectivamente. Meu avô materno era arquiteto bem sucedido. Veio com a mulher e as duas filhas três meses antes da guerra estourar, por precaução. Com o firme propósito de voltar. A casa que deixaram ainda está lá, em bairro elegante, subdividida em duas.

    Eram pessoas que viveram esse período culturalmente rico da cidade, que tinham ótimo padrão de vida e viajavam com frequência. E chegaram num país ainda muito atrasado. Foram expulsos do Paraíso.

    Uma amiga psicanalista, Ana Verônica Mautner, aliás, também húngara, me ensinou uma coisa que faz muito sentido. A classe social que mais sofre na imigração é justamente essa à qual pertenciam nossos familiares. Os mais ricos sempre tem ligações com o poder -- bancos, embaixadas, políticos de prestígio -- que lhes dão alguma acolhida. É uma rede internacional. Os mais pobres saem da penúria e sempre têm a esperança da melhora, o que de fato acaba acontecendo.

    Mas o grande patrimônio da burguesia intelectualizada não é transportável. Conhecemos as pessoas certas, os lugares certos, colégios, livrarias, bairros, médicos, artistas. E somos conhecidos. Quando imigramos, perdemos nossa identidade de maneira dramática.

    Fui a primeira vez para a Hungria em 1963. Tinha 18 anos. A "minha" Hungria de casa era essa Paris de que você fala. Frequentei o escotismo húngaro, desde os nove anos de idade, onde conheci a "outra" Hungria: alegre, musical, com um folclore rico e exuberante. Sabia cantar mais canções folclóricas do que provavelmente qualquer morador de lá, tinha até traje típico com o qual dançava nas apresentações do grupo. Eu era uma criatura bizarra, que lá se foi, toda pimpona, conhecer aquele país maravilhoso.

    Amiga, foi um baque. Fiquei hospedada em casa de parentes e conheci de perto a dureza da realidade comunista. Não vi alegria nenhuma, vi uma cidade ainda destruída pela guerra, muito cinza e triste, e não conheci uma única pessoa que não fosse desconfiada, grosseira e infeliz. Entrei em depressão.

    É claro que eu sabia o que estava acontecendo. Mandávamos sempre pacotes com roupas e dinheiro. Mas não dava para imaginar a diferença entre o país de sonhos e fantasias e o que eu visitava.

    Alguns anos se passaram até que eu fosse capaz de compreender o sentimento de perda que envolvia meus avós. Meu avô era um homem muito habilidoso, enriqueceu de novo. Tinha um padrão razoável de vida e voltou a viajar bastante para o exterior. Mas havia uma tristeza por trás dos olhos de ambos que só passei a entender mais adulta quando, infelizmente, eles já haviam morrido. Morreram cedo, é claro.

    Meu pai, que era uma espécie de dandy intelectual -- se formou em direito, trabalhava no jornal do pai, era bonito e namorador -- veio para cá com 26 anos de idade. Lá, suponho que era uma promessa. Aqui, foi um imigrante simpático, aprendeu a língua muito bem e tentou se virar profissionalmente como pode. Mas estava fora de seu script.

    Sempre me senti estranha, nem isso nem aquilo. Quando comecei a ler seu texto ouvi um pouco dos ecos de mim mesma.

    Já voltei a Budapeste depois da abertura e me reconciliei com a cidade. Ela é linda e encantadora. Minha comida de alma é a comida húngara, e gosto até hoje das músicas folclóricas, embora raramente as ouça. Quando cantava para meus filhos bebes, cantava em húngaro. Minha primeira neta sabe duas dessas canções infantis.

    Mas, não é curioso?, a húngara que eu sou não tem território. A Hungria que continua viva foi muito alterada pelo domínio russo. A própria língua se vulgarizou. E jamais consegui ser brasileira de corpo e alma por causa das células ensandecidas que pensam que vivem no começo do século 20 far far away. Nem isso, nem aquilo.

    Conheci seu pai rapidamente em 1964. Eu estudava no Rio, no Bennet, e um paquera que era poeta português me levou à sua casa. Só me lembro que era muito simpático. Quem sabe um dia nos conhecemos pessoalmente?

    Um abraço enorme,

    Edith Elek”

    * * *


    Eu tinha que mostrar essa carta para vocês. Quando a gente escreve em jornal, às vezes acontece isso: um leitor senta ao computador, como quem não quer nada, e vupt, prova por A + B que pode dominar o ofício tão bem, ou melhor, do que quem o exerce.

    Foi muito emocionante para mim encontrar, no que a Edith escreveu, o reflexo de tantos sentimentos que conheço. O choque que ela viveu em 63, ao comparar realidade e fantasia, eu vivi em 77; como ela, eu também já voltei à Budapeste dos novos tempos, onde, apesar das paisagens afinal familiares, não encontrei a cidade que sabia.

    Talvez a grande diferença entre nós seja que as minhas células européias se concentraram todas à flor da pele, essa casca branquela que não bronzeia nem por decreto. Quanto à parte de dentro, é cem por cento carioca -- ou quase isso. Às vezes, muito de vez em quando, bate uma coisa assim aqui do lado que dói vagamente; mas eu não lhe faço caso, e ela passa tão rápido quanto veio.


    (O Globo, Segundo Caderno, 17.09.2009)

    16.9.09



    Resumão do Twitter



  • Tá esperando encomenda da amazon.com? Esquece. Sindicato confirma início de greve dos Correios no Rio http://migre.me/751Q (via @g1)

  • Para quem só pensa nisso: excelente lista de blogueiros de comida que usam o Twitter. Em inglês. http://bit.ly/7lOcu

  • Sempre que ouço notícias sobre perrengues automobilísticos me sinto tão livre e feliz por não ter carro! Iuhuuuu!!!

  • Tenho nojo de Renan Calheiros.

  • A espanhola que teve gêmeos com 66 anos morreu e deixou as crianças órfãs. Prêmio Darwin é pouco para essa cretina. http://bit.ly/DCxnu

  • Às vezes me sinto um ET. Não consigo entender o auê em torno do novo livro do Dan Brown. É sempre mais do mesmo...

  • Demorou: Dan Brown's The Lost Symbol falls into the hands of pirates http://bit.ly/6f6Hj (via @guardianbooks)

  • Caiu a censura ao Estadao! (http://www.estadao.com.br) (via @ainbinder)

  • Esquece. Continua a censura ao Estadão: publicaram alarme falso. O juiz é que foi afastado. #fail

  • RT @Cardoso: Ladrão imbecil sai c $3500 mas antes usa PC da vítima pra entrar no Facebook http://migre.me/754l // Depois falam do Twitter.
  • Precinho camarada: quero dois!



    O Submarino anuncia monitores de LCD de 20" pela módica quantia de R$ 99.999,99. Uma pechincha!

    (Por enquanto, o link tá aqui)

    15.9.09

    Arte se faz com qualquer coisa e de qualquer jeito



    O nome da garota é Kseniya Simonova, e ela foi uma das participantes da versão ucraniana do mesmo programa que revelou a Susan Boyle.

    Não canso de me espantar como tem gente talentosa no mundo.

    Resumão do Twitter

  • Todos sempre se queixam d q jornais só dão más notícias; a normalidade, porém, é o oposto da notícia. Twitter de hj é prova disso #boring

  • I live in the home of six generous cats that allow me the use of the office, the DVD room and even their own bedroom.

  • RT @LeoJaime Tem gente que te lê no twitter para odiar bem de pertinho.

  • Pense no Postulado Número 1 de Millôr Fernandes: Não se amplia a voz dos imbecis.

  • Amanhã Hoje, se não chover, tem feirinha de adoção de animais em Copacabana, na Pça Cardeal Arcoverde, das 10h às 16h.

  • Quer tirar satisfação com os senadores? A cáfila está toda aqui: http://bit.ly/IA64T

  • RT @leoamato: RT @marcelotas: Lista com e-mail dos Deputados: quem é contra e a favor da censura na internet http://bit.ly/AY3PV

  • Para mim, nenhum telefone em que não se possa trocar a bateria não é um smartphone.

  • RT @marioamaya: a pessoa não é feia. ela está mal iluminada.

  • Jantei com Thrity Umrigar, a autora de "A distância entre nós". Gostei muito dela: simpática, sem frescura, com grande senso de humor.


    O Twitter, vocês sabem, é um grande chat. Fico com uma janelinha aberta enquanto trablho e de vez em quando mando alguma idéia ou respondo a alguém. Hoje foi mais ou menos isso aí.

    Para ajudar a decodificar a coisa: RT significa retuitar, ou seja, passar adiante algo interessante que alguém disse; todos os nomes de pesoas que estão no Twitter vêm precedidos de @, para que virem links; # seguido de uma palavra é um tag, e quer dizer que aquele é um tema recorrente.

    Às vezes encontram-se dois ou mais RTs seguidos no mesmo tuite (caso da dica do Marcelo Tas, por exemplo). Por que? Porque a gente leu o que está passando adiante já passado adiante por outrem. Não é indispensável, mas é de bom tom.
  • 14.9.09

    iPhone 3GS e Nokia N97




    Pouco tempo depois do lançamento do N95 tive, em Manaus, uma rápida conversa com Olli-Pekka Kallasvuo. Uma das perguntas que lhe fiz dizia respeito, justamente, àquele aparelho:

    -- E agora? Como é que vocês vão fazer um celular melhor do que esse?

    O CEO da Nokia deu uma discreta risada. Não se esqueçam que ele é finlandês; se fosse italiano, tinha dado uma gargalhada. Conseguir fazer o melhor celular do momento é o sonho de todos os fabricantes, e ele tinha, consequentemente, todos os motivos para estar feliz. Tinha também bons motivos de preocupação, porque a excelência cria um nível de expectativa muito alto no mercado.

    Olli-Pekka olhou o telefone que levava, virou-o um pouco para um lado e para o outro e observou que o N95 podia, talvez, ficar um pouco mais fino, um pouco mais rápido e, eventualmente, ter maior vida de bateria. Nas variações seguintes, o N95 ficou de fato mais rápido, e ganhou uma traseira vagamente modificada para incorporar uma bateria maior e mais duradoura. Torná-lo mais fino era só um sonho, não uma possibilidade.

    Acho que a Nokia ainda está por apresentar sucessor à altura do que é, para mim, o melhor celular jamais fabricado. O N96 foi uma decepção. Mas na semana passada chegou ao Brasil, afinal, o N97. Conheci-o no lançamento, em São Paulo, e, à primeira vista, fiquei muito bem impressionada. É possível que venha a ser o aparelho que vai aposentar o meu N95; mas isso só vou saber depois de conhecê-lo melhor.

    Ao contrário dos antecessores, que abrem na vertical, ele é um slide lateral. Na parte de baixo, tem um excelente teclado qwerty, mas a tela touch-screen permite que se trabalhe com ele também fechado. A câmera me pareceu muito boa. Espero escrever em breve a seu respeito com mais conhecimento de causa.

    Até lá, o que posso dizer é que a pergunta que mais me tem sido feita – Nokia N97 ou iPhone 3GS? – não tem resposta. Os dois são animais nitidamente distintos, feitos para públicos e necessidades diferentes. O N97, como o N95 antes dele, é, de fato, um smartphone; o iPhone, com todo o hype, não é -- embora seja, disparado, a melhor ferramenta de bolso de acesso à internet. Repito que não testei nenhum dos dois, mas é óbvio que a escolha entre esses aparelhos é, no fundo, uma questão pessoal, que só pode ser respondida individualmente.


    (O Globo, Revista Digital, 14.9.2009)

    13.9.09

    Hoje, na Bienal do livro

    Bate-papo com a Fal Azevedo e a Clarah Averbuck, com a vossa blogueira de mediadora.

    É às 19h30 no "Mulher e Ponto" e, adianto, o título -- Blog é Livro? -- não foi escolhido por mim: blog é blog e livro é livro, e se a gente fosse se guiar por aí este seria o debate mais curto do ano.

    Mas título de palestra, felizmente, é só uma desculpa para a gente falar de mil coisas, especialmente quando a companhia é tão boa.

    Apareçam!

    10.9.09

    Lar doce lar




    Diazinho feio, sô!




    Os livros e a novela



    Filha e neta de refugiados húngaros, cresci ouvindo histórias de Budapeste, da sua vida artística, de seus teatros, seus cabarés, seus incontáveis intelectuais que frequentavam os cafés como extensões da própria casa. Lá encontravam os amigos, liam os jornais e trocavam idéias sobre um mundo que, infelizmente, ia de mal em pior. Ainda assim, mesmo nas lembranças mais sombrias, era possível perceber o fulgor de uma cidade cosmopolita e sofisticada, uma espécie de Paris para iniciados, para onde convergiam todos os talentos.

    Encontrar essa cidade extraordinária nas referências “oficiais” ao Império Austro-Húngaro, como filmes e livros, porém, sempre foi mais difícil. Viena, a outra capital, invariavelmente rouba os louros de Budapeste e, por mais que isso encha de ciúmes o coração magiar, é compreensível. Além de ser maior e mais importante, lá fala-se alemão, bem mais conhecido e acessível do que o impenetrável idioma que, em casa, sempre me pareceu tão comum.

    Viena é, também, consideravelmente mais antiga do que Budapeste, que só passou a existir a partir de 1872, com a fusão das cidades de Buda e Pest. Mas essa relativa juventude era, como propõe o historiador John Lukacs (não confundir com o filósofo marxista Georg Lukacs, que sequer era seu parente), o que distinguia a capital da Hungria na virada do século. Viena entrava em decadência no momento exato em que Budapeste fervia. E se as lembranças dos velhos imigrantes são matéria fugidia e impressionista, os dados registrados mostram-se sólidos argumentos. É a partir deles que este Lukacs menos conhecido constrói “Budapeste 1900” (Editora José Olympio, 308 páginas, tradução de Ana Luiza Dantas).

    Um só desses dados, por sinal, é suficiente para dar idéia do que era aquela cidade em desenfreado crescimento: em 1900, publicavam-se, em Budapeste, nada menos de 22 jornais diários! É um número inacreditável, ainda mais nos nossos tempos, em que o futuro dos jornais vive em discussão.

    Quem lia tanta notícia? (Como jornalista, não posso deixar de fazer a outra pergunta: quem escrevia tanta notícia?) A verdade é que ali havia toda uma nação descobrindo-se a si mesma, procurando as suas raízes culturais mais profundas, atrás da sua literatura e da sua música, às voltas com as várias refrações visuais de si mesma. Havia (e ainda há) muito o que encontrar. Apesar de duas guerras e da ocupação russa, Budapeste continua única; seus edifícios, seu jeito de ser, os cheiros que vêm dos restaurantes, os sons da rua em que o barulho dos bondes sublinha a fala das pessoas.

    Os anos dourados que Lukacs foi buscar, na esperança de resgatar a memória da cidade abafada pelos anos de comunismo e, sobretudo, pelo mito criado em torno da Viena da Belle Époque, duraram muito pouco. A amável e criativa convivência entre a aristocracia urbana, os ricos proprietários de terras e a burguesia em ascendência foi tragada pelo torvelinho de um nacionalismo malsão que pôs tudo a perder.

    Hoje, no Brasil, ecos da velha Hungria podem ser encontrados nuns raros livros em português, como “O companheiro de viagem”, de Gyula Krúdy, ou o pequeno e encantador “O poste de vapor”, de Ferenc Molnár. Ambos foram traduzidos por Paulo Schiller para a Cosacnaify, que também publicou, de Molnár, “Os meninos da rua Paulo”, na tradução do meu Pai. Mas eles são apenas isso, distantes sinais de um país que, então, talvez se imaginasse melhor do que era. Quando chegamos a Sandor Marai, um dos meus escritores favoritos, já não há uma nota de otimismo. Toda a sua admirável literatura é o retrato de um tempo atormentado, onde não há margens para dias melhores.

    John Lukacs estava na lista de escritores esperados para a Bienal e cheguei a ser sondada para um bate-papo com ele, mas, por algum motivo, cancelou a viagem. Pena, porque teria sido interessante conversar com alguém que, como eu, guarda na memória uma cidade que não viveu. É difícil enquadrar seu “Budapeste 1900” numa categoria específica; o livro mistura em doses mais ou menos iguais memória e história política, estudo demográfico, ensaio urbanístico. O que eu sei é que, se o título já não tivesse sido usado, “Fragmentos de um discurso amoroso” cairia, nele, como uma luva.

    * * *

    Vou ficar com saudades de “Caminho das Índias”. Não costumo assistir televisão por incompatibilidade de horário e porque já passo muito mais tempo do que devia diante de uma tela, mas ao longo do último mês fui fisgada pela trama de Glória Perez. Discordo de quem faz objeções à incongruência dos fusos horários entre Brasil e Índia, à facilidade com que os personagens vêm e vão entre continentes e outros detalhes de cunho prático. Desde quando história é para ter lógica? Se for assim, podemos começar implicando, de cara, com uma certa serpente falante que, um dia, convenceu uma moça a comer maçã. A novela teve dinâmica, suspense, elenco de primeira e direção de arte impecável. É kitsch? Claro que é, mas minimalismo tem hora. Rajastão e Bauhaus são antônimos. Com licença da Patrícia Kogut, dou nota dez para “Caminho das Índias” pelo conjunto da obra.

    Também vou ficar com saudades da parceria com o Noblat, com quem troquei impressões tuiteiras da novela em tempo real. Foi divertidíssimo usar o Twitter para eliminar a distância entre o Rio e Brasília, e assistirmos televisão do mesmo sofá.


    (O Globo, Segundo Caderno, 10.09.2009)

    7.9.09

    Cena final de Caminho das Índias









    Pois lá fui eu, em pleno feriado, xeretar a gravação da cena final de "Caminho das Índias", em que o casamento de Tarso e Tonia é celebrado na Estudandina.

    No Palco Maria Bethânia apresentou-se, em grande estilo, a dona do palco.

    Último capítulo é último capítulo, com direito a todas as comemorações.

    Sou amiga de muita gente dessa novela, e para mim foi um barato participar da festa. Tiro o chapéu para a turma que grava na Estudantina, onde faz um calor que nem vos conto.

    Garçons circulavam com taças de champagne que, para minha felicidade, era Sprite: enchi a cara.

    O clima era, de fato, de alegria e emoção. Terminar a gravação de uma novela deve dar um misto de alívio e saudade em todo mundo; e Bethânia, que não perdeu um capítulo de "Caminho das Índias", estava radiante por entrar na história.

    Até eu acabei caindo na dança, e fiquei pulando entre as minhas amigas Cissa Guimarães e Beth Goffman.

    Subi as fotos que fiz pro Picasa. Não estão grande coisa: por melhor que seja o N95, não há celular que possa contra os refletores de uma filmagem. Para quem quiser ver, o link está aqui.

    Joguinho

    Ontem, por acaso, me lembrei da primeira frase de "Cem anos de solidão", de Gabriel Garcia Marques:
    "Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo."
    Gosto tanto disso que sei de cor. Macondo virou um lugar de verdade na minha geografia sentimental: volta e meia, em algum canto da Amazônia, imagino que estará logo ali, depois daquelas árvores.

    Uma coisa puxa a outra, e fui lembrando de outros começos marcantes:
    "Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso."
    Ou:
    "Alguém certamente havia caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum."
    Não, não era boa coisa acordar num romance de Kafka, como se vê.

    Há os começos de que só me lembro em outras línguas -- "Call me Ishmael", de Moby Dick, por exemplo, porque nunca "pegou" em português; e "Longtemps, je me suis couché de bonne heure", que, embora tenha ótima tradução em português, ficou assim para sempre para mim, porque li Proust pela primeira vez em francês.

    Para não falar na grande palavra mágica da literatura brasileira, seis simples letras que nos abrem as portas de um dos mais extraordinários livros jamais escritos:
    Nonada.
    Nada podia ser mais radicalmente diferente de um dos começos mais famosos da literatura ocidental, a bem dizer a maquete da catedral que Dickens apresenta em seguida, na "História de duas cidades". Mesmo quem nunca sequer teve esse livro em mãos lemnbra do seu começo, ou de partes dele:
    "It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair" (“Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da razão, foi a idade da loucura, foi o tempo de acreditar, foi o tempo da descrença, foi a época da Luz, foi a época das Trevas, foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero."

    Pensei então em fazermos um jogo. Hoje é feriado, deve chover, pode sobrar tempo. Quais são os começos de romances favoritos de vocês? Não é necessário que a um começo favorito siga-se um romance extraordinário...

    E aí, topam?

    7 de setembro



    Até que ficou bonitinho.

    O link é este.

    Chernobyl Heart



    O tempo passa e a gente vai esquecendo. Mas eles lá, coitados, são obrigados a se lembrar todos os dias, diante das conseqüências.

    A manutenção do sarcófago que protege o reator é inexistente.

    Há uma frase terrível no filme:

    -- O próximo Chernobyl pode ser Chernobyl.

    3.9.09

    Colo de vó




    Fábio




    Nina




    Adora um livro...




    Gente miúda



    Dica do Gregório Duvivier:
    Esse cara - Slinkachu - é foda, uma espécie de Banksy miniaturista, que enche os espaços públicos de microhabitantes interagindo com a cidade. É genial, vale a pena ver tudo.

    Tempos de cinema



    Vocês já foram assistir a “Tempos de paz”? Pois se não foram, não sabem o que estão perdendo. Filmado em menos de dez dias com um orçamento relativamente modesto, é um trabalho amoroso e da melhor qualidade, em que brilham os competentíssimos Tony Ramos e Dan Stulbach. E em que, assim como quem não quer nada, revela-se, ao fim, uma comovente homenagem ao teatro e a tantos imigrantes que, vindos de uma Europa destruída pela guerra, tornaram-se orgulhos do Brasil.

    A história da produção começa com “Novas diretrizes em tempos de paz”, de Bosco Brasil -- praticamente uma peça de bolso, com apenas dois atores em cena e o mínimo de cenário. Como acontece quando um grande texto encontra atores à sua altura, o espetáculo era empolgante e foi um sucesso estrondoso. Daí surgiu a idéia de levá-lo às telas. Por mais que uma peça fique em cartaz, é sempre um momento passageiro, desfrutado por quem teve a sorte de vivê-lo; depois acaba e, na melhor das hipóteses, vira lenda. Mas por que não registrar esse momento, e ampliá-lo no tempo e no espaço?

    Fiquei muito curiosa quando soube que o filme estava sendo feito. Tenho uma relação especial com a peça -- parte das definições do som da nossa língua aos ouvidos de um estrangeiro saiu de “Como aprendi o português e outras aventuras”, livro de meu Pai -- e queria ver como aquela história intimista, feita sob medida para teatros pequenos, poderia ser transcrita para o cinema. O enredo é simples: o imigrante Clausewitz chega ao Brasil. Desperta suspeitas porque fala português, e é interrogado por Segismundo, agente da lei. O mundo do polonês, um ator idealista, desmoronou há tempos. O do brasileiro, brutamontes que sempre cumpriu ordens, está desmoronando: não há lugar para torturadores nos novos tempos. Clausewitz precisa de um visto de permanência; Segismundo quer mandá-lo de volta para o navio, que seguirá para as Malvinas. Cabe ao estrangeiro convencê-lo de que não representa perigo para a nação.

    No filme, a salinha fechada em que transcorre a ação da peça abre-se para um cenário maior, e nossa primeira visão de Clausewitz, que no teatro acontecia numa réstia de luz, se dá a bordo do navio que o traz, cheio de esperanças e ilusões. Segismundo, ao contrário, está desiludido e desnorteado. É abril de 1945, os comunistas foram anistiados e a barra pesou: ele tem que dar um jeito de sumir antes que alguém suma com ele. No armazém do cais onde acontece o interrogatório, os personagens principais circulam entre um depósito cheio dos objetos incongruentes da alfândega, um arquivo onde se amontoam processos e áreas comuns. Outros personagens, que no teatro existiam apenas nas referências de Segismundo, como sua irmã e o médico que a salvou, ganham vida própria e vão e vêm em cenas rápidas, abrindo algumas externas que nos tiram do ambiente opressivo do cais.

    São mudanças pequenas mas significativas, que acrescentam à dinâmica do filme sem diminuir a tensão do confronto. Elas foram, a meu ver, decisões muito acertadas de Bosco Brasil, que escreveu o roteiro, e do diretor Daniel Filho. Tony Ramos repete, à perfeição, a sua poderosa performance do palco. Dan Stulbach muda um pouco o caráter do seu Clausewitz, dando-lhe certa ingenuidade de farsa nas primeiras cenas. A trilha sonora de Egberto Gismonti é linda, linda.

    O que é que vocês estão esperando? Corram para o cinema! Quem assistiu a “Novas diretrizes em tempos de paz” vai viver a curiosa experiência de ver a mesma história contada em outro meio; quem não assistiu, vai ter a oportunidade de ver, finalmente, uma das melhores peças dos últimos anos, transformada num filme digno, forte e arrebatador.

    * * *


    Muitos leitores fazem referência ao “diálogo de mão única” que mantêm com os cronistas; mas a mão é dupla. Com o tempo, qualquer um de nós do lado de cá da página aprende a prever, mais ou menos, como será recebido o que escreveu, assim como amigos que compartilham rotineiramente a mesa no botequim sabem o que vai animar a conversa ou desandar o papo.

    Crônica, porém, não é ciência exata, e às vezes a gente se surpreende. Foi o caso da semana passada. Escrevi sobre os mangaritos, tuberculozinhos humildes que, na minha cabeça, jamais teriam o poder de conduzir alguém ao computador. Pois levei um zero bem redondo em avaliação. Eu não imaginava o potencial das batatinhas, que deram origem a muitos e muitos emails, cheios de saudades e informações. O da Irene Rezende trouxe até uma revelação histórica:

    “Meu pai tinha fazenda e plantava mangaritos que comíamos na sobremesa com melado. Desnecessário dizer que íamos ao paraíso e voltávamos. Você sabia que era uma das sobremesas prediletas do presidente JK? Papai chegou a mandar um carregamento para ele através de amigos comuns. Ele também gostava com melado feito da rapadura.”

    Escrevi para a Irene perguntando como era essa sobremesa do JK:

    “Se não me falha a memória, os mangaritos eram assados no forno, descascados e, quentes ainda, iam para mesa onde, já servidos, eram cobertos pelo melado. Não me lembro por qual motivo os mangaritos sumiram da fazenda, mas foram substituídos pelo cará com melado que também é uma ótima sobremesa, um pouco mais, digamos, rústica. O cará também era servido assado e sua polpa tirada com colher, porque a casca ficava meio grossa depois de assada. Segundo meu pai, era uma sobremesa muito servida nas fazendas antigas do interior de Minas.”


    (O Globo, Segundo Caderno, 3.9.2009)

    31.8.09

    Longe deste insensato mundo

    "No domingo ganhei coragem e escrevi um post no blogue. Era um “aviso à navegação”, ficou online às 19h03. “No dia 3 de Agosto entro em retiro. A pedido do meu jornal, vou estar uma semana afastada de parte do meu mundo. Vou servir de cobaia”, começava. “Quem quiser falar comigo tem que me ligar para o 351-210111271. Quem quiser comunicar comigo tem de me escrever uma carta, como antigamente, para Jornal PÚBLICO, Rua Viriato, 13, 1069-315 Lisboa, Portugal. Nada de e-mails, por favor. Eu não os vou ler, a caixa do correio vai entupir e alguns certamente nunca chegarão ao seu destino. O blogue vai ficar parado. Não vou aprovar comentários. Oooooh! Por favor, não me abandonem. Eu volto. Não sei em que condições, mas volto.”


    Isabel Coutinho, colunista do jornal português "O Público", passou uma semana totalmente off-line, sem acessar a internet ou usar celular.

    Teve coragem. Eu não sei se conseguiria passar sete dias -- sete dias!!! -- sem qualquer espécie de conexão.

    O relatório desta experiência radical está no seu blog, Ciberescritas, que recomendo a todos, na íntegra. A moça escreve lindamente. E em português, ainda por cima!

    Barraco: o fiasco de Xuxa no Twitter



    A semana passada não foi feliz para Xuxa (@xuxameneghel), mas foi muito divertida para os usuários do Twitter. Depois de uma meteórica carreira detonada por críticas e gozações, ela bateu a porta metafórica do seu espaço:

    "Fui vcs não merecem falar nem comigo nem com meu anjo".

    Pronto: a frase virou meme e está sendo repetida em todas as circunstâncias e de todas as maneiras. O anjo com quem não merecemos falar é Sasha, que num dos intervalos das filmagens de "Xuxa e o mistério de Feiurinha", mandou um recado para os fãs:

    "Sou eu Sasha. Estou aqui filmando e vai ser um ótimo filme. Tenho que ir… Vou fazer uma sena com a cobra".

    Tudo errado, não só com a pontuação e a ortografia, mas, sobretudo, com a exposição gratuita de uma criança de dez anos num site onde a primeira linha das regras de uso estabelece que o serviço é vedado a menores de 13 anos. As centenas de correções, algumas até gentis, a maioria nem tanto, foram a gota que faltava para a rainha dos baixinhos explodir:

    "pra quem não sabe minha filha foi alfabetizada em inglês, vou pensar muito em colocar ela pra falar com vcs, ela não merece ouvir certas m…"

    Acostumada com uma tela onde ninguém responde do outro lado, isolada do mundo real por camadas de seguranças, assessores e fãs incondicionais, Xuxa teve, no Twitter, o desprazer de descobrir que não é universalmente idolatrada, enquanto fãs alfabetizados talvez tenham tido o choque de descobrir a falta de intimidade da musa com a língua portuguesa. Ou, de resto, com qualquer outra língua: "gracias a todos argentinos pela linda energia besos mio y de sashita". Para os demais tuiteiros, porém, tudo foi uma grande piada, a começar pelo "jeitinho" de Xuxa, que só teclava aos gritos:

    "NÃO FIQUEM TRISTE POR EU NÃO RESPONDER TUDO EU FICO DOIDINHA , VOU APRENDER AOS POUCOS TÁ"

    "EU NÃO ESTOU GRITANDO, NEM QUERO SER MAL EDUCADA, GALERA. SEMPRE QUE ESCREVO NO COMPUTADOR, ESCREVO ASSIM É O MEU JEITINHO!"

    Não entendo como, até hoje, nenhuma das pessoas que a cercam não teve a gentileza de explicar a Xuxa como o seu "jeitinho" é grosseiro no contexto da rede; mas isso, pelo menos, ela aprendeu no Twitter. Depois de JEITINHO virar outra palavra chave, respondeu ao fã Anderson_Psor, que teve seus 15 segundos de fama:

    "eu adoro esse jeitinho , mas falaram tanta coisa feia q tô eu aqui de igual prá igual"

    Estava.

    Menos de um mês depois de estrear no Twitter, Xuxa bateu em retirada. Foi embora, mas não foi esquecida -- correram até boatos de que queria fechar o Twitter, e o You Tube ferve, até hoje, com filmes sobre o episódio.


    (O Globo, Revista Digital, 31.8.2009)

    27.8.09

    O iPhone 3GS




    Outro filminho fantástico!

    Eta solzinho bom!





    La Maison en Petites Cubes from dorsumi on Vimeo.


    (Valeu a dica, Rz!)

    Ted Kennedy

    Não, não se preocupem, não vou escrever sobre ele; o homem mal morreu e já estou com overdose de obituário.

    É só um link curioso, a homenagem da revista Architectural Digest, mostrando a visita que fez ao senador, AQUI.

    Sinceramente? Achei a casa cenográfica, e igual a um catálogo da Neiman Marcus. A única coisa que revela sobre os moradores é que são americanos e podres de ricos.

    O som das cidades



    Achei a idéia melhor do que a música; mas há muito para explorar e se divertir.

    Clique AQUI.

    O mangarito e outros mistérios



    E lá ia um troglodita todo contente pela floresta quando viu um vistoso cogumelo debaixo de uma árvore. Catou, comeu e cataploft, caiu duro lá na frente. Quando os outros trogloditas o encontraram, se é que encontraram, já devia estar meio devorado pelos bichos. E, mesmo que não estivesse, não existindo CSI na época, seria muito difícil ligar causa e efeito; de modo que muitos e muitos trogloditas continuaram comendo cogumelos e caindo duros quando catavam os errados. Era de se esperar que o ser humano tivesse desistido dos cogumelos há séculos, se não milênios.

    Enquanto os trogloditas do primeiro parágrafo faziam roleta russa com fungos, trogloditas do outro lado do mundo se divertiam com uma espécie sinistra de baiacu que atende por fugu. Este é um peixe tão letal, mas tão letal, que é a única iguaria que, por questões de segurança, o imperador do Japão é proibido de comer. Para ser servido em restaurantes, deve ser tratado por especialistas que fazem cursos de até dois anos e que, mui apropriadamente, diplomam-se comendo o que prepararam. Apesar de tudo o que se sabe sobre o fugu, e apesar de o mar estar cheio de sardinhas gostosas e inofensivas, há japoneses morrendo de fugu até hoje.

    Caso igualmente estranho é o da maniçoba, prato típico do Pará, feito com folhas de mandioca que devem ser cozidas durante oito dias, até perderem o veneno. Fico imaginando como é que se chegou a essa conclusão. Um primeiro índio comeu a primeira folha crua, e paf; um segundo índio cozinhou a folha, e paf; um terceiro índio cozinhou a folha por dois dias, e paf... Será que, a essa altura, já não estava claro que não servia para comer? Quantas pessoas não se envenenaram até ficar estabelecido que, fervendo o raio da planta durante uma semana, ela não apresentaria mais perigo? Isso, é bom lembrar, numa terra de fartura, onde basta esticar a mão para colher as frutas mais deliciosas.

    Esta atração fatal e insistente da humanidade pela gastronomia de risco me fascina. Jamais tocarei num pedaço de fugu que seja mas, cada vez que abro um vidrinho de champignons, sinto-me grata aos milhares de bípedes que abreviaram sua existência terrestre em prol da nossa segurança. Diante de certos risotti ai funghi, aliás, sinto até vontade de mandar celebrar missas por suas almas. Quanto à maniçoba, já comi e até gostei, embora não entenda a teimosia de se ter levado aquilo adiante a tão alto custo.

    Não são apenas os mistérios fatais que me espantam. O café, por exemplo: se o que aprendi na escola estava certo, foi descoberto porque, um dia, alguém percebeu que as cabras ficavam espertas quando comiam suas frutinhas. Pois comeram-se as frutinhas e nada aconteceu. Puseram-se então as frutinhas para secar, descararam-se os coquinhos resultantes, torraram-se os grãos que estavam dentro dos coquinhos, moeram-se os grãos, ferveu-se o pó... Que gente tinhosa!

    E o chocolate? Qual de nós urbanóides jamais ligaria o nome à pessoa se visse um fruto de cacau de um lado e um Sonho de Valsa do outro? Visitei as ruínas de muitas construções astecas no México e fiquei encantada, mas um povo que descobre que das sementes de uma fruta dura e sem graça extrai-se a maravilha dos deuses nem precisava ter deixado tais monumentos para provar o seu valor.

    * * *

    Tudo isso me voltou à cabeça quando a Roberta Sudbrack me apresentou aos mangaritos. Vínhamos teclando sobre esses ilustres desconhecidos, e ela atiçou a minha curiosidade. Fui ao restaurante experimentá-los. O mangarito é um tubérculozinho do tamanho de uma trufa, e assim, à primeira vista, não tem nada de especial. É mais uma daquelas coisas que, se dependessem de criaturas como eu, jamais virariam comida. A sorte é que há no mundo pessoas que observam cabras, insistem nos cogumelos, moem sementes e exploram tubérculos insignificantes.

    Nas mãos da Roberta, os mangaritos se transformaram no recheio de um ravióli que, por cima, trouxe pequenas lascas, como micro batatas portuguesas, e um crocante das cascas. Emocionante! Minha única dúvida é que, tendo sido preparados por quem foram, não sei se o mérito é deles ou dela, única pessoa que consegue fazer com que eu goste de quiabo. Tão bom quanto comê-los é ouvir a Roberta falar a seu respeito, porque aí se vai além da gastronomia:

    -- Os mangaritos estão em extinção, são difíceis de encontrar. A primeira caixa levou meses para chegar! Corri com ela para a cozinha na maior emoção, e comecei a experimentar de todos os jeitos, cortei, fritei, cozinhei... Quando assei a casca e aquele cheiro maravilhoso se espalhou, foi uma felicidade no ar, parecia sobremesa.

    Ela não sabe, mas essa nossa conversa foi uma grande revelação antropológica para mim. Diante de alguém capaz de se entusiasmar de tal maneira por uns trocinhos pelos quais eu não teria dado nada, entendi, de repente, o que levou os bípedes nossos ancestrais a tentar extrair, através dos milênios, o sabor das fontes mais inesperadas. Quando alguém como a Roberta olha para uma pedra perguntando “Que gosto terá isso?”, a pedra que se cuide.

    Ah, sim: para conhecer os mangaritos e ler a história do seu João Lino Vieira, que os está salvando sozinho da extinção, leiam o blog mangarito.notlong.com. Não deixem de ler os comentários, comoventes. Foram escritos, em sua maioria, por gente do interior, que morre de saudades dos mangaritos e quer comprar sementes e mudas para começar uma pequena lavoura nostálgica.


    (O Globo, Segundo Caderno, 27.8.2009)