11.10.06

Picolé de chuchu contra
empadinha de brócolis

Xexéo mandou muito bem hoje:
"Não sou daqueles que acham que Geraldo Alckmin deu um banho no debate de domingo. Também não fiquei surpreso com a suposta agressividade do candidato. Surpreso mesmo fiquei com a alegada surpresa do presidente Lula ao ver Alckmin cobrando explicações sobre os escândalos que mancham seu governo. Este tem sido o discurso do candidato do PSDB. Ele não falou nada a mais do que disse, por exemplo, na sabatina realizada aqui no GLOBO (um daqueles eventos de campanha aos quais o presidente não compareceu). A diferença no domingo foi que, desta vez, Lula estava presente. O candidato que há um ano vem se escondendo dos que cobram explicações, fugindo de debates, evitando entrevistas, enfim, teve que se confrontar com alguém que pensa de maneira diferente dos bajuladores que o cercam. Surpresa? O presidente esperava o quê? Uma discussão aprofundada em dois minutos sobre o Bolsa-Família? Não acredito. Lula pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ingênuo.

Lula resumiu o que sentiu no domingo: "Pensei que não estava na frente de um candidato, pensei que estava na frente de um delegado de porta de cadeia." É cada vez mais difícil entender o que Lula quer dizer. "Pensei que estava não na frente de um candidato, mas na frente de um delegado de porta de cadeia" seria uma construção melhor. Ou "Não pensei que estava na frente de um candidato, pensei que estava na frente de um delegado de porta de cadeia". Agora, "pensei que não estava..." é incompreensível (mas não tão engraçado quanto a máfia de "sanguessungas" que ele lançou logo no começo do debate de domingo). Mas mais difícil ainda é entender o que ele quis dizer de Alckmin quando o comparou com "um delegado de porta de cadeia". Os jornais registraram que ele confundiu a expressão e queria se referir a "um advogado de porta de cadeia". Será? Então, me explica, o que é que um advogado de porta de cadeia tem a ver com um comportamento agressivo? A expressão costuma designar profissionais de quinta categoria. Foi isso que Lula quis dizer? Que Alckmin é uma advogado -- ou um delegado -- de quinta categoria? E daí? Foi por isso que não levou a discussão para o lado programático, como queria o presidente?

Lula disse que o dia do debate foi um dos "mais tristes de um político que eu vivi". Outra construção difícil, mas vamos em frente. Mantendo o estilo que Lula vem adotando ultimamente, a gente também poderia dizer que nunca, em toda a História do país, houve uma noite tão triste para os eleitores do PT. E não porque Alckmin quis saber, com todo o direito, de onde veio o dinheiro que tentou comprar o dossiê fajuto no Hotel Ibis. Mas porque o operário que chegou à Presidência da República, que era reconhecido por suas tiradas bem-humoradas, que era considerado imbatível na ironia, que era bom de discurso, que era o rei do carisma, estava irreconhecível. Apático, irritado, com evidente desconforto. Ele não queria estar ali. Ele não queria debater. Ele não queria se encontrar com a imprensa na chegada ou na saída do debate. Ele não queria falar de assuntos desagradáveis, como mensalão, sanguessugas ou dossiês. Ele queria que aquilo acabasse rapidinho para voltar para casa.

O rosto do presidente (além de mostrar que ele não tem sido muito assíduo nas sessões de aplicação de botox, diferentemente de sua mulher, dona Marisa, que apareceu, rapidamente, no fundo do vídeo, depois do debate, com um rostinho de adolescente) exibia uma expressão raivosa. Como se aquele debate não fosse importante. Como se ele tivesse sido convencido por algum assessor -- e estava arrependido -- de participar. Como se o primeiro turno não tivesse demonstrado que metade do eleitorado o rejeitou.

A maior indicação de que Lula não estava nem aí para o debate pode se constatada pelo fato de que em nenhum momento, durante as duas horas de duração do programa, ele estourou o pouco tempo que a rigidez das regras do confronto lhe destinava. Dois minutos eram mais do que suficientes para Lula responder qualquer pergunta. Alckmin teve a palavra cortada várias vezes. Ficou a impressão de que Alckmin não conseguiu expor tudo que pensava e de que Lula não tinha muito o que expor.

De qualquer forma, não dá para esperar muito de debates como o de domingo. Ou alguém acredita mesmo que, com apenas dois minutos à disposição de cada candidato, alguém vá conseguir discorrer sobre programas de governo ou problemas brasileiros? Só dá tempo mesmo de acusar o oponente e aguardar sua réplica. Ninguém vai conhecer um candidato e suas idéias em pílulas de dois minutos. Quando há cinco ou seis candidatos debatendo, é compreensível que o tempo seja tão curto. Mas, só com dois no palanque, não faz nenhum sentido.

É verdade que todo mundo esperava ver um picolé de chuchu e acabou se deparando com uma versão mais comprida de Heloísa Helena (mais comprida e mais pálida). Mas isso é pouco, muito pouco para quem ainda espera conhecer as idéias de Geraldo Alckmin. Do outro lado, todo mundo sabia o que Lula pensava. Nem por isso o candidato precisava se apresentar como uma empadinha de brócolis. Uma sensaboria total." (Artur Xexéo)

(O Globo, Segundo Caderno, 11.10.2006)

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