16.11.10
15.11.10
Um teste pro Tiririca
De aorcdo com uma peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.
14.11.10
13.11.10
Kindle: contato imediato
A casa de qualquer amante de gadgets que tenha um mínimo de recursos para dar asas à sua paixão acaba, com o tempo, se transformando numa espécie de cemitério de antigas tecnologias. A minha casa não é exceção. Há velhos PDAs e celulares de diversos tipos e idades pelas gavetas, dispositivos de armazenagem de vários tamanhos e capacidades pelos armários e um baú inteiro de placas, conversores e cabos paralelos e seriais que não tenho coragem de jogar fora porque, afinal, nunca se sabe quando podem tornar a ser úteis.
Há também, num cantinho esquecido do escritório, um objeto meio retangular, do tamanho de um livro, com quatro centímetros de largura e um lado arredondado, que atende pelo nome de Rocket eBook. Foi lançado em 1999 e chegou a ser muito popular no seu tempo como leitor de livros eletrônicos. Era um prodígio, podia armazenar bem uns dez romances, e eu fiquei empolgada com essa possibilidade – mas, na vida real, não consegui sequer chegar à metade de um dos livros que armazenei nele. A tela ruim me cansou, e o peso de quase 700 gramas também não ajudou a consolidar nossa relação. Não tive coragem de jogá-lo fora, achando que um dia, quem sabe, ele me poderia ser útil numa viagem. Os anos foram passando, continuei viajando com dois ou três livros na mala e o Rocket eBook continuou encostado.
O seu fantasma, porém, me assombrou por muito tempo. Tanto que, quando a Amazon lançou o Kindle, não tive coragem de ir atrás. “Vai ser mais um gadget morto numa gaveta”, pensei com os meus pendrives. E assim é que fiquei olhando o movimento dos ebooks de longe, às vezes com um pouco de cobiça, mas de modo geral muito tranqüila na minha relação com os velhos livros de papel.
Há um mês, porém, uma amiga que não se entendeu com o Kindle me emprestou o brinquedo. É um Kindle da segunda geração, portanto já ultrapassado pelo espertíssimo Kindle da última geração, que não só é mais leve e tem tela com melhor contraste, como vem, de fábrica, com 3G gratuito no mundo todo, inclusive Brasil – uma perdição para quem acredita em gratificação instantânea.
Esta foi, aliás, a primeira sensação que experimentei com ele. Alguém me recomendou um livro, e em vez de encomendar o exemplar em papel, como teria feito normalmente, baixei a versão eletrônica. Ao contrário do que eu esperava, o preço foi um dólar mais caro do que o da edição tradicional (que estava com desconto), mas o que economizei no transporte foi ótimo e, maravilha das maravilhas, em alguns minutos eu já estava mergulhada na leitura.
Porém... sim, a minha experiência com o Kindle tem um porém, um grande porém – ele não é um livro, séria falha para quem, como eu, tanto ama o objeto em papel. Kindle e livros não se comparam sensorialmente. Quem pega um livro em papel sabe, imediatamente, quanta leitura tem pela frente. Embora o Kindle mostre numa barrinha a percentagem de páginas lidas, não é a mesma coisa. O Kindle perde também num quesito básico para o leitor contumaz: a folheada que se dá antes da leitura, em que se pescam frases aqui e ali, numa espécie de trailer do livro.
Se eu tivesse comprado um Kindle, ele não seria mais um gadget no cemitério; eu o usaria para ler artigos encontrados na internet (nisso ele é excelente) e, eventualmente para baixar livros que não tivesse paciência para esperar pelo correio. Talvez também o levasse em viagens, em vez dos volumes que habitualmente carrego. De qualquer forma, depois de um mês de convivência, já sei que, para mim, ele é apenas o complemento da biblioteca, uma forma a mais de buscar livros -- mas não a fonte primária de toda a leitura.
(O Globo, Economia, 13.11.2010)
12.11.10
11.11.10
Chão de ferro
Sempre gostei de tampas de bueiro, e durante algum tempo participei de uma comunidade no Flickr dedicada a fotografá-las. Há tampas muito variadas pelo mundo, e tenho fotos de uma mais linda do que a outra, em geral com os pés dentro do quadro, minha forma favorita de registrar por onde andei.
As tampas de bueiro brasileiras, infelizmente, são um fracasso estético na comparação com seus pares internacionais. Não passam de pragmáticas placas de metal, sem qualquer intenção de fazer bonito, perfeito exemplo do desleixo urbano que nos caracteriza. Uma tampa de bueiro bem decorada diz muito do capricho dos administradores da cidade.
Por outro lado, não conheço cidade tão cheia de bueiros quanto o Rio. No outro dia, andando por Ipanema e tendo de contornar uma obra que se fazia em torno de um deles, me dei conta de que a calçada era praticamente toda constituída de bueiros.
Decidi contá-los. Voltei para a esquina e comecei do começo. Vocês já tentaram contar bueiro? É muito difícil. O vai e vem das pessoas atrapalha, amigos e conhecidos interrompem as contas e levam-se esbarrões de gente que não olha por onde anda, até porque o contador de bueiros anda sem olhar. Apesar disso, quando cheguei à outra esquina, tinha contado 161, e esbarrado em pistas da história das telecomunicações, com tampas da CTB, da Telerj e de um genérico Telefone convivendo lado a lado. Também encontrei a preciosidade da foto, versão estapafúrdia da Light: depois a gente se espanta quando explodem.
O número não me saiu da cabeça. 161?! Como era possível a existência de 161 bueiros num único trecho de calçada?! Eu devia estar errada, mas ainda que tivesse errado por cem, sobrariam 61 bueiros num único lado de um único quarteirão, muito mais do que se vê em qualquer outra parte. Resolvi voltar no dia seguinte para uma recontagem... e cheguei a 164! Joguei a toalha. O fato é que, por uma ou por outra conta, está sobrando muito bueiro em Ipanema.
* * *
Houve um tempo em que o gosto musical da Bia ficou tão diferente do meu que quase não havia o que pudéssemos escutar juntas; uma das raras exceções era “Hair”, o musical que fez a cabeça da minha geração e que continuou vitorioso nas paradas até a adolescência da minha filha.Perdi a conta do número de vezes em que vimos e revimos o filme de Milos Forman, e a quantidade de vezes em que os dois CDs, o da produção teatral e o da versão para o cinema, foram trilha sonora para nossas viagens de carro.
“Hair” resumia tudo em que eu acreditava com quatorze anos, época em que geralmente se acredita em tudo ou em nada com a mesma intensidade. Eu acreditava em paz e amor, e achava, de verdade, que bastava um pouco de boa vontade para que todos os seres humanos passassem a conviver em harmonia; tinha uma saudável descrença de ritos religiosos, mas achava muito bonitos os mantras indianos, adorava aquelas túnicas coloridas e tinha enorme prazer em sentir cheiro de incenso pela casa. No mais, até pelo histórico da família, tinha horror a guerra, qualquer guerra.
Quando a Bia e as suas amigas descobriram “Hair”, o mundo já era outro. A identificação da sua geração com o “meu” musical passava por outros circuitos, talvez pela nostalgia de uma postura de rebeldia que, no fim dos anos 80, já não fazia sentido. Independentemente da motivação, porém, a história nos fisgou por igual, e até hoje sabemos as músicas de cor.
Agora, passados tantos anos, fomos juntas à estréia de “Hair” no Casagrande – e saímos de lá com o mesmo encantamento antigo. A produção está linda, e tem um elenco jovem, afinado e cheio de garra: mesmo os atores que ficam no fundo do palco, encobertos pela sombra, dançam e cantam cheios de entusiasmo. Os figurinos e o visual da tribo estão ótimos.
O mais importante de tudo, porém, é que Claudio Botelho conseguiu o prodígio de traduzir as músicas sem torturar as palavras: elas caem naturalmente onde devem cair, e não causam estranheza ao ouvido acostumado à versão original. Uma coisa é traduzir um musical do qual ninguém se recorda, ou do qual ninguém conhece as letras; outra é mexer com o ícone de tantas gerações, com músicas que todos cantaram milhares de vezes. Sem essa tradução de alto nível, não poderia existir “Hair” em português.
* * *
Nada como o tempo para aproximar as gerações. Nos idos de “Hair”, a geração dos meus pais, e dos pais dos personagens, me parecia irremediavelmente perdida – uma geração que não sabia nada da vida, que tinha mania de trabalho e obsessão com contas e contracheques. Hoje, que já sou mais velha do que era aquela geração naqueles tempos, me pergunto como imaginávamos sobreviver. Era fácil ser hippie com mesada, e relativamente simples viver à margem da sociedade com casa e comida na retaguarda.
Os pais de Claude, que eram ridículos quando foram escritos, hoje, apesar de caricatos, me despertam certa simpatia. A mãe aspira a casa porque, afinal, alguém precisa cuidar da limpeza; e o pai cobra um trabalho do filho porque, até prova em contrário, seres humanos precisam trabalhar para garantir seu sustento.
O fato de exigirem que o filho se aliste são outros quinhentos; essa é uma parte do “sistema” que nunca vou conseguir entender. Não acredito mais que a convivência entre os bípedes deste planeta seja exatamente uma coisa simples, mas continuo firmemente convencida de que não é brigando que a gente se entende.
9.11.10
O papo da Bienal
Fui a Campos falar sobre os jornais e o desafio da internet.
A Alcineia Gama estava lá e fez matéria para o portal da cidade.
A notícia está AQUI.
A Alcineia Gama estava lá e fez matéria para o portal da cidade.
A notícia está AQUI.
8.11.10
6.11.10
Nunca houve tempo igual
Escrevi este pequeno ensaio sobre os últimos cinquenta anos para o livro "50 anos construindo o futuro", publicado por ocasião dos 50 anos da CBS-Previdência:
As geladeiras eram importadas e os ventiladores um perigo para as crianças, com suas pás de metal desprotegidas. Comia-se manteiga sem culpa no café da manhã, almoçava-se em casa, jantava-se lautamente. Fotógrafos ganhavam a vida fazendo 3 x 4 na praça ou surpreendendo casais e famílias que passeavam na rua: os instantâneos ficavam prontos rapidinho, em menos de uma semana. As contas eram pagas em dinheiro vivo. O correio trazia cartas e telegramas. As cartas aéreas eram escritas em papel fino, para não ficarem pesadas e, por conseguinte, caras. Os comunicados fúnebres chegavam em envelopes com tarjas pretas, que lhes davam gravidade e os destacavam do resto da correspondência. A televisão era um aparelho de luxo, que apresentava programação local por algumas horas – e, mesmo assim, em pouquíssimos estados. Para o grande público, as notícias vinham pelo rádio e pelos jornais, que traziam informações de todo o tipo, das grandes manchetes ao resultado dos concursos públicos. O noticiário em imagens garantia a circulação das revistas semanais e a popularidade dos cine jornais, projetados nas sessões de cinema antes dos longa-metragens. Mães zelosas guardavam revistas para os trabalhos escolares dos filhos e, em toda casa com um mínimo de recursos, coleções de livros de referência para jovens tinham destaque nas estantes. Havia ótimo mercado para as enciclopédias, vendidas de porta em porta, em suaves prestações mensais. A palavra “tecnologia”, apesar de inventada em 1829, não fazia parte do vocabulário geral.
(Continua AQUI)
4.11.10
Recadastramento, o drama
Era uma vez uma velhinha que, como a maioria dos velhinhos, vivia da aposentadoria. Um dia, consultando um caixa eletrônico, viu que a sua conta estava zerada e que a pensão não havia sido depositada. Ficou muito preocupada, com medo de que o cartão bancário houvesse sido clonado, e lá se foi para o banco, conferir o que tinha acontecido. A moça do caixa checou daqui e dali e, afinal, descobriu que o dinheiro não fora depositado porque a velhinha não havia se recadastrado. Para voltar a receber a pensão, explicou a moça, devia ir a certa repartição pública. A velhinha prontamente se dirigiu para lá; mas lá não era lá. Depois de muita busca e demora, apareceu afinal alguém que sabia das coisas, e mandou-a para outro endereço. Era lá.
-- Como é que vocês fazem um recadastramento sem avisar a ninguém? – protestou a velhinha.
-- Mas nós avisamos – respondeu o funcionário. – Divulgamos em todas as rádios da região, e no jornal “A Voz da Serra”.
A velhinha, que não gosta de ouvir rádio nem lê “A Voz da Serra”, argumentou que tinha endereço certo e sabido, e que em relação a assuntos tão importantes o mínimo que o estado podia fazer era enviar correspondência. O funcionário concordou, mas tranquilizou-a, dizendo que, dentro de uma semana, ela receberia um cartão magnético que resolveria todos os seus problemas futuros. A pensão voltou a ser depositada; o cartão, porém, nunca chegou. Em compensação, algum tempo depois, chegou uma carta da Seplag, Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão, Rioprevidência, convocando-a para novo recadastramento – a ser realizado no dia anterior à chegada da carta, às 14h20.
A velhinha correu aflitíssima para o endereço indicado na carta. O local – uma escola estadual – estava vazio.
-- Eles não estão mais aqui – informaram. – O jeito é a senhora ir à Seplag.
A velhinha foi para a Seplag, onde foi recebida por uma funcionária atenciosa que, infelizmente, não pode fazer nada.
-- O problema é que agora são eles que fazem o recadastramento -- disse a moça.
-- Mas quem são “eles”? – perguntou a velhinha.
-- É que não é mais conosco, foi tudo terceirizado.
-- Não entendo porque a secretaria insiste tanto nesse recadastramento! -- desabafou a velhinha. – Na Europa, quando alguém morre, o cartório manda cópia da certidão de óbito para todas as fontes de aposentadoria, automaticamente.
-- Aqui também.
-- E aí? Não basta isso para que uma secretaria de planejamento e gestão possa separar vivos de mortos? Tem que assustar e atrapalhar os aposentados o tempo todo?
-- Ah, mas a senhora sabe como são essas coisas, né? – disse a funcionária.
Sim, a velhinha sabia. Um recadastramento terceirizado era coisa que devia dar muito dinheiro a várias pessoas. De qualquer forma, restava o problema: o que fazer? A moça orientou a velhinha a telefonar para um número da Seplag, o que a velhinha fez assim que chegou em casa. Neste número disseram a ela para ligar para outro número; e neste outro número, enfim, disseram-lhe para entrar no site, porque hoje em dia tudo é muito moderno e se resolve pela internet.
A velhinha ficou desesperada. Em seus 86 anos de vida, nunca precisou de computador, nunca pensou em ter computador e nunca teve a menor idéia de como entrar num site. Pegou um ônibus e desceu a serra, para pedir ajuda à filha. Mesmo assim, a tarefa não foi simples, porque o site é mal feito e complicado de navegar.
Depois de muitos cliques que não levaram a lugar nenhum, a filha conseguiu chegar à página que interessava. Entrou os dados pedidos e recebeu de volta um email:
“Acusamos o recebimento de sua justificativa de ausência. Fique atento à sua nova convocacão, que será divulgada através do site www.idfuncional.rj.gov.br, ou pelo número 0800 282 2326 no caso de segurados do Rioprevidência. Nos casos de segurados com impossibilidade de locomocão, o Rioprevidência fará o agendamento de sua identificacão biométrica no momento oportuno. Esta é uma resposta automática e não deve ser respondida.”
E este foi o ponto final das comunicações entre a velhinha e a sua fonte pagadora. Nem ela nem a sua filha entendem por que, tendo o endereço de email, a Seplag não avisa a data do agendamento aos interessados. O resultado é que, agora, estão ambas aflitas, uma discando o 0800 e a outra acessando o site, para não perder a data e a aposentadoria. Com o correio, já sabem que não podem contar, porque as cartas só chegam depois da data marcada. As duas me perguntaram se é isso que o estado considera boa gestão, e quantos aposentados não estarão na mesma angustiante situação.
-- Você já viu alguma empresa particular precisar recadastrar funcionário para saber quem existe e quem não existe? – me perguntou a velhinha. – Será que a Ambev ou a IBM recadastram seus funcionários o tempo todo? Você alguma vez já foi recadastrada?
-- Não, pensando bem, nunca fui. Sabe o que? Eu acho que isso dá uma crônica.
* * *
Enquanto isso, dois amigos tiveram os títulos de eleitor cancelados e não puderam votar nessas eleições, porque estão registrados em Mangaratiba, onde têm sítio. Descobriram isso no primeiro turno, quando chegaram à zona eleitoral e deram com os burros n’água. É que em Mangaratiba e em outros sete municípios fluminenses os eleitores precisaram se recadastrar.-- Mas como é que vocês não avisaram isso às pessoas?! – perguntaram, indignados.
-- Avisamos sim: o carro de som rodou a cidade inteira.
(O Globo, Segundo Caderno, 4.11.2010)
3.11.10
2.11.10
Grandes esperanças
* * *
Meus netos gêmeos passaram aqui no domingo. Estão com um ano e três meses, andam para todos os lados e fazem as gracinhas típicas da idade. São lindos e engraçados, inocentes das maldades do mundo. Querem carinho e atenção, como todas as crianças, e processam o que vêem à velocidade da luz. São pequenas páginas em branco em que a vida vai, gradativamente, escrevendo as suas histórias.Os dois têm a sorte extraordinária de terem nascido no seio de uma família bem estruturada, que pode lhes dar amor, comida adequada e educação. Nada fizeram para isso, exceto acertar na grande loteria da existência.
Poderiam igualmente ter nascido no Complexo do Alemão, numa família sem amor e sem recursos ou, eventualmente, em família nenhuma. Poderiam ser filhos dos miseráveis que fugiam desesperados de um morro a outro. Poderiam, em alguns anos, ser aqueles miseráveis.
* * *
Não tenho pena de assaltantes e de assassinos, mas não consigo deixar de ter pena das crianças que um dia eles foram. Ninguém pede para nascer numa comunidade abandonada, de onde o poder público se retirou há décadas. Vejo o olhar confiante dos meus netos e imagino o mesmo olhar em crianças cuja confiança será traída a cada passo, cuja esperança será destruída antes mesmo que saiam da primeira infância.Caso sobrevivam, que opções encontrarão pela frente? Quem lhes ensinará um ofício, quem lhes explicará que o crime não é um meio de vida correto e aceito, quando, à sua volta, todos se curvam ao poder dos criminosos?
* * *
Não acho que “a culpa é da sociedade”. A “sociedade” trabalha como um camelo e paga cada vez mais impostos, exatamente para que os gerentes que elege para cuidar do coletivo possam construir e manter escolas e hospitais, organizar e vigiar a polícia, prestar atenção à urbanização e assim por diante. A culpa tem nome, endereço e CPF: todo governante, todo político que desviou dinheiro, que fez acordo com o crime, que preferiu as pompas do poder ao trabalho que foi contratado para fazer.Também não acho que a culpa pela violência seja dos usuários de drogas, teoria tão em moda nos últimos tempos. Parte da humanidade precisa de entorpecentes desde que o mundo é mundo, e há viciados em todos os cantos do planeta sem que, na esteira do vício, se crie essa violência toda. Já escrevi isso aqui uma vez: sou absolutamente careta, não consumo droga de espécie alguma, sequer batata frita do Mac Donalds, mas sou a favor da liberação de (quase) tudo – sem embalagem atraente e, sobretudo, sem propaganda e sem endosso de celebridades. O álcool é tão ou mais prejudicial à saúde do que a maconha ou a cocaína e, no entanto, é vendido livremente – como deve ser. O que está errado é o estímulo constante ao seu consumo. Mas essa é uma longa história, e uma outra crônica.
* * *
Como todo mundo que mora no Rio, fiquei primeiro angustiada, e logo aliviada com o desenrolar da guerra. Senti emoção ao ver a bandeira brasileira tremulando no alto de um morro de onde nunca deveria ter metaforicamente saído, e orgulho pelos policiais e pelos militares que conseguiram o que se dizia impossível: a retomada do Alemão sem um banho de sangue. Foi um belo momento, que vai viver na memória de todos nós que, ao longo dos anos, acompanhamos a escalada da violência.Depois li que o prefeito quer instituir o dia 28 de novembro de 2010 como data de refundação da cidade. Com todo o respeito, menos, senhor prefeito, menos. Não diminuindo a importância do que foi feito, penso que ainda há muito a ser realizado até que o carioca possa, de fato, dizer que a sua cidade nasceu de novo. Aí está a Rocinha que não me deixa mentir; mas aí está o próprio Alemão e, sobretudo, aí estão as centenas, se não milhares, de crianças e jovens do tráfico.
Retomar o território dos traficantes é só o primeiro passo – enorme, com certeza, mas, ainda assim, só o começo do que deve ser uma longa caminhada. Os serviços públicos precisam ser regularizados, a população precisa ser atendida nos seus anseios de cidadania. Mas, acima de tudo, as crianças e os jovens têm que receber atenção prioritária das autoridades. Não basta construir escolas; é preciso pô-las para funcionar, e bem, e garantir que nenhuma criança deixe de ir às aulas. A única saída para a barbárie é a educação.
* * *
No grande saldo positivo da guerra, há uma história feliz acontecendo no Twitter: o usuário @vozdacomunidade , que tinha cento e poucos usuários no começo da semana passada, passa de trinta mil no momento em que escrevo. Este é o endereço do jornal Voz da Comunidade, que completou cinco anos de bons serviços prestados. Seu fundador, Rene Silva Santos, está hoje com 17 anos.Ao longo de todo o cerco, ele foi uma linha direta entre o Complexo do Alemão, onde nasceu e cresceu, e a turma conectada. Fez sucesso: deu entrevistas à televisão, aos jornais e revistas, conversou com repórteres estrangeiros. E, com isso, trouxe o Alemão um pouco mais para perto de todos nós. Valeu, Rene!
* * *
Eu amo o Rio.(O Globo, Segundo Caderno, 2.12.2010)
1.11.10
Não deixem de ver isso!
Um amigo de Facebook me recomendou essa projeção em 3D.
Não tenho nenhuma informação: não sei onde foi, quando foi ou quem fez, mas sei que foi o máximo!
Para assistir, cliquem AQUI.
A internet em manchete
Na quarta-feira acordei tarde, passei a manhã resolvendo coisas e só me conectei lá pelo meio da tarde. Chequei os comentários do blog e as mailboxes, e fui para o Twitter. Dei uma olhada na Timeline. O polvo Paul continuava liderando. Os demais assuntos não me chamaram a atenção. Em terceiro ou quarto lugar, se bem me lembro, estava Kirchner.
“O que será que ela fez agora?” pensei com o meu teclado, e fui conferir. Assim é que descobri a morte de Nestor Kirchner – e, de quebra, cristalizei a descoberta, da qual vinha gradativamente me dando conta, de que, ultimamente, o Twitter é mesmo a minha fonte primária de informação, o lugar onde pesco a notícia em estado bruto.
Essa informação, aliás, é interativa e, volta e meia, tem duas mãos – já me aconteceu várias vezes cair num engarrafamento inesperado, ou ter dúvidas sobre alguma coisa, dar uma tuitada a respeito e, na sequência, receber dezenas de respostas.
Mas essa “descoberta” óbvia não foi a única do caso. No dia seguinte, quando acordei e peguei o jornal, a proverbial lâmpada dos desenhos animados acendeu-se metaforicamente acima da minha cabeça: lá estava o efeito internet estampado na primeira página, numa manchete que, há poucos anos teria sido radicalmente diferente:
“E agora, Argentina?” perguntava “O Globo”.
Aquela era uma manchete feita com o pleno conhecimento de que, àquela altura, todos os leitores já sabiam da morte do ex-presidente. Uma manchete antenada com os caminhos atuais da informação. Para benefício de algum leitor que tivesse passado o dia anterior em retiro espiritual ou em viagem interplanetária, duas linhas menores esclareciam: “Morte súbita do ex-presidente Kirchner confunde cenário político do país”.
No todo, nada demais. Nada que já não tivesse acontecido antes no próprio jornal, onde as manchetes esportivas, sobretudo, já partem, há tempos, do princípio que o resultado do jogo não é mais novidade. Mas este foi o momento em que a minha ficha caiu completamente: ali estava a prova da influência da universalização da internet sobre a primeira página.
Há cinco ou seis anos, a manchete teria sido “Morre Kirchner”, ou “Enfarte mata Kirchner”, ou outra variação qualquer no mesmo tom; em alguns outros jornais, aliás, as manchetes foram exatamente essas, e subitamente elas me pareceram muito, muito antigas.
O mais curioso é que, há cinco ou seis anos, o rádio e a TV já existiam há décadas, e já transmitiam informação exatamente como fazem hoje, instantaneamente; mas os jornais pareciam não levar isso em conta. Era como se o público que se informava por rádio ou TV fosse um público diferente, ou como se, aos jornais, fosse obrigatória a reiteração da informação primária.
Aquela manchete de quinta-feira, “E agora, Argentina?”, me deu o que pensar. Ali estava, indiretamente, apontado o caminho que, mais e mais, os jornais impressos devem seguir no momento em que todas as outras formas de informação são mais ágeis: repercussão, análise, opinião. Bem ou mal, aquela era a pergunta que estava – e que ainda está -- na cabeça de todos. E agora, Argentina?
E agora, jornal?
Eu acho que é por aí mesmo.
(O Globo, Revista Digital, 1.11.2010)
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