28.8.08


Fal: do blog para uma livraria perto de você

Uma das vozes mais extraordinárias da internet
faz a travessia para o papel; o livro é imperdível



O livro chegou só assim, como quem não quer nada, como chegam tantos outros. Abri o pacote distraída, junto com o resto da correspondência; ia viajar naquela noite mesmo, a cabeça já estava no aeroporto. Capa bonita, título intrigante — “Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite”— e um bilhetinho que me chamou a atenção antes mesmo que me desse conta do nome do autor:

— Olá, tudo bem? — dizia a letra bonita, prateada sobre preto, da Cíntia Borges. — Não sei se já conhece a Fal Azevedo, ela é muito popular na web por conta do blog “Drops da Fal”. A Rocco lança nos próximos dias o livro dessa paulistana adorável. Tomara que goste! Por aqui, estamos todos apaixonados pelo livro.

Fal?! O coração bateu mais rápido, conferi a capa novamente e lá estava o nome da minha amiga tão querida, Fal Azevedo, sim senhores. Abracei o livro e o beijei, na impossibilidade geográfica de fazer o mesmo com a autora; para dizer a verdade, nunca nos encontramos pessoalmente. Eu não teria ficado mais feliz com o lançamento de um livro meu.

Grande Rocco! Há anos — que já me pareciam séculos — eu me perguntava quando, afinal, uma editora de verdade ia descobrir a Fal, essa alma extraordinária, essa pessoa verdadeiramente incomum, essa escritora com tantas qualidades, mas com um defeito imperdoável na nossa sociedade, perdão!, midiática: uma total e absoluta falta de talento para a autopromoção.

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A Fal tem uma densidade atômica rara nos dias de hoje. Digo “densidade atômica” à falta de melhor definição. Para mim, significa sensibilidade, cultura, delicadeza de alma, poder de expressão. Ela não só tem o que dizer, como diz bem, com originalidade e com a leveza de quem sabe que o mundo não começa nem acaba num blog ou num livro; vale dizer, com aquela seriedade essencial que, salvo raríssimas exceções, só alcança quem não se leva excessivamente a sério. É craque em cortadas rápidas que resumem um sentimento, um momento, uma diferença intransponível:

“De vez em quando o passado, que tava quietinho no canto dele, vem até onde você está, dá um tapa na sua cara e sai, antes que você possa esboçar reação. Ui.”

Isso é de agosto de 2004. Guardei porque, por acaso, reproduzi no meu blog.

“Se você não sabe a diferença entre medo e temor, nós nem podemos começar.”

Isso é de ontem. Abram os arquivos do seu blog, e em qualquer dia, de qualquer ano, vocês vão encontrar observações assim. Às vezes a Fal, que é a mais doce das criaturas, corta como papel: sorrateiramente, sem aviso, sem dizer água vai. Mostrando que sabe onde a vida dói, caso a gente tenha esquecido.

O “Drops da Fal”, um dos mais bem freqüentados blogs que conheço, não tem comentários. Tem livro de visitas, uma grande tapeçaria de conversas, e não há ocasião em que eu vá lá e não agradeça aos céus, mais uma vez, me terem feito contemporânea da internet. Confiram: visitem, leiam, dêem palpite, troquem idéias com a Fal e com aquela turma maravilhosa que bate ponto por lá. Depois me digam se a vida online não pode ser de uma riqueza sem fim. O blog fica em ddfal.notlong.com.

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Nem sempre blogueiros atravessam bem a fronteira entre o virtual e o real. As mídias são diferentes, pedem diferentes estados de espírito, diferentes filamentos internos. Pois a Fal é das raras, raríssimas pessoas que mantém, na página ou no monitor, o mesmo sentimento à flor da pele, o mesmo jeito de misturar o real e o irreal, o trágico e o trivial. “Minúsculos assassinatos” é e não é um romance. Melhor dizendo, é um romance pós-web, pós-blog, em que, ao mesmo tempo e na mesma página, misturam-se revelações dramáticas, incongruências do cotidiano e vozes variadas, personagens de ficção e gente de carne e osso — sem que, em momento algum, a tensão diminua ou o fio da meada se perca. Como ela faz isso, eu não sei. Só sei que é danado de bom.

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“Fal: Quando a gente escolhe não dizer a palavra mais dura, a gente amadureceu? Ou amoleceu? Tenho medo da resposta.”

“Vera: Fal querida, quando a gente escolhe não dizer a palavra mais dura não é nada disso de amadurecer ou amolecer. É porque a gente quer continuar o jogo. Sabe frescobol? Pro jogo continuar, você tem que ajeitar a bola pro outro, se esforçar pra alcançar a bola que veio, jogar pra cima pra dar tempo pro outro chegar, abaixar, esticar. Agora, se você não quer continuar o jogo, você dá logo uma raquetada e vai embora. Beijos para todos.”

Isso é de dezembro de 2002. Roubei para o meu blog, na época; aliás, o blog da Fal é dos que mais assalto, sem a menor cerimônia. Mas isso, parte disso, também é “Minúsculos assassinatos”. Que me dá vontade de carregar inteiro para o blog, e que não poderia recomendar a vocês com mais carinho ou entusiasmo. Não só pela leitura rica, densa, às vezes desconfortável, sempre humana; mas também pela experiência mágica que vocês poderão viver na seqüência, indo ao blog, conversando com a Fal em pessoa e se apaixonando perdidamente por ela. Aproveitem agora, enquanto ainda é (quase) segredo.

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“Uma lua amarela gigantesca, manchada de cinza e com um aro vermelho em volta, bem baixa no céu, manteve, acho, todo o litoral paulistano acordado essa madrugada. Os cães uivavam e se jogavam contra os portões e uns contra os outros. Os gatos miavam alto e riscavam fósforos.”


(O Globo, Segundo Caderno, 28.8.2008)