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Depois de duas noites no Four Seasons, a Capi começou a ter coragem de pôr o focinho pra fora; ela sabe o que é bom e aprecia uma cama confortável e bem feita. Não queria desgrudar de mim e ficava com medo das pessoas na rua, mas pelo menos aceitou dar umas voltas, o que foi um grande progresso.
Como toda turista de primeira viagem, achou Chinatown uma experiência fascinante. Adorou a disposição das lojas, atulhadas de cacarecos do chão ao teto, onde podia se esconder sem dificuldade cada vez que ouvia alguém falando inglês; e ficou besta com a quantidade de besteiras que o ser humano é capaz de inventar, fabricar, transportar para o outro lado do mundo e, sobretudo, convencer alguém a comprar.
Por ela, teria passado o dia enfurnada entre aparelhos de chá de gosto duvidoso e bastões de incenso (devorou vários!) mas, como depois de um tempo, meu joelho começou a reclamar, concordou em voltar para o hotel.
Estávamos descendo a Grant, e passando em frente a um espécie de beco, quando ela parou, atenta a um barulhinho vindo de trás de umas caixas de papelão. Sentei num dos degraus para descansar enquanto ela ia investigar. Subi fotos pro blog, respondi emails e, quando me dei conta, um bom tempo tinha se passado.
Nada da Capi.
Fui atrás, e lá estava ela, atrás das caixas, conversando com um bicho que não consegui identificar.
-- Ele não sabe como se chama nem tem idéia do que era, -- explicou. – Também ficou preso no Orange Level quando veio para cá, mas deixaram o coitado sem comida e sem bebida, de modo que está morto.
Ainda mais traumatizado do que a Capi, o bichinho vivia escondido nas caixas, de onde só saía à noite.
(Paul Robeson, Nobody Knows the Trouble I've Seen)
-- Será que podemos levá-lo conosco? – perguntou a Capi. – Por favor? Ele está muito infeliz.
Ele tinha uma caveirinha de gente boa, e contou que passou por maus bocados. Não duvidei; se a Capi, que estava comigo, ainda não tinha se refeito do susto do Orange Level, imaginem um pobre animal desacompanhado -- e agora, ainda por cima, morto.