18.6.09

Alguém sabe como cuidar de mico?

"Caiu um miquinho bem aqui no meu quintal. Está tão mal que quase não consegue se mexer. Consegui chegar nele antes da gata, mas não sei o que fazer com um mico.

Socorro!" (Petista Chato)

Ratos vivos e gatos mortos




Nunca antes na história desse país se viu tanta roubalheira e tanto descaramento num endereço só. O Senado está abusando da paciência dos brasileiros, e o pior é que, pelo que se vê, pode abusar à vontade. O máximo que acontece a um senador pego em flagrante é ter de devolver o produto do roubo -- como se, com isso, ficasse tudo bem. E fica, não fica? Os princípios básicos da moral e da justiça não valem no Congresso Nacional, onde a imunidade parlamentar, instituída com o nobre intuito de defender a democracia, virou uma excrescência insólita que apenas garante a impunidade dos criminosos.

É assustador (e nojento) perceber que, no Congresso Nacional, exibe-se hoje o que o Brasil tem de pior, a começar pelo coronel José Sarney, nos tomando a todos por otários. Ele tem razão, porque aqui estamos, otários que somos, pagando os impostos mais pesados do mundo para que nada jamais falte às excelências, suas famílias e agregados. Ele tem razão também quando diz que a atual crise não é sua, mas do Senado. Num senado decente, ninguém lhe daria bom dia, e os demais senadores teriam vergonha de serem vistos em sua companhia. Pois lá não só o elegem presidente da casa, como fazem questão de abraçá-lo depois de um discurso sem-vergonha como aquele de terça-feira.

Está ficando muito cansativo falar sobre a roubalheira, ler sobre a roubalheira, escrever sobre a roubalheira. Um escândalo é sepultado por outro que é enterrado por um terceiro e assim sucessivamente. As manchetes de hoje são iguais às do mês passado e serão iguais às do mês que vem; nem os personagens mudam. A crônica que foi escrita no começo do século e do milênio poderia ser republicada ano após ano, ano após ano, ano após ano...

Os safados estão conseguindo nos vencer pelo tédio.

* * *

Como todos os brasileiros que estão acompanhando as eleições iranianas, eu também tive vontade de me enfiar debaixo do sofá, de pura vergonha, ao ouvir Lula dar apoio incondicional ao presidente golpista Ahmadinejad. Se, como o coronel Sarney, Lula também acha que tudo que o contraria é intriga da imprensa, que pelo menos circule pelo Twitter antes de dizer a primeira coisa que lhe vem à cabeça.

A luta dos iranianos na internet tem sido comovente. Com quase todas as comunicações bloqueadas no país, eles têm usado as redes sociais, que estão fora do alcance das garras dos aiatolás, para contar ao mundo o que está acontecendo lá. Notícias não param de chegar ao Twitter, que até cancelou uma parada de manutenção na madrugada de terça; e Facebook e Flickr têm recebido incontáveis fotos das manifestações, que blogueiros fora do Irã se encarregam de espalhar.

Há uma grande comoção online, e a ajuda chega de todas as maneiras. Um dos gestos mais significativos partiu do The Pirate Bay, popularíssimo site de downloads, que vestiu-se de verde e mudou o nome para The Persian Bay, apontando links para um fórum de discussões (iran.whyweprotest.net) e para ferramentas de segurança individual na rede.

* * *

Os funcionários da Prefeitura que trabalham no Piranhão, na Cidade Nova, foram recebidos na segunda de manhã com uma cena de horror: os cadáveres de 18 gatos que viviam no terreno vizinho estavam caprichosamente alinhados na grama, na calçada que dá acesso à estação do metrô.

Ninguém sabe com certeza o que aconteceu, mas segundo uma das versões espalhadas por email, o massacre teria sido perpetrado por traficantes do São Carlos, que teriam soltado pitbulls entre os gatos. É a história mais inverossímil e mais mal contada que já ouvi.

Alguém consegue imaginar um bando de traficantes saindo do morro com seus cães, levando-os à prefeitura, soltando-os entre os gatos, esperando que trucidem todos, recolhendo-os e levando-os de volta para casa?!

Acionada pelos protetores, a Sepda (Secretaria de proteção e defesa dos animais) emitiu uma nota:

"Enviamos um médico veterinário ao local para averiguar o ocorrido e, segundo o técnico, os animais apresentavam lesões compatíveis com mordedura de animais maiores. Todos os felinos foram encaminhados para o Instituto Jorge Vaitsman para cremação. A Sepda irá investigar o que causou os óbitos."

Está tudo errado: desde quando se cremam as provas do crime? A prefeitura precisa explicar isso melhor. Muito melhor. Também precisa explicar como é que alguém consegue assassinar vinte gatinhos nas suas barbas sem que um único vigilante perceba o que está acontecendo. Bagunça tem limite. Maldade também.


(O Globo, Segundo Caderno, 18.6.2009)

15.6.09

Gato plastificado






Iranianos protestam contra o resultado das eleições; de um espantoso álbum de fotos publicado no Facebook.

No Twitter, notícias em tempo real.

Bambi: era tudo verdade!







(Valeu, Layla!)
Dados

Quantos novos bits...?!


Ando falando muito em information overload, a sobrecarga de informação que tem deixado todo mundo maluco. O pior é que nem precisamos de colaboração externa para nos afogarmos em dados; basta os que produzimos sozinhos. Agora mesmo, na Fashion Rio, fiz mais de 400 fotos que, depois de uma primeira seleção, caíram para cem. É muita coisa! E é por isso que, a cada dia que passa, preciso de mais e mais espaço no computador. Hoje, entre discos internos e externos, tenho 1.480 Gb no desktop, quase um Terabyte e meio.

Quem se dá bem com isso são os fabricantes de HDs e as empresas que se especializam em armazenagem. No mês passado, Carlos Alberto Teixeira, o nosso Cat, esteve em Orlando, participando do EMC World 2009. No evento, promovido pela EMC (líder mundial em desenvolvimento e provimento de infraestrutura de armazenamento de dados), ele descobriu alguns números muito interessantes, que publicou no Fórum PCs:

“A EMC divulgou uma pesquisa da IDC dando conta de que apenas em 2008 foram criados 3.892.179.868.480.350.000.000 novos bits no universo digital, ou melhor, 3,89 zettabits. Se você não souber direito o que é um zettabit, então é melhor expressar esse número quase inimaginável como 3 sextilhões, 892 quintilhões, 179 quatrilhões, 868 trilhões, 480 bilhões e 350 milhões de bits. Usando uma escala decimal de conversão de bits em bytes, considerando oito bits em cada byte e os usuais múltiplos de dez, isso tudo se traduz em pouco mais de 486 exabytes, ou seja, 486 bilhões de gigabytes.

A pesquisa, que foi patrocinada pela EMC, é intitulada “As the economy contracts, the digital universe expands” (“À medida que a Economia se contrai, o universo digital expande”). De acordo com esse estudo, a quantidade de informação digital criada em 2008 cresceu 3% mais do que a projeção anterior da IDC. A expectativa é de que o universo digital duplicará de tamanho a cada 18 meses, sendo que em 2012 serão geradas cinco vezes mais informações digitais do que em 2008.

Estima-se que nos próximos quatro anos, o número de usuários móveis triplicará. Mais de 600 milhões de pessoas se tornarão internautas e cerca de dois terços de todos os usuários internet utilizarão dispositivos móveis pelo menos parte do tempo. As interações entre pessoas por meio de correio eletrônico, mensagens instantâneas e redes sociais aumentarão oito vezes.

Quanto à atual crise mundial, a maioria das medidas de estímulo para recuperar a economia redundará num aumento na quantidade de informações digitais geradas, crescimento que também será fomentado pelo aumento da cobertura de acesso internet banda larga, pela adoção de registros médicos eletrônicos de pacientes, de redes elétricas transmitindo dados e de edifícios e automóveis inteligentes.”

Clique AQUI para a íntegra do texto do Cat.


(O Globo, Revista Digital, 15.6.2009)

Paheli



Lachchi é a linda moça que casa-se com Kishan, um tipo estranho que, já no dia seguinte ao casamento, parte numa viagem de negócios que vai mantê-lo cinco anos longe do lar. Eis que, por acaso, um espírito apaixonado fica sabendo dessa viagem, e decide tomar o seu lugar. Lachchi aprova a substituição, e os dois vivem na maior felicidade... até o dia em que Kishan volta para casa.

Essa é a historinha básica de Paheli (Enigma), um dos filmes indianos mais gostosos que vi até hoje: tudo funciona bem, da fotografia aos efeitos especiais, passando pelas músicas e pelo trabalho dos atores.

Recomendo muito!

(Acho que a rede deve estar cheia de cópias baixáveis; para quem tiver muita paciência -- sobretudo com as legendas -- há até uma versão completa no You Tube.)

11.6.09

Fashion Rio: foi lindo!




A Marina da Glória é um belo lugar, mas, para uma semana de moda, o Píer Mauá – nome chique do Cais do Porto -- é imbatível: o que mais ouvi durante a Fashion Rio foram Oh!s e Ah!s de admiração diante da paisagem. Pudera não. A água do mar batendo logo ali, os navios ao largo, as montanhas, o perfil da cidade, a Ponte Rio-Niterói. Liguei extasiada para um amigo:

-- Pode se preparar para morrer de inveja. Estou na Fashion Rio, olhando para a Baía de Guanabara. Há dois guindastes lindos à minha frente!

-- Guindastes? Mas logo guindastes?! Eu pensei que você ia me falar das modelos!

Não, não dá para explicar para um homem que, eventualmente, dois guindastes podem roubar a cena num universo fervilhante de moças bonitas. E, no entanto, lá estavam eles, os dois impávidos colossos, chamando a atenção de todos. É preciso ver um guindaste iluminado à noitinha para perceber que bonito que é.

* * *

A nova locação da Fashion Rio é um sucesso. Tudo mudou para melhor, a começar pelos armazéns, que substituíram as antigas tendas com enorme vantagem. Na verdade, chega a ser injusto comparar as tendas, tão transitórias, com o velho cais, todo faceiro depois da restauração. No novo endereço, a própria dinâmica do evento passou a ser outra. O passeio em frente aos armazéns virou uma espécie de calçadão, com diversos pontos de descanso: restaurantes, barracas de cachorro quente e de sorvete, espreguiçadeiras, almofadas. Ir de um desfile a outro deixou de ser prova de resistência, mas, mesmo assim, para os mais comodistas ou apressados, havia carrinhos de golfe fazendo o percurso.

O principal assunto de conversa foi, como não podia deixar de ser, a nova administração. Paulo Borges passou no teste com louvor. Não ouvi uma única crítica às novidades, embora, aqui e ali, tenha encontrado quem achasse que a semana perdeu um pouco do seu espírito carioca. A princípio, eu mesma tive essa impressão; depois, pensando melhor, percebi o que aconteceu. É que a Fashion Rio ficou mais madura, mais profissional. Todos os detalhes foram tratados com muita atenção. O melhor retrato disso eram os seguranças, discretos, eficientes e bem arrumados, sem um botão desabotoado. Excelente!

Algumas mudanças notáveis: os insuportáveis filmetes dos patrocinadores, repetidos antes de cada desfile, passaram a ser misericordiosamente exibidos enquanto a platéia buscava seus lugares, e ficaram indolores; a localização dos extintores de incêndio era relembrada sempre que as luzes se apagavam; e, aleluia!, o horário dos desfiles foi cumprido, com a margem razoável de 30 minutos de atraso.

Entre as raríssimas exceções, o verdadeiro espetáculo que o Carlos Tufvesson apresentou, mas não por culpa dele. Nos ingressos estava escrito 20h30. Às 21h, com todos em seus lugares, as luzes se apagaram... e nada! Lá ficamos nós, mil pessoas, esperando no escuro. O mistério só foi desfeito às 21h15, quando chegaram o governador e o prefeito, acompanhados de esposas e comitivas. Que papelão. As excelências levaram uma boa vaia, para aprenderem que a pontualidade é a cortesia dos príncipes.

Outra exceção ao bem cronometrado relógio da Fashion Rio foi a Lenny, que também atrasou 45 minutos. Ondas de impaciência varriam o público, submetido a uma dose dupla de filmetes; o pior é que, nesse caso, nem havia a quem vaiar. Prova da sua excelência é que, apesar da má vontade gerada pelo atraso, todo mundo adorou o desfile, como sempre impecável. A Lenny não erra.

* * *

ão vi todos os desfiles, mas vi muitos deles, provavelmente mais do que em qualquer outra edição da Fashion Rio. Meus favoritos foram o da Cantão, em que tudo estava lindo, alegre e colorido, e o do Tufvesson, que criou um clima disco muito divertido. Cantão é a roupa que a gente usa, solta e leve. Tufvesson é a roupa com que a gente sonha, e com muita nostalgia, diga-se, quando passou dos 40 (anos/quilos): é tudo bem colorido, bem justinho, bem curtinho.

* * *

Carlos Tufvesson não brilhou só na passarela. Junto com o release do desfile, distribuiu um texto comovente, relembrando os 40 anos da luta dos homossexuais pelo reconhecimento de seus direitos civis.

“Este ano comemoro 15 anos de casado com uma pessoa com quem divido minha vida, minhas alegrias e tristezas, e por quem tenho profundo amor e carinho”, escreveu. “Não enxergo nada de errado ou indigno no nosso amor. Tenho certeza de que ele é abençoado por minha família, por nossos amigos e por todos que nos querem bem. Se isso não é casamento, não entendo o que possa ser. Por isso me sinto envergonhado de, ainda hoje, no meu país, ter de me declarar solteiro. Tomo isso como uma falsidade ideológica e uma afronta à minha cidadania.”

Sou amiga de Carlos e André, e de inúmeros outros casais que não têm o direito elementar de serem legalmente reconhecidos. É inacreditável que, em pleno século XXI, a mão pesada do obscurantismo ainda impeça parcela tão preponderante da humanidade de viver em paz.


(O Globo, Segundo Caderno, 11.6.2009)

8.6.09

Momento celebridade




Dzenk




Cantão




Tudo engarrafado!




Fashion Rio




(O metrô, porém, estava vazio)




Tutu




"Ouvi barulho de ração!"




Um depoimento impressionante

A discussão da semana lá no blog – e em todos os lugares, provavelmente sem exceção – foi o acidente com o vôo 447. Por um lado, muito se falou da atual “onipotência” dos computadores; de outro, dos possíveis efeitos de um raio sobre o sistema elétrico do avião. Pouca gente acredita na possibilidade de um raio ter sido a causa do desastre, mas como nenhum de nós é especialista, acreditar – ou não – é tudo o que podemos fazer.

Eu, por exemplo, estava entre os que não acreditam que raios podem derrubar aviões, mas estou inclinada a mudar de idéia depois que li um comentário que o Andre Decourt trouxe da comunidade do Peugeot 206 SW. É o relato do que aconteceu quando um raio caiu na estrada ao lado do carro do Danilo Siqueira. Um carro, apoiado sobre quatro pneus de borracha, é, como o avião, uma gaiola de Faraday. Vejam só:

“Aconteceu comigo em Minas Gerais, neste fim de semana. Tenho um Peugeot 206 SW 1.4 Flex/GNV 2007, e fui para Muriaé na sexta-feira. No sábado, fui de Muriaé para Viçosa, para a formatura de um amigo. Eram mais ou menos 20hs. Faltando uns 30 km para chegar, começa um temporal sinistro, muita chuva, relâmpago... Baixei a velocidade e fiquei em torno dos 80Km/h. De repente, um raio caiu a uns dez metros do carro. Neste exato momento, o carro desligou e ligou umas 15 vezes em menos de 30 segundos. O limpador do para-brisa ficou maluco, o farol acendia e apagava, os ponteiros do painel ficaram se debatendo... Muito louco! Os celulares que estavam no painel do carro desligaram.

Parei no acostamento. Dei um tempo e tentei ligar novamente. Não funcionava. Até ligava mais ou menos, mas ficava ligando tudo que é tipo de coisa que tem eletricidade, limpador de para-brisa, farol, som... Os ponteiros de debatiam e depois morriam.

Resumindo: fui rebocado para Viçosa, fui à festa e, no outro dia de manhã, fui rebocado para Muriaé, onde moram os meus pais. Deixei o carro na mecânica. Hoje, terça, meu pai me ligou, dizendo que estava praticamente pronto. O chicote do carro queimou todo... Amanhã saberei da facada e no final de semana irei a Minas Gerais buscar o carro. Duas coisas:

Azul Seguros: gostei muito, primeira vez que uso o seguro, fui rebocado duas vezes e me trouxeram de taxi de Muriaé para o Rio. Super prestativos. Relâmpago: o lugar mais seguro é dentro do carro. Se cair no carro ou próximo dele não saia do carro, pode ser perigoso, espere um tempo.” (Danilo Siqueira)

Assustador, não é? Imaginem isso acontecendo durante um vôo.


(O Globo, Revista Digital, 8.6.2009)

4.6.09

Ê, vidão!






Update: O pior é que nem vem.

Um dia horrível



O vôo 447 e a tristeza de todos nós

Escrevo a coluna na segunda-feira. É uma rotina: vou dormir domingo arrumando mentalmente as idéias que surgiram ao longo da semana e, no dia seguinte, me entendo com a que pareceu mais interessante. No domingo passado pensei numas histórias que ouvi, numas nojeiras políticas que têm me tirado a esportiva (qual é a novidade?), na impossibilidade de arrumar os livros e na semelhança entre o escritório e alcachofra. A segunda, porém, cancelou todos os planos. Como é que se pode escrever quando um avião some só assim, no meio do Atlântico?

O dia ficou suspenso e triste. Por onde andei as pessoas estavam abaladas, mesmo aquelas que jamais voaram, esperando as explicações que provavelmente nunca teremos. Além de sair logo ali do Galeão, levando amigos, vizinhos, conhecidos ou conhecidos de conhecidos, um vôo Rio-Paris é sempre um sonho, e ninguém se conforma quando sonhos viram pesadelos.

Sim, é verdade que qualquer um de nós corre mais riscos de ser atropelado, de ser vítima de bala perdida ou de desastre de carro -- mas, como observa o Millôr, avião é o único meio de transporte em que se tem mau pressentimento. Viajamos de carro como se nada fosse, ficamos perfeitamente à vontade em trens e a nossa maior preocupação, quando pegamos barca ou navio, é se vamos ou não enjoar.

Quando um avião cai, desafia o engenho humano que venceu a gravidade e as leis da natureza, pondo pessoas num espaço que, durante milhões de anos, foi reserva exclusiva de aves e nuvens. Os outros meios de transporte apenas ampliam a nossa capacidade de percorrer distâncias em elementos que nos são familiares; mas quem disse que podíamos voar impunemente?

Não me recordo de desastre marítimo ou ferroviário em que familiares das vítimas se lembrassem de premonições. A queda de um avião, porém, é tão traumática, que os menores gestos viram vaticínios. Ouvimos admirados as coincidências e, no fundo, nos sentimos reconfortados, porque seria bom acreditar que temos algum poder sobre o destino.

* * *

Alguns amigos me ligaram para falar do acidente. Pessoas com quem precisei conversar sobre os assuntos mais diversos acabaram falando sobre o acidente. A manicure falou sobre o acidente, o rapaz que veio consertar a máquina de lavar falou sobre o acidente, os porteiros falaram sobre o acidente. Da noite para o dia, viramos todos especialistas em aviação, o que é compreensível: diante de um horror tão inexplicável, precisamos exorcizar as emoções e, se possível, encontrar uma razão que nos sossegue.

Na segunda à tarde, a turma da internet já falava em gaiola de Faraday com total intimidade, mais ou menos como a turma do botequim fala em escanteio. Precisei recorrer ao Google para descobrir que essa gaiola foi uma experiência de Michael Faraday (1791-1867) para demonstrar que condutores carregados ficam eletrificados apenas na superfície.

No blog, discutiam-se causas possíveis e impossíveis, a velocidade com que o avião desapareceu, a ausência de comunicação. Na terça-feira à noite, a Adriana, que é controladora de vôo, escreveu o seguinte:

-- É como se a tripulação tivesse sido colhida no meio dos seus afazeres, sem tempo para nada... Lembra das pessoas petrificadas pelo Vesúvio, em Pompéia?

E meu amigo Beto Sandall, comissário, explicou porque, apesar de tudo, gosta tanto do seu trabalho:

-- Quando a gente vislumbra a profissão de voar, vem junto uma sensação estranha de liberdade e de plenitude. Alcançamos as alturas, voamos como os pássaros e, livres como eles, somos também frágeis e impotentes. O amor por voar, porém, sempre fala mais alto.

* * *

Pensei muito nos passageiros e, principalmente, na tripulação do vôo 443, que saiu do Rio para Paris na segunda-feira à tarde. Que sentimento horrível, refazer a rota de um avião que acabou de desaparecer! Como é que se pode agir com naturalidade nessas circunstâncias? Como é que se faz de conta que está tudo bem, quando se sabe que todos a bordo estão pensando na mesma coisa pavorosa e impronunciável?

* * *

Detesto aeroportos e as burocracias de viagem, mas adoro aviões. Gosto sobretudo das primeiras horas do vôo, quando relaxo do estresse do embarque e fico só com um livro, umas comidinhas e a felicidade de saber que ninguém vai me interromper, que o telefone não vai tocar, e que, até aterrissarmos, nada, rigorosamente nada, será responsabilidade minha. Mais tarde, é claro, vêm a falta de posição na poltrona (por maior que ela seja) e a sensação de que o tempo não passa. Uma vez eu ainda estava acordada quando o avião passou ao lado de uma tempestade de raios. Foi um dos espetáculos mais bonitos que já vi, e em nenhum momento me pareceu algo perigoso. Às vezes, a ignorância é uma benção.

(O Globo, Segundo Caderno, 4.6.2009)

1.6.09

Horror

Estou horrorizada com o sumiço do avião da Air France.

Já viajei várias vezes nessa mesma rota, com aviões do mesmo modelo, e sempre tive a sensação da mais completa segurança.

Tenho pelo menos um amigo entre os desaparecidos, o maestro Silvio Barbato.

Impressos: um papel importante


Entre uma tarefa e outra, na Saara, esse gato que rala não dispensa a lida do Extra, dobradinho ao seu lado...


Certas perguntas parecem se repetir indefinidamente na vida das pessoas. Na minha, uma das mais freqüentes é se acho que os livros e os jornais vão acabar, com uma ligeira variante: quanto tempo lhes dou de vida. Acho que desde antes mesmo de a internet se popularizar, o fim da palavra impressa era dado como certo pelos alarmistas; mas acho que as notícias sobre este fim têm sido vastamente exageradas.

Olho ao meu redor. Estou trabalhando em casa, no escritório, onde as paredes são forradas de estantes. Ainda assim, não há espaço que baste para os livros, que, em muitos casos, se amontoam em fila dupla. Na sala, na mesinha de centro, há mais livros – todos comprados ou recebidos nos últimos dias. Uma ida a qualquer livraria comprova o que está claro aqui: os livros continuam vivos e bem. Logo aqui, ao alcance da mão, está “Poesia completa e prosa”, de Manuel Bandeira, 745 páginas editadas pela Nova Aguilar. Ainda que eu encontrasse tudo o que este livrinho contém na web, nada substituiria a praticidade de tê-lo à mão e folheá-lo. Nem mesmo o Kindle, porque nem sempre sei o que estou procurando.

Livros e jornais são, no entanto, animais diferentes. A matéria dos livros é -- em tese -- feita para durar. A matéria dos jornais é, por natureza, efêmera, e extremamente sensível à velocidade da informação. Cada vez mais leitores buscam notícias na internet, campeã do tempo real; e milhões de pessoas acham mais simples e mais barato se informar pela televisão. Ainda assim, não vejo o fim do jornal impresso num futuro próximo, embora veja um jornal bastante modificado: a rigor, o jornal de hoje já é muito diferente do que o que fazíamos no mundo desconectado. A opinião passou a ter mais peso, as manchetes perderam o tom bombástico de revelações, as notícias diminuíram no papel para se ampliar online, o leitor está (muito!) mais presente.

Os blogs e as redes sociais são excelentes fontes de informação, mas a internet ainda está longe de cobrir todas as necessidades básicas do bípede bem informado. Uma comunidade geográfica se encontra no jornal diário e nas notícias, grandes ou pequenas, de que todos tomam conhecimento ao mesmo tempo. Eu posso ter certeza de que todos os meus amigos leram o Ancelmo, mas nunca sei exatamente quais blogs foram lidos por quem. Sem falar que grandes reportagens, como o recente levantamento dos gastos dos deputados com passagens, ainda são terreno exclusivo dos jornais: blogs individuais não têm envergadura para trabalhos desse tamanho, e os minutos da televisão não são suficientes para entrar em minúcias.


(O Globo, Revista Digital, 1.6.2009)

Frio!




Ela não quer sair da cama




Keaton e Tutu




Tsk...

Já vi muita coisa chata no mundo, mas esse especial das cantoras homenageando Roberto Carlos é hors concours.

Os arranjos, arrastados e pasteurizados, conseguiram acabar com as músicas, as cantoras estão super-produzidas, e nem ao menos se faz a gentileza com o público de informar quem está cantando.

Isso é que dá ficar com a televisão ligada.