27.3.08

Divas




Re-toques no Rio!



Atenção, pessoal, a Laura avisa: o Re-Toques, que vocês acompanharam em tourné no ano passado, toca nessa sexta-feira, na Academia Brasileira de Letras (no Centro).

O programinha, que ela descreve como "bem gaiato", é em homenagem a D. João VI.

É às 18h30, e é grátis.

Epidemia de má-fé

Culpar a população é covardia: a
dengue é o caos da saúde pública



Para quem foi criança no Rio nos anos 60, a dengue é uma pestilência incompreensível. Naquela época, o pior do mosquito nem era a picada, era o zumbido. Por causa disso, acendíamos uma espiral perto da cama. Fazia fumaça e o cheiro era forte, mas ainda era preferível dormir com aquilo do que passar a noite em claro com a cantoria dos insetos. Na escola nos falavam da febre amarela e da campanha heróica de Oswaldo Cruz, mas a história fazia parte de um passado muito remoto. Ninguém conseguia imaginar uma cidade em pé de guerra por causa de mosquito.

O ano 2000 representava um ponto igualmente distante, só que em direção oposta. "Blade runner", que mudaria para sempre a nossa concepção do futuro, só seria lançado em 1982; até lá, iriamos para o trabalho em veículos voadores, verduras viriam em pílulas e todo o serviço doméstico seria feito por robôs. Não passava pela cabeça de ninguém que em 2008 o Rio estaria novamente entregue aos mosquitos. Aliás, não passava pela cabeça de ninguém que uma cidade tão maravilhosa pudesse sofrer tamanho retrocesso. Quando a escola era risonha e franca, a única coisa que andava para trás era caranguejo.

Hoje, além de morrer de dengue, o carioca ainda tem que ouvir do coronel da Defesa Civil que a culpa é da população. Ora, se há um caso em que a população não tem culpa é na atual epidemia! A população, que se deu conta da extensão do desastre muito antes das “autoridades”, tem feito o que está a seu alcance. Tem denunciado potenciais focos de mosquitos, tem tentado ligar para o disque-dengue, tem mandado cartas e fotos para os jornais, tem se queixado no rádio e na televisão. O que mais se pode pedir de uma população indefesa e desorientada?

Enquanto isso, o secretário municipal de Saúde, que sempre pareceu pessoa séria, afirma que a situação é “inesperada”. Perdão, mas onde é que ele mora?! Como pode ser “inesperada” uma epidemia de dengue numa cidade que convive com a doença há mais de quinze anos?! Será que alguma coisa melhorou na saúde pública do Rio nos últimos quinze anos sem que a gente percebesse?!

* * *

Por outro lado, é ridículo que a prevenção da dengue seja atribuição exclusivamente municipal. Mosquito não respeita fronteira política, nem é capaz de perceber que o prefeito está maluco. Saúde é coisa séria demais para ficar nas mãos de oportunistas menores; e é séria demais, também, para ficar nas mãos de oportunistas maiores. O combate aos mosquitos, que é trabalho silencioso, sem obras de inauguração e sem ocasiões para o exercício da cretinice verbal, deveria ser obrigação de todos os governantes, em conjunto e sem exceção. Assim, vigiando-se mutuamente, eles talvez fizessem mais do que trocar acusações.

* * *

Agora imaginem só o que seria do Brasil se, há cem anos, Oswaldo Cruz tivesse se orientado por pesquisas de opinião pública ou pelo populismo de hoje! E imaginem, se conseguirem, o que será do Brasil daqui a cem anos... Mas nisso, pelo menos, demos sorte: nenhum de nós estará vivo para ver.

* * *

Roald Dahl foi um dos escritores mais criativos e originais do século passado. Não tem leitores; tem fãs ardorosos que lêem e relêem os seus livros, participam de comunidades e fóruns de discussão e o mantém vivíssimo nas livrarias e na internet, embora tenha falecido em 1990, aos 74 anos. Sua popularidade nos países de língua inglesa é tão grande que, em 13 de setembro, data do seu aniversário, o Google enfeita o logotipo em sua homenagem.

Dahl escreveu algumas histórias para crianças que foram parar no cinema e que todos conhecem, mesmo que não saibam que são dele (como “Os gremlins” e “A fantástica fábrica de chocolate”), e alguns contos arrepiantes para adultos que, infelizmente, permanecem desconhecidos no Brasil. Alguns dos seus livros foram lançados por aqui ao longo do tempo, mas acabaram tropeçando ou em traduções capengas ou em má distribuição, quando não nas duas pragas simultaneamente.

No final do ano passado, no entanto, chegou às livrarias uma ótima tradução de “Kiss Kiss”, cult que, desde o seu lançamento em 1959, faz a alegria dos “dahlmaníacos”. Chama-se “Beijo,”, tem onze histórias em 301 páginas, foi traduzido por José Garcez Ghirardi e publicado pela Barracuda. Perdi a conta do número de vezes em que li este livro no original, mas apesar disso tive o maior prazer de reencontrá-lo em português.

É muito difícil falar dos contos sem entregar o jogo. Digo apenas que são curiosamente bizarros e muito divertidos, pequenas jóias em forma de montanha-russa. Vocês vão ver: é quase impossível terminá-los sem vertigem, e sem um frio aflitivo na barriga.


(O Globo, Segundo Caderno, 27.3.2008)

25.3.08

As Três Graças




Lúcia no escritório






A Lúcia é arquiteta; ela está me ajudando com as obras aqui em casa.

Bem que o Paulinho me avisou que, antes de voltar à rotina, eu ia acabar consertando tudo o que estava com defeito...

23.3.08

Pé na jaca total






"Alguém tem um engov aí?"

Ontem

Fiz várias coisas inéditas desde o encontro com o rapaz da moto:

  • Fui ao shopping comprar coisas para a casa, como panos de prato, toalhinhas de lavabo, porta-retratos.

  • Fui jantar no Fronteira, um quilo ali na Visconde de Pirajá de que eu gosto muito. Reparem que, para escolher comida num quilo, a gente tem que estar com as duas mãos livres -- e eu estava! Fui sem muleta.

  • Fui ao supermercado e comprei frutas.

  • Passei na banca e comprei umas revistas.

    O joelho atazanou um pouco, mas eu não lhe fiz caso.

    Foi um dia muito legal... :-)
  • 19.3.08

    No tailandês






    Vocês aqui do blog já conhecem essa história...

    Jesus no 464

    "A primeira vez que vi cabras azuis foi da janela do ônibus, indo de casa para o jornal" — escreveu a Leila num comentário lá do blog. — "Aliás, muita coisa importante na minha vida aconteceu assim. Foi da janela de um 464 que vi pela primeira vez uma colônia de gatos de rua no parque do Museu Carmem Miranda.

    Foi num 464 que vi Jesus, ele entrou no ônibus ali na São Clemente, fez alguns milagres e desceu no Catumbi (até hoje não consigo contar essa história direito, mas aconteceu).

    Enfim, lá ia eu para o jornal, tinha uma obra, acho, o ônibus entrou numas quebradas no Catumbi e lá estavam elas pastando. Cabras azuis de botinhas pretas! Meu coração disparou, foi amor à primeira vista.”

    Estávamos conversando sobre os bichos que gostaríamos de ter, mas o que chamou a minha atenção no comentário não foram as cabras azuis, mas a presença de Jesus num ônibus carioca. Publiquei o comentário com o merecido destaque. A turma que bate ponto no blog adorou, e começou a cobrança:

    — Leila! Não importa o que você toma, eu quero dois! — escreveu a Marcela, da Gávea.

    — Ou conta a história ou conta o que você toma! — mandou a Marise.

    — É, acho que ônibus é código — concordou o Tom.

    Depois de um suspense de dois dias, a Leila voltou e respondeu. E todos ficaram muito emocionados, mesmo os incréus, porque sabemos que a vida tem momentos mágicos:

    “Eram umas duas, duas e meia da tarde. Era um dia bonito, sol sem calor. Morava no Leblon e ia para o trabalho, no Centro. O ônibus era um 464, acho. O ônibus parou no último ponto antes da Praia de Botafogo, entrou mais gente, e a voz perguntou ao motorista:

    — Comandante, posso pegar uma carona?

    A voz era cheia, firme, equilibrada, mais para o grave, magnífica. Tive que olhar. Era um hippie. Um cara louro, cabelos no ombro, rosto bonitinho, cabelos mais para o liso, carregava aquelas coisas de veludo cheias de bijuteria artesanal. Magro, um metro e setenta.

    Ah. Ele entrou, tinha um lugar vago, alguém perguntou:

    — Não vai sentar?

    — Não, obrigado. Já estou feliz por conseguir a carona.

    Foi só isso, dito por aquela voz, aquela pessoa. Tudo mudou dentro do ônibus. Um homem levantou e deu o lugar para uma mulher que estava em pé. Duas moças se ofereceram para segurar embrulhos de pessoas em pé. Uma pessoa ao lado dele começou a puxar conversa. Ele respondia com frases comuns, contando de uma vida comum. Atrás de mim duas senhoras começaram a conversar. Ao lado as pessoas sentadas começaram a conversar.

    Aqui começa a ser difícil de explicar. O que posso falar é um baita lugar comum. Só existia amor. O ar ficou leve. As pessoas conversavam felizes. Quando entrou uma velhinha, dois homens se levantaram para dar lugar.

    Eu me sentia como em alguns sonhos que já não tenho faz tempo. Nesses sonhos eu ia a uma fazendo em uma ilha. Lá não existia medo, desconfiança ou raiva, só uma sensação de felicidade absoluta.

    Era assim ali no ônibus. Quando saímos do túnel Catumbi-Laranjeiras ele disse ao motorista que ia descer, agradeceu a todo mundo pela conversa e pela carona. Meu coração estava disparado. Pensei em descer, correr atrás dele e perguntar o que fazer da vida daí em diante. Nah, sua doida, você já foi hippie faz tempo. As respostas não estão com ele.

    O ônibus andou. Olhei pela janela. No chão da pracinha, um monte de folhas e restos de legumes da feira que tinha acabado. E carneiros. Sim, carneiros. Muitos carneiros felizes, comendo as folhas no chão. Carneiros pastando no Catumbi. Não eram carneiros branquinhos de foto de catecismo. Estavam com a lã bem sujinha até. Jesus tinha acabado de virar a esquina.”

    * * *

    A Leila é uma grande amiga. Há alguns anos, mudou-se para São Paulo, onde faz o possível e o impossível para ajudar gatos doentes ou que sofreram maus-tratos. Seu trabalho está em www.sosgatinhos.com.br.

    * * *

    Jesus, infelizmente, não tem aparecido mais nos coletivos da cidade, nem tem mandado ninguém no seu lugar. Tem bons motivos para isso. Desconfio que houve um tempo em que até trocou o risco de andar de ônibus pela relativa paz do metrô; mas esse tempo, como sabe qualquer carioca, acabou. Nem santo agüenta mais este serviço tão precário e antipático.

    Em qualquer lugar do mundo, o metrô estimula a compra de bilhetes antecipados e dá descontos para os passageiros precavidos, de modo que só vai para a bilheteria na hora do rush quem não é usuário habitual da linha. No Rio, porém, as filas são iguais para todos. E são, além disso, obrigatórias: não há como fugir delas desde que foi inventado o cartão unitário, que substituiu os antigos bilhetes, e que tem validade de três dias.

    Três dias! Dá para imaginar?! Se alguém for trabalhar com um bilhete de ida-e-volta na sexta, mas decidir voltar de táxi ou de carona, já não poderá usar o trecho que sobrou na segunda. Na prática, portanto, o cartão unitário significa o fim do saudável hábito de se levar dois ou três bilhetes na carteira para evitar fila.

    A operadora informa que quem devolver cartão com créditos vencidos ganha de volta um real. Considerando que o preço da passagem é de R$ 2,45, não é mau negócio... para o metrô! Mas tem mais. Cartões com tarifa diferente da vigente serão rejeitados pela roleta. Assim, sempre que o preço da passagem mudar, teremos de voltar à fila para pagar a diferença. Ou, como informam as instruções distribuídas pelo metrô, “para receber o troco, caso a tarifa tenha sido reduzida”.

    Com essa, finalmente, nossos serviços de transporte coletivo fazem história. Não são apenas os piores do mundo. São também os mais cínicos.


    (O Globo, Segundo Caderno, 20.3.2008)

    18.3.08

    Argh!!!

    Direitos dos animais: novo link

    Pessoas, o Marcus Borelli reuniu toda a legislação sobre Direitos dos Animais num pequeno site, que pode ser da maior utilidade para quem passar por perrengues com seus bichos.

    Criei um link permanente aí na barrinha da esquerda, para que a gente possa ter as leis sempre à mão.

    Valeu, Marcus, muito obrigada!

    Voltando ao normal




    Irineu tem companhia




    A história da Leila

    "Tá aqui, pessoas. Parece bobinho, vocês não imaginam o tanto que eu chorei pra escrever isso.

    Eram umas duas, duas e meia da tarde. Era um dia bonito, sol sem calor. Morava no Leblon e ia para o trabalho, no centro. O ônibus era um 464, acho.

    O ônibus parou no ultimo ponto antes da praia de Botafogo, entrou mais gente, e a voz perguntou ao motorista:

    -- Comandante, posso pegar uma carona?

    A voz era cheia, firme, equilibrada, mais para o grave, magnífica. Tive que olhar. Era um hippie. Um cara louro, cabelos no ombro, rosto bonitinho, cabelos mais para o liso, carregava aquelas coisas de veludo cheias de bijuteria artesanal. Magro, um metro e setenta.

    Ah. Ele entrou, tinha um lugar vago, alguém perguntou:

    -- Não vai sentar?

    -- Não, obrigado. Já estou feliz por conseguir a carona.

    Foi só isso, dito por aquela voz, aquela pessoa. Tudo mudou dentro do ônibus. Um homem levantou e deu o lugar para uma mulher que estava em pé. Duas moças se ofereceram para segurar embrulhos de pessoas em pé. Uma pessoa ao lado dele começou a puxar conversa. Ele respondia com frases comuns, contando de uma vida comum.

    Atrás de mim duas senhoras começaram a conversar. Ao lado as pessoas sentadas começaram a conversar.

    Aqui começa a ser difícil de explicar. O que posso falar é um puta lugar comum. Só existia amor. O ar ficou leve. As pessoas conversavam felizes. Quando entrou uma velhinha, dois homens se levantaram para dar lugar.

    Eu me sentia como em alguns sonhos que já não tenho faz tempo. Nesses sonhos eu ia a uma fazenda em uma ilha. Lá não existia medo, desconfiança ou raiva, só uma sensação de felicidade absoluta.

    Era assim ali no ônibus. Quando saímos do túnel Catumbi- Laranjeiras ele disse ao motorista que ia descer, agradeceu a todo mundo pela conversa e pela carona.

    Meu coração estava disparado. Pensei em descer, correr atrás dele e perguntar o que fazer da vida daí em diante.

    Nah sua doida, você já foi hippie faz tempo. As respostas não estão com ele.

    O ônibus andou. Olhei pela janela. No chão da pracinha, um monte de folhas e restos de legumes da feira que tinha acabado. E carneiros. Sim, carneiros. Muitos carneiros felizes, comendo as folhas no chão. Carneiros pastando no Catumbi. Não eram carneiros branquinhos de foto de catecismo. Estavam com a lã bem sujinha até.

    Jesus tinha acabado de virar a esquina."

    :-)




    16.3.08



    Isso aqui foi a Néria (Boa Idéia) quem descobriu: achei muito interessante!
    Na costa de Zadar, cidade da Croácia, existe o Órgão do Mar. Degraus cravados em rochas têm em seu interior um sistema de tubulações que, usando os movimentos do mar, forçam a saída do ar. Dependendo do tamanho e da velocidade das ondas, criam sons aleatórios.

    Faça chuva ou faça sol, as capivaras da Barra têm o maior trato...





    (Foto da Layla Carrozzino)

    A Layla não desaponta o seu fã-clube quadrúpede: toda semana leva o banquete para a minha xará e sua família.

    Gestos assim são lindos de ver! :-)

    Ô vida boa!




    Irineu




    Ficou assim




    15.3.08

    O cliente número 9 e o assassino número 1


    Charge de Kevin Kallaugher, do The Economist
    (Obrigada, Eugenio!)


    Acho muito deprimente o escândalo envolvendo o ex-governador de Nova York, basicamente por dois motivos. O primeiro é inveja, mesmo: no Brasil, onde se usa cartão corporativo para pagar até tapioca, nunca jamais se viu um político prevaricando do próprio bolso. Já nem falo em ver políticos castigados pelos seus atos, porque surrealismo tem limite.

    Depois, pela hipocrisia americana, que cada vez acho mais nojenta. Ainda que prostituição seja crime (o que, em si, já é uma definição hipócrita, porque a profissão existe desde que o mundo é mundo), perto do Bush o Spitzer é, sem exagero, um santo homem.

    E lá, no entanto, continua o assassino endeusado, enquanto o adúltero (ainda se usa essa palavra?) é escorraçado. Ora, na minha cabeça, isso não faz nenhum sentido.

    Acho que não há Obama que salve aquele país.

    14.3.08

    O frio faz milagres




    Certos comentários são irresistíveis!

    "A primeira vez que vi cabras azuis foi da janela do ônibus, indo de casa para o jornal. aliáas muita coisa importante na minha vida aconteceu assim. Foi da janela de um 434 que vi pela primeira vez uma colônia de gatos de rua no parque do museu Carmem Miranda.

    Foi num 434 que vi Jesus, ele entrou no ônibus ali na São Clemente, fez alguns milagres e desceu no Catumbi [até hoje não consigo contar essa história direito mas aconteceu].

    Enfim, lá eu ia para o jornal, tinha uma obra acho, o ônibus entrou numas quebradas no Catumbi e lá estavam elas pastando. Cabras azuis de botinhas pretas! Meu coração disparou, foi amor à primeira vista.

    Eu tenho um cachorro, achei na rua abandonado, velho, cego de um olho, tonto e chantagista. É o CB [Cão Bom].

    Queria um desses pra ser amigo do bull pirata.

    Nossa, falei muito." leila

    Tirou o dia para dormir...




    Mosca está desconsolado





    Gostei da foto... :-)

    13.3.08

    E, por falar em cachorro...

    Minha amiga Dasher se mudou de um condomínio para outro, em São Conrado, e agora querem expulsar os seus cães de casa!

    Detalhe: antes de se mudar ela se informou sobre a "questão canina" no novo endereço e mandou construir um muro alto na casa. Ela tem um pastor velhinho e um kuvasz, os dois mansos, que só saem para ir à pet shop tomar banho, e alguns shih-tzus.

    Agora o vizinho ao lado, que só pode ver os ditos cães do segundo andar de casa, alega que eles lhe causam "temor" (!). A convenção do condomínio permite ter cães de pequeno porte, mas quando ela se mudou disseram que os grandes não seriam problema desde que andassem de focinheira.

    Há algum advogado na casa que possa ajudar?

    Alguém tem alguma sugestão?

    Cena carioca

    Antes de chegar aqui em casa, vinda da Casa do Saber, que é praticamente ali na esquena, a Laura foi assaltada. O ladrão passou correndo e tentou arrancar sua bolsa. Não conseguiu, derrubou-a no chão e a Laura ali, presa na bolsa. O meliante pegou então uma outra sacola que ela carregava e se mandou. A Laura gritou que eram as aulas dela, ele provavelmente conferiu e jogou fora a sacola.

    Laura 1 x Assaltante 0.

    Um dos seguranças do Katmandu viu a cena e acudiu; ajudou-a a se levantar e a trouxe até aqui. Muito simpático! Mais tarde ainda ligou, porque encontrou a caderneta de endereços caída no canteiro.

    -- Esse ladrão vai ter que fazer terapia! -- filosofou a Laura. -- Se atira numa senhora baixinha, distraída, de 52 anos, e não consegue levar nada...

    -- É. Vai passar a assaltar senhoras de 80.

    -- E aí vai pegar a Mamãe pela proa, já pensou?

    O pior é que acabamos rindo.

    Estão de gozação com a gente

    A Laura trouxe uma novidade para o jantar: um cartão unitário do metrô, que substitui os bons e velhos bilhetes. Pois está tudo errado com o tal cartão, a começar pelo fato de ser de plástico.

    Vejam só: o prazo de validade da coisa é de três dias. Três dias! Quer dizer, aquela prática saudável que todos tinhamos, de andar com dois ou três bilhetes na carteira, para fugir das filas na hora do rush, já era. Comprou, não usou, já era.

    Já era? Não, o governo é magnânimo: se você devolver um cartão com créditos vencidos ganha de volta um real. Considerando-se que o preço da passagem é de R$ 2,45, é um grande negócio... para o metrô.

    Num papelucho distribuído com o tal cartão, está escrito que cartões com tarifa diferente da vigente serão rejeitados pela roleta. Quer dizer: não só você tem um cartão que morre logo como, se a tarifa for alterada, ele passa a ser um mico preto e você vai ter que voltar para a fila para pagar a diferença. Que, óbvio, será de centavos, e para a qual não haverá troco jamais.

    "Dirija-se à bilheteria da estação para complementar o valor da tarifa -- dizem as instruções -- ou para receber o troco, caso a tarifa tenha sido reduzida."

    O grifo é meu. Não contentes em tungar nosso dinheiro, as autoridades da Muy Leal e Heróica ainda têm o desplante de se divertir às nossas custas.

    Pra quê facilitar a vida do cidadão quando se pode infernizá-la, não é mesmo?

    Mais obra




    12.3.08


    A Espanha e os cachorros


    Em meados dos anos 40, Evelyn Waugh reuniu trechos de quatros livros de viagem escritos entre 1929 e 1935 num único volume chamado “When the going was good” (algo como “Quando o ir era bom”). Já na época dos escritos, antes ainda da Segunda Guerra e de todas as muralhas reais e imaginárias que surgiriam pelo mundo em sua decorrência, ele percebia o fim de um estilo de vida e de um tipo de viagem que não se repetiria mais. Jovem, inglês e de classe alta, com conexões nos quatro cantos do império onde o sol nunca se punha, Waugh percorria o mundo sem passagem de volta, sem se preocupar com o tamanho da maleta de mão ou com o peso das malas.

    “Entre 1928 e 1937 não tive endereço fixo, nem bens que não coubessem, todos, no carrinho de um carregador”, escreveu. Seu rumo era ditado pela curiosidade e pela necessidade financeira: ele ia aonde os jornais com os quais colaborava lhe pediam para ir, ou aonde farejasse uma boa oportunidade para um novo livro. Foi assim, por exemplo, que, em 1932, veio dar com os costados no Brasil, num programa de índio avant la lettre que o levou de Georgetown, na Guiana Inglesa, a Boa Vista. O relato de sua estada em Roraima é uma sucessão de desastres e de mal-entendidos, sobrepujados por momentos de inenarrável tédio. Sinto informar que, compreensivelmente, não levou boa impressão do país.

    O que me fez voltar a este antigo favorito foi o título, que ficou gravado na minha memória desde que o li, e do qual me lembro sempre que os jornais se enchem de notícias como as das últimas semanas. É cada vez mais difícil imaginar, nos nossos dias de vôos atrasados, de overbooking e de outras histórias de horror aeroportuárias, como se viajava quando o ir era bom. Num melancólico prefácio escrito em 1945, Waugh diz que seus dias de viajante ficaram para trás:

    “Não há lugar para turistas num mundo de ‘pessoas deslocadas’. Nunca mais pisaremos em solo estranho, com uma carta de crédito e um passaporte (este mesmo a primeira sombra pálida da pesada nuvem que nos envolve), tendo a sensação de que o mundo se abre para nós. (....) Jamais aspirei ser um grande viajante. Eu era apenas um típico rapaz da minha época; nós viajávamos porque era assim. Conforta o meu coração ter ido quando o ir era bom.”

    * * *

    O ir, como mostra o noticiário, anda péssimo. Para a Espanha, então, nem se fala – mais um pouco, e estaremos apedrejando as agências do Santander. Antes que as coisas cheguem a esse ponto, é bom que os espanhóis tomem tenência: tenho a impressão de que o fleumático embaixador Peidró ainda não se deu conta de que o problema é mais da Espanha do que dos turistas deportados. Eles passaram por um enorme perrengue, perderam dinheiro e oportunidades, mas, eventualmente, vão ter a oportunidade de viajar de novo.

    Já refazer a imagem da Espanha como país acolhedor e bom destino turístico para brasileiros vai ser mais complicado. De que adianta gastar uma fortuna em publicidade e deixar a porta de entrada na mão de pessoas absolutamente despreparadas para receber visitas? E qual é o sentido de usar a polícia para deter estudantes e viajantes inofensivos enquanto bandos de ladrões agem livremente pelo saguão? A verdade é que ainda estou para encontrar quem viaje com alguma freqüência e não saiba de histórias assustadoras de Barajas, o aeroporto mais selvagem da Europa.

    * * *

    Por falar nisso, há uma imagem recorrente bastante perturbadora nos depoimentos dos brasileiros deportados de Madri. Lucimeire de Souza Rocha disse que ficou fechada numa salinha, “como se fosse um cachorro”; Marcos Vinicius observou que os policiais que os prenderam “olhavam de cara feia, como se fossemos bichos”; Elisete, cujo sobrenome me escapou, disse que foram todos “muito maltratados, humilhados, tratados como bichos”; Pedro Luiz Lima conta que reagiu aos gritos do policial dizendo “Olha, não somos cachorros, trate a gente como homens”; Ramon Santana confirma, “fui tratado como cachorro”.

    Longe de mim querer desviar o foco da conversa, mas há algo muito errado aqui – e não estou falando do ocorrido na Espanha, a respeito do qual estamos todos de acordo. Quer dizer que, se estivéssemos falando de bichos de verdade, especialmente de cachorros, as maldades dos espanhóis não teriam importância?! Será que é tão natural assim trancafiar bichos, e deixá-los passar fome e sede?!

    Ainda que esses sejam cachorros retóricos e que isso seja só figura de linguagem, o fato é que, por trás de expressões assim, há um preconceito que não devia ter mais lugar. Tanto lá quanto cá, já é mais que tempo de tratarmos humanos e não-humanos com o mesmo respeito, carinho e consideração com que gostaríamos de ser tratados.

    * * *

    Para que os planetas se realinhem e o mundo volte a ser harmonioso, pelo menos no espaço fugaz de duas horas, vocês sabem: há uma felicidade logo ali, no Canecão, embrulhada para presente num dos cenários mais lindos e cintilantes do Gringo Cardia. Não é sempre que se pode ver duas estrelas de primeira grandeza brilhando tão perto e tão intensamente. A generosidade com que Maria Bethânia acolhe Omara Portuondo no seu palco é uma aula de elegância; a alegria e a inteligência do canto de dona Omara são, desculpem o termo tão batido, uma lição de vida.

    Melhor, impossível.


    (O Globo, Segundo Caderno, 13.3.2008)


    Formidável!

    Coisa LINDA!





    A criaturinha chama-se Flocke, e mora no zoo de Nuremberg: podia ser mais bonitinha?!

    (Obrigada, Catah!)