30.6.11

:-(

Millôrzinho voltou para o hospital... 

Livros, táxis, capivaras



Namorar intelectual, em geral, não conduz a nada de bom. Vejam por exemplo Sofia, em pleno carnaval, debaixo de uma canícula desgraçada, dirigindo de volta para casa com um pote no banco do carona. No pote estão as cinzas de Theo, com quem namorou, rompeu, tornou a namorar e assim por diante. Se essa situação não fosse por si só bastante desagradável, o ex-indivíduo que leva consigo passará a lhe dar uma série de incumbências pós-tumulo (pós-pó?). Sim, o escritor planejou a sua morte e o que, em tese, lhe aconteceria na sequência. Para isso, contava como certa a colaboração de Sofia que, a partir do momento em que o encontra morto em casa, torna-se refém mais ou menos voluntária dos seus planos.

Vai a Paris espalhar as suas cinzas no cemitério de Montparnasse e encarrega-se de entregar o conteúdo de uma pasta de papéis diversos a Enrique Vila-Matas, escritor espanhol que o falecido julgava seu duplo. Namorada de sujeito de respeito não passa por esses micos; mas aí, o que seria de “Se um de nós dois morrer” (Editora Alfaguarra, 117 páginas), de Paulo Roberto Pires?

O livrinho é pequeno, mas tem conteúdo e simpatia para conquistar o leitor. Tem começo, meio e fim, embora começo, meio e fim não signifiquem, no caso, uma narrativa linear. Na verdade, considerando o conteúdo da pasta a ser entregue a Vila-Matas, e que compõe boa parte do romance, eu diria que tem começo, meios e fim. A leitura vai fazer a alegria de quem quer que goste de livros e de autores.

* * *

O lançamento de “Se um de nós dois morrer” foi na segunda passada, a partir das 19h00. Às 19h30, conferindo o Instagram antes de sair de casa, vi a foto da capa no stream do Nelson Vasconcelos, traça literária em cujo bom-gosto se pode confiar. “Tu já tá aí?!” perguntei. E o Nelson: “Fui num pe voltei noutro ja to lendo quase no fim bom pracaray...”

Espero que os puristas não fiquem muito chocados com o tratamento dispensado ao idioma por duas criaturas que dele, literalmente, se alimentam; essa foi uma conversa teclada em iPhones, que não se prestam bem a acentos, frases longas, finismos.

Comprei o livro, peguei meu autógrafo, subi duas fotos do lançamento para o Instagram e saí da Livraria Argumento (lotada) às dez da noite. Tinha que jantar, adiantar trabalho, responder a emails, dar telefonemas. Comecei a ler no taxi e jantei mergulhada na leitura, que terminei à meia-noite no sofá, cercada de gatos. O Nelson, como sempre, tinha razão.

Em tempo: “stream” é como se chama, na internet, a sequência de fotos que os usuários sobem para as suas redes sociais.

* * *

Nunca consegui escrever bem sobre poesia. Entendo que críticas e estudos acadêmicos têm seu lugar e podem ser necessários, mas, como a música, acho que ela dispensa intermediários – a poesia é ou não é, bate ou não bate com o que somos e com o que sentimos. É uma questão de pele da alma, digamos assim. Por isso, deixo quieto: foro íntimo.

Mas chegaram às livrarias cinco novos livros de poemas tão bonitos, e feitos com tanto capricho, que não posso deixar de registrar o meu encanto com eles. Juntos, compõem uma coleção, “Canto do bem-te-vi”, e têm por trás a mão experiente de Sebastião Lacerda, que sabe tudo e mais alguma coisa a respeito de livros. A editora é a Bem-te-vi.

Dêem uma olhada quando estiverem numa livraria, e deixem-se seduzir por aquele que lhes fizer a cabeça. Eu, pessoalmente, gosto de vê-los todos juntos, tão coloridos e semelhantes quando fechados, mas tão diferentes um do outro quando lidos: “Mateus”, de Priscila Figueiredo, “XX Sonetos”, de Maria Lúcia Alvim, “A viagem”, um inédito de Walmir Ayala, “Entre árvores”, de Sylvio Fraga Neto, “De onde voltamos o rio desce”, de Vera Pedrosa.

Afinal, é preciso um pouco de poesia quando o dia-a-dia anda tão precário.

* * *

E, por falar em precariedade: concordo com o leitor Thomaz Landau, que escreve reclamando que no Rio todas as soluções ficam pela metade. Aquela prática luzinha que se acende no topo do carro quando o táxi fica vazio (e que, me explica o Landau, chama-se bigorrilho) só funciona à noite, já que é invisível durante o dia. Passei a semana prestando atenção nisso, e é fato. Impossível distinguir táxi vazio de táxi com passageiro, ainda por cima com o insulfilm escuro que todos usam nas janelas.

Em Londres e Paris, para citar só duas cidades que não brincam no quesito transporte, o bigorrilho é visível de dia ou de noite, assim como, aqui no Rio, são visíveis os letreiros dos ônibus. Landau sugere que se adote um novo tipo de bigorrilho, compatível com os tempos e as tecnologias modernas.

A única coisa ruim dessa idéia é que, mais uma vez, vai sobrar para os taxistas, que já foram obrigados a gastar um dinheirão com a tecnologia burra e ultrapassada que lhes foi imposta.

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A  nova capivara da Lagoa está cada vez mais saidinha. Ainda não tive a alegria de encontrá-la pessoalmente, mas venho recebendo notícias e fotos cada vez mais constantes. A melhor até agora foi da minha amiga de Facebook Paula Andrade: “Fui passear de bicicleta na Lagoa e adivinha quem encontrei por lá?! A capivara!!! Nunca a tinha visto pessoalmente, foi a maior felicidade. Não tinha como não mandar essa mensagem para você!”

Pois eu, de minha parte, não tinha como não dividir com vocês essa maravilhosa foto da Paula..


(O Globo, Segundo Caderno, 30.6.2011)

28.6.11

Adeus, Falou & Disse!

Pessoas,


é com grande tristeza que anuncio o fim do nosso Falou & Disse, a simpática e eficiente caixa de comentários criada e mantida pelo querido Fabio "The Man" Sampaio. Se o blog é hoje este botequim agradável, onde todos se encontram e se sentem em casa, isso se deve, particularmente, ao maravilhoso trabalho dele.


Depois de nove anos de convivência, as carinhas de gato e os matugifs vão fazer a maior falta, assim como farão falta a mim, e aos amigos que se revezam na moderação, a simplicidade e eficiência de uso do programa tão bem escrito pelo Fabio.


Peço a todos vocês, que ao longo desses anos curtiram os comentários aqui do blogtequim, uma grande salva de palmas para o Falou & Disse e para o Fabio Sampaio. 


Salva de palmas em blog vocês sabem como é: vale tudo, de carinhas sorridentes a agradecimentos pelos bons serviços prestados.


De minha parte fica o mais sincero dos agradecimentos, e a certeza de que uns certos gatinhos e esqueletinhos metidos viverão para sempre nas minhas lembranças.



Conclamação às massas


Recebi por email:
A TODOS:

EL COMANDANTE HUGO CHÁVEZ SE ENCUENTRA EN CUBA EN GRAVE ESTADO DE SALUD POR CULPA DE UNA BACTERIA. LOS INVITAMOS A TODOS A ORAR POR LA SALUD DE LA BACTERIAQUE RESISTA LOS ANTIBIÓTICOS Y QUE SEA FUERTE PARA QUE PUEDA CULMINAR CON ÉXITO SU MISIÓN...



25.6.11

O Android numa encruzilhada



De uns tempos para cá, a internet tem apresentado uma quantidade alarmante de pensatas a respeito do futuro do Android, e nenhuma delas é propriamente otimista (quando digo “internet” leia-se, claro, os sites, blogs e revistas que acesso online). O motivo é sempre o mesmo: falta unidade ao Android como plataforma.

Pessoalmente, acho que essa falta de unidade pode ter aspectos tanto positivos quanto negativos. O grande fator positivo é que, dentro de um mesmo sistema, o usuário pode encontrar modelos mais adequados às suas necessidades ou gostos. O aspecto negativo é que isso atrapalha o desenvolvimento de aplicativos, confunde os usuários que trocam de aparelho e não dá ao Android a unidade que faz com que usuários do Windows ou dos produtos da Apple saibam exatamente em que chão estão pisando.

Steven J. Vaughan-Nichols, da ZDNet, lembra, por exemplo, o caso clássico do CP/M-80, o sistema que os PCs rodavam na era pré-MS. Ele era essencialmente o mesmo, mas cada fabricante tinha uma interface diferente, acrescida de diferentes badulaques. Se eu saísse da minha máquina, por exemplo, e pegasse a de um amigo, levava certo tempo até encontrar o caminho das pedras. Pois a Microsoft comprou um desses sistemas, transformou-o no MS-DOS, fez uma venda decisiva para a IBM e o resto é História. Todos os PCs passaram a funcionar da mesma forma, independentemente dos programas acrescentados pelos usuários; a Microsoft transformou-se no Império do Mal, vilipendiado em todos os quadrantes do planeta, mas seus diretores acabaram na lista de homens mais ricos do mundo e o Windows é, hoje, presença quase universal nos PCs. A própria máquina em que digito essas mal tecladas roda o Windows 7, que considero o melhor sistema operacional em funcionamento. Ponto para Darth Vader.

Outro argumento contra a variedade de sabores do Android: parte da fórmula do sucesso da Apple é, a meu ver, algo que eu, pessoalmente, detesto -- um sistema rigorosamente fechado, em que ninguém pode mexer. A questão é que, para a maioria das pessoas, esta é uma fórmula muito reconfortante. É preciso uma disposição de espírito especial para gostar de fuçar nas entranhas de um computador, e se há tribos que se divertem com isso, o fato irrefutável é que minorias não são base para o sucesso de vendas de um produto de massa.

Desde que tirei o meu simcard do Nokia N95, passei a ser uma usuária satisfeita de Android. A diversidade de versões e o jeitinho que cada fabricante dá ao “seu” Android me permitem escolher qual Android prefiro. Por causa disso, uso, no momento, o Motorola Atrix, em detrimento do Samsung Galaxy S – cuja interface, por acaso, acho mais bonita. É que o widget de agenda da Motorola me mostra os meus três próximos compromissos, em vez do único compromisso mostrado pelo da Samsung. Parece uma bobagem, mas é vital para mim, mais até do que o hardware do aparelho. Ponto para os diferentes sabores do robozinho verde.

Apesar disso, reconheço que os meus colegas alarmados com o futuro do Android têm razão nas suas ponderações: neste momento, ele tem oito diferentes versões no mercado. É um pouco muito, tanto para desenvolvedores quanto para usuários. Alguém tem que tomar conta do Android, ou ele vai acabar sendo apenas um lindo parágrafo na história dos sistemas operacionais.

* * *

O aplicativo de hoje é o Bamboo Paper da Wacom, exclusivo para iPads, que está sendo distribuído de graça na Appstore até o fim do mês. Não encontrei nenhum outro, até agora, que me permita escrever à mão ou desenhar tão bem no tablet. E ele tem gracinhas suplementares, como a criação de “caderninhos” separados, com capas e títulos diferentes. Corram lá, que falta pouco para o fim da promoção!

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A
s fotos são umas coisinhas que subi para o Instagram ao longo da semana.


(O Globo, Economia, 25.06.2011)

Grande notícia!

Depois de passar cinco meses no hospital, Millôrzinho teve alta e foi para casa.

23.6.11

Vida social


As pontas do ano



Terça-feira passada, dia 21 de junho, foi o nosso solstício de inverno. Adoro essa expressão, que traz à mente a imagem de sacerdotes incas amarrando o sol em Machu Pichu ou druidas acendendo fogueiras em Stonhenge, que conheci quando ainda era um monumento solto no meio do campo, sem cordões de isolamento e multidões de turistas. A idade, afinal, serve para algumas coisas, ainda que a maioria delas já tenha acontecido.

O que quer dizer isso, solstício de inverno? Simples: é a noite mais longa do ano, seguida do dia mais curto; a partir dos quais as noites se tornarão mais curtas e os dias mais longos, até chegarmos ao auge do verão, vale dizer o dia mais longo do ano, seguido da noite mais curta: o solstício de verão. O solstício de inverno, no Hemisfério Sul, marca o dia em que o sol mais se afasta em direção ao Norte; o de verão marca aquele em que mais se afasta ao Sul. Isso explica, entre inúmeras coisas, o fato de certos apartamentos pegarem sol de frente alguns meses do ano e sol nenhum outros tantos.

Entre nós, que vivemos numa latitude benigna em que mal se notam as mudanças de estação, pouca gente se preocupa com os solstícios. Para povos climaticamente menos abençoados, porém, eles são pontos cruciais do ano, e remetem a analogias com o eterno ciclo de vida e morte. O solstício de verão do Hemisfério Norte, por exemplo, em que pesem todos aqueles escandinavos semi-pelados esparramados pelas praças aproveitando a hora do almoço para tomar sol, marca o momento em que o planeta inicia a sua marcha inexorável para o gelo e para a morte; de onde começará a emergir, lentamente, após o solstício de inverno, ponto inicial do renascimento da vida.

* * *

Uma das provas de que o mundo está cada vez menos romântico é que hoje é cientificamente incorreto dizer solstício de verão e solstício de inverno. Para desfazer dúvidas geradas pelas diferenças entre os hemisférios do planeta – inverno e verão de onde? – usa-se dizer agora solstício de junho e solstício de dezembro. É mais prático, sem dúvida, mas não sei se Utter Pendragon aprovaria.

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Por falar nele, neste último solstício 18 mil druidas, pagãos e desocupados em geral foram festejar em Stonehenge, na Inglaterra. Este é o único dia do ano, além do solstício de inverno, em que o patrimônio histórico permite visitação livre e irrestrita às pedras. O povo se junta, sobe nas rochas, espera o alvorecer, fuma uns baseados. A polícia intervém e leva embora os escaladores e fumantes mais audaciosos, mas, mesmo assim, no dia seguinte os jornais estão cheios de protestos de pessoas que acham um absurdo que o monumento mais antigo do país seja aberto às massas.

Uns reclamam da motivação religiosa, pois não levam nem druidas nem pagãos a sério; outros argumentam que o monumento não está alinhado com o solstício de verão, e sim com o de inverno, que cai em dezembro – mas esta, como se sabe, é época pouco propícia ao exercício do paganismo ao ar livre. Druidas e pagãos contra-atacam, a discussão rende e, na internet, acaba, como sempre, virando baixaria completa.

* * *

Aqui, na paz da minha sala, com o sol entrando janela adentro, fiquei de olho no sol, esperando para ver onde ele cairia. No momento preciso em que se punha, porém, o celular tocou, e não pude registrar o instante como queria: na foto, como vocês vêem, ele já se foi. Descobri, porém, que tenho um Stonehenge particular para marcar o solstício de inverno (ou, vá lá, de junho): a anteninha isolada do Sumaré. Stonehenge é muito mais antigo, as pedras de Machu Pichu são muito mais caprichadas, mas também não se pode ter tudo ao mesmo tempo agora. Quanto não dariam druidas e incas para apreciar o solstício das margens da Lagoa, esperando uma aparição da capivara e bebendo uma água de coco?

* * *

Odeio filmes em 3D. Acho graça na tecnologia quando assisto a demonstrações de dez minutos, e abri exceção para Avatar por causa da novidade, mas me dá nos nervos (óticos, inclusive) essa febre de fazer tudo em três dimensões. No começo achei que era coisa de quem usa óculos, birra pessoal ou falta de preparo para a modernidade cinematográfica, mas, aos poucos, conversando com amigos, descobri que somos muitos, de todos os gêneros e em todas as faixas de idade.

É com grande satisfação que comunico, portanto, o fim dos nossos problemas. Acabam de chegar ao mercado, nos Estados Unidos, os óculos 2D, revolucionário produto que tem o poder de grudar os filmes 3D à tela, de onde nunca deveriam ter saído. Amplas informações no site www.2d-glasses.com, onde podem ser adquiridos pela módica quantia de US$ 7,99 o par, mais US$ 3 de postagem internacional. Já mandei vir os meus.

* * *

Woody Allen, felizmente, não aderiu à onda. “Meia-noite em Paris”, filmado em magnífico 2D, é uma espécie de “Rosa púrpura do Cairo” ao contrário, a realização das fantasias de todos nós que já sonhamos em viver na Paris dos anos 20. De quebra, é um passeio magnífico pela cidade dos corações de quem já esteve lá e de quem ainda espera ir. A história fica melhor ainda se o espectador souber quem são os personagens com quem Gil, o protagonista, se encontra – Hemingway, Scott e Zelda, os surrealistas, Picasso, Matisse, Gertrude Stein, Cole Porter... Este protagonista é, claro, o alter-ego de Woody Allen, que finalmente encontrou, em Owen Wilson, o ator certo para o seu papel.


(O Globo, Segundo Caderno, 23.6.2011)

20.6.11

Socorro, Anatel!!!




 Estamos em pleno inferno zodiacal das telecomunicações. Desde o começo da semana, meu Claro saiu de cena, para voltar, mal e porcamente, em 2G; o atendimento que a operadora me dá é muito gentil, mas o que eu quero mesmo é um celular que funcione. Reclamei no Twitter e, na sequencia, recebi uma chuva de reclamações a respeito de todas – repito, todas – as operadoras! A campeã de queixas continua sendo a Oi, seguida da Tim, que quando pega é uma beleza mas, infelizmente, não pega em muitos lugares (entre eles a minha casa, para ficar num exemplo bem próximo). Até a Vivo, que costuma ser melhorzinha e, por acaso, escapou das queixas no Twitter, pipocou na mailbox num email do Miguel Bahury, que fala em nome de várias pessoas:

“Levo ao seu conhecimento sérios problemas de sinal que os usuários de iPhone têm tido com a Vivo. Há mais de duas semanas eu e diversos amigos temos que desligar várias vezes por dia nossos aparelhos para retomar o sinal da internet e, a cada ligação para a Vivo, recebemos uma resposta diferente. Ora é problema temporário de sinal, ora é problema do aparelho... Finalmente, após denúncia que fiz à Anatel, uma atendente ligou-me e admitiu que há, realmente, problema de sinal, e que somente no 2º semestre estará resolvido. Ocorre que, ao adquirirmos o aparelho na Vivo e assinarmos um contrato de prestação de serviços, não tínhamos tal informação.”

Operadoras! Anatel! O que está acontecendo?! Até quando vamos ter que reclamar por serviços pelos quais pagamos uma fortuna?!

* * *

O CDI, Comitê de Democratização da Informação, aquece as turbinas para participar, pela primeira vez, do Foto Rio, grande festival que transforma o Rio num fervilhante pólo de fotógrafos e fotografia. A idéia é levar o público para o Centro Comunitário Lídia dos Santos, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, de 28 de junho a 2 de julho, das 10h00 às 17h00, para ver a exposição “Somos Todos Transformadores”, de Ricardo Teles e Marcella Marer. Além da exposição, os visitantes poderão caminhar pela área com guias locais -- o que é sempre chance de ótimas fotos.

Tem mais. Além de fazer a integração entre fotógrafos, público e comunidade, o CDI promove, também por ocasião do Foto Rio, uma campanha de doação de equipamento fotográfico digital e analógico. Aí está a chance que você estava aguardando para se desfazer daquela antiga Pentax, da velha Olympus, da Hasselblad sem uso, da Leica guardada no armário... Sem brincadeira: todos nós temos velhas máquinas que não usamos mais, seja porque passamos definitivamente para o digital, seja porque, dentro do digital, partimos para equipamentos com mais e melhores megapixels. Pois essas velhas câmeras podem ainda ser bem aproveitadas por alunos carentes que não têm como comprar equipamento. O período de doações já está aberto, e vai até o dia 8 de agosto. Os pontos de recebimento são os seguintes:

 CDI Francisco: Fundição Progresso, Rua dos Arcos 24, Lapa, de 13h00 às 20h00;

CDI Ceaca: Morro dos Macacos, Rua Armando de Albuquerque 30, de 9h00 às 17h00; e

 Matriz CDI: Rua Alice 150, Laranjeiras, de 9h00 às 18h00.

* * *

Para quem acha que o Angry Birds é só um joguinho, informo: o Angry Birds é só um joguinho, sim, mas passa a ser, agora, um joguinho com campeonato e tudo; este upgrade na vida dos passarinhos furiosos renderá bons prêmios aos seus fãs mais dedicados. O torneio, baseado em similar realizado na Finlândia, vai ao ar nas lojas da Nokia. As inscrições, gratuitas, podem ser feitas até o próximo dia 26, ou nas próprias lojas ou através do site www.angrybirds.nokia.com.br; não há limite de idade para participar. As eliminatórias já estão sendo realizadas nas lojas (aqui no Rio, no Barrashopping), das 14h00 às 18h00 (nos sábados, das 10h00 às 14h00). A soma da pontuação de cada um será lançada no site, e os 16 competidores que fizerem o maior número de pontos serão classificados para a grande final, numa nova loja Nokia a ser inaugurada em Belo Horizonte.

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O aplicativo da semana é um dos meus favoritos no trato de fotos no iOS: chama-se Picture Show, e dá um show em termos de efeitos. Tem molduras interessantes, ferramentas para mudar brilho, contraste e tonalidade, conjuntos pré-definidos de transformação de imagens e por aí vai. Para quem é viciado em Instagram, chega a ser praticamente indispensável; para quem quer apenas dar um trato diferente nas fotos, é o que há de mais simples e divertido. Foi com ele que tratei as fotos de hoje.


(O Globo, Economia, 18.6.2011)

16.6.11

Explorando a caixa de brinquedos

A garotada





E o Campo de Santana, prefeito?



O livro se chama “Glaziou e as raízes do paisagismo no Brasil”. Tem 249 páginas, e é uma edição caprichada da Manati, com capa dura e impressão de grande qualidade; chega às livrarias no final de julho e, como diz o título, trata da obra de Auguste François-Marie Glaziou, jardineiro de Dom Pedro II e criador de uma estética paisagística que chega até Burle Marx, com a valorização das nossas plantas nativas. É ricamente ilustrado, com material de época e um passeio pelos jardins no seu atual estado. Olhando para as fotos do Passeio Público, da Quinta da Boa Vista e do Campo de Santana, feitas ao longo do ano passado, pode-se até imaginar que o Rio é uma cidade civilizada, que soube preservar o seu patrimônio. Quem conhece a cidade, porém, estranha.

-- Como é que você fez para fotografar os parques tão vazios e tão limpos? -- perguntei a Bia Hetzel, autora das fotos, que, como eu, não nasceu para registrar o lado negro da vida.

-- Você nem imagina! O que eu mais fiz no ano passado foi varrer chão, limpar fonte, pedir ao senhor mendigo para chegar um tiquinho para lá... Quando eu saía para trabalhar, avisava ao meu marido que estava indo para a rota Osama: Passeio Público, Quinta, Campo de Santana...

-- Você ia sozinha?

-- E eu lá sou maluca?! Claro que não, ia com um rapaz esperto que me ajudava na limpeza, e que ficava de olho em quem nos manjava.

-- O que foi mais difícil de fazer? 

-- O Passeio Público, de um modo geral, e a gruta artificial do Campo de Santana, cheia de estalactites e estalagmites, e que está interdita por causa do risco de desabamento. É uma coisa linda, que provocou encanto e admiração entre os que a visitaram nas primeiras décadas da sua existência. Era cercada por um lago, coberta por uma cascata e enfeitada com bromélias, dá para imaginar? Quando estive lá passei mal com o acúmulo de lixo e com o cheiro dos animais mortos. Conseguimos limpar um pequeno trecho para as fotos, mas não foi fácil.

Vendo a foto da gruta feita por Bia, fico com um ódio mortal das sucessivas administrações que deixaram que se deteriorasse a tal ponto algo tão precioso. Acho que o meu novo amigo, prefeito Eduardo Paes, deveria pedir um exemplar do livro o quanto antes à Editora Manati, e estudar com cuidado as fotos da Bia, para ver o tesouro que está deixando escorrer pelo ralo. Se uma moça armada com uma vassoura, um segurança e o clássico jeitinho conseguiu restaurar o encanto desses jardins, ainda que para algumas fotos, do que não seria capaz uma prefeitura? 

O Campo de Santana que renasce nas fotos de Bia Hetzel é o paraíso imaginado por Glaziou, a jóia incrustada no Centro de uma cidade que, já então, fervilhava; era o nosso Central Park, o lugar para onde famílias se dirigiam para fazer piqueniques e para apreciar o verde, enquanto as crianças corriam soltas e se divertiam vendo cotias, pavões, patos e gatos, bichos que sempre fizeram a alegria dos seus frequentadores.

* * *

Da mailbox I: “Chegando da bem cuidada e hospitaleira cidade de Lima, Peru, morro de vergonha com a comparação automática que faço com os parques Kennedy e  Central de Miraflores, um ao lado do outro. Juntos, são maiores do que o Campo de Santana. As alamedas são limpas, os jardins lindos e floridos (ninguém toca e não existem avisos nesse sentido) e os lagos cristalinos. Não se vêem  mendigos, drogados ou pivetes. Passantes, turistas ou não, usam suas câmeras e filmadoras sem susto. Ficam abertos dia e noite, haja vista a  iluminação encantadora. Ah! Estão repletos de gatos, cada um mais rechonchudo que o outro, todos cuidados pela prefeitura.” (Manuel Carrera Paz Filho)

* * *

Da mailbox II: “O retrato de um dos lugares mais aprazíveis do Rio de Janeiro e o drama vivido pelos animais ali traídos e abandonados à própria sorte são reflexos de uma sociedade atrasada, medíocre e perversa.” (Rafael Cazes)

* * *

Da mailbox III: “Se o dinheiro fosse gasto com mais honestidade, se o trabalho fosse dignamente remunerado, o Rio bombava. Mas para onde se olha, por toda parte, falta conservação, ordem, eficiência, treino, educação. Eu ponho as mãos na cabeça e pergunto onde é que vamos parar. Administrar essa cidade pobre, suja, malandra, cheia de gente sem educação não é para fracos.

Eu pago quase 30% (30% é pura ingenuidade, mas vá lá) de tudo o que ganho trabalhando para c@r@lho, e vejo o meu Rio de Janeiro assim. Não tem poesia que amenize. Nem foto que fale mais alto do que aquilo que eu vejo todos os dias quando saio de casa. E olha que moro bem. O Rio cantado, aquele Rio de encanto, virou praticamente recordação. 

Eu tenho achado tudo um lixo, uma vergonha. Eu tenho a impressão de que onde não está esburacado e sujo, tem um canteiro de obras parado, fingindo que alguma coisa vai acontecer ali... mas o que parece mesmo é que estão enrolando, esperando chegar mais próximo dos eventos esportivos, para se fazer tudo correndo. Como se soubessem que se fizerem agora, até lá vão ter que refazer tudo. Porque o povo não cuida das coisas públicas com carinho ou educação. 

As crianças e os bichinhos nascem por toda parte, numa cidade de falsos ânimos. 

Sinceramente, eu não queria estar na pele do prefeito nem do governador, mas eles queriam e querem muito estar nas próprias peles, então por favor (por favor, uma ova! o emprego é muito bom) administrem esta zorra de cidade direito!” (Monica Langer)


(O Globo, Segundo Caderno, 16.6.2011) 

Olha só quem apareceu no GNT...



A Bia deu um depoimento sobre a convivência dos Tatuís com os gatos. Como mãe, vó e bípede coruja, achei o máximo... Para ver, é só clicar AQUI.

Ontem fui à Brasília e fiz umas fotos




13.6.11

Haicais

Me pediram uns haicais lá no youPIX. Outros amigos também colaboraram; ficou bem legal a mini-coletânea. AQUI.

Ninguém é perfeito



Tem dias em que o tampo da minha escrivaninha parece display de operadora ou parque de diversões, conforme a interpretação de quem vê. Agora mesmo estão espalhados, disputando espaço com livros, canetas e papeizinhos de anotações, o velho Nokia N95, o Motorola Atrix, o Samsung Galaxy S, o Iphone 4 e o Nokia E7, além do iPad e do Samsung Galaxy Tab.

O Nokia N95 está em cima da mesa porque ainda não tive coragem de guardá-lo na gaveta. Os outros convivem constantemente porque o meu simcard passeia entre um e outro, enquanto peso as vantagens e desvantagens de cada um. A exceção é o iPhone, que uso como mini-tablet internet e, desde que me viciei em Instagram, câmera fotográfica e ferramenta de tratamento de imagens.

No momento, o objeto de estudos é o Nokia E7, a respeito do qual escrevi semana passada. Muita coisa me agrada nesse aparelho, a começar pelo tamanho e pela pegada – gosto de telefones grandes, que passam a sensação de produtos bem acabados, coisa que ele inegavelmente faz. Gosto também do lado executivo deste smartphone, com uma agenda ótima que, como todo Symbian, ele otimiza mostrando na tela inicial os próximos compromissos.

Os Androids também podem fazer isso, através de widgets, sendo que o Atrix (e os demais Motorolas) fazem melhor por expor não só o próximo compromisso, mas os próximos dois ou três. Para mim, este é um dos calcanhares de Aquiles do iPhone. Para pessoas distraídas e desorganizadas como eu, uma agenda que se precisa abrir equivale a agenda nenhuma.

Gosto muito também do teclado QWERTY, como disse na semana passada. É pequeno mas funcional. Gosto da tela, e gosto da possibilidade de personalização, um meio termo entre o Android e o iOS: venho de uma longa linha de aparelhos Symbian, de modo que o seu jeito de ser me é muito familiar. O som é outro atrativo do E7, que toca música suficientemente alto para que se possam dispensar os headphones em locais mais silenciosos. A porta HDMI é outro ótimo atrativo, capaz de transformá-lo num player de bolso. Conectei-o à minha TV e ele funcionou lindamente.

Do que não gosto, por enquanto: acho a tela sensível demais. Basta pegá-lo para que se abram janelas que não foram pedidas. Digo “por enquanto” porque a convivência com todo aparelho é uma questão de jeito e de hábito. Preciso conviver mais com ele para ver se este problema é realmente um problema, ou uma falta de jeito minha.

Do que não gosto, definitivamente: da geringonça que aumenta e diminui o volume (um botão deslizante) e, grande tristeza, da câmera de 8 Megapixels... com foco fixo! Parar piorar o sentimento de frustração, a bichinha sabe reproduzir cores com talento e tem o detalhe fundamental que, hoje, falta a tantos  celulares de ponta: um disparador físico na lateral do aparelho. Ela tem também uma abrangência de grande angular muito útil e interessante.

É verdade que a especialidade da linha E da Nokia nunca foi multimídia, terreno da linha N. De certa forma, a câmera no E7 pode ser considerada um plus a mais, como disse não sei quem a respeito não sei do quê. O E7 com a câmera do N8 seria imbatível, mas talvez não se possa ter tudo num smartphone só.

A camerazinha capenga tem todos os controles que as boas câmeras de celular têm, mas o acesso a esses recursos não é automático. É preciso clicar no ícone de Ferramentas, na primeira tela, para ter acesso, enfim, aos modos de cena, detecção de rosto, controle de branco, ISO e por aí vai. Esta é, claro, uma queixa típica de usuária dos antigos Nokia, em que os controles ficam todos em cena, ou de usuária Android.

* * *

O aplicativo de hoje é para Symbian, e pode ser baixado da OviStore. Chama-se Automatic Panorama, e faz exatamente o que o nome diz – panoramas automáticos. Exemplo acima. Clica-se para começar a sequência de fotos; depois é só girar o aparelho, lentamente, e fazer coincidir os retângulos apresentados na tela, que ele faz as capturas sozinho. Finaliza-se o take com um novo clique. De todos os aplicativos do gênero que conheço, é o de que mais gosto. 


(O Globo, Economia, 11.6.2011)

10.6.11

Retrato oficial


A Samia mandou lá de Minas ainda agora: pode ser mais perfeito? :-)


Quanto ao retratado, está um pouquinho melhor. Comeu sem muita vontade mas comeu; deu umas corridinhas pela casa e já sabe onde ficam as coisas importantes, como o pipicat, as tijelas de comida e a minha cama.


Ainda brinca muito pouco e passa a maior parte do tempo encolhidinho, mas pelo menos não está mais com o febrão de ontem. 


Os mais velhos estão indignados com a sua presença, sobretudo... a Flor! Já expliquei a eles que ninguém aqui nasceu no Copacabana Palace, mas eles não acreditam, e fazem muito Fu! para o Fonseca. O coitadinho deve ter apanhado de gatos maiores no Campo de Santana, porque tem medo deles.


Quanto à Flor: hoje o acupunturista esteve aqui em casa, e ficou simplesmente maravilhado com os progressos que ela está fazendo. Já pisa com a patinha ferida no chão e até pula pra cima da estante. Brinca o dia inteiro com o Toró, e disputa com ele o título de draga da Famiglia: os dois devoram o que vêem pela frente, pães e biscoitos incluídos.

9.6.11

O nome dele é Fonseca


Foi amor à primeira vista; é claro que eu não podia deixá-lo no Campo de Santana. Apesar de saber dos riscos de uma adoção feita lá, trouxe-o para casa. É minúsculo, ronronante e carinhoso.


Hoje foi examinado pelo Allecx. Está com falta de apetite, decorrência de vermes, água no ouvido e uma febre de 41 graus, causada sabe-se lá por que infecção. Já entrou no vermífugo e no antibiótico.


A torcida agora é para que escape dessa; sem tratamento, estaria morto em menos de uma semana.


Não é possível testá-lo para Fiv e Felv, porque é pequeno demais. Pegar veia é quase impossível mas, além disso, a infecção que tem pode dar variações de falso positivo ou falso negativo nos exames.


Outra coisa a considerar é que, desde o Irineu, que morreu de Felv, a Famiglia Gatto é uma família de risco. Não quis testar ninguém. O que faria se qualquer deles desse positivo? Pôr da porta para fora?


Vamos vivendo, enquanto vida houver.


Le haim!

Por uma UPP no Campo de Santana



Não é qualquer cidade do mundo que pode se gabar de ter, em pleno centro, um parque como o Campo de Santana, onde a História se mistura com árvores centenárias, com o paisagismo elegante e sofisticado do século XIX e com uma variedade de animais. Seus 155.200 m² abrigam esculturas, grutas e lagos, fontes francesas de ferro fundido, elevações gramadas e pequenas pontes, construídas com a única finalidade de oferecer aos visitantes um espaço para a contemplação das águas e dos seus habitantes, de peixes a irerês, passando por gansos e patos. À sombra das figueiras e dos baobás há bancos ideais para se descansar do tumulto da Saara, ali do lado, ou do movimento da Central, logo em frente.

Imagino o Campo de Santana numa cidade bem administrada, e vejo um parque onde se podem passar algumas horas despreocupadas, e onde os bancos convidam a uma pausa. Vejo pessoas usando tablets e smartphones, conversando, lendo o jornal do dia, namorando, fazendo um lanche ou, pura e simplesmente, observando o movimento.

* * *

Como o Rio, infelizmente, está longe de ser uma cidade bem administrada, o meu exercício de imaginação é rudemente interrompido pela realidade. Anteontem, quando passei por lá no começo da tarde, havia um homem drogado e maltrapilho estirado na entrada principal, como uma espécie de aviso do que espera os visitantes daquele pequeno paraíso: um inferno autêntico, atravessado às pressas por quem precisa cortar caminho. Os bancos, que poderiam ser tão convidativos, estão quebrados, vazios ou ocupados por moradores de rua, pivetes, travestis, pequenos traficantes. Há uma cracolândia abertamente instalada numa das alamedas.

* * *

Ao me ver fotografando, um dos funcionários me alerta, assustado:

-- Toma cuidado. Aqui nesse pedaço mais movimentado a senhora ainda está bem, mas não vá para o lado do quartel dos bombeiros, ali é meio deserto.

-- É perigoso?

-- Não posso falar nada. Só estou dizendo, evite aquele lado.

Ele se afasta de mim rapidamente. A impressão que fica é que recebeu ordens dos superiores para não comentar os perigos do parque com os visitantes.

* * *

Um pouco adiante, um rapaz está agachado, com uma Canon bem sofisticada, tentando encontrar o melhor angulo para uma foto em que gatos e cotias apareçam em primeiro plano. Está tão despreocupado que deixa a mochila solta, um pouco para trás. Nem preciso dizer: é um turista. Mora em Berlim, está passando uma temporada no Rio.

-- Os jardins do Rio são muito bonitos. Passei um dia inteiro no Jardim Botânico, agora vim fazer umas fotos do Centro e descobri este parque cheio de gatos e desses outros bichos... É maravilhoso.

-- Cuidado. O Jardim Botânico é uma coisa, este parque aqui é outra. Não digo para você não fotografar, eu mesma estou fotografando, mas fica esperto, ou vão te levar tudo. A barra aqui é pesada.

Ele agradece. Um grupo de pivetes nos observa da sombra de umas árvores, a alguns metros dali. Tomamos, claro, a direção oposta. Mais tarde fiquei sabendo que, há poucos dias, uma turista sueca foi assaltada naquele exato ponto -- e, ainda por cima, jogada dentro do lago pelos bandidos. Não sei o que terá sido pior, se o assalto ou o banho naquelas águas fétidas.

* * *

O Campo de Santana não está inteiramente abandonado. As águas estão imundas, é verdade, e exatamente em frente ao Souza Aguiar há um lixão nojento cheio de moscas, mas de modo geral o chão está varrido, e as plantas parecem felizes. Não custaria nada à prefeitura (ou custaria muito pouco) revitalizar o jardim e devolvê-lo à população. Do jeito que está, ele é uma prova gritante de má administração e de falta de amor pela cidade.

* * *

Os gatos que encantaram o turista alemão e que parecem levar uma vida pacata por lá são, coitados, um dos grandes dramas do Campo. São alimentados e cuidados por voluntários, que tiram dinheiro do próprio bolso para comprar ração e remédios e para organizar feirinhas de adoção. Mas o que este grupo de abnegados faz é pouco mais do que enxugar gelo, já que cerca de vinte gatos são lá abandonados diariamente, entre eles muitas fêmeas grávidas ou com ninhadas recém-nascidas. Enquanto isso, os dois veterinários do posto da Sepda, que fica dentro do próprio campo, castram apenas cinco animais por semana.

Na minúscula enfermaria que os voluntários conseguiram junto à administração não cabe mais um único bicho; por falta de gaiolas apropriadas e de espaço, muitos dos doentes ficam “internados” em caixas de transporte. É desesperador.

* * *

A população de gatos do Campo de Santana é uma realidade que a prefeitura não pode ignorar. Não adianta fazer de conta que eles não existem, ou esperar que os voluntários resolvam sozinhos a situação. Os bichinhos poderiam ser um dos atrativos do parque, assim como as cotias e os patos, se não fossem tantos e não estivessem em condições tão precárias. Para isso precisam de abrigo, comida e tratamento veterinário. E precisam, urgentemente, de castração em quantidades significativas, para evitar a explosão populacional que se vê.

* * *

Conheci o prefeito semana passada, na casa de um amigo. Mostrou-se simpático e solícito quando toquei na questão do Campo de Santana. Tomou notas no Blackberry e prometeu providências. Vou cobrar. Não é possível que este parque histórico e encantador, tesouro que pertence a todos nós, seja freqüentado apenas por mendigos, drogados e traficantes.

* * *

Não se deixem enganar pela foto; é que o meu coração se recusa a registrar o Rio feio.



(O Globo, Segundo Caderno, 8.6.2011)

4.6.11

Quem disse que o Symbian morreu?


  
Comecei há alguns dias a brincar com um Nokia E7. Ainda não estamos totalmente íntimos, mas já dá para dizer que ele é o Nokia de que mais gosto em muito tempo. O formato é uma espécie de cruzamento entre o N8 e o N97 mini: seu look não muito diferente do N8, com o qual compartilha a mesma linha de acabamento, acoplada ao fator slide de teclado embutido do N97 Mini. É um descendente direto dos Communicator do passado e, como eles, é um aparelho sólido. Pesadinho para os padrões de plástico vigentes, o E7, apesar disso (ou justamente por causa disso) cai muito bem na mão. Sente-se firmeza.

Ele não é o único celular com que venho me distraindo. Há coisa de um mês tirei o simcard do Nokia N95 (que é o meu número “de verdade”) e passei-o para um Samsung Galaxy S. O topo da linha Galaxy é, aliás, uma das boas coisas da vida, seja nos tablets, seja nos celulares; mas esse nome faz confusão, porque a Samsung batizou com ele uma gama ampla demais de aparelhos.

O celular Galaxy S (que, no exterior, já enfrenta a concorrência de um irmão mais jovem e mais parrudo, o Galaxy S II) é um Android gostoso de usar, apesar da leveza e da aparência demasiado frágil. Ele é quase o avesso ideológico do Nokia E7, que não deixa dúvidas sobre a razão da sua vinda ao mundo: trabalhar duro.  

Esse parênteses sobre o Samsung foi importante para poder contar da alegria que tive em usar o tecladinho qwerty do E7, depois de um mês inteiro lidando exclusivamente com touchscreens. Pode ser que, vinda de uma época em que os aparelhos eram feitos para durar, eu seja um dinossauro despreparado para os caminhos da atual tecnologia fast food, mas o fato é que, para mim, não há termos de comparação entre um teclado virtual e um teclado que faz jus ao nome, cheio de teclas palpáveis, reais, uma ao lado da outra. Essa velha tecnologia, que remonta ao Século XVIII, com a invenção da máquina de escrever, ainda tem seu valor neste ano de 2011: os milhões de usuários de Blackberry que o digam.

Além da questão do teclado, o E7 levanta uma outra, não menos importante: a do sistema operacional. Nesse momento, o Symbian é o patinho feio do mundo móvel. Sua própria mãe, a Nokia, preferiu adotar um estranho total, o Windows, a cuidar da sua sobrevivêmcia. Mas é importante observar que ninguém ainda declarou a morte do Symbian que, a essa altura, é um sistema extremamente sólido e testado, e que pode ter ainda alguns anos de sobrevida.

Em quem apostar? A meu ver, há uma diferença enorme entre  “acionista” e “usuário”. Eu não recomendaria a nenhum acionista investir, agora, em qualquer coisa Symbian; mas acho que, para um usuário Symbian que quer mudar de telefone, não há por quê mudar de plataforma. O E7 está redondinho, trabalha bem e tem a clássica interface com a qual estamos acostumados há anos. Não acho que isso seja pecado; ao contrário, em muitos casos é uma grande virtude.

A loja Ovi, que em breve passará se chamar Nokia, não se compara, em termos de estoque, com a Appstore ou com o Android Market. Mas, ao contrário do que a Apple nos quer fazer crer, o uso do celular como base para aplicativos não é uma necessidade universal. Por incrível que pareça, o mundo está cheio de gente que só quer usar seu aparelho como telefone. O potencial usuário do E7, um poderoso smartphone, não exige tão pouco; mas entre 8 e 80 há um monte de números.

O que eu quero dizer com tudo isso, em resumo, é que o mundo é mais vasto e variado do que imaginamos, que não se divide apenas entre iOS e Android, e que nele há, ainda, muito espaço para o Symbian, sobretudo quando ele roda num aparelho tão bom quanto o E7.

Vou voltar a falar dele quando estivermos mais íntimos, mas  adianto, desde já, que ele é um smartphone que recomendo a qualquer usuário Nokia que esteja querendo fazer um upgrade.



(O Globo, 4.6.2011)

2.6.11

Para quem é de casa

Não escrevi muito sobre a Florzinha porque o texto a respeito do Instagram acabou maior do que eu planejava de início. Dou a vocês, então, as informações que ficaram faltando.


Os veinhos receberam a Flor com resignação. Acho que, a essa altura, já estão acostumados. O Lucas, como sempre, resmungou menos do que a Tutu -- que, curiosamente, está desenvolvendo uma linda amizade com a Matilda. Duas branquicelas neurastênicas e resmungonas só podiam mesmo se dar bem. Dormem juntas no sofá, e, muito de vez em quando, arriscam umas lambidinhas uma na outra.


A Matilda, encrenqueira, ainda faz Fu! pra Flor quando as duas passam uma pela outra, mas isso não é muito comum -- a Matilda é dona da metade da sala junto com a Tutu, e a Flor está passando mais tempo na cola do Toró, que reagiu mal no primeiro dia, mas agora passa o tempo todo brincando com a miudinha no escritório, na cozinha ou no meu quarto.


Lolinha olha meio ressabiada mas não toma nenhuma atitude; na verdade, até deixa a Flor partilhar a sua comida.


O Tiziu, como a Matilda, ainda está contrariado com a novidade, mas é molenga demais até para protestar...


Enfim: a Flor age como se fosse a dona da casa, e acredita piamente no velho ditado que reza que os incomodados que se mudem. Ela já decidiu que fica.

O vício das figurinhas



De manhã muito cedo um barulho me acorda e não consigo mais dormir. Pego o iPad ao lado da cama para ver como vai o mundo. Mas nesse momento não me interessam as notícias de um mundo geral que, logo mais, vou ler no jornal. Quero saber do mundo de outras pessoas que, como eu, fizeram do Instagram uma espécie de segundo lar virtual. Nessa hora de mudança de guarda entre dia e noite, centenas de conhecidos que nunca se viram desejam bom dia ou boa noite uns aos outros, oferecendo  as fotos que não serão encontradas em jornal algum: uma flor, um gatinho se espreguiçando, uma mesa de café da manhã – que, dependendo do quadrante, pode ser bastante esquisita.

Visito os gatos Jiwan e Wenmaan, que moram no Japão e estão enroscados, prontos para dormir, na imagem enternecedora que o seu bípede publica. Chove em Oslo: minha amiga Ria, que já vai pela hora do almoço, continua com a série de flores que fez nos dias ensolarados. Não é a única. O povo da península escandinava está passando por um momento de inspiração floral parecido com o frisson que tomou conta dos japoneses na época da floração das cerejeiras. Chove também em Istambul, mas em geral os dias têm andado lindos, conforme sabe quem acompanha Mehmet, que fotografa coisas parecidas com as que eu fotografo, ou Nezih, que é profissional e tem um portfólio de verdade.

Na China, um dos melhores fotógrafos de natureza do Instagram pegou mania de abelhas: tem feito macros maravilhosas que captam as bichinhas em pleno vôo. Ontem pediu desculpas, num inglês macarrônico, por postar tanta abelha.

Meu amigo das Ilhas Marshall não é bom de foto, mas o simples fato de conhecer alguém nas Ilhas Marshall me deixa contente, e consumo com gratidão as suas imagens, primeiras que vejo daquele canto do mundo.

Há todo um coletivo de ótimos fotógrafos na Indonesia que se chama Iphonesia. Isso porque são radicais e só usam o iPhone: câmeras não entram.

Há dezenas de japoneses que só publicam fotos dos seus gatos,  diferentes dos nossos: têm carinhas mais arredondadas e olhos maiores. Há uma americana no Nepal que mostra cenas do dia a dia em cores saturadas, há a moça minimalista na Coréia do Sul que é o contrário ideológico da americana do Nepal e só fotografa em tons pastéis superexpostos, há o tatuador da Califórnia que faz tatuagens lindas e imensas, a enfermeira francesa que mora numa cidade pequena e costuma postar imagens do centro cirúrgico, e a criatura abençoada que vive nas Bahamas e passa os dias provocando a humanidade com praias daquele irresistível azul caribenho. Há seres peripatéticos que não sei onde vivem mas já estiveram por toda a parte, e há, claro, brasileiros espalhados pelo mundo todo. Isso não tem preço porque estou chegando à conclusão de que os países têm um tipo de linguagem visual distinta, um jeito próprio de fotografar. Não sei dizer no que consiste essa identidade, mas o fato é que, num amontoado de imagens como o Instagram, ela se torna vagamente perceptível. Trocando em miúdos, prefiro as fotos dos brasileiros porque é como se elas não tivessem sotaque para mim (preciso elaborar melhor essa teoria para poder entendê-la).   

Já meus amigos indianos são uma decepção. Em vez de fotografar o país que têm à sua volta, e que leva qualquer turista ao delírio, fotografam partidas de pólo e de críquete, almoços de família, amigos e amigas. É verdade que eu, por outro lado, praticamente não posto outra coisa além de fotos da Índia, o que deve frustrar quem me procura buscando o Rio – mas há tantos cariocas mostrando a nossa cidade, que não me sinto culpada por isso.

O Instagram é a felicidade de quem sempre quis mostrar os slides da viagem, mas nunca teve coragem.

Entre as fotos populares, que só Deus e o algoritmo do programa sabem como são escolhidas, encontro o fio que me leva a uma patricinha de Dubai que não vê nada além de bolsas Chanel, sapatos Vuiton, cupcakes, macarrons e café Starbucks, Porsches e BMWs. A minha primeira reação é uma mistura de tédio e de irritação. Olhando o conjunto da obra, porém, as fotos surpreendem: revelam personalidade e, em alguns casos, uma estranha beleza. O Instagram cai antes que eu consiga segui-la e, quando volta ao ar, não a encontro mais.

É hora de levantar e tomar ciência do que acontece no atacado; no pequeno varejo do cotidiano, já cultivei o meu jardim, colhi umas imagens e plantei outras tantas para que esse mundo virtual de miudezas continue girando.

* * *

No começo de maio, dois gatinhos tigrados foram abandonados na sede do Flamengo. O macho foi logo adotado, e a fêmea, excepcionalmente mansa, ficou à espera de alguém que a quisesse. Virou brinquedo das crianças do clube, e acabou vítima do que talvez tenha sido excesso de carinho – sua pata dianteira esquerda foi deslocada de tal maneira que há grande possibilidade de que fique aleijada para sempre. Os veterinários consultados descartaram a possibilidade de cirurgia ou de imobilização, já que o dano é neurológico.

Fiquei sabendo do caso e me ofereci para abrigá-la por uns tempos, durante o tratamento de fisioterapia e acupuntura que é a sua última chance de andar normalmente. Assim que chegou, ela se acomodou como se nunca tivesse vivido em outro lugar. Resumindo: Flor, a gatinha manca, é o novo membro da Famiglia Gatto.


(O Globo, Segundo Caderno, 2.6.2011)