5.4.05



* sigh *

Como é que nós vamos resistir a esta cobertura lamuriosa da morte do papa?!

De hoje a sexta, gente aos prantos, locutores de voz embargada, especulações sobre o próximo papa, biografias dos brasileiros bem cotados, etc.; na sexta, o enterro.

Perdão, o enterro, só assim, não: O MAIOR ENTERRO DE TODOS OS TEMPOS.

Dá pra imaginar?

No sábado, o day-after; no domingo, um apanhado da semana inteira; na segunda, as romarias de fiéis...




Olha só quem virou a Musa do Movimento...


Por falar nisso...

Só para constar:

O promotor Márcio Mothé Fernandes, do MP/RJ, "convidado" a depor na sindicância que apura as supostas "irregularidades" cometidas pelos policiais que tiveram a má idéia de prender Duda Mendonça, o Intocável, mandou este email para o delegado Antônio Rayol:
"Caro Dr. Rayol,

lamento profundamente as notícias que tenho lido na imprensa acerca da diligência que presenciei. Como tenho reiterado, nenhuma irregularidade foi por mim presenciada, do início ao fim da peração. Sinceramente, não imaginava que a Polícia Federal do meu País fosse uma instituição que sofresse tamanha influência política, o que muito me envergonha.

Independente de tudo, vi aves torturadas por pessoas transgressoras da lei, cabendo exatamente aos agentes da lei a prisão dos criminosos, sob pena até mesmo de prevaricação. Sugiro que o Dr. Homero Freitas, coordenador da Central de Inquéritos do Ministério Público Estadual por dois mandatos consecutivos também seja ouvido, além das outras duas promotoras (Ana Lúcia Mello e Ana Paula Petra).

Não consigo entender como um policial com quase três décadas de atuação, cumprindo o seu munus, respaldado por quatro promotores responsáveis por todas as áreas de atuação (crime ambiental, coordenação criminal, menores e crimes na circunscrição da Barra) sofra punições por ter cumprido o seu papel.

Torço para que o órgão de proteção da classe de vocês, assim como a nossa Associação do MP e a CONAMP os defenda.

Um forte abraço e que Deus continue iluminando as pessoas sérias e idealistas, que pautam suas carreiras na lei, sobremaneira na Magna Constituição, que manda aplicar a lei a todos, indistintamente.

Márcio Mothé."
Tudo o que eu posso acrescentar é que não é apenas o promotor que se envergonha pelo país diante do que está acontecendo.

4.4.05



Disse tudo

Jabor, para variar, dá um show de bola.

Acho que se deixou influenciar um pouco pelo melodrama 24/7 armado pela TV em torno do papa, mas ainda assim mandou muito bem -- e, sobretudo, chegou a uma conclusão irretocável:
"Se há alguma coisa de que precisamos hoje é de uma nova ética, de um pensamento transcendental, de uma espiritualidade perdida."


Shrek II

Depois de 34 anos, Charles e Camilla superaram todos os obstáculos e, finalmente, estão prontos para se casar. Enfrentaram a rainha, os súditos e a imprensa, e mudaram o lugar e a data da cerimônia diversas vezes, até, finalmente, há coisa de um mês, decidirem pela próxima sexta-feira, dia 8 de abril.

Mesmo dia do enterro do papa.

Ao qual -- diz a BBC -- Charles, como representante da Coroa Britânica, terá que comparecer.

* sigh *

Não, realmente não se fazem mais contos de fada como antigamente.


Afinal, quem este delegado pensa que é?!

O delegado Antonio Rayol, responsável pela prisão do marqueteiro Duda Mendonça numa rinha de galos foi, como todo mundo já sabe, afastado do cargo.

O que nem todo mundo sabe é que o delegado e os colegas que participaram da operação vêm, desde então, sofrendo prejuízos de toda a ordem, inclusive familiar.

Numa entrevista à rádio da Federação Nacional dos Policias Federais, Rayol revela que ele e seus colegas já foram chamados para se explicar em cinco sindicâncias apenas nos últimos dois meses, e ainda podem sofrer as conseqüências de um processo disciplinar.

Também, quem mandou mexer com o amigo do rei?!

Duda Mendonça, enquanto isso, continua livre, leve, solto e... miliardário. Goza do maior prestígio junto ao governo, que resolveu premiá-lo com mais algumas contas publicitárias para que nos engane com o nosso próprio dinheiro e, provavelmente, continua se dedicando às brigas de galo.

Agora, afinal, a polícia já está devidamente alertada para o que acontece a quem ousa importuná-lo.






M3: Miami a mil

Antigamente, todos os telefones tocavam do mesmo jeito. Naquela época remota, a única forma de fazer um barulho suficientemente alto para chamar a atenção era instalando uma campainha nas caixas dos aparelhos. O tempo passou mas, embora novos ruídos tenham sido inventados, até hoje os telefones fixos continuam repetindo variações monocórdias do velho trrrim trrrim de seus ancestrais.

No mundo da telefonia móvel, porém, passado aquele primeiro momento em que mais de cinco variantes eram luxo, o som virou rei; tanto que a primeira coisa que alguém faz quando compra um aparelho novo é escolher um toque que combine com o seu estado de espírito. As antigas campainhas sobrevivem a título de gozação ou nostalgia; a associação entre os celulares e a música vem de berço, e a cada dia torna-se mais intensa.

Na semana passada, no M3, Miami Music Multimedia, trepidante evento que junta, num saco só, música eletrônica, moda, tecnologia, arte digital e marketing, uma das vertentes mais quentes do temário foi esta ligação -- dos ringtones, hoje uma das maiores fontes de renda de artistas e produtores, à evolução inevitável dos celulares à categoria de players, verdadeiros iPods falantes.

Dançando com a música

Para a Motorola, patrocinadora do evento, este caminho é tão evidente que fala (ou toca) por si só: praticamente todos os seus novos telefones podem ser usados como rádios e/ou players, graças a cartões de memória que prometem chegar, breve, aos 2Gb, e a micro-altofalantes que simulam surround sound em 3D.

A ênfase na música é tão grande que o V360, um dos aparelhos apresentados em Miami, não tem, a rigor, nada demais — exceto o conteúdo, 100% MTV. Neste modelo, além dos ringtones e wallpapers, também as imagenzinhas para MMS têm o look característico da emissora. A linha se chama "Seqüestrados pela MTV".

-- Antes a gente fazia o que a tecnologia nos permitia fazer -- diz Jean-Pierre Le Cannellier, diretor de estratégia para a América Latina. -- Agora podemos nos dar ao luxo de fazer aparelhos que as pessoas querem ter, que são objetos de desejo. Unir o conteúdo à forma é apenas conseqüência natural disso.

A Motorola tem também uma parceria no forno com a Apple, cujo objetivo é trazer o iTunes para os celulares. Seus primeiros filhotes seriam anunciados em Miami mas, exceto por um disco de controle à la iPod num dos protótipos apresentados, nada ainda se viu de concreto nessa área.

MOM, uma mãe para os músicos

A sigla que não saía das bocas em Miami era MOM, de Music Over Mobile. Ela tem a ver com ringtones, mas vai além: no cenário imaginado pelas indústrias de música e de telefonia, em breve será prática normal fazer download direto no telefone.

O MP3, pesado demais, não se presta a isso, mas o AAC+, por exemplo, é uma possibilidade viável; e, claro, todo mundo espera maior largura de banda. Mas isso virá.

-- A fusão entre celulares e players é inevitável -- observou Alberto Moriondo, diretor mundial da Motorola para soluções de entretenimento (leia-se games, música e multimídia). Bem ao espírito do M3, as entrevistas rolavam à beira das piscinas do Raleigh e do Surfcomber, hotéis chiques de Southbeach. Moriondo, um italiano simpático, poliglota e descontraído, estava cercado de maquininhas interessantes que provam o seu ponto, e que chegam ao mercado no fim do ano:

-- Sinceramente, para que você vai sair de casa carregando um player e um celular se pode ter um player assim no telefone?

Bom ponto. Os players, diga-se, são o Santo Graal do mundo dos gadgets; todos sonham em fisgar uma fatia do glorioso mercado do iPod, mais desejado dos badulaques contemporâneos.

Leis idiotas: um grave precedente

No dia seguinte, atrás da mesma piscina, numa tenda armada debaixo de um calor de 30 graus, Lawrence Lessig, professor de direito da Universidade de Stanford, autor de "O futuro das idéias" e do conceito de Creative Commons, alternativa mais adequada ao mundo digital do que o ultrapassado copyright, manifestava preocupação com o rumo que estão tomando as leis relativas à distribuição de conteúdo digital nos Estados Unidos:

-- Sempre que aparece uma nova tecnologia, ela é seguida de processos em que os detentores de diretos acusam os autores da novidade de piratas. Vem sendo assim desde a invenção da pianola, processada pelos editores de música. A diferença é que, até aqui, o Congresso sempre legislou a favor dos piratas, garantindo com isso o progresso tecnológico e criativo.

-- Agora, por causa de pressões da RIAA e da MPAA, e por uma incompreensão do que está em jogo, há um movimento no sentido de se engessar a tecnologia, e mantê-la parada no tempo -- observa lessig. -- Eu sou contra o uso das redes P2P para se roubar música da Britney Spears, digamos -- embora não entenda por que alguém possa querer fazê-lo -- mas acho a existência do P2P como forma de distribuição vital para as manifestações culturais que possa vir a proporcionar, como a cultura do remix.

O mais grave é que uma lei que transforma em marginais praticamente todos os estudantes do país acaba sendo descumprida e, naturalmente, considerada idiota; mas quando alguém se convence de que a lei é idiota, este é o primeiro passo para a desmoralização do sistema legal como um todo, que passa a ser visto não como um conjunto de leis desenvolvido para proteger o cidadão, mas sim como uma arma para manter o privilégio de uns poucos.


(O Globo, Info etc., 4.4.2005)



Meus gatinhos bípedes!

Vejam que maravilha de presente esperava na mailbox: uma foto dos meus gatinhos bípedes feita pelo Paulinho hoje de manhã!

Tudo bem: avó é avó e aquelas coisas que a gente sabe -- mas, honesta e sinceramente, essas crianças não estão a coisa mais linda do mundo?!

Podem elogiar à vontade que eu não me aborreço não... ;-)

3.4.05









Foram me chamar,
eu tou aqui,
o que é que há...

A Família Gato, no melhor cumprimento das suas atribuições, deseja a todos um ótimo domingo... ;-)

2.4.05



À espera do próximo papa

Durante os próximos dias, vamos ter uma overdose de papa: cadernos nos jornais, especiais de televisão, CDs e DVDs nas bancas, websites...

O que não falta é material.

João Paulo II teve uma vida notável; além disso, nunca houve papa mais filmado e fotografado em toda a história mundial.

Ressalta-se que este foi o "papa peregrino", o papa que mais países visitou, o papa que foi até o povo -- mas o fato é que este foi o primeiro papa da era da mídia, o primeiro papa de um tempo de televisão universal, jatos confortáveis e cultura de celebridades.

Este foi o primeiro papa realmente pop.

Homem indiscutivelmente carismático, ele soube aproveitar tudo isso com grande talento. Teve uma importância política inquestionável e tornou-se uma figura familiar a todos, a tal ponto que, neste momento, o mundo inteiro está abalado com a sua morte, independentemente de credo.

Mas espero, contra todas as evidências e previsões, que o Vaticano escolha agora um papa mais antenado com o outro lado dos tempos: um papa que não condene o divórcio e o homossexualismo, que não seja contra o exercício de um papel maior das mulheres na igreja e, sobretudo, que não lute contra o uso de camisinhas na prevenção da Aids.

O mundo está frágil demais, a vida está difícil demais para que os católicos ainda tenham que se torturar com dogmas que trazem, em si, a garantia da mais plena infelicidade.
















Pif-Paf

Essas são fotinhas que fiz durante o lançamento da edição comemorativa dos quarenta anos do Pif-Paf, ontem à noite. Millôr chegou às sete ao Centro Cultural dos Correios, onde está montada uma linda exposição dos seus desenhos, e ficou dando autógrafos até às dez e tanto, quando fomos jantar.

A edição, idéia do Paulo Caruso primorosamente levada a cabo pela Eliana (também Caruso), é uma pasta com o conjunto das oito edições do Pif-Paf; as revistas ficaram o máximo, iguaizinhas aos originais de 40 anos atrás.

Foi uma noite bonita e simpática, cheia de amigos e de vibrações positivas: um momento muito feliz.

1.4.05



Polêmicas, polêmicas...

Há uma boa polêmica rolando no Samjaquimsalva, blog do Renato Parada, que descobriu muitas semelhanças entre duas entrevistas supostamente exclusivas do Woody Allen, uma delas para a Isto É.

Quer dizer: eram duas há três dias.

Hoje são, se não me engano, seis.

As perguntas e respostas estão de fato parecidíssimas. Não acredito em plágio, no caso, porque seria burrice demais dar cut&paste no texto de um colega e achar que ninguém descobriria.

Não acho improvável que o jornalista da Isto É tenha, de fato, jantado com Woody Allen; mas também não acho improvável que o estúdio tenha distribuído uma entrevista em press release, à qual ele possivelmente recorreu depois da conversa.

Não teria sido desdouro nenhum para ele dizer que compôs a sua matéria com trechos da entrevista que não pode gravar (Woody Allen não queria gravador) e trechos de material do estúdio.

A meu ver, a existência de um release é a única coisa que pode justificar a semelhança entre as várias versões dessa entrevista; afinal, não se muda o texto de declarações que vieram por escrito.






Novos habitantes

Vejam só quem acabou de chegar de Minas! São as galinhas d'angola e os peixinhos que encomendei do Fernando, lá de Caxambu: a peças são lindinhas, alegres e muito bem acabadas, como vocês podem ver.

Já estão devidamente instaladas, os peixinhos no quarto da Bia e as duas galinhas, ainda meio cabreiras com a mudança, num movelzinho da sala.

O Fernando aceita encomendas por telefone (35) 3341-2559 ou email.


Não, este não está sendo um bom dia

Madrugada num jornal com os nervos à flor da pele: há coisa de uma hora soubemos que grupos de extermínio mataram 27 pessoas na Baixada.

O jornal já estava sendo rodado.

Sabem aquele lance de "Párem as máquinas?"

É mais interessante no cinema do que na vida real.

A piora do estado de saúde do papa era a manchete, passou para baixo, entrou a notícia da matança no lugar.

Pois agora acaba de chegar a informação de que o papa teve uma parada cardíaca.

São 2h54.

E eu, que estou quieta escrevendo matéria de tecnologia, vou embora antes que aconteça mais alguma coisa.




Love, love, love

Recebi por email: não são a coisa mais linda?!

Tomara que tenham muitos filhotinhos, e que eles sejam a cara dos pais... :-)

31.3.05



RIP

Finalmente morreu a coitada da Terri Schiavo. Enquanto isso, George W. Bush & Sra., precavidos, tomaram providências legais em relação ao que deve ser feito com eles caso se encontrem na mesma situação que a lançou ao estrelato -- mas, em nome da sua "privacidade", não divulgaram o conteúdo dos documentos.

Discretos, eles.

Pois para mim, isso só tem uma leitura: façam o que eu mando, mas não o que eu pretendo que me façam.

Claro:

  • Quem acha válido ficar em estado vegetativo não precisa fazer nada; a indústria médica cuida disso sozinha, obrigada. Como todo mundo sabe, difícil não é ligar, é desligar;

  • Se a decisão dos Bush fosse igual ao que dizem que pensam, seria uma excelente jogada política divulgar o conteúdo dos seus testamentos. Vocês acham que Bush ia perder essa oportunidade?!

    Esta hipocrisia me revolta DEMAIS; assim como me revolta o que estão fazendo com o papa.

    Deixem o pobre homem morrer em paz, caramba!

    É assim que age uma Igreja que se diz humana e cheia de compaixão?!

    Uma Igreja que acredita na eternidade da alma?!

    Mas se a alma é eterna, por que não deixá-la seguir seu rumo?!

    ARGHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

    Só para constar, porque tenho família sensata e discreta, que de fato me ama, e, felizmente, não tenho um bando de urubus pelas costas brigando pelo poder:

    Se um dia eu virar um vegetal, ou chegar ao nível de sofrimento do papa, me deixem tirar o time de campo o mais rápido possível. Quero ir em paz, sossego e dignidade.

    Não sei se um blog tem valor legal para me garantir isso, mas pelo menos o que não me falta aqui são testemunhas...









  • Livin' la vida loca

    Às vezes, fugir do mundo não é uma opção de todo ruim

    Miami é uma festa. O verão ainda nem deu as caras e o povo já cozinha ao sol das praias mais bem cuidadas da América Latina. O fervo começa cedo, ou termina tarde; tudo depende do ponto de vista. Janta-se às sete, mas às três os bares de South Beach já estão cheios. A galera que dançou até às quatro da manhã numa boate pode ser vista duas quadras adiante, meia hora depois, fazendo fila para entrar em outra, onde um novo set de DJs começa os trabalhos às cinco. Depois disso não sei o que acontece; sou de um modelo antigo, que precisa dormir um pouco de vez em quando, e isso atrapalha a investigação.

    É verdade que caí na cidade bem em meio ao M3, Miami Music Multimedia, grande celebração da música eletrônica e de um jeito clubber de ser, mas não é à toa que ele se realiza lá. Se todos os alto falantes de todos os carros envenenados que circulam por Miami fossem ligados ao mesmo tempo, o som daria a volta ao mundo várias vezes. Felizmente os carros sossegam enquanto os donos bebem, de modo que o som não ultrapassa as fronteiras do condado. Miami dorme e acorda ao bate-estaca do techno, que escapa, em todas as suas variantes, gêneros e sub-gêneros, de uma festa aqui ou um carro acolá.

    * * *

    Não gostar de Miami é uma reação tão comum que, dessa vez, fui disposta a fazer uma reavaliação. Minha disposição natural em relação ao mundo, de modo geral, é gostar; não gosto de não gostar. Além disso, uma cidade como Miami é tão complexa, e tem tantas nuances, que chega a ser absurdo generalizar. Não existe uma Miami, assim como não existe um Rio de Janeiro; existem milhares de Miamis, feitas à imagem e semelhança de quem as vive. Alguém pode detestar uma viagem que adoraria se ficasse hospedado dois quarteirões adiante; o bairro que um dia é um tédio, no outro pode ser uma revelação. Não há absolutos.

    Isso, objetivamente. Subjetivamente, as cidades, como as pessoas, têm um jeito de ser, uma aura, karma ou lá como se chame, com o qual a gente vai ou não vai -- e não há racionalização que mude isso.

    Miami é linda e bem cuidada, tem praias que me enchem de inveja pelo azul caribenho e pela água quentinha, os bandos de pássaros que se vêem por toda a parte são alegres e confiantes mas, com tudo isso, não consigo fugir do lugar comum. Não consigo gostar de Miami.

    O hotel ótimo, o tempo maravilhoso, uma lua que nem te conto -- e algo indefinível que me dava uma vontade louca de fugir correndo e voltar para casa. Não sei exatamente o quê, mas imagino um conjunto de fatores, a começar pelos rios de dinheiro que correm por todos os lados. Dos carros impossíveis às roupas duvidosas, tudo tem uma única finalidade: proclamar para o mundo o elevado status financeiro dos donos. Mas pior do que assistir a este show bizarro de riqueza -- que sequer chega a ser característica exclusiva de Miami -- é saber o que o torna possível. Afinal, dez entre dez corruptos da América Latina consideram a cidade o seu segundo lar.

    A cidade não tem culpa disso, coitada, nem os habitantes que dão duro e ganham o seu pão honestamente; mas é o tal do karma. O fato é que olho para aqueles condomínios de luxo elegantíssimos, finíssimos, metidíssimos-íssimos-íssimos... e a única coisa que me vem à cabeça é a fita do juiz Nicolau, na plenitude de sua obscenidade, fazendo o tour do apartamento milionário.

    * * *

    Miami estava, naturalmente, siderada pelo caso Terri Schiavo. O ódio pelo marido me pareceu universal -- como se os pais, principais responsáveis pelo circo armado em torno da pobre moça, fossem anjos de candura, e estivessem agindo movidos pelos melhores sentimentos.

    O comportamento das partes, cada qual tentando prejudicar mais a outra, me lembrou, mal comparando, a situação dos hospitais no Rio, em que a população, como Terri Schiavo, é o que menos importa.

    Nessa história sem mocinhos, o que eventualmente poderia ter sido um debate importante e necessário sobre os limites da vida transformou-se num espetáculo degradante e deprimente, estrelado por advogados, políticos e celebridades religiosas.

    Depois a gente estranha que a garotada se jogue nas raves 24 horas por dia e se desligue do mundo...

    (O Globo, Segundo Caderno, 31.3.05)

    30.3.05





    Inclusão digital

    Deu na Agência Estado...e nem é primeiro de abril!
    Petista discursa contra exame de próstata que o fez ver estrelas

    Durante 25 minutos, Sargento Isidório do PT usou a tribuna para detalhar o exame, reclamar do profissionalismo do médico, além de confessar que se sentiu "deflorado"

    Salvador - Reflexões sobre as agruras do exame de próstata, ocuparam grande parte do tempo da sessão de ontem da Assembléia Legislativa da Bahia. Tudo porque o deputado Manoel Isidório de Santana de 43 anos, o Sargento Isidório do PT, usando o tempo cedido pela liderança da oposição na Casa, fez um áspero discurso contra o referido exame, ao qual havia se submetido pela primeira vez na parte da manhã e conforme suas palavras ainda estava "vendo estrelas" por uma suposta violência do médico.

    O exame é o mais recomendado para se prevenir o câncer de próstata e consiste no toque da glândula com o dedo através do ânus. Classificando o exame de "angustiante", e exortando a Medicina a criar outro método que não "penalize" tanto os pacientes, Sargento Isidório se inflamou na tribuna e fazia questão de mostrar com gestos exagerados e gritos, como o doutor foi rude.
    Embora afirmasse não querer se estender muito no assunto, por considerar "desmoralizante para um pai de família", o deputado petista foi descrevendo detalhes, enquanto seus colegas se divertiam no plenário. Entre outras coisas, reclamou do fato de ser enganado sobre a forma como o exame de toque é feito e repetiu que "foi horrível" e quase desmaia.

    Ele gastou cerca de 25 minutos como tema que provavelmente seria encerrado se o deputado e médico Targino Machado (PMDB) não tivesse pedido um aparte para criticar o discurso apologético de Sargento Isidório contra o exame. Foi o suficiente para o petista voltar à carga repetindo toda à sua "desagradável" experiência. Uma das coisas que deixou o Sargento Isidório mais indignado é que após o exame, o médico abriu a porta e chamou o próximo paciente "como se nada tivesse acontecido", enquanto o petista saiu do consultório sentindo-se "deflorado". (Biaggio Talento)


    As voltas que o mundo dá

    Durante muito tempo nossa família morou no Bairro Peixoto, onde a Laura e eu crescemos brincando na praça Edmundo Bittencourt. Havia um bambuzal que nos parecia enorme e perigoso, e um jardineiro, se não me engano o seu Rosa, que era o terror das crianças.

    (Olhando assim à distância, nem é difícil imaginar por quê: provavelmente, nós éramos o terror dele, coitado, quebrando plantas e pisoteando o jardim.)

    Minha avó morava com meus tios no alto da Santa Clara e, quando chegava do trabalho, Papai ia visitá-la. Volta e meia íamos com ele. Uma das minhas lembranças mais nítidas de infância é subir a Décio Vilares de mãos dadas com meu Pai, rumo à casa dos tios.

    No caminho, cruzávamos com um ou outro conhecido. Isso significava um breve boa tarde, em alguns casos uma pequena pausa.

    Mais complicado era quando encontrávamos o rabino Lemle.

    Meus pais deixaram a religião na Europa. Papai não conseguiu se reconciliar com a idéia de um Deus que permitia acontecimentos como os que ele havia presenciado e vivido, e tornou-se ateu; Mamãe tem lá suas dúvidas. Por causa dessa peculiaridade familiar, aliás, devo ter sido uma das crianças a saber mais cedo a distinção entre ateu e agnóstico -- e a ficar me questionando de que lado exatamente eu estava.

    A dúvida persiste até hoje; mas isso são outros quinhentos.

    O fato é que Papai era amigo do rabino, que gozava de grande prestígio e consideração lá em casa. Quando se encontravam, os dois se deixavam ficar, conversando animadamente em alemão. Eu ficava indócil. Primeiro porque não falava alemão; depois porque, ainda que falasse, estava mais interessada em passear do que em ficar parada ouvindo conversa de adultos.

    O tempo passou.

    Há alguns anos, uma jovem repórter chamada Marina Lemle veio trabalhar comigo no Globo. Observei o nome pouco comum, e perguntei se conhecia o rabino.

    Ora, como não? Era neta dele.

    Mundinho pequeno!

    Agora, acabo de ler um texto comovente que Marina escreveu para o nominimo sobre sua família. Seu bisavô, o sogro do rabino, assassinado em março de 1933, é considerado, oficialmente, a primeira vítima dos nazistas.

    Ela, porém, só descobriu isso há coisa de um mês, por acaso, numa conversa com a avó.

    Quando perguntou o porquê da demora da revelação, recebeu a mais típica das respostas que uma mãe judia pode dar:

    -- Achei que você não ia querer saber. Eu quis te poupar.