13.4.05






Onde já se viu?

Talvez, em outra pré-estréia; mas lá no Vivo Open Air, com certeza não se viu.

Eis que, faltando cinco minutos para o dramático final de Cabra Cega, a máquina de projeção pifou, e o final do filme do Toni Venturi ficou para uma próxima oportunidade.

Num primeiro momento, uma voz maviosa veio ao microfone avisar que, após um pequeno intervalo, a exibição seria retomada; logo depois, a voz maviosa voltou informando que, devido a dificuldades técnicas, seria impossível continuar a exibição.

Aos mais indignados foram distribuídos ingressos para, se não me engano, a rede Cinemark; mas há poucas coisas mais frustrantes do que estar vendo um bom filme, que se encaminha para um Gran Finale... e sair sem saber o que aconteceu.

Foi uma vaia só, e um grande auê.

Felizmente Jonas Bloch, um dos atores, estava com a turma da gente, e nos contou o que faltava saber. Logo se juntou uma rodinha em volta, e o Jonas repetiu mais uma vez; e outra, e outra, e outra... Acabou sendo muito aplaudido, até porque está excelente no filme.

Eu, pessoalmente, adorei este final inusitado, completamente diferente de tudo o que já vi; mas reconheço que não era bem essa proposta do diretor.

Grande mico.

Pensando bem, baita gorila.

Tsk, tsk, tsk.

12.4.05










Zoooooooooom!!!

Resolvida a questão da resolução -- hoje já se encontram boas câmeras de 3 megapixels por cerca de R$ 600 -- a indústria de câmeras digitais enfrenta novos desafios. Os consumidores ficaram exigentes, e querem imagens mais bem definidas, com cores mais fiéis; e querem, também, que seu olhar chegue tão distante quanto possível. A resposta está na presença cada vez mais freqüente de nomes como Leica, Zeiss ou Schneider gravados em lentes que enxergam longe, ideais para quem gosta de fazer fotos de viagem ou da natureza.

As megazoom, como são conhecidas as câmeras que têm algo a mostrar além dos 3x de rotina, começam a se tornar figurinhas fáceis: fotografei todos esses pássaros, por exemplo, usando uma Panasonic Lumix FZ20, de 5 megapixels, com zoom óptico 12x Leica.

Há poucos anos, quando câmeras de 3 megapixels eram topo de linha a quase mil dólares, uma jóia dessas era um sonho distante, que ninguém esperava ver no mercado tão cedo, muito menos a preços razoáveis; mas a FZ20, lançada em fins do ano passado a U$ 599, já pode ser encontrada, nos EUA, por pouco mais de U$ 400.

As Lumix são resultado de um acordo entre a Panasonic, responsável pela tecnologia, e a Leica, responsável pelas lentes. A contribuição da venerável marca alemã pode ser percebida na definição dos detalhes e numa característica interessante: quanto melhor a lente de uma câmera digital, menos ?estouram? os brancos das áreas muito iluminadas.

Nenhuma megazoom é pequena, já que as lentes têm lá o seu tamanho; mas a maioria cabe numa bolsa comum. Elas têm um ar de câmeras "sérias" mas, ao contrário das profissionais, que têm pelo menos 8 megapixels e permitem troca de lentes, são relativamente leves: todos os colegas para quem mostrei a Lumix ficaram encantados com o peso.

Por causa da própria extensão das lentes, as megazoom costumam vir com um recurso que, até aqui, era exclusividade de videocams e de lentes profissionais: estabilizadores de imagem, que diminuem muito os índices de perda de foto por tremidas indesejadas. A Panasonic põe tanta fé no seu sistema, por sinal, que ele começa a valer para toda a linha de digitais, mesmo as compactas. A verdade é que, apesar do mau hábito de "devorarem" baterias, eles são uma mão na roda, sobretudo quando não se tem um tripé à mão; este foi o caso de todas as fotos desta página, sem exceção.

* * *

Quando se começa a usar uma megazoom, porém, descobre-se que ter tripé à mão é não só importante, mas fundamental. Quando o sol vai se pondo e as melhores fotos vão se desenhando, não há estabilizador que dê jeito sozinho...

Como as câmeras digitais são sempre levinhas, aqueles pequenos tripés de mesa, também conhecidos como pedestais, que se encontram em todas as lojas de fotografia, já são uma grande ajuda; outra saída são os monopés, menos trambolhentos, que garantem o mínimo de estabilidade necessário a cenas de pôr-do-sol em foco.

Mas prepare a carteira. Um tripé não é igual a outro, e a variação de preços na área é enorme. Bons tripés e monopés, vale dizer equipamentos leves e confiáveis, custam muito mais do que se poderia imaginar. O investimento, porém, compensa -- e torna-se óbvio depois de algumas horas de passeio.

(O Globo, Info etc., 10.4.2005)

11.4.05



Na mosca

Paula Foschia descobriu: Charles e Camilla são personagens de Jane Austen.








Enquanto isso, no lado bom...

A mailbox estava cheia de fotos bonitas, ontem.

A minha irmã Laura foi passear com amigos no Pico da Tijuca e, assim que chegaram, foram saudados por um bando de quatis lindos e amistosos.

Hermano Taruma, rápido no clic, flagrou os bichinhos antes que fossem embora, desapontados com aqueles bípedes sem consideração que não trouxeram comida.

Enquanto isso, Júlia Moraes me mandou uma foto que o pai dela, Valério, fez cedinho aqui na portaria: o porteiro Zé com a Pipoca, nosso pequeno milagre felino.


Tempus fugit

A vida é curta, falta tempo, a internet não acaba e, com isso, a gente deixa passar muita coisa importante.

Por exemplo, não escrevi sobre Saul Bellow.

Também não visito, há tempos, um monte de blogs que deveria visitar.

Mas às vezes dou sorte. Agorinha mesmo encontrei aqui um post perfeito sobre Saul Bellow.

Gente que pensa dá gosto, viu.

10.4.05




Deu na Zero Hora

Desculpem estragar assim o domingo de vocês, mas estou horrorizada com o que acabo de ler: meia dúzia de monstros disfarçados de mauricinhos mataram, em Pelotas, de forma gratuita e cruel, uma cadelinha de rua.

As pessoas que cuidavam da bichinha, grávida e amiga de seus vizinhos bípedes, estão revoltadas; mas, embora um dos suspeitos já tenha sido identificado, taí mais um caso que, desconfio, não vai dar em nada.

Num país em que matar gente é coisa cada vez mais corriqueira, o que é a morte de um animalzinho?
Massacre de cão em Pelotas revolta população

Cadela foi amarrada em pára-choque de carro e arrastada até a morte pelas ruas na madrugada de quarta-feira

Os pelotenses ainda tentam encontrar uma explicação para uma cena chocante ocorrida na madrugada de quarta-feira, no centro da cidade. Uma cadela de rua foi amarrada por jovens no pára-choque de um veículo e arrastada por mais de cinco quadras. Pedaços do animal e dos filhotes que nasceriam em um mês ficaram espalhados pelo asfalto.

Preta era o xodó da vizinhança. Recebia comida, carinho e tratamento de saúde. Quando nascessem, seus filhos já tinham endereço certo. Michele Silva, 29 anos, que cuidava da cadela há mais de um ano, estava se preparando para recebê-la em casa depois do parto e havia conseguido donos para a ninhada.

-- Ela era toda preta com uma mancha branca no pescoço. Era uma pastor belga misturada. Muito dócil -- relembra Michele, proprietária de uma pet shop localizada nas proximidades do local onde a cadela foi morta.

Em mãos, ela tem uma lista com mais de 15 nomes de pessoas que ajudavam o animal. Durante o dia, a cachorra recebia comida dos moradores e de estudantes de Odontologia, cuja faculdade se localiza próximo ao lugar onde Preta vivia. À noite, ela se instalava junto à churrasqueira de um bar. Lá, tinha o privilégio de ter carne assada somente para ela.

-- Era nossa amiga. Não dávamos restos. Tirávamos o churrasco do espeto mesmo -- revela um morador que prefere não se identificar por medo de retaliações.

A madrugada de quarta-feira já começava quando um grupo de jovens bebia no bar onde Preta costumava passar as noites. Por diversão, eles amarraram a cadela em um poste.

-- Meu irmão chegou e pediu que eles a desamarrassem porque era mansa e não machucava ninguém. Ficaram todos rindo. Isso foi lá pelas 3h -- lembra um morador que estava no bar.

Michele e alguns amigos, que estavam em outra mesa do bar, escutaram os gritos de Preta de longe. Acharam que a cadela havia sido atropelada. De repente, viram os rapazes em dois veículos, e a amiga peluda sendo arrastada por uma corda pela rua.

-- Eles andaram com ela por mais de cinco quadras. Corremos para pegar o carro e saímos atrás. De nada adiantou nosso pranto. Eram jovens, de boa aparência. Para mim, isso é coisa de gente que não tem coração -- diz Michele.

Os moradores próximos que costumavam ajudar Preta estão revoltados com a violência contra o animal. A foto da cadela ainda está no mural do bar onde ela costumava se abrigar.

A polícia abriu inquérito para investigar a queixa de crueldade contra a cachorra. Segundo o delegado Osmar Silveira dos Anjos, três pessoas já haviam sido ouvidas ontem. Um dos supostos envolvidos, de 21 anos, já teria sido identificado. A polícia deverá ouvir ainda outras testemunhas do fato. As investigações deverão apontar de que forma os responsáveis poderão ser punidos. (Caroline Torma)
Sou radicalmente contra a pena de morte, mas juro que, nos últimos tempos, este radicalmente vem sendo bastante abalado pelo noticiário.

Que possibilidade de recuperação têm esses covardes? Qual é a chance de que pessoas que matam por prazer criaturas indefesas venham a se tornar, algum dia, membros produtivos da sociedade?

O que fazer com essa gente?!


Muito bom!

O que os bichos fazem quando a gente sai de casa? Cliquem aqui para descobrir.

(Obrigada, Gin!)

-



Viva!

Passei o dia fora, num churrasco delicioso. A dona da casa também torce muito por Charles e Camilla, mas estávamos todos tão entretidos comendo e jogando conversa fora que nem nos lembramos de ligar a televisão; quando nos despedimos, meia noite e tanto, é que nos bateu a aflição:

-- Meu Deus, será que correu tudo bem com eles?!

Pois acabo de ver o casamento e de me tranqüilizar. Não só tudo correu às mil maravilhas como a torcida estava toda lá para festejar; até o ex-marido foi, dando um show de fleuma britânica.

E os dois, ora, os dois estavam até bonitos!

O que não faz a felicidade?!

Os noivos, porém, quase foram ofuscados pelos chapéus das convidadas: havia um roxo, de dois andares, com penas do lado, que até agora estou tentando entender.

Camilla, porém, acertou. Estava discreta, elegante e emocionada.

Algo me diz que, ao contrário do que os tablóides agouraram, o casal acabará sendo muito bem aceito pelo público.

Estou contentíssima por eles; agora vou dar uma voltinha pela web para ver a reação geral.

9.4.05



Shrek: happy end

Vou dormir desejando, ardentemente, que nenhuma calamidade aconteça nas próximas 12 horas -- e que, finalmente, Charles e Camilla possam se casar, mandar a rainha, a imprensa e os súditos às favas, e ser felizes para sempre.

Já disse aqui, mas repito: tenho uma pena enorme desses dois, tão perseguidos e humilhados apenas por não serem jovens, bonitos ou brilhantes.

Hipocritamente, os tablóides e a tal "opinião pública" acusam a ele de ser frouxo e covarde, a ela de ser uma bruxa, aos dois de serem adúlteros -- como se adultério fosse uma coisa raríssima, praticamente inexistente no planeta.

Ah, francamente!

Torço por Charles e Camilla porque uma amizade e um amor que resistem há tantos anos, em condições tão adversas, merecem demais um final feliz.


Mistérios da fé

A CNN está passando um replay do enterro do papa. Lá no jornal há aparelhos que ficam ligados direto, ora numa, ora noutra emissora; já não sei mais quantas vezes vi essas cenas.

A trilha sonora é mesmo muito ruim. Como observou o Marcus nos comentários, não dá para entender por que, tendo a igreja o vastíssimo repertório da música sacra à sua disposição, foi escolher justamente esta peça pouco inspirada.

Apesar da avalanche de cobertura, ninguém explicou (ou pelo menos eu perdi isso) quem eram os camaradas que carregaram o caixão.

Outra coisa que não entendo -- sinceramente, não estou brincando -- é por que os cardeais ainda precisam ler o texto da Missa.

Até eu, que nem caótica sou, já sei tudo de cor, há tempos e em várias línguas -- como, de resto, qualquer pessoa que goste de música clássica e tenha ouvido a sua cesta básica de Vivaldi, Bach, Palestrina, Haendel, Mozart, Beethoven, Brahms, Verdi... caramba, até na fenomenal Missa Criolla, de Ramirez, o texto é o mesmo.

Oh well.

E vamos em frente, porque enredo, felizmente, não falta ao mundo.


Querido Diário

Estou com um novo dentista. Ontem fiz uma pequena cirurgia, fiquei daquele jeito que a gente fica quando mexe com dente, dolorida e estressada (para não dizer pobre, mas isso são outros 500).

Fiquei tão down que nem fui à estréia do Vivo Open Air, que eu amo, e que estava apresentando, em primeiríssima mão, o filme do Andrucha Waddington, Casa de Areia, com as duas Fernandas.

Até aí, normal.

Espanto mesmo foi o seguinte: hoje ele ligou para saber como eu estava passando!

Gente, falando sério -- tirando um ou outro médico amigo, isso, há muito tempo, só acontecia lá em casa com os veterinários.

Que, honra seja feita, nunca deixam de ligar para saber dos seus pacientinhos.

Estaria eu freqüentando os profissionais errados ou será que, por acaso, descobri a exceção?

8.4.05



Quem dá mais?

A galera não perde tempo: já pipocam lembranças do papa no eBay e no Mercado Livre.

No Mercado Livre, os itens são mais ou menos o que se imagina: selos e moedas comemorativos, posters, quadrinhos, CDs piratas, essas coisas.

Mas no eBay há criaturas muito viajantes!

Por exemplo: há uma mensagem pro papa que custa um milhão de dólares. Você vai ver o que é, é uma mulher do Havaí que, todos os dias, escreve um bilhete pro papa. Explica que é a sua forma de "lidar com a perda". Como precisa por um valor qualquer no item para subir pro eBay, tasca o milhão lá, mas o negócio é comunicar, não vender.

Alguém precisava informar a ela da existência dos blogs.

Um espertinho registrou o domínio www.popejohnpaulII.info e quer U$ 29 mil; pintores e escultores estão pedindo fortunas por estátuas e quadros medonhos; tem até gente oferecendo água benta que, garantem, o foi pelo papa.

O item mais caro com interessados em compra é uma Bíblia que o papa assinou para um camarada que foi seu guarda-costas durante uma visita à Austrália.

Faltam três dias para o fim do leilão, já foram dados 35 lances e o preço está em U$ 8.600.

Vai longe, já que a maioria das pessoas deixa para dar lance nos últimos minutos.




Meigo, não, os quatro amiguinhos em Roma?

Aliás...

A grande frase do dia fica com a Ana, aqui nos comentários:
Quem tem bolso vai a Roma.

O enterro dos enterros

Ontem de madrugada acabei assistindo ao começo da cerimônia de enterro do papa. De todas as emissoras pelas quais zapeei, a RAI era a única que estava fazendo uma cobertura aceitável, isto é: não só os caras sabiam quem era cada um dos prelados e o que era e significava cada detalhe do cerimonial como sabiam quem eram quase todos os chefes de estado que apareciam no video -- muito embora Lula tenha passado em branco por eles.

Até o principe Charles apontaram uns três minutos antes da BBC.

A BBC, por outro lado, era a única a não dublar as falas. Entendeu entendeu, não entendeu, paciência. Achei muito melhor assim, gosto de ouvir línguas diferentes.

O toque cômico ficou com um dos locutores da RAI. Lá estava o caixão naquela praça esplendorosa, com aqueles cardeais vestidos num luxo carnavalesco, aqueles chefes de estado todos que gastaram milhões para estar lá e ele diz, a sério:

-- A abrangência e a simplicidade desta cerimônia mostram bem quem foi o papa.

Abrangência, OK. Mas... simplicidade?

Este post está sendo feito através do w.bloggar; o Blogger já nem dá as caras.


Argh!!!!

O Blogger está simplesmente inusável. Não estou conseguindo subir as fotos dos gatinhos da Andréa, subir um post é um desafio de paciência... * sigh *


Emergência felina

Escreve a dra. Andréa Lambert:
Ainda estou com muitos gatinhos para adoção, e a cada dia chega mmais. O abandono no Campo de Santana está muito grande já faz algum tempo, mas agora parece que está pior. É impossível socorrer todos os filhotes, ainda tem vários soltos no parque.

Estou mandando na mensagem foto de dois gatinhos que estão comigo esperando um lar. Uma linda gata de pelagem azul, já esterilizada, e um lindo filhote amarelo, parece o Garfield, tem a carinha muito sapeca. Além destes gatinhos muitos outros esperam uma chance de encontrar um dono. Alguns podem ser vistos no fotolog e no site.

Vocês também podem ir ao Campo de Santana direto para escolher um filhote, já que a cada dia há mais e mais abandonados. É muito triste.

Para adotar estes gatinhos entrar em contato com Andréa: (21) 9632-8115

7.4.05




Mundos sujos: ficção e realidade

Um ótimo livro cubano e uma pergunta às autoridades que defendem Duda Mendonça, o Intocável

"Entro numa farmácia e encontro uma prateleira estocada com dez marcas de escovas de dentes, cada uma oferecendo dez modelos diferentes; cada modelo, dez cores; cada cor, dez escovas pendendo de ganchos. Deve haver umas dez mil escovas de dentes em exibição e os fregueses caminham alheios à abundância que os cerca; os dez mil esmaltes de unha; os dez mil prendedores de cabelo; os dez mil batons."

Por acaso, fui para Miami com um livro singularmente apropriado para a viagem: "Mundos sujos", de José Latour. Eu não sabia nada a respeito do livro ou do autor, exceto pelos blurbs da capa e da contra-capa, isto é, aquelas frases pinçadas de resenhas assinadas por gente de quem nunca ouvimos falar, ou recortadas de jornais que não lemos ou nos quais já perdemos muito da fé, como o New York Times -- mas que, apesar de tudo, continuam a exercer com bastante eficiência o papel de propagandistas:

"Latour mantém o suspense e apresenta grandes surpresas... Uma visão iluminadora da condição cubana" (The Times); "Um romance notável" (Washington Post); "Uma leitura rica e veloz" (Los Angeles Times); "Um romance bom demais para ser encerrado dentro de um gênero" (The New York Times).

Para minha felicidade, desta vez era tudo verdade, a começar pela entusiástica declaração do NYT, estampada na capa. "Mundos sujos" é, de fato, um bom policial, mas o que o faz um ótimo livro é a sensível contraposição de dois estilos de vida igualmente decadentes e viciados, ainda que totalmente distintos.

De um lado, a Havana miserável dos cubanos desprotegidos, destituídos de tudo, inclusive (e sobretudo) de fé em Fidel Castro; do outro, a Miami resplandecente do consumismo desenfreado e arrogante, onde ter é cada vez mais importante do que ser.

A ligação entre esses dois universos diametralmente opostos é Elliot Steil, pacato professor cubano sem grandes ambições que, por artes do destino, acaba em Miami, enredado simultaneamente numa vendetta inesperada e num interessante e plausível caso de amor com Fidélia, mulher de boa formação que chegou ao mesmo tempo da ilha e que, como ele, tenta encontrar algum sentido no novo país.

É dela a voz do primeiro parágrafo, que pesquei de um recurso comum, mas muito bem usado por Latour, para manter certa distância entre a trama policial e as considerações filosóficas que tece sobre seus dois mundos: às vésperas de empreender a travessia que vai mudar a vida da família, Fidélia decide escrever um diário da aventura. Assim, enquanto Elliot age, ela questiona o que deixou para trás e o que vê à sua volta.

* * *

José Latour, o autor, mora em Havana, tem 65 anos e já escreveu sete livros. Este é seu primeiro romance em inglês, idioma no qual tem um título muito mais sutil do que este "Mundos sujos" que lhe pespegaram em português. Chama-se "Outcast", desajustado, pária, pois assim é o seu protagonista, visto com desconfiança em Havana, e pouco à vontade em Miami.

Sem amigos no Partido Comunista, sem parentes que lhe mandem dólares dos Estados Unidos, Elliott é obrigado a se virar, em Cuba, com um salário de professor, que dá pouco mais de dois dólares por mês. Como tantos de seus compatriotas, vive no limite da sobrevivência, sustentado, aqui e ali, por uma teia de pequenas infrações. Não é uma vida boa ou digna; mas não são as dez mil escovas de dente da farmácia de Miami que podem preencher as lacunas de nostalgia das vidas que um mundo sem solução deixa à deriva.

Latour não doura nenhuma das pílulas que oferece ao leitor. Cuba só parece mais humana porque nela Elliott está em casa; ainda assim, não há nenhuma compaixão à vista nas revelações de Fidélia, que expõem a perversidade natural da miséria. Tampouco há salvação no consumismo selvagem de Miami, que há tempos perdeu qualquer fio terra com as reais necessidades humanas. Não há ninguém inteiramente honesto em lugar algum, embora de um lado e de outro se encontrem pessoas bem intencionadas.

Já é muito, e está de bom tamanho.

* * *

Enquanto isso, no mundo sujo de cá, os policiais que tiveram a audácia de prender Duda Mendonça, o Intocável, continuam a ser implacavelmente perseguidos. Numa entrevista à revista "Consultor jurídico", o delegado Antônio Rayol revelou que ele e seus colegas já foram chamados para se explicar em cinco diferentes sindicâncias apenas nos dois últimos meses -- e ainda podem sofrer as conseqüências de um processo disciplinar.

Eu só queria saber a quantas sindicâncias o Marqueteiro Mor do Rei, notório torturador de aves preso em flagrante, teve que responder no mesmo período.


(O Globo, Segundo Caderno, 7.4.2005)

6.4.05



Apesar disso...

Fenomenal esta panorâmica da Praça de São Pedro que descolei lá no Pedro Dória; apenas desliguem o som, porque é daqueles sites que atacam com música.


Feeding frenzy

Escrevi um comentário enorme ao post anterior; aí, quando ele estava prontinho, a Keaton pulou em cima da mesa e mandou tudo pro espaço...

* sigh *

Agora vou escrever aqui, que é à prova de gato.

"Feeding frenzy" é a expressão que se usa para definir a maluquice que dá nos tubarões quando sentem sangue na água; eles ficam ensandecidos e desandam a devorar tudo o que vêem pela frente, inclusive uns aos outros.

Às vezes se usa em relação à mídia.

Pois acho que estamos assistindo ao maior feeding frenzy de todos os tempos.

Uma série de fatores leva a isso e, de todos, a fé talvez seja o menos importante.

Para início de conversa, morreu o rosto mais conhecido do planeta -- que era, simultaneamente, o líder espiritual de uma parcela considerável do mundo ocidental, e o chefe de um estado com prática milenar na organização de Grandes Eventos.

Nem a Coroa Britânica consegue fazer melhor. Não só o Vaticano é insuperável no cerimonial, como tem um cenário imbatível, o que é elemento fundamental em termos de mídia.

De modo que TODAS as grandes emissoras de TV mandaram para Roma seus principais correspondentes; que, uma vez lá, precisam justificar o dispendioso deslocamento produzindo o máximo possível de material.

Nenhuma emissora quer, ou pode, correr o risco de não dar algo que outra tenha dado; nenhuma quer, ou pode, perder a chance de mostrar aos telespectadores como é ágil, dinâmica e antenada com os acontecimentos e sentimentos do mundo.

Quanto mais gente vai para o Vaticano, mais se justifica a cobertura monstruosa -- que mostra, sem parar, quanta gente está chegando.

Ora, quanto mais gente a TV mostra, mais gente quer ir.

Ninguém quer ficar de fora da festa -- porque no fundo é isso, uma tremenda festa. Não duvido nada que logo apareçam ambulantes vendendo camisetas-souvenir do enterro do papa, se é que já não apareceram.

Primeiro se falava em um milhão de fiéis velando o papa; depois, em dois milhões; agora, já se fala em quatro milhões.

Também não há chefe de estado que não queira aproveitar essa magnífica oportunidade de aparecer sem precisar dizer nada além de banalidades. É prestigioso estar lá, ao lado dos demais chefes de estado. Igualmente envaidecidos por estarem lá, entre outros chefes de estado.

E aí a cobertura aumenta, porque cada emissora mostra não só a chegada do seu chefe de estado particular e de sua comitiva, como a dos grandes líderes mundiais.

Para não falar nas autoridades de maior ou menor escalão, nos severinos, nos diplomatas, nos príncipes da igreja, nas celebridades ou nas freirinhas a caráter que dão aquele toque tão característico à cerimônia.

Ou, Deus nos livre, do atentado terrorista que todos temem mas que tantos, secretamente, esperam -- mais ou menos como os espectadores de Fórmula 1 que assistem as corridas esperando pelo desastre que vai render tantas imagens, vistas de todos os ângulos, em todos os telejornais.

É uma ocasião verdadeiramente única.

Nunca se viu nada igual, até porque, quando o outro papa morreu, o mundo foi pego de surpresa -- e a era das celebridades ainda não tinha começado.

Ao mesmo tempo, o papa é talvez a única super-celebridade a respeito de quem a mídia pode criar todo este auê sem ser acusada de futilidade -- ou sem, honesta e sinceramente, se sentir fútil.

Há católicos espalhados pelo mundo todo; e mesmo não católicos têm sido triturados, com competência, pelas gigantescas engrenagens do marketing da piedade a bom mercado.

Vejam quantos líderes espirituais de outras religiões já não se manifestaram; e pensem em quantos mais não estão loucos para se manifestar, para fazer coro com o mundo e, assim, confirmarem que são pessoas de prestígio, cuja voz é digna de ser ouvida em tão grave momento.

Quanto mais a onda cresce, mas cresce a onda.

A morte de Lady Di, em que a mídia alimentava os populares que alimentavam a mídia, foi uma pequena amostra do que nos espera.

E, naquela ocasião, ainda havia uma ou duas vozes de bom senso para lembrar que, afinal, o mundo continuava girando.

Agora, percam as esperanças; o mundo enguiçou de vez.

É um ótimo momento para dar um tempo na televisão e por os livros e os filmes em dia.