14.2.05



As voltas que o mundo dá

Sou totalmente contra o desenvolvimento de armas nucleares, mas gostaria de entender por que os Estados Unidos acham que podem ter bombas nucleares e o resto do mundo não.

O que dá ao único país que já usou efetivamente armas nucleares o direito de reclamar quando os outros se armam?!

Não tenho nenhuma simpatia pela Coréia do Norte, mas também não vejo como condenar um país por avisar aos EUA que se cuidem, sobretudo depois de ter sido alinhado no "Eixo do Mal" pelo sutil George W. Bush.

Que coisa.

Nunca pensei que, um dia, eu chegaria a temer pelo Irã por não ter uma bomba atômica.

12.2.05



Crônica do jovem Hughes, ou das
desvantagens de não morrer aos 30

O que é que Howard Hughes, Che Guevara e James Dean têm em comum? Simples: os três são ícones firmemente arraigados no nosso imaginário. A diferença é que Che e James Dean morreram jovens e logo viraram material para posters e camisetas, ao passo que Hughes, que talvez tivesse condições de lhes fazer companhia nas paredes e no peito de milhões de adolescentes, viveu demais, e morreu velho e maluco. Às vezes, sobreviver no tempo da própria vida prejudica a sobrevivência no tempo rarefeito do inconsciente coletivo; vide, por exemplo, Marilyn Monroe e Brigitte Bardot.

Em lugar de cineasta e aviador audaz, Howard Hughes cristalizou-se na eternidade como retrato supremo dos males do capitalismo, primeiro nome que vem à mente quando se repete, pela enésima vez, que dinheiro não traz a felicidade.

Até assistir ao filme de Martin Scorsese, era este o Hughes de que eu tinha notícia: o milionário mau, recluso, obsessivo e paranóico, com medo de micróbios, que não cortava o cabelo e as unhas e não fazia a barba, não saía do quarto nem via a luz do sol.

De repente, eis que surge na tela uma versão radicalmente nova deste homem. Sempre milionário, mas jovem e audacioso, apostando altíssimo nas suas idéias e ideais, um ás da aviação, um revolucionário versado nas manhas da política e da corrupção, capaz de dar a volta num senador sem escrúpulos e num concorrente indigesto, com Jane Russell, Katharine Hepburn e Ava Gardner a tiracolo.

Depois da surpresa inicial de descobrir que, um dia, Howard Hughes também foi jovem, vem a segunda surpresa: Leonardo diCaprio, que nunca me convenceu como ator, está ótimo na sua pele. É bonito demais para o papel, mas este "problema" não chega a afetar a atuação, até porque, na verdade, o esquecido Howard Hughes jovem poderia ser representado por praticamente qualquer ator branco, magro e de bigodinho.

Tarefa consideravelmente mais complicada enfrentam Cate Blanchet, que faz Katharine Hepburn, e Kate Beckinsale, que faz Ava Gardner. Temos referências visuais demais das duas antigas atrizes para que qualquer das duas que as representam consiga ser convincente. Cate, a Blanchet, tem sido mais elogiada do que Kate, a Beckinsale, mas para mim é mais fácil acreditar na sua Ava do que na Kate da Cate.

* * *


O filme, em si, é um Grande Espetáculo: reconstituição minuciosa e primorosa de época, trilha sonora sensacional, profusão de cenas empolgantes. Tudo acentuado um pouco além do realismo, como, digamos, um som ligeiramente acima do normal. A idéia, imagino, é dar ao espectador a sensação de que ele não está assistindo a um filme, mas que está dentro do filme. E não qualquer filme, mas um filme da época em que se passa ?O aviador?.

O efeito é acentuado pelas cores, pelo enquadramento e pelo comportamento dos atores, que poderiam ter saído direto dos anos 40. O único problema é que, ao invés de nos aproximar do filme e dos personagens, este tratamento nos afasta. Seria curioso voltar no tempo e ver como uma platéia de então se sentiria diante do filme; mas hoje, o que deveria ser intimidade acaba se traduzindo em distanciamento e frieza.

Como numa típica fita dos anos 40, também, Scorsese opta por não aborrecer excessivamente o espectador com o lado sombrio de Hughes. Seria impossível contar a sua história sem aludir à loucura, mas tudo termina antes do mergulho final no abismo. O público percebe que ali está um homem com sérios problemas mentais, mas não chega a entrar no terror absoluto da doença. Afinal, pela estética em tela, está no cinema para se divertir, não para sofrer.

É claro que ?O aviador? não tem este nome à toa. Para quem gosta de aviões históricos, poucos filmes se comparam a este. As cenas de vôo são longas e magníficas. Na mais romântica, Hughes sobrevoa Hollywood à noite com Katharine Hepburn; na mais espetacular, cai com o XF-11, levando de roldão um quarteirão inteiro de Beverly Hills.

A quem tiver curiosidade de saber o que aconteceu aos moradores das casas atingidas, informo: morreu um cachorro, mas todos os humanos escaparam. O detalhe, que não está no filme, pode ser encontrado no livro de Charles Higham, que o inspirou.

(O Globo, Segundo Caderno, 13.2.2005)


Shrek

Estava vendo o Príncipe Charles com a sua Camila, anunciando o casamento. Taí, acho bonita essa história, e fico feliz por eles.

Imaginem o que é a vida deste pobre coitado, que nasceu e foi criado para ser rei, mas que tem uma mãe que não larga o trono por nada -- e que, a julgar pelo histórico familiar, ainda vai passar muitos e muitos anos como rainha?!

No fundo, tudo o que ele queria é que o deixassem em paz com seus cavalos, tocando violoncelo e conversando com as plantas; em vez disso, teve que abrir mão da namorada de juventude e casar com uma garota histérica e bulímica, que adorava vida social e era a queridinha das massas.

Basta olhar para ele e para Camila para ver -- sem maldade, please! -- que foram feitos um para o outro.

Não sei se Diana casou sem saber da existência de Camila. Acho quase impossível, porque num mundinho daquele tamanho, mesmo sem contar com os holofotes da mídia, todos sabem de tudo.

Também acho muito difícil acreditar que ela casou sem saber no que estava se metendo. Naquela época, mais do que hoje, um casamento real ainda era um assunto de estado, cheio de contratos e cláusulas, definido por juristas e conselheiros de toda a espécie.

Imagino que o que a tenha deixado tão infeliz tenha sido a total impossibilidade de conquistá-lo, muito frustrante para qualquer pessoa um pouquinho mais romântica, mas certamente intolerável para uma mulher que tinha o mundo a seus pés.

A infelicidade de Diana foi exaustivamente discutida pelo mundo inteiro; mas sempre achei muito mais interessante, do ponto de vista dramático, a infelicidade do príncipe, obrigado a conviver com aquela criatura celestial que lhe dava nos nervos.


Consulta

Pessoal, alguém sabe onde se pode tomar vacina contra febre amarela sem ser no Galeão? Algum lugar aqui pela Zona Sul, ou lá no Centro?

É que vou pro Panamá no fim do mês... :-)

No mais: continuo sem Velox, pode isso?!

Hoje nem chega a ser problema, porque estou morta e ainda preciso descansar antes de ir pro desfile das campeãs, logo mais; e amanhã, é claro, vou precisar me refazer da esbórnia.

Só não sei como vai ser a partir de segunda, quando o ano começa de verdade.

Ah: tem mais cartas no cartas à redação, inclusive o bloquinho das que saíram hoje no Globo.


Cartas à redação

Ontem foi um dia brabo! A polêmica a respeito da primeira página rendeu dezenas de cartas à redação, emails simpáticos de amigos e colegas e telefonemas de todo o tipo.

Além disso, era fechamento do Info e, na madrugada anterior, eu fiquei acordada até de manhã escrevendo uma crítica comprida do "Aviador".

Ainda estou me conectando via dial-up em casa; no jornal, a internet passou o dia inteiramente travada.

Separei as cartas que chegaram diretamente para mim e publiquei aqui; amnhã ou segunda vou pedir ao pessoal da seção de cartas que dê um forward do monte de emails que estão lá, para que eu possa postar o dossiê completo.

11.2.05





Mais uma do Segmund. Adorei -- até porque ele tirou muuuuuuuitos quilinhos da vossa cronista... :-)


A notícia que dá primeira página

Meu colega e amigo Ascânio Seleme, que fecha a primeira página e que escolheu a foto da Luma para o domingo, publica hoje um artigo a respeito desta escolha. Está lá no site do Globo, mas como precisa registro -- que nem todo mundo tem -- e como a gente discutiu o tema aqui, dou um cut&paste para facilitar:
"O leitor pode muito bem imaginar como os jornalistas constroem a primeira página de um jornal diário. É muito simples. Em primeiro lugar, tem que haver notícia. De posse das principais informações do dia, os editores buscam as mais importantes para compor a capa do jornal. Decididas quais são as que merecem a primeira, deve-se estabelecer uma hierarquia entre elas: qual a principal, aquela que vai virar manchete; qual a imagem mais importante do dia, que repercutirá nas bancas e dará mais uma informação ao leitor; como arranjar as demais notícias de maneira a comportar o conteúdo com impacto, conjunto e graça na página mais nobre do jornal.

Na capa do domingo passado, primeiro dia de desfile das escolas de samba, a manchete só podia ser de carnaval. O GLOBO tinha uma excelente história de carnaval, um relatório que mostrava as contradições entre as notas e os comentários dos jurados das escolas de samba em 2004. E o jornal dispunha também da foto, a foto síntese do carnaval da Sapucaí, que começaria a eletrizar a cidade naquele domingo. Era a foto da Luma de Oliveira, a rainha das rainhas das escolas de samba. Foi Luma quem transformou as rainhas de bateria em instituição do carnaval.

Alguma dúvida? Para nós, os editores, a foto era aquela. Luma parecia uma pin-up, um desenho retocado, sem defeito. Como O GLOBO mantém um ambiente aberto, democrático, onde todos opinam e têm voz, a colunista e editora Cora Rónai, ao saber que estávamos dando a foto da Luma, protestou. Ela julgava um absurdo darmos na capa do domingão uma mulher "mentirosa e manipuladora". Cora concordava que Luma tinha tudo a ver com o carnaval, que era mesmo representante legítima da festa, mas discordava organicamente da sua presença na primeira página do jornal. Argumentou que Luma fora acusada de presenciar o espancamento de um fotógrafo num resort e nada fez para impedir. E quem agia assim com um colega nosso não merecia nossa primeira página.

Contra-argumentamos lembrando a Cora que o assunto em pauta era o carnaval, não a defesa dos jornalistas. Não podemos fazer jornal pensando em defender uma ou outra categoria, mesmo que seja a nossa. Fazemos jornal, não panfleto. Que se Luma mentira, como de fato mentira no episódio daquela falsa gravidez, isso nada tinha a ver com a questão em pauta. A notícia era o carnaval e a Luma era a melhor imagem do carnaval que dispúnhamos.

Cora finalmente insistiu que devíamos dar ouvidos a ela porque falava como "perfeita representante das donas de casa da Zona Sul do Rio". Bom, aí não houve mais o que discutir, caímos na gargalhada, Cora inclusive, e encerramos a conversa.

Já tinha até mesmo me esquecido do assunto quando me surpreendi com a coluna da Cora no Segundo Caderno de ontem. Concordo com ela que voto vencido não é convencido. E é obrigação dela expor idéias, dar opiniões. Para isso Cora tem uma coluna semanal. O que se espera dela é isso mesmo: idéias. Entendi, contudo, que o tom foi um pouco além dos bons modos que pautou nosso debate durante o fechamento daquela edição dominical. Cora disse que ao promovermos Luma estávamos "tripudiando da nossa profissão e apresentando ao leitor uma escala de valores lastimável". Ora, Cora. Atribuo esses termos a um arroubo juvenil. Ela sabe muito bem que os seus colegas jamais tripudiariam da sua profissão nem apresentariam ao leitor valores morais menores.

Se fôssemos negar a Luma a primeira página pelas razões expostas por Cora, teríamos que afugentar da capa outros tantos personagens do nosso cotidiano. Notícia tem que ser publicada. E esse é o principal critério na escolha do que vai para a primeira: ser notícia. E Luma é notícia no carnaval como Romário é no futebol e Bush é no mundo.

O editor pode até não gostar de Luma, Romário e Bush, mas não pode negar a eles espaço no noticiário por razões alheias à notícia. (Ascânio Seleme)"
Fico chateada comigo mesma por ter magoado os colegas, que são, além de jornalistas competentes, pessoas muito queridas. Peço desculpas pela falta de jeito, porque acho que talvez pudesse ter dito o que disse com outras palavras, que não ferissem os seus sentimentos.

Apesar disso, continuo mantendo minha opinião. Não acho que se deva negar espaço a Luma no noticiário, mas definitivamente não vejo por quê homenageá-la com um pôster daquele tamanho na capa.

(De resto, também não vejo por quê dar tanta importância para o Romário, mas isso já é outra história; e do Bush, infelizmente, não temos mesmo como fugir.)

Os rapazes acham graça quando me defino como representante das donas de casa da Zona Sul do Rio, e eu percebo a graça, que está na pitada de exagero; mas, no fundo, este é o meu fio-terra, e é isso, exatamente, que eu sou -- uma carioca de classe média, com a alma e o DNA da minha geração.

Espero nunca perder esta identidade, porque nela está a essência da minha relação com os leitores e leitoras, de quem tanto gosto.


Mapas!

Isso é mesmo novo, ou só eu é que ainda não conhecia?


Enquanto isso, na mailbox do ministro...

Exmo. Sr. Dr. Márcio Thomaz Bastos,
Ministro da Justiça,

Hoje é o 50º dia da Operação Holocausto.

Finalmente o ano está começando, segundo diz o humor popular. Para nós, do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, 2005 já vai alto e prosseguimos em nossa arenga cívica de protestos diários.

Como o tempo passa! Está chegando o dia que o Delegado Dr. Deuler da Rocha Gonçalves Júnior estabeleceu como prazo, com seu recém adquirido poder legiferante, para pormos os olhos e as mãos nos autos do Inquérito de nr. 133/2004, aquele que investiga 150 pessoas envolvidas em malfeitorias variadas, detidas na rinha Clube Privê Cinco Estrelas no dia 21 de outubro passado.

Obter o inquérito parecia à primeira vista coisa simples, já que é um direito legal assegurado a todo advogado, mas à medida que o tempo passa parece-nos inatingível. Que pena! Logo a nós, protetores da fauna, definidos como responsáveis por tutelar os animais pelo Decreto 24.645/34, este direito é negado.

Sr. Ministro, algum malentendido está ocorrendo. Como V. Exa. é advogado criminalista com larga experiência em defender ricaços envolvidos em estrepolias, ousamos pedir-lhe um aconselhamento.

Trata-se do seguinte: quarta-feira passada, dia 2 de feveiro, nossa advogada esteve na Delegacia de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico -- DELEMAPH e pediu para ver os autos do polêmico inquérito, que se encontraria aninhado sob as asas do Delegado Dr. Deuler da Rocha Gonçalves Júnior.

Ao fazer o pedido ao Dr. Deuler, a advogada ouviu deste a resposta de que seria melhor que ela pedisse para vê-lo quando "fosse encaminhado à justiça". No dia seguinte, quinta-feira, a advogada voltou, com um pedido por escrito para ver o misterioso documento.

Dr. Deuler determinou que a advogada protocolasse a petição e em cinco dias úteis ele iria resolver se entregaria o inquérito. Humildes, aceitamos o prazo imposto e começamos felizes a contagem regressiva até o dia estipulado para a obtenção da peça: a próxima terça-feira, 15 de fevereiro. Nem é necessário dizer que terça-feira próxima estaremos na DELEMAPH.

Pensamos até em fazer uma pesquisa junto à opinião pública, algo do tipo: "Você acha que o Dr. Deuler entregará o Inquérito de nr. 133/2004 na próxima terça-feira, prazo que ele, com seu novel poder legiferante, determinou? Clique 'sim' ou 'não' ".

Seria até divertido, Sr. Ministro, se outro fato intrigante não tivesse ocorrido paralelamente. A advogada Dra. Leda Leal da Costa, Vice-presidente da entidade carioca Defensores dos Animais, esteve também na DELEMAPH na segunda-feira, 31 de janeiro. Foi recebida pelo escrivão Sr. Coelho e em seguida surgiu o Dr. Deuler.

Quando a Dra. Leda pediu para ver a enigmática peça inquisitorial, foi informada pelo escrivão, na presença do Dr. Deuler, que não seria possível vê-la, uma vez que "tinha sido encaminhada para a justiça".

Deve haver algum malentendido: dia 31 de janeiro o escrivão Sr. Coelho informa à Dra. Leda que o inquérito não poderia ser mostrado "porque tinha seguido para a justiça". Dia 3 de fevereiro o Dr. Deuler sugere à advogada do FNPDA que aguarde para ver o inquérito "quando este for para a justiça".

Aliás, não entendemos por que o inquérito haveria de seguir para a justiça. Em primeiro lugar, está parado, portanto longe de concluso. Em segundo lugar, uma vez terminado o inquérito e feito o relatório pelo delegado que o presidiu, ele é encaminhado ao Ministério Público, que o analisa para posteriores providências, entre elas oferecer a denúncia ao juiz.

Qual conselho V. Exa. nos daria, se estivesse advogando? Procurar o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, talvez? Afinal, alguma infração há de estar sendo cometida.

Como este assunto está sendo acompanhado com interesse por muitos destinatários, Sr. Ministro, permita V. Exa. que forneçamos o telefone do escrivão Sr. Coelho a todos. Assim, quem puder nos ajudar, por favor, telefone à Polícia Federal no Rio de Janeiro, pedindo notícias do inquérito. O número é 021 3213-1666. Assim, quem sabe, Dr. Deuler descobre se a misteriosíssima peça emplumou-se, bateu asas e voou do ninho.

Esta metáfora tem a ver com um elogio/crítica que desejamos fazer, com relação à arte plumária indígena. Lemos no Jornal do Brasil de 5 de fevereiro de 2005 que uma equipe de policiais federais, sob a coordenação do Delegado Paulo de Tarso Teixeira, apreendeu em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, aproximadamente 150 peças feitas com partes de animais silvestres, como cocares, braceletes e colares com dentes de macacos e de onças e penas de papagaios.

"Para a PF, foi um dos maiores golpes no tráfico internacional de animais silvestres já realizados." (...) "O material seria vendido nos Estados Unidos por R$ 1,3 milhão e pertence à antropóloga Rosita Pereira Heredia, de 43 anos, que mora nos EUA. Ela decidiu colaborar com a investigação conjunta da PF com a Fish and Wildlife Service (FWLS), agência que cuida de crimes ambientais." (...) "Rosita Pereira Heredia está sendo processada desde 1998 nos EUA pela FWLS. A antropóloga é acusada de vender ao então diretor do Museu de Arte Smithsonian, Lawrence Small, artesanato indígena no valor de US$ 460 mil (R$ 1,1 milhão)." (...) "-- É a maior coleção de arte plumária ilegal da história" -- diz o delegado Jorge Pontes, Chefe da Divisão de Crimes Ambientais da PF.

Desejamos cumprimentar a Polícia Federal por esta diligência que é parte da Operação Pindorama.

Desejamos fazer duas observações finais: achamos que já é hora de se fechar o cerco não só a enfeites indígenas ilegais com partes de animais, mas proibir-se a venda de qualquer enfeite indígena feito com partes de animais silvestres. Afinal, ou o índio vive como índio em sua reserva, alimentando-se da caça e da coleta de vegetais, ou caça macacos, onças, papagaios e araras, alguns até em extinção, para manufaturar ornamentos a serem comercializados em lojas no Brasil e até no exterior -- e então não é índio. Isto para nós configura caça profissional e como tal é ilegal. Hipocrisia: extinção já.

Por fim, queremos lembrar ao Dr. Deuler que assim como a Polícia Federal apreendeu as peças feitas com penas e dentes de animais silvestres, assim também as rinhas de galos devem ser estouradas e investigadas. Afinal papagaios, araras, galos de briga, todos têm direito à tutela do Estado.

Ana Maria Pinheiro
Vice-presidente
Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal
A persistência e determinação da Ana Maria só são comparáveis ao descaso e à covardia do ministro que, até hoje, apesar de estar recebendo um email diferente todo santo dia, até agora não se dignou a responder um só deles.

Por favor, vamos colaborar na briga: basta ligar para a Polícia Federal, aqui no Rio -- 021 3213-1666 -- e pedir notícias do inquérito 133/2004.

Provavelmente alguém vai dizer uns desaforos do lado de lá, mas quem sabe assim se tocam que há cidadãos atentos neste país...

9.2.05





Capivara, Luma, escolas:
fragmentos de carnaval

São três dias de folia e brincadeira...
para não falar em questões mais sérias


Quando acordei no domingo e vi aquele céu claro, tão limpinho depois de um tempo aparentemente interminável de chuva, agradeci a Quem de Direito -- e, como o resto da cidade, fiquei na torcida. Gosto de carnaval até debaixo d'água, mas convenhamos que, a seco -- pelo menos meteorologicamente falando -- tudo fica melhor, da farra inocente dos bloquinhos modestos à apoteose da Sapucaí. Ó, Aí de Cima: valeu!

* * *

-- Há um começo de movimento de retorno às marchinhas sim, -- confirmou Eduardo Dusek. Nós nos encontramos à noite, na ida para o Sambódromo, e conversamos sobre isso. No dia seguinte, de tarde, a estréia do bloco Capivara Ensaboada confirmou a tendência. Repetida algumas vezes entre antigos sucessos, a Marcha da Capivara "pegou" entre os foliões, que, tarde da noite, voltavam para casa cantando a musa:

A roedora foi parar lá na Baixada
Ai meu Deus que tremenda solidão
Prender a bicha assim não é legal
Solta a capivara nesse carnaval.

* * *

Já outra musa, a Luma, foi motivo de polêmica com os colegas que fecham a primeira página. Ninguém discute a beleza da Luma ou da foto que saiu na capa de domingo mas, pelo menos na minha cabeça, esses não são os únicos critérios que devem orientar a escolha da principal foto da primeira página de domingo do meu jornal. Digo "meu jornal" não apenas como jornalista da casa, mas também como leitora apaixonada do Globo.

Ninguém tem nada a ver com o que acontece entre a Luma, o ex-marido, o bombeiro e o soldado, mas promover alguém que mente patologicamente e que manipula a imprensa como ela faz -- inclusive fisicamente, que o diga o fotógrafo da "Caras" -- é tripudiar da nossa profissão e apresentar ao leitor uma escala de valores lastimável.

Uma foto da Luma na primeira página do jornal equivale, para mim, ao seguinte recado:

"Se você tiver uma bunda suficientemente bonita pode fazer o quiser, que para nós não tem importância. Pode mentir e desmentir tudo o que mentiu à vontade, pode até achar ótimo ver gente apanhando, que nós relevamos. A única coisa que conta é ser gostosa."

Expus meus argumentos e os colegas ficaram até ligeiramente abalados -- mas não o suficiente para trocar a foto:

-- Ah, é carnaval, e ela é a cara do carnaval.

Fui voto vencido, mas não convencido.

Luma só é a cara do carnaval porque a imprensa decidiu que ela é a cara do carnaval; ora, uma vez que ficou decidido que ela é a cara do carnaval, ela passa, automaticamente, a ser a cara do carnaval. Mal comparando, como os bicheiros homenageados na avenida -- todos eles, também, a cara do carnaval.

Algo me diz que, dando continuidade à tradição iniciada no ano passado, no carnaval que vem devo voltar ao assunto. Até que apareça uma nova "cara do carnaval", continuaremos assim: os rapazes da primeira página dando a Luma em destaque lá, e eu dando um ataque de nervos aqui. *suspiro*

* * *

Mistério: por que é que a escola que tem as cores mais bonitas faz questão de ir contra o seu verde e rosa, tão carregados de tradição?

Desfilando sem as suas cores, a Mangueira simplesmente não é a Mangueira, é uma escola qualquer. E que enredo desengonçado! Dava dó ver os componentes fantasiados de torre de transmissão, fazendo aquele esforço todo para sambar sem romper os fios que os uniam. Aliás, com aquela quantidade de torres e cabos, dona Dilma do Lula nunca mais precisaria explicar nada a ninguém. O que fica difícil de explicar é como escolas tarimbadas como Mangueira e Portela insistem em dar tantos tiros nos próprios pés.

Já a Viradouro, que não agradou a alguns especialistas, foi cativante do começo ao fim, com carros criativos e bem acabados, fantasias de bom-gosto e um samba ótimo de cantar. O desfile visto pelo setor 1, onde eu estava, foi lindo e cheio de surpresas, perfeito apesar do carro quebrado a reboque. A escola saiu de lá campeã, e assim ficou no meu coração até a entrada triunfal da Imperatriz, que lavou a alma de um sambódromo traumatizado pelo triste espetáculo da Portela.

Fala-se muito dos carnavais "tecnicamente corretos" da grande Rosa Magalhães, como se isso fosse uma espécie de defeito. Pois se é, eu bem que gostaria que todas as escolas sofressem disso. A Imperatriz se renova a cada ano, não recicla idéias, não apela para o grotesco ou para a vulgaridade. A despeito de todas as novidades apresentadas pela Unidos da Tijuca, que de fato está criando um estilo próprio, a minha grande viagem fiz, este ano, nas asas dos seus cisnes inesquecíveis.

(O Globo, Segundo Caderno, 10.2.2005)


Lindo!



Apuração

Socorro. Tenho que ir pro jornal e não consigo me afastar da TV. Estou achando muito injustas as notas dadas à Viradouro.

Update: Não adianta, eu nunca me afino com a comissão julgadora. Imperatriz em quarto? Viradouro em oitavo?

Fala sério... :-(

Aliás, para mim, entre Beija-Flor e Unidos, a Unidos deu de dez.

Bahia


Cheguei muito cansada do jornal. Ontem passei o dia escrevendo e editando fotos, em vez de sair para pular carnaval, como deve ser.

Por falar em carnaval: no outro dia postei uma série de fotos de Porto Seguro no Flickr.

Estão bem bonitinhas... :-)





Ontem à noite, na redação, o Jorginho, um dos campeões da Editoria Rio, fez esta foto minha e do Alexandre Sassaki, editor de fotografia do jornal. Em geral não gosto de ser fotografada, mas fiquei feliz: tenho muito orgulho em ser amiga e colega dessas duas feras.

8.2.05





Foi um rio que passou...

Não sou portelense, mas quase chorei quando vi esta águia indo embora, com a Velha Guarda logo ali atrás. Apesar de saber que atraso no desfile é mortal, juntei-me ao coro que xingava a diretoria da escola: nunca fui ao Maracanã, mas acho que deve ser assim, a arquibancada toda gritando fillhadaputa!!! em uníssono.

Como, impedir logo a Velha Guarda de desfilar?!

Ficaram malucos?!

Depois de muita confusão, a diretoria (e a águia) voltaram atrás, e o carro e a Velha Guarda foram para a avenida -- às carreiras, em clima de velório, mas aplaudidos pelas arquibancadas.

Foi muito triste.


Que horror!

Andréa Lambert, que cuida de tantos gatinhos do Rio, me mandou uma notícia que saiu no Dia. Depois, quando a gente diz que quem maltrata animais também maltrata humanos, acham que é exagero...
Segurança foi executado após brigar por gato

O segurança Marcos Antônio Ramos da Silva, 37 anos, que trabalhava para o vereador de São João de Meriti Carlos Roberto Rodrigues, o Bebeto (PMDB), foi morto domingo após uma briga por causa de um gato num bar do município. Segundo o irmão da vítima, Múcio Luiz, um homem chutou o animal, Marcos gritou para ele parar e acabou atingido por 13 tiros. O segurança foi enterrado ontem no Cemitério de Vila Rosali.

Oi Multimidia

Oi Multimidia

Para mim, a Viradouro fez o desfile mais lindo do ano. Vai ser dificil fazer melhor. E' campea!