19.3.08



Vocês aqui do blog já conhecem essa história...

Jesus no 464

"A primeira vez que vi cabras azuis foi da janela do ônibus, indo de casa para o jornal" — escreveu a Leila num comentário lá do blog. — "Aliás, muita coisa importante na minha vida aconteceu assim. Foi da janela de um 464 que vi pela primeira vez uma colônia de gatos de rua no parque do Museu Carmem Miranda.

Foi num 464 que vi Jesus, ele entrou no ônibus ali na São Clemente, fez alguns milagres e desceu no Catumbi (até hoje não consigo contar essa história direito, mas aconteceu).

Enfim, lá ia eu para o jornal, tinha uma obra, acho, o ônibus entrou numas quebradas no Catumbi e lá estavam elas pastando. Cabras azuis de botinhas pretas! Meu coração disparou, foi amor à primeira vista.”

Estávamos conversando sobre os bichos que gostaríamos de ter, mas o que chamou a minha atenção no comentário não foram as cabras azuis, mas a presença de Jesus num ônibus carioca. Publiquei o comentário com o merecido destaque. A turma que bate ponto no blog adorou, e começou a cobrança:

— Leila! Não importa o que você toma, eu quero dois! — escreveu a Marcela, da Gávea.

— Ou conta a história ou conta o que você toma! — mandou a Marise.

— É, acho que ônibus é código — concordou o Tom.

Depois de um suspense de dois dias, a Leila voltou e respondeu. E todos ficaram muito emocionados, mesmo os incréus, porque sabemos que a vida tem momentos mágicos:

“Eram umas duas, duas e meia da tarde. Era um dia bonito, sol sem calor. Morava no Leblon e ia para o trabalho, no Centro. O ônibus era um 464, acho. O ônibus parou no último ponto antes da Praia de Botafogo, entrou mais gente, e a voz perguntou ao motorista:

— Comandante, posso pegar uma carona?

A voz era cheia, firme, equilibrada, mais para o grave, magnífica. Tive que olhar. Era um hippie. Um cara louro, cabelos no ombro, rosto bonitinho, cabelos mais para o liso, carregava aquelas coisas de veludo cheias de bijuteria artesanal. Magro, um metro e setenta.

Ah. Ele entrou, tinha um lugar vago, alguém perguntou:

— Não vai sentar?

— Não, obrigado. Já estou feliz por conseguir a carona.

Foi só isso, dito por aquela voz, aquela pessoa. Tudo mudou dentro do ônibus. Um homem levantou e deu o lugar para uma mulher que estava em pé. Duas moças se ofereceram para segurar embrulhos de pessoas em pé. Uma pessoa ao lado dele começou a puxar conversa. Ele respondia com frases comuns, contando de uma vida comum. Atrás de mim duas senhoras começaram a conversar. Ao lado as pessoas sentadas começaram a conversar.

Aqui começa a ser difícil de explicar. O que posso falar é um baita lugar comum. Só existia amor. O ar ficou leve. As pessoas conversavam felizes. Quando entrou uma velhinha, dois homens se levantaram para dar lugar.

Eu me sentia como em alguns sonhos que já não tenho faz tempo. Nesses sonhos eu ia a uma fazendo em uma ilha. Lá não existia medo, desconfiança ou raiva, só uma sensação de felicidade absoluta.

Era assim ali no ônibus. Quando saímos do túnel Catumbi-Laranjeiras ele disse ao motorista que ia descer, agradeceu a todo mundo pela conversa e pela carona. Meu coração estava disparado. Pensei em descer, correr atrás dele e perguntar o que fazer da vida daí em diante. Nah, sua doida, você já foi hippie faz tempo. As respostas não estão com ele.

O ônibus andou. Olhei pela janela. No chão da pracinha, um monte de folhas e restos de legumes da feira que tinha acabado. E carneiros. Sim, carneiros. Muitos carneiros felizes, comendo as folhas no chão. Carneiros pastando no Catumbi. Não eram carneiros branquinhos de foto de catecismo. Estavam com a lã bem sujinha até. Jesus tinha acabado de virar a esquina.”

* * *

A Leila é uma grande amiga. Há alguns anos, mudou-se para São Paulo, onde faz o possível e o impossível para ajudar gatos doentes ou que sofreram maus-tratos. Seu trabalho está em www.sosgatinhos.com.br.

* * *

Jesus, infelizmente, não tem aparecido mais nos coletivos da cidade, nem tem mandado ninguém no seu lugar. Tem bons motivos para isso. Desconfio que houve um tempo em que até trocou o risco de andar de ônibus pela relativa paz do metrô; mas esse tempo, como sabe qualquer carioca, acabou. Nem santo agüenta mais este serviço tão precário e antipático.

Em qualquer lugar do mundo, o metrô estimula a compra de bilhetes antecipados e dá descontos para os passageiros precavidos, de modo que só vai para a bilheteria na hora do rush quem não é usuário habitual da linha. No Rio, porém, as filas são iguais para todos. E são, além disso, obrigatórias: não há como fugir delas desde que foi inventado o cartão unitário, que substituiu os antigos bilhetes, e que tem validade de três dias.

Três dias! Dá para imaginar?! Se alguém for trabalhar com um bilhete de ida-e-volta na sexta, mas decidir voltar de táxi ou de carona, já não poderá usar o trecho que sobrou na segunda. Na prática, portanto, o cartão unitário significa o fim do saudável hábito de se levar dois ou três bilhetes na carteira para evitar fila.

A operadora informa que quem devolver cartão com créditos vencidos ganha de volta um real. Considerando que o preço da passagem é de R$ 2,45, não é mau negócio... para o metrô! Mas tem mais. Cartões com tarifa diferente da vigente serão rejeitados pela roleta. Assim, sempre que o preço da passagem mudar, teremos de voltar à fila para pagar a diferença. Ou, como informam as instruções distribuídas pelo metrô, “para receber o troco, caso a tarifa tenha sido reduzida”.

Com essa, finalmente, nossos serviços de transporte coletivo fazem história. Não são apenas os piores do mundo. São também os mais cínicos.


(O Globo, Segundo Caderno, 20.3.2008)

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