30.7.11

Mapas e viagens



 



  
Ao contrário do que possa parecer, as fotos que ilustram a coluna não são cenas do Sim City, o clássico joguinho de desenvolvimento de cidades. São mapas verdadeiros, mostrando áreas de cidades chinesas, e são o equivalente do Google Maps oferecido pelo Baidu, sistema de buscas da China. O povo da internet já fez incontáveis comparações entre eles, os do Google Maps e os do Bing, ferramenta da Microsoft, e os resultados encontrados foram muito parecidos: o Baidu é tão confiável quanto seus colegas ocidentais.

Dois pontos em particular chamam a atenção. O primeiro é, claro, a beleza do trabalho: estamos falando de cidades imensas inteiramente desenhadas à mão, nos mínimos detalhes, verdadeiro trabalho de chinês (com ou sem trocadilho, o que vocês preferirem). O segundo é a engenhosidade da saída encontrada pelo Baidu para driblar a censura chinesa, que proíbe fotos aéreas de certos locais. Nos desenhos, os sítios sensíveis são suprimidos e pronto, zero problema.

De quebra, os mapas desenhados têm uma assepsia que, com certeza, muito agrada às autoridades. Não se vê sujeira, poluição, nada de desagradável. Mesmo os cortiços de Xangai ficam engraçadinhos, na sua montoeira de casinhas sobrepostas. A água de rios e lagos é sempre azul, o que chega a ser gozação diante da realidade dos pobres rios chineses, tão poluídos que quase se pode andar sobre as suas águas.

Eu, que já joguei Sim City compulsivamente, ando apaixonada pelos mapas do Baidu. Acho lindo o seu lado Disney, idealizado, sem uma pedrinha fora do lugar, sem gente e com pouquíssimos automóveis. A questão política subjacente a essa representação é óbvia e me causa desconforto, para dizer pouco – mas a verdade é que tenho a impresão de que conseguiria me orientar melhor usando essa realidade alterada do que indo pelas fotos do Google Maps. Da próxima vez que for à China, vou tirar a dúvida.

Até lá, passeio, maravilhada, por map.baidu.com – e recomendo esses passeios a quem gosta de geografia, de viagens, de mapas e de arte em geral. Preparem-se para gastar várias horas extasiando-se diante dessa maravilha.

* * *

Já por aqui, a Infraero acaba de lançar a nova versão do seu aplicativo Vôos Online. Ele está disponível para iPhone, Android e Blackberry, e tem uma versão genérica em Java. A do iPhone pode ser baixada gratuitamente da Appstore (de onde foram feitos mais de 130 mil downloads da primeira versão) e as demais podem ser encontradas em www.infraero.gov.br/fiquepordentro. A versão para Android encontra-se também no Market.

O app está muito bem feito, e é uma ajuda preciosa para quem precisa confirmar horários de partida e chegada de vôos. A pesquisa pode ser feita por número, por companhia aérea ou por aeroporto; a apresentação do resultado é igual à dos painéis dos aeroportos. Achei o máximo ter um painel de aeroporto na palma da mão.

Há bons serviços escondidos neste painel que, a meu ver, deviam estar em maior destaque. Quando se clica no vôo desejado, abre-se uma janela que informa a distância entre os aeroportos de ida e de chegada e o clima nas cidades de origem e destino, oferecendo ainda conexões com as redes sociais e o email do aparelho. Clicando-se no ícone que representa este último, por exemplo, abre-se automaticamente uma mensagem que dá ao destinatário a origem do passageiro, o número do seu vôo e o horário da chegada. Basta digitar o endereço para o qual o recado deve ser enviado. É muito prático!

O simpático aplicativo oferece ainda um Guia do Passageiro, com toda a espécie de questões relativas a viagens, e uma seção de Informações úteis que é, na verdade, um catálogo com os telefones dos aeroportos brasileiros. Ali, basta dar um clique no aeroporto desejado para que o celular complete a ligação.

Eis aí um app verdadeiramente útil, que deve estar no elenco de todo smartphone bem organizado.

 
(O Globo, Economia, 30.7.2011)

28.7.11

O que fazer com uma caixa vazia?


Cinematografias

Querem ver uns gifs animados lindos? 


Cliquem AQUI.

Pensando na vida




No próximo domingo faço anos. Muitos anos. Ainda me lembro que, quando fiz 50, escrevi uma crônica sobre este espantoso número; hoje, pessoas de 50 anos já me parecem bem novinhas. Não que esteja descontente com a minha idade, pelo contrário: me sinto bastante confortável na pele etária, e só lamento não poder dizer o mesmo em relação à pele propriamente dita -- ou, para ser exata, ao que se encontra por baixo dela. Tivesse eu 58 quilos e nada mais pediria aos deuses em relação à minha então esbelta pessoa.

A luta eternamente perdida contra calorias e fitas métricas mal intencionadas é frustrante, mas – no meu caso ao menos -- não chega a ser um drama. Se eu fosse uma ilha, seria uma ilha na medida do possível feliz. Não sendo, este é um aniversário que tenho vontade de riscar do calendário, junto com todos os outros dias do ano. Quem diria que uma sucessão de algarismos tão bonitinha – 2-0-1-1 – seria capaz de trazer tanta tristeza e sofrimento.

* * *

Não ser uma ilha, porém, tem o seu lado bom: é que, apesar de tudo, sempre há o que comemorar. No dia seguinte ao meu aniversário, Fábio e Nina, os gêmeos da Bia e do Sérgio, fazem dois anos. Já são pessoinhas com personalidades bem definidas, capazes de expressar seus gostos e vontades. 

Tento imaginar as forças culturais que os formarão, mesmo sabendo, de antemão, que qualquer tentativa nesse sentido é inútil. O mundo nunca mudou tanto em tão pouco tempo; quando eles nasceram, os desktops já haviam deixado de ser objetos de desejo e as câmeras dos celulares já tinham 5 megapixels; no universo ao seu redor, que mal começam a apreender, wi-fi é tão comum (e necessário) quanto luz elétrica.  

Eles associam fotos e videos aos telefones dos pais, brincam com tablets e provavelmente vão se alfabetizar com algum game. Ao mesmo tempo, adoram livrinhos coloridos, e convivem com jornais e revistas de forma intensa. Dentro em breve, estarão assimilando mais informações por ano do que as gerações antigas assimilavam durante toda a vida; e saberão lidar com isso muito melhor do que nós, que crescemos em ritmo de valsa e vivemos, agora, com esse funk absurdo nas caixas.

* * *

O estado de Indiana, nos Estados Unidos, acaba de recomendar às escolas que não se preocupem mais com a caligrafia e, em vez disso, tratem de ensinar às crianças como usar melhor os computadores. A recomendação faz todo o sentido, e é apenas o primeiro dos dominós de uma fila que vai cair num piscar de olhos. Em menos tempo do supomos, escrever será algo que faremos única e exclusivamente por meios eletrônicos. Aliás, já é; ou quase. Reparem: à exceção de uma anotação ligeira ou da assinatura de um cheque, muitos de nós já não escrevemos mais nada à mão.

Ao longo da semana, educadores e psicólogos manifestaram apreensão em relação à medida. A teoria é que a dissociação do pensamento e do gesto poderia perturbar o desenvolvimento cerebral e a coordenação motora das futuras gerações. Tenho minhas dúvidas. Durante milênios a humanidade foi analfabeta e, mesmo depois que inventou a escrita, escrever foi, por muitos e muitos séculos, profissão de reles escribas, incumbidos de registrar as transações comerciais e a História oficial. Os verdadeiros pensadores usavam apenas o cérebro e a memória, e nem por isso tinham problemas de coordenação motora.

Importante não é com o que se escreve, mas o que se escreve.

Fábio e Nina terão provavelmente uma péssima caligrafia, no que não serão em nada diferentes da avó, mas isso não fará nenhuma diferença em suas vidas, posto que a caligrafia está em vias de extinção. Em troca, terão outros talentos, que possivelmente nunca desenvolvemos, e uma visão infinita do mundo, uma amplidão de horizontes que geração alguma teve antes.  

* * *

Em fins de julho do ano passado, eu estava com Mamãe na península escandinava. Como boas brasileiras, ficamos impressionadas com a limpeza, a ordem e a qualidade de vida que notávamos ao nosso redor. Tudo funcionava, e funcionava bem. Ir aos restaurantes era surpreendente: ao contrário do Brasil, onde cada mesa fala mais alto do que a outra, as pessoas praticamente murmuravam e, alívio dos alívios, era possível manter uma conversa sem precisar gritar.

Em Oslo não havia uma palha fora do lugar. Fomos a um jardim de rosas que parecia retocado em Photoshop, de tão colorido e perfeito. Estava cheio de gente, mas ninguém tocava nas flores, ninguém jogava nada no chão, ninguém fazia nada que perturbasse a paz.

Todas as pessoas com quem conversamos falavam com orgulho do país e das suas conquistas, dos bons salários e da vida bem resolvida que tinham.

Para mim, que gosto de arrumação ma non troppo (ninguém cresce no Rio impunemente), a Escandinávia passou do ponto; eu morreria de tédio vivendo lá. Ainda assim, não há como negar que, lá naquelas terras geladas do Norte, a civilização chegou ao seu ponto máximo.

Foi um choque descobrir, de repente, que uma sociedade tão perfeita pode gerar um ser tão imperfeito quanto o terrorista Anders Breivik. Como é que alguém que cresceu naquelas ruas limpas e naqueles parques arrumados, entre pessoas cordiais e comportadas, pode dar tão errado?

A única resposta que me parece plausível é, ao mesmo tempo, a mais difícil de aceitar: Breivik deu errado não por ser norueguês, é claro, mas simplesmente por ser humano. A sociedade à sua volta e a qualidade de vida que recebeu desde o berço são o que o mundo tem a oferecer de melhor. Se nem isso basta para evitar a criação de um monstro, o mundo, tal como o fizemos, não tem mesmo jeito.
  

(O Globo, Segundo Caderno, 28.7.2011)

26.7.11

Nem tudo no mundo é Apple



Peter Hansen é diretor da Nano Studio, desenvolvedora do aplicativo do Gilberto Gil que destaquei aqui semana passada. Ele me escreve para dar uma boa notícia: 

“Já estamos conversando com a Refazenda a respeito da adaptação para outras plataformas. Pelo que leio da sua coluna, você também enxerga vida inteligente além da Apple, e atender à maior parcela possível do mercado é uma preocupação muito forte aqui na Nano. O aplicativo do Gil só não esteve disponível inicialmente para mais plataformas em virtude de limitações de orçamento e tempo, mas em breve espero atender aos "pobres mortais" (segundo a visão do mercado, pelo menos) não dotados de um iPhone.”

O lindo Samsung Galaxy que tem me acompanhado aguarda, ansioso, a versão Android.

Num outro trecho do email, Peter toca num ponto importante do mundo dos smartphones: a onda que a Apple consegue criar, e que afoga, em termos marqueteiros, qualquer plataforma que não venha do seu pomar. 

“Muitas vezes nos sentimos remando contra a maré, oferecendo jogos e aplicativos para Java, Symbian, Blackberry e Android quando a mídia só fala de iPhone e iPad. Acreditamos, mesmo com o forte aquecimento dos smartphones, que eles ainda serão minoria por pelo menos dois ou três anos. E esse tempo, no mercado louco de telefonia, é quase uma eternidade. Quando fundei a empresa, há quatro anos, não tínhamos iPhone, Android, iPad, e as redes sociais ainda não conheciam uma Zynga e milhares de aplicativos...”

* * *

Os usuários dos Nokia C7, E7 ou N8 acabam de ganhar um presentão da empresa: um pacote com 15 joguinhos muito populares, inteiramente grátis. Basta acessar o site www.nokia.com.br/jogosgratis através do próprio aparelho, clicar em “categorias” e, na seção “coleções”, escolher “Gift of Games / Top 15 jogos de Presente”. Ali se encontram os games com respectivos links. 

Adiantando o serviço, eis a lista: Angry Birds Rio, Angry Birds Seasons, Assasin’s Creed HD+, Doodle Jump, Farm Frenzy, Fruit Ninja, GT Racing HD+, Monopoly Classic HD, Pac-Man Championships, Rally Master Pro, Spider Man Total, Tetris HD, The Sims 3 HD e WSOP - Hold'em Legend. Ninguém precisa correr já para o celular, mas também é bom não demorar muito: a oferta fica no ar até o dia 30 de setembro.

Palpite: se espaço for um problema no seu aparelho, baixe pelo menos os Angry Birds e o Fruit Ninja. Há muitas e muitas horas de distração neles.

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Hoje, a dica de aplicativo é dupla. Em primeiro lugar: chegou o Zinio para Android. Zinio é uma grande banca virtual, onde se podem comprar exemplares avulsos ou fazer assinaturas de revistas do mundo inteiro. O app, gratuito, oferece de vez em quando amostras grátis de publicações, mas, de modo geral, elas são pagas. Uma mesma conta Zinio pode funcionar no PC, no smartphone e no tablet, mantendo as revistas sempre ao alcance do usuário. Embora tenha bugs e volta e meia feche do nada, o Zinio ainda é o melhor aplicativo do gênero. 

Em segundo lugar, dica para viciados em Instagram. O nome, Squareready, já dá idéia da funcionalidade: ele permite preparar fotos para formato quadrado. Com o Squareready, o instagrameiro pode manter o corte retangular das suas fotos, acrescentando-lhes fundo branco ou de praticamente qualquer outra cor, fugindo das antiestéticas barras pretas com que o IG preenche os espaços (exemplo acima). Na hora de salvar o resultado, há, entre outras, a opção Instagram, que deixa a foto prontinha para lançamento. O melhor da história: o Squareready é gratuito.


(O Globo, Economia, 23.7.2011)

Um lindo dia no Rio de Janeiro




24.7.11

Mamãe e sua turma



Desta vez, elas (e eles) quebraram recordes mundiais.


O jornal O Fluminense registrou o feito na sua TV e na edição online, de onde capturei o texto do coleguinha Marcel Tardin:

Equipe master do Clube de Regatas Icaraí quebra recorde mundial
Marcel Tardin


Confraternização, amizade e aptidão física. As palavras podem não traduzir muito mais do que seu simples significado para alguns, mas para um grupo de atletas da terceira idade do Clube de Regatas Icaraí tornou-se a filosofia e o combustível necessário para quebrar recordes dentro das piscinas, além de passar uma bonita lição de vida para os mais jovens.
Nos últimos dias 9 e 10 de julho, durante a disputa do Campeonato Estadual de Inverno, realizado pela Federação Aquática do Rio de Janeiro no Clube de Regatas Icaraí, oito nadadores da categoria Master da agremiação centenária superaram os limites impostos pela idade avançada e quebraram recordes mundiais estabelecidos junto à Federação Internacional de Natação (Fina).
 A equipe feminina, composta por Erika Heiss (78 anos), Dora Sodré (81), Nora Rónai (87) e Marlene Mendes (78) venceram os revezamentos 4x100m medley e nado livre, cravando as marcas de 9m34s72 e 8m53s83 respectivamente. Já Luiz Sodré (82), Leonardo Nogueira (79), Manoel Timóteo (83) e Arnaldo Costa (78), que formaram o time masculino, fixaram o tempo de 8m26s49.
Os resultados superaram todos os outros já homologados pela Fina na categoria master 320 (que representa o somatório mínimo de idade dos competidores) e transformou os idosos nos principais atletas da categoria.
No entanto, o sentido de seguir uma rotina de dedicação ao esporte encontra-se além de disputar competições e acumular medalhas de ouro. Obter qualidade de vida e sentir o prazer de cada braçada dentro da água transforma o sacrifício em um hobby. Íntimos da natação desde a adolescência, os masters de Icaraí deixaram a carreira esportiva de lado para seguirem uma vida normal, porém com a idade batendo à porta o desejo de nadar novamente falou mais alto e poder reencontrar os velhos companheiros de clube é um estímulo a mais para novas conquistas.
“O Icaraí tem uma atmosfera que contribui muito para isso. A filosofia do clube está acima de qualquer sentido competitivo. O mais importante é buscar o sentido de qualidade de vida e a confraternização”, explicou Luiz.
A energia e o empenho dentro das piscinas não é recompensado apenas com troféus, mas também com o reconhecimento que a equipe de masters tem dos mais jovens.
“Lembro de uma vez que estava participando de uma competição na Gávea e uma jovem disse para mim: ‘Quando crescer quero ser como você’. Achei muito legal”, contou Erika.
Responsável por coordenar mais de 120 atletas da categoria master, Maria Dulce Senfft, 54, explica que o sucesso dos nadadores veteranos serve como exemplo principalmente para seus familiares e crianças, que sonham um dia estarem representando o País em uma Olimpíada .
“Eles recebem 100% de apoio familiar, até porque acredito que as crianças precisam de um incentivo como esse para seguir carreira no esporte e lutar para disputar as Olímpiadas”, disse.

(O Fluminense, 23.7.2011)

21.7.11

Livro máximo



 “Dentro em breve, haverá mais gente vivendo na cidade de Bombaim do que no continente da Austrália. A placa do lado de fora do Gateway of India diz “Urbs prima in Indis”. É também “Urbs prima in mundis”, pelo menos sob um aspecto, o primeiro teste de vitalidade de uma cidade: o número de seus habitantes. Com 14 milhões de pessoas, Bombaim é a maior cidade no planeta de uma raça que vive em cidades. Bombaim é o futuro da civilização urbana no planeta. Deus nos ajude.”  

Assim – ou mais ou menos assim, porque não tenho a edição brasileira e traduzi este primeiro parágrafo – começa “Cidade máxima”, de Suketu Mehta, um dos melhores livros que já li, e que foi recentemente lançado aqui pela Companhia das Letras. Mehta, de uma família de comerciantes espalhada pelo mundo, nasceu em Calcutá, cresceu em Bombaim, passou a adolescência em Nova York e dividiu-se entre vários países até decidir voltar à cidade que ficou no seu coração. Era difícil ver os filhos em Nova York, ainda crianças e já vítimas de preconceito; era importante que pudessem crescer num país onde todos fossem iguais a eles, onde não fossem, por definição, estrangeiros.

A volta para Bombaim, porém, não tem nada de fácil. Acostumado à eficiência de Nova York, o recém-chegado esbarra num problema depois do outro. Os aluguéis são estratosféricos, os donos dos apartamentos se recusam a alugar para outros indianos, conseguir uma linha telefônica é uma luta, conseguir a ligação da luz e do gás um martírio. A cada etapa do processo é preciso distribuir gorjetas e propinas. No prédio antigo onde afinal se instala, os canos estão entupidos, há vazamentos constantes, e não há, naturalmente, bombeiros que os consertem. O céu cheio de maritacas que Mehta guardou entre as lembranças da infância transformou-se numa nuvem de poluição pestilenta. Isso é só o começo.

* * *

Suketu Mehta é, antes de tudo, um repórter, e narra a cidade através de encontros com seus habitantes, mais ou menos como V. S. Naipaul fez em “Índia -- um milhão de motins agora”. A diferença é que, enquanto Naipaul mantém distância dos seus entrevistados, Mehta toma as suas dores. Torna-se amigo de uma família de favelados e acompanha a sua ascensão social, consegue acesso aos piores bandidos e aos melhores policiais (a distinção entre as duas categorias não é sempre clara), freqüenta a alta sociedade, torna-se co-autor do roteiro de um filme estrelado por um dos principais galãs de Bollywood (“Operação Kashmir”, com Hrithik Roshan), fica íntimo de uma dançarina de cabaré. Até à casa de Amitabh Bachchan ele vai. Amitabh Bachchan, para quem não sabe – e, no Brasil, quase ninguém sabe -- é o astro mais famoso do mundo. Ele traça, em suma, um poderoso retrato da sociedade que compõe a urbs prima in indis, outrora uma linda cidade à beira-mar, hoje tão degradada que é de se admirar que alguém ainda queira viver lá.

* * *

Nada do que Suketu Mehta escreve nos é estranho. Não chegamos aos extremos atingidos por Bombaim, mas não estamos tão longe. O trânsito não anda, a corrupção corre solta, a burocracia não funciona, a bandidagem dá as cartas, a extrema miséria e a extrema riqueza convivem lado a lado. Há muitos trechos de “Cidade máxima” que li como se estivesse vendo um retrato do Rio. Realmente -- como é que alguém pode viver num lugar desses? Pior: como é que alguém pode querer viver num lugar desses?! Acho que a explicação está naquele primeiro parágrafo: somos, essencialmente, uma raça de urbanóides.

Muitos de nós, que moramos no Rio, poderíamos, em tese, mudar para uma cidade do interior. Temos os recursos e, feitas as contas, sairia bem mais barato, para não mencionar que levaríamos uma vida muito mais saudável junto à natureza. Volta e meia, num momento de fúria, ameaçamos ir embora. E vamos? Que nada. Continuamos aqui, fascinados pelo enredo que nos rodeia e pela cidade que canta e ruge lá fora -- enfeitada, agora, por bueiros explosivos.

* * *

Suketu Mehta escreve com o desespero e o fervor de quem viu uma cidade amável se transformar num lugar caótico no seu tempo de vida. Ele viu a mutação de passarinhos verdes em sacos plásticos voando ao vento, e a praia da sua infância convertida em favela, sob o olhar complacente e corrupto das autoridades. A lembrança do que era e nunca mais será atravessa o livro como a visão da degradação do Rio atravessa o coração de qualquer carioca que teve, um dia, a felicidade de sair direto do cinema para a brisa da Avenida Atlântica -- e ainda voltou a pé para casa, sem um pingo de preocupação na noite.

“Cidade máxima” é um grande livro sob qualquer perspectiva e em qualquer quadrante, mas não sei se tem a mesma reverberação emocional em todos os cantos. Tenho a impressão de que, na península escandinava, deve soar como algo exótico e meio fantasioso, assim como é possível que escape aos leitores belgas ou suíços, por exemplo, o que leva alguém a amar tão intensamente uma cidade tão maltratada. Nós sabemos. Não é um mérito, mas nos dá um grau especial de intimidade com a leitura.

* * *

Um ouriço-cacheiro agonizava, anteontem, numa rua do Jardim Botânico. Caiu de uma árvore. Pessoas de bom coração fizeram um cercadinho de obstáculos ao seu redor, para que não fosse atropelado. Outras ligaram para o Ibama, pedindo socorro. 

A resposta?

-- Atenderemos ao seu pedido dentro de sete dias úteis.


(O Gçobo, Segundo Caderno, 21.7.2011)

16.7.11

Todo o Gil, grátis!



De todos os smartphones hoje disponíveis, não conheço nenhum como o Samsung Galaxy S II, excelente, para mim, em praticamente todos os quesitos. Digo “para mim” porque as necessidades de uso são tão variadas que duvido que em algum momento do futuro próximo se possa afirmar, com certeza, que este ou aquele aparelho é completo. No dia do jogo do Brasil contra Equador, por exemplo, estávamos tendo um jantar em família, e as angústias da parte esportiva da casa só se resolveram graças a um Samsung Galaxy S – que, ao contrário do irmão mais leve e mais esperto, tem televisão.

Ora, televisão para mim é apenas um detalhe a mais, já que, até hoje, só me lembro de ter usado as que aparelhos meus tiveram para fazer demonstrações para os amigos. Prefiro a tela imbatível do Galaxy II e a sua velocidade para acessar a internet, e abrir fotos e email. O peso pluma é inacreditável e, acho, desnecessário. Eu o trocaria, de bom grado, por um acabamento mais sólido, mais parecido com o que a Nokia ou a Apple dão a seus aparelhos.

Mas o que importa é que, em tese, com esta nova maravilha, eu poderia, enfim, realizar meu sonho de carregar um único celular. Nele as funções de trabalho se complementam as mil maravilhas com as funções de entretenimento. Mas... pois é: há sempre uma conjunção adversativa no caminho da felicidade total. Estou amarrada ao iPhone, que agora me pesa na bolsa não por um, mas por dois bons motivos.

O mais antigo é o vício no Instagram, que ainda não chegou ao Android. De todas as redes sociais que acesso, ele é, no momento, aquela à qual mais me dedico, e a que me dá mais prazer. O segundo motivo é o aplicativo que Gilberto Gil acaba de lançar, e que tem todas as músicas que já gravou. É como se alguém tivesse me dado de presente uma caixa com os 57 discos de Gil, de "Louvação", de 1967, até "Fé na Festa ao vivo", de 2010. Como é que eu, fã declarada, vou abrir mão disso?

* * *

O aplicativo de Gilberto Gil é grátis, e pode ser baixado da Appstore por qualquer um que tenha iPhone ou iPad. É muito parecido, visualmente, com a sua página na internet: tem biografia, fotos, notícias e o que rola no seu twitter. E tem a verdadeira razão pela qual existe, e pela qual é baixado: a monumental discoteca, com as letras das músicas e a possibilidade de se criar e salvar playlists com a combinação que se quiser entre o conteúdo dos vários discos. Apenas não se podem salvar as músicas na discoteca do iPhone ou do iPad.

A liberação da totalidade da sua obra em aplicativo é muito coerente com a postura de Gilberto Gil, primeiro grande astro brasileiro a perceber a importância da internet e o ritmo da comunicação em tempos de rede. É um gesto tão generoso quanto inteligente: arte que não circula morre, e Gil sabe disso.

Não sei como funcionam as internas das negociações de conteúdo livre, mas acho que a Apple devia pagar uma coisinha a Gil por cada cópia baixada, pelo menos até o lançamento para Android, que ainda não tem previsão. O seu aplicativo é um exemplo perfeito de valor agregado.

* * *

Outro aplicativo que pode fazer com que o iPhone se transforme num hábito: o Everyday. Custa caro – US$ 1,99 (aliás, é incrível como a nossa percepção do que é caro ou barato em software mudou, mas isso já é outra coluna) e está programado para fazer uma única coisa: tirar uma foto do usuário na mesma pose, todos os dias. Ao cabo de um ano, o efeito, montado em filme, pode ser notável.

Usar é fácil. Basta marcar a altura dos olhos e da boca na calibragem, e todos os dias, na hora aprazada, o usuário será lembrado de se clicar para a posteridade. Os lembretes podem ser também semanais ou mensais, mas aí, suponho, o impacto será menor. O próprio Everyday se encarrega de fazer um filminho com as fotos acumuladas.

Já baixei a brincadeira para o meu iPhone há duas semanas, mas ainda não tive coragem de começar. Um dia é o cabelo, no outro são os óculos, no terceiro é a angústia de embarcar numa aventura tão radical. Fica a dica, porém, para os mais destemidos.  


(O Globo, Economia, 16.7.2011) 

15.7.11

Se não fosse pelo sotaque...



O dr. Marinho Pinto é, pelo que entendi, o presidente da OAB lá deles. Este foi o discurso que pronunciou por ocasião da abertura do ano judicial. 


Fiquei chocada. Deve ser terrível viver no país que ele descreve.

14.7.11

Comentários: here we go again...

Atendendo aos ouvintes:


Depois de uns tempos de comvívio com a caixa de comentários do Blogger, e de perceber a insatisfação de muitos de vocês com aquele genérico insosso, decidi voltar para o velho Haloscan, vulgo Echo. Que, após aquela caixa desemxabida, verdadeiro bode na sala, chega, enfim, a parecer quase, mas quase, assim muito de longe, com o nosso querido Falou e Disse.


Afinal, mais vale um gosto do que seis vinténs.


Dessa vez, prometo que não mudo mais. 


A nova caixa tem carinhas, permite o uso de URLs e figurinhas, y otras cositas mas. 


Aproveitem!


Update: estou com um problema na edição do script do blog. Todos os comentários estão saindo repetidos em todas as mensagens. Não se impressionem, essas coisas acontecem; no máximo teremos um dia de confusão para saber qual comentário corresponde a que post. 


Assim que Fábio "The Man" Sampaio aparecer, isso se resolve... 

Uma outra Índia

  
“Mamãe, me explica uma coisa: como é que você pode gostar da Índia?!” Do outro lado do telefone estava o Paulinho, meu filho mais velho, que mora nos Estados Unidos e levou a família para passar umas semanas no Oriente. “Que lugar miserável, sujo, insuportável!”

Ele passou dois dias em Mumbai, a caminho do Sri Lanka.

"Eu juro que não reclamo mais da segurança nos aeroportos americanos! Em Mumbai quase me fizeram tirar a roupa, abriram o sapato, tiraram a palmilha do sapato, inspecionaram cada fio dos conectores, cada cabo, cada computador...”

Paulinho tem uma pequena empresa de software, estava a trabalho e levava, imagino, pelo menos dois notebooks, mais uma quantidade de tablets e smartphones. É muito cabo. Eu viajo com metade do equipamento que ele leva e, volta e meia, tenho ímpetos assassinos.

“Quem não vai viajar não pode entrar no aeroporto. Pois quando a gente sai, tem cinco mil caras esperando, uns com placas, outros sem, todos aos gritos. Não digo cinco mil como figura de linguagem não, digo cinco mil numericamente falando. Felizmente o cara do hotel era safo, viu os dois branquelos grandes com três branquelos pequenos e deduziu que éramos nós. De modo que fomos para o hotel, no carro do hotel, e, mesmo assim, quando chegamos, o carro foi todo revistado, espelhinho por baixo, capô aberto, bagagens mais uma vez reviradas. Sinceramente, perto da chegada a Mumbai a chegada a Miami é sopa!”

Não estive em Mumbai ainda, e a minha chegada a Nova Delhi foi indizivelmente facilitada porque me esperavam no aeroporto os meus amigos queridos, embaixadores de Portugal. Tive uma amostra boa da segurança e da confusão de uma chegada à Índia quando voltei do Nepal. Mas aí já estava apaixonada pelo país e tudo me parecia pitoresco e interessante.

“Saímos para dar uma volta e desistimos logo. A umidade gruda em você como um visco, tudo é absolutamente imundo. Nas esquinas há montanhas de lixo sendo cavucadas por crianças e animais, é uma coisa horrível de se ver. Já vi muita miséria na vida, mas nunca vi nada igual àquilo lá.”

Paulinho conhece o Brasil todo e, a cada verão, parte das férias das crianças é passada numa cidadezinha miserável do México onde, com um grupo de amigos, está ajudando os habitantes de uma favela a construírem casas dignas do nome. Eles viajam em caminhões de transporte, cheios de material de construção. As crianças ajudam, na medida da sua capacidade: oferecem água e comida aos adultos, separam materiais, essas coisas. Paulinho não quer que as crianças cresçam com a ilusão de que todo mundo tem a sua qualidade de vida.

Não vi este nível de miséria na Índia. Nas cidades que visitei vi, ao contrário, uma miséria menos degradante do que a miséria brasileira, por ser uma miséria operosa: todos estavam envolvidos em atividades de algum tipo, fosse confeccionando pequenas peças de artesanato, fosse comerciando toda a sorte de coisas. Me lembro de um vendedor de fitas cassete quebradas, que vi no mercado de Jodhpur. Tentei descobrir quem comprava aquilo, e para que poderia servir, mas o inglês dele era ínfimo e o meu guia já estava a duas quadras de distância. De modo que morrerei sem desvendar esse mistério.

“Eu ia vendo aquele horror, sentindo aquele fedor, e pensando, Meu Deus, como é que nós vamos conseguir sobreviver, com três crianças, num lugar ainda pior do que esse? Eu estava pensando errado, naturalmente. Imaginava que, por ser um país mais pobre, o Sri Lanka seria ainda mais sujo e mais miserável. Mas quando chegamos a Colombo, foi uma felicidade. O país é de fato pobre, mas tudo é limpo e bonito. É como se as pessoas dissessem, Isso é tudo o que temos, mas é nosso, e gostamos do que temos. Então mesmo na casinha mais humilde há uma lata com flores plantadas. Viajamos pelo interior e o cheiro do país é delicioso, uma mistura de chá, principal plantação deles, e daquelas frutas que só existem por aquelas bandas. E que chá delicioso! Fiquei com muita pena de não ter ido antes, e mais pena ainda de não ter ficado mais tempo.”

O ponto alto da viagem, em sentidos literal e figurado, foi um passeio de elefante pela selva. A primeira providencia dos elefantes, ao entrar num córrego de águas clarinhas, foi dar um banho em todo mundo. No fim do passeio, pediram o troco deitando-se no riacho; os tratadores deram pedaços de casca de coco para que as crianças se jogassem na água e esfregassem os bichos, que demonstraram grande prazer com a faxina. Os adultos foram atrás, e lá ficaram, todos os cinco, se deliciando em escovar paquidermes.

* * *

Fiquei desapontada com a experiência indiana do Paulinho. Gostaria que ele tivesse sentido pelo país dos meus sonhos o mesmo encanto que eu senti. É claro que ficou pouquíssimo tempo, e na estação errada. Pode ser que, um dia, venha a mudar essa má impressão, mas, em geral, quem não gosta de um país dificilmente voltará a visitá-lo, a menos que seja levado pelas circunstâncias.

Vou conhecer Mumbai no fim desse ano, e vou ter uma idéia melhor da cidade. Por enquanto, tudo o que eu sei, e que é muita coisa, li em “Cidade máxima”, livro extraordinário de Suketu Mehta, que acaba de sair no Brasil pela Companhia das Letras. Ainda vou escrever mais a respeito dessa obra-prima, mas, desde já, fica a recomendação: quando passarem por uma livraria, não se esqueçam de comprá-lo. É dos melhores livros que já li na vida.  


(O Globo, Segundo Caderno, 14.7.2011)

9.7.11

Mais vida social




Recebi uma conta do Google+, a nova novidade do mundo das redes sociais. Ainda é cedo para ter uma idéia precisa da sua funcionalidade, já que a maioria dos meus amigos não o recebeu -- e, antes que eu pudesse convidá-los, a Google fechou a porteira, com medo de que o serviço crescesse mais do que ela pode administrar. Agora abriu novamente... mas quem é que tem disposição para encarar mais uma rede social?!

De minha parte, descobri que só consigo participar bem de uma ou duas, e mesmo assim às custas de um tempo enorme. No momento participo ativamente do Instagram, e um tanto menos ativamente do Twitter e do Facebook. Ao Linkedin vou uma vez por mês, se tanto, apesar da quantidade de emails que recebo dizendo que Fulano ou Sicrano querem ser meus amigos por lá. E, verdade seja dita, o número de pessoas que de fato me conhecem e que me procuram no Linkedin é maior do que nas outras redes.

Andei dando umas voltas do Google+. Como a essa altura já sabem todos, a sua maior novidade é a disposição dos contatos em círculos. Isso funciona muito bem. Ele já traz de saída um pequeno número de círculos básicos (Família, Amigos, Conhecidos – por aí), aos quais acrescentamos pessoas de acordo com categorias que nos parecem convenientes. Criei dois círculos adicionais, um para leitores, outro para pessoas que não conheço mas que escrevem sobre coisas que me interessam.

Ninguém sabe a qual dos círculos pertence na página dos outros, de modo que evitam-se mágoas desnecessárias e mal entendidos devidos a classificações de cunho prático. Quando entro no Google+ (que cria automaticamente um ícone na caixa do GMail), encontro as mensagens compartilhadas dos círculos que escolhi para o meu stream – por enquanto todos, porque um dos problemas do Google+ é que ainda faltam usuários suficientes para dar um caldo.

O sistema de círculos do Google+ é muito superior ao sistema de grupos do Facebook. É mais intuitivo e simples de usar. Assim que se acrescenta uma pessoa, ela deve ser incluída em um círculo específico. Isso facilita a vida do usuário na hora de separar o que quer ler e ver, e na hora de compartilhar idéias, fotos ou o que seja. Esses itens, aliás, podem ser compartilhados mesmo com amigos que não façam parte da rede social: eles passam a receber o que compartilhamos por email.

Outra ferramenta do Google+ que ganha do Facebook é o Hangout, onde se podem fazer videochats com várias pessoas ao mesmo tempo, ao passo que no Facebook é um por um.

O Google+ ainda está com uma interface mais limpa do que o seu principal rival. Se vão conseguir mantê-la assim são outros quinhentos, mas por enquanto a vantagem é indiscutível. Uma das coisas que mais irrita no Facebook é a quantidade de anúncios das páginas.

A vantagem imediata do Facebook é, além da familiaridade, a quantidade de usuários: todo mundo está no Facebook, a um ponto em que hoje estranhamos a ausência de alguém como, há algum tempo, estranhávamos quem não tinha email.

O  Google+ é, por enquanto, apenas a nova tentativa da Google de entrar na área das redes sociais. A empresa é dona do Orkut, mas este é um fenômeno esquisito que só funciona em dois ou três países. Tentou fazer sucesso com o Wave e com o Buzz, mas tudo o que conseguiu foi fazer onda com produtos que, afinal, não decolaram.

A nova ferramenta é mais bem pensada como um todo, tem muitas camadas a explorar e parece ter aprendido com as falhas das suas antecessoras e das suas rivais. Para sabermos se colou ou não, ainda vamos precisar brincar mais um pouco.

* * *

Um ótimo uso dos filtros que hoje se encontram à vontade para todos os sistemas de smartphones é dar um jeito naquelas fotos antigas, feitas nos tempos de resolução baixa. Como usuária de primeira leva de tudo quanto é equipamento, tenho algumas centenas de fotos do gênero, que pareciam milagres na época do lançamento das câmeras com que foram clicadas, mas são, hoje, praticamente inaceitáveis. 

Ressuscitei umas feitas em Moscou, com uma Kodak DC265 de 1.6 Megapixel, no já longínquo ano de 1999, e tasquei-lhes uns filtros por cima. Não é que ficaram bonitinhas?


(O Globo, Economia, 9.6.2011) 

7.7.11

De volta ao Campo


Voltei ao Campo de Santana, dia desses, para conversar com o presidente da Fundação Parques e Jardins, David Lessa. A Fundação fica numa casa instalada dentro do Campo, tem vista para o verde e é um ponto de observação ideal para ver pivetes assaltando transeuntes e moradores de rua tomando banho no lago. Desde a semana passada, passou a ser também um bom ponto para se ver a PM fazendo a ronda em garbosos cavalos, e duplas de guardas municipais em bicicleta. Já é um com começo.

Lessa, que está no cargo há cerca de dois meses, não é estranho à FPJ: era seu diretor de arborização antes de assumir a presidência. Claro que não perdi a oportunidade de perguntar-lhe por que as podas das árvores do Rio são praticamente assassinatos. Sei que há tempos elas são cometidas pela Comlurb, mas continuo sem entender o que a Companhia de Limpeza Urbana tem a ver com árvores.

Lessa me explicou que a transferência de função da FPJ para a Comlurb aconteceu por uma complicada questão de falta e de excesso de contingente, e que ele mesmo, em tese, não é contra. Apenas acha que, já que a Comlurb poda as árvores, deve aprender a fazê-lo. Para isso, criou workshops (com o perdão da palavra) em que funcionários da FPJ ensinam, aos colegas da Comlurb, como proceder a podas menos calamitosas.

* * *

A questão da viabilização do Campo de Santana como espaço público seguro é coisa mais complicada. A limpeza, a eventual poda das árvores e o corte de grama são atribuições da Comlurb. A caça aos traficantes é com a Polícia Civil. A vigilância contínua cabe à Polícia Militar e à Guarda Municipal. A remoção dos moradores de rua fica por conta da Secretaria de Assistência Social. Os gatos abandonados deveriam ser cuidados pela Secretaria de Proteção e Defesa dos Animais, a Sepda, que tem, inclusive, um posto dentro do próprio parque. Acrescente-se a tudo isso um detalhe pequeno, mas fundamental: o Campo de Santana é tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, o Inepac, a quem deve ser dirigida toda e qualquer proposta de alteração, por mínima que seja.

É por culpa do Inepac que os mais de 400 gatos lá existentes não têm onde se abrigar das chuvas e do frio. O Inepac acredita que, se não pensar nos gatos, eles deixarão de existir, como num passe de mágica; assim, não permite que as casinhas construídas para eles sejam espalhadas ao longo dos muros. As casinhas são verdes, pequenas e não incomodam ninguém, sequer visualmente, mas como Glaziou não previu casinhas de gato em meados do século XIX, quando projetou o Campo, o Inepac deu o contra, assim como deu o contra a um sistema alternativo de manilhas sobrepostas, nas quais os bichinhos também encontrariam abrigo.

Aqui se poderia começar um debate sobre o instituto do tombamento e suas virtudes e defeitos sob a ótica da gestão urbana, mas vou deixar isso para os especialistas na matéria – dos quais, imagino, o Inepac deva estar cheio. Lembro apenas que os pobres gatos não foram para o Campo de Santana de moto próprio, não têm como sair de lá sem que alguém tome providências, e que, até alguém tomar providências, ainda vai chover muito e fazer muito frio por lá.

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"A situação do Campo de Santana se deteriorou muito ao longo dos últimos cinco anos”, diz David Lessa. “Em 2006 a Secretaria de Segurança Pública foi para a Central do Brasil. Com o aumento da segurança na área, toda a população que vive na rua ou da rua, e que então se juntava na Praça Procópio Ferreira, atravessou a avenida e veio para cá. Não estou falando apenas de prostitutas ou de pivetes, mas também de gente como a que vende balas para os motoristas no sinal. Essas pessoas compram no atacado, e depois reembalam tudo em pacotes menores. Para onde vão as embalagens descartadas? No caso do Campo de Santana, vão direto para o lago, como se pode ver a qualquer momento, e como mostrou a foto publicada pelo Globo semana passada. Há uma turma grande de embaladores logo ao lado da entrada da Presidente Vargas. Os guardas que temos nos portões são insuficientes para contê-los e nem estão preparados para isso. Às vezes até conseguem que saiam de lá, mas não adianta nada, porque eles apenas vão para outro canto do campo, e voltam logo depois. Com a população de rua não é muito diferente. Essa suja o parque, quebra os bancos para fazer fogueira, toma banho nos lagos... Há poucos dias a Secretaria de Assistência Social mandou uns agentes para cá. Saíram daqui dois ônibus cheios de pessoas. Pois a maioria já está de volta.”

* * *

David Lessa acredita que uma solução permanente para o Campo de Santana passa pela criação de um comitê gestor, com representantes de todos os envolvidos com o seu cuidado. Assim se poderiam articular ações conjuntas e eficientes, e assim, quem sabe, o carioca de bem poderia ganhar o seu lindo jardim de volta.

* * *

O gatinho da foto cismou de vir comigo da outra vez em que fui ao Campo. Fez bem. Chegou em casa com uma infecção séria e 41 graus de febre. Teria morrido em um dia ou dois. Hoje está curado e cresce a olhos vistos. Chama-se Fonseca, mas atende também por Marechal.


(O Globo, Segundo Caderno, 7.7.2011)

3.7.11

Entre a alta costura, aventuras e tablets


(Fotos de Monica Imbuzeiro)

O nome de Marcella Virzi devia ser mais conhecido do que é. O problema é que, tendo nascido e optado por viver numa cidade em que jeans e camiseta (limpa) são considerados esporte fino, ela dedica-se, com invulgar talento e grande entusiasmo, a criar roupas dignas de casamentos reais, cheias de transparências inusitadas, bordados elegantes e brilhos caprichadíssimos.

-- O meu talento é esse, -- observa, às vésperas de começar a vender em São Paulo, resignada com o óbvio. – As pessoas de lá se vestem mais. Não digo que se vistam necessariamente melhor; as cariocas inventaram uma elegância despojada que é única. As paulistas, porém, levam roupa mais a sério.

O projeto paulista vem sendo tocado simultaneamente com uma aventura inédita mesmo para Marcella, que sempre foi de grandes aventuras: uma espécie de clube, revista e museu de tudo para tablets, chamado Virzionair. Mas, para saber como ela fez a ponte entre a alta costura e a web 2.0, é preciso dar rewind e descobrir os caminhos por onde andou.

Filha de família tradicional, ela decidiu, aos 15 anos, que a vida que tinha não era bem o que queria. Logo estava rodando pela Europa, mochila às costas, descobrindo pedaços do mundo que lhe pareciam muito interessantes. Parou em Amsterdam, ficou uns tempos por lá e, quando fez a primeira pausa para respirar, estava casada e era directrice de um clube gourmet na Sardenha. Uma vida de sonho, que foi boa enquanto durou – mais precisamente, até o dia em que o marido começou a falar em filhos.

-- Foi aí que eu soube que ia voltar para o Brasil, -- lembra Marcella. – Estava com 24 anos, estava me divertindo muito, mas, já naquela altura, eu tinha o sentimento das minhas raízes, uma sensação de pertencimento. É claro que, na época, eu não tinha idéia do que era isso; hoje sei. Mas sabia que não podia ter um filho europeu, uma criança a quem, mais cedo ou mais tarde, eu iria impor o trauma de uma separação.

Separou-se. Mais tarde, já no Brasil, casou-se com o empresário Claudio Klabin, grande amor da sua vida e ótimo amigo até hoje:

-- O Claudio é um homem extremamente culto e refinado, -- diz ela. – Aprendi muito com ele. Sobretudo, aprendi a sedimentar o conhecimento que estava solto na minha cabeça, coisas que tinha pescado aqui e ali, mas com as quais não sabia o que fazer.

Nos anos 90, Marcella era a própria protagonista da novela das nove. Nora de Beki Klabin, eleita por Danuza Leão a representante máxima da jovem elegância carioca, estava em todas e deu festas memoráveis. Sua foto saia, dia sim e outro também, em colunas e revistas. Ela era alta, magra, elegantérrima e inatingível, quase a personagem de si mesma.

 -- Quando você chega num lugar e todo mundo olha para você, você se sente muito responsável pela forma como se apresenta. Eu sempre fui muito dramática, e carregava nessas tintas. Usava roupas que podiam ter saído de um filme, a tal ponto que, anos depois, quando já estava separada do Cláudio, ele me mandou trocar o guarda roupa todo por uns jeans e umas camisetas, porque homem nenhum teria coragem de me abordar naquele luxo todo...

Rimos. A imagem é engraçada mas enganadora, porque, por trás do verniz social de alto brilho, há uma mulher sólida, com uma cultura rica e diversificada, e dona de um apetite intelectual insaciável. Estamos conversando no seu apartamento, que considero um dos mais bonitos do Rio. A sua criatividade está presente nos mínimos detalhes, de uma pipa comprada na Saara funcionando como luminária a antiguidades egípcias e peças de arte contemporâneas. Com menos talento e mais empolgação, esse mix seria um desastre; mas Marcella tem o raro dom de saber parar.

Seu caminho para as passarelas foi natural. De volta ao Rio, começou a ajudar as produções de amigos fotógrafos; insatisfeita com as roupas que encontrava, começou a fazer as suas próprias. O resto é História, pelo menos no mundo da moda. Marcella criou com um sócio a Mastroianni e Bonaparte, desfez a sociedade, abriu um atelier numa casinha em Ipanema num tempo em que ninguém pensava nisso, foi crescendo, teve duas lojas em shopping e nessa rota teria continuado se o destino não batesse de forma dramática à sua porta: aos 39 anos, foi internada com uma pneumonia causada por uma bactéria resistente a todos os antibióticos. Passou uma semana na UTI, entre a vida e a morte, e salvou-se graças a um remédio experimental enviado dos Estados Unidos.

Passada a fase de convalescença, a Marcella empresária, convencida de que tinha nascido de novo, resolveu tocar os negócios em fogo brando e a vida em chama alta. Engatou um namoro com o fotógrafo Mauro Motta e, um belo dia, inesperadamente, descobriu-se grávida. Antônio Virzi, hoje com quatro anos, nasceu quando a mãe tinha 40.

-- A Marcella que você está vendo aqui começou, mesmo, há cinco anos. Primeiro com a pneumonia, que foi um sinal de alerta, e, logo depois, com o nascimento do Antônio, que foi a melhor coisa que me aconteceu. É impossível ser uma diva proustiana com um bebê ao lado, de modo que busquei, em mim, algum fragmento de Marcella que pudesse se desenvolver como mãe.

A mulher que passava as noites bebendo vinho tinto e lendo Dostoiévski e Sylvia Plath deu lugar à mãe que ouve as mesmas músicas infantis horas a fio; a estilista cuja paleta ia do preto ao preto, passando por todos os tons de preto, deu lugar à que joga com cores ousadas. O próprio apartamento, que reflete o estado de espírito da proprietária, ganhou almofadas lindas, cheias de cores, e um aspecto geral muito alegre.

Simultaneamente, sentindo-se sufocada com a pressão dos negócios, Marcella desmontou tudo, para recomeçar uma nova encarnação da sua grife Virzi – pequena, extremamente artesanal, voltada para menos clientes, e dando, à criadora, mais tempo para Antônio, um pequeno gentleman simpático e elegante como a mãe.

A vida corria tranqüila quando... pois é: mais uma vez o destino, e novamente de forma dramática, veio bater à porta. No final do ano passado, Marcella começou a sentir uma dor que não passava na perna. Recebeu dos médicos um diagnóstico sombrio, com possível ameaça de mutilação. Foi operada às pressas, e despachada pela família para Nova York, onde passou por quatro meses de radioterapia. Passou também por mais uma transformação.

-- Descobri que a vida é agora, -- resume. – A gente sonha com o passado, planeja o futuro, mas vive o dia de hoje. Não dá para adiar planos ou empurrar idéias.

O projeto para tablets é resultado dessa constatação. Marcella busca há tempos uma forma de expressão alternativa à moda. Flertou com o teatro e com a literatura, mas na alta do tratamento, acabou se inscrevendo na New York Film Academy. Não tem pretensões de fazer longas; ao contrário, a idéia é partir para micro-metragens de três minutos, pequenas criações em tempo web. Os filminhos são parte de um projeto maior, que inclui uma quantidade de amigos que têm o que dizer, num mergulho profundo em áreas específicas do Rio, sobretudo arte, design, consumo. Que cidade é essa, que pessoas são essas, que planeta é esse?

É difícil descrever o projeto, misto de revista, blog e imagens, até porque é difícil descrever novas novidades. Marcella ri enquanto apresenta a arte de abertura do Virzionair, que vem desenvolvendo com uma pequena equipe:

-- Não sou tão auto-centrada assim, mas dava para deixar passar esse trocadilho?


(O Globo, Rio, 3.7.2011)