30.4.11

BLOG!

AQUI tem uma coleção de GIFs maravilhosos.


São tão bonitos que tem até nome especial: cinemagraphs. Menos que filmes, e um pouco mais que fotografias.

Sobre o passado e o futuro


Um dia, no distante ano de 1993, aquele em que a até então melhor versão do Windows (3.1) veio dar às prateleiras, cheguei à conclusão de que não queria mais escrever mais sobre tecnologia. A única coisa que acontecia na área eram upgrades periódicos dos programas que se usavam então: Lotus (que me era indiferente), Wordstar (que eu detestava), WordPerfect (que eu adorava)... Imaginem uma cobertura baseada em novas versões do Office e terão uma idéia do quadro.

A própria internet, apesar de divertida, era muito fechada no Brasil e não estava ao alcance de todos. Eu trocava emails com meia dúzia de amigos, participava do fórum rec.pets.cats na Usenet e jogava MUDs, mas cada vez que escrevia sobre essas coisas obscuras recebia cartas de reclamações dos leitores, que em geral não tinham acesso àquilo.

De modo que procurei o editor chefe, e pedi para mudar de área: a sensação que eu tinha é que, se tivesse que escrever sobre mais um upgrade do CorelDraw ou do PageMaker, cortaria os pulsos. Ele compreendeu a minha falta de motivação, mas me pediu para segurar as pontas por mais uns meses, enquanto pensava no assunto e procurava alguém para o meu lugar.

E aí começou o ano de 1994, que trouxe consigo os primeiros servidores www brasileiros. A web -- que é, de fato, a internet como a conhecemos hoje – mudou tudo. A área voltou a ficar vibrante e interessantíssima. Havia tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que era impossível dar conta de tudo. Voltei à sala do editor e disse que tinha mudado de idéia, que amava tecnologia e que não queria escrever sobre outra coisa.

Passei assim os próximos anos, tendo crises de amor e ódio periódicas pela área. Cada vez que as coisas ficavam chatas demais, pronto! lá vinha uma novidade que mudava tudo.

* * *

No ano retrasado e em boa parte do ano passado, esse nosso mundinho hi-tech andou meio parado; na verdade, muito parado. Os desktops (e mesmo os notebooks) não chegam mais a ser novidade. Fazem o que se pede deles. Às vezes surge um modelo mais possante ou mais bonito, mas no fundo estamos apenas falando de uma nova embalagem para um produto consolidado, como falaríamos de uma novíssima linha de liquidificadores ou batedeiras. O iPhone fez sua estréia triunfal em 2007, todos os fabricantes tentaram fazer coisas parecidas, e foi só. E, mais uma vez, achei que estava me repetindo e escrevendo sobre as mesmas coisas, indefinidamente.

E aí apareceu o iPad, e na sua esteira todos os outros tablets, e tudo mudou de novo.

* * *

Conversando com Joel Schwartz, vice-presidente da EMC, que veio ao Rio para o Forum Econômico Mundial, discutiamos algo que nos apaixona igualmente, a nuvem (the cloud), quando ele me fez uma pergunta inesperada:

-- Como você vê a Microsoft daqui a alguns anos?

-- In the way of the dodo, -- respondi, “na direção do dodo”, pássaro extinto por sua incapacidade de perceber os perigos à sua frente, i.e., os humanos.

Ele concordou, e continuamos conversando, agora fazendo um pequeno exercício de futurologia sobre o papel da Microsoft no futuro, que, visto daqui, não é dos mais brilhantes.

Fato: assim como perdeu o bonde da internet, a todo-poderosa MS perdeu o bonde dos tablets, para não falar no ainda mais veloz bonde dos smartphones. À nossa volta, nas demais mesas do restaurante lotado com participantes do WEF (todos usuários de Blackberry), havia uma quantidade notável de tablets. O iPad 1 liderava, quase absoluto; muitos Samsung Tabs e vários iPad 2. Vi até um Motorola Xoom, que acaba de ser lançado, e ainda não chegou ao mercado com a força dos outros. Em nenhuma dessas máquinas há software da Microsoft, muito embora o padrão de documentos que nelas circula siga o padrão estabelecido pelo Office. Isso, porém, não quer dizer nada, porque as empresas encolhem ou somem e os padrões que criaram muitas vezes continuam vivos.

O que me choca de verdade é que, a essa altura do campeonato, a Nokia tenha escolhido de se juntar logo com essa empresa que ainda brilha nas bolsas, como uma estrela morta que ainda enxergamos mas que já não existe. Mas isso já é outro papo.

* * *

Comecei essa coluna com a firme intenção de escrever sobre o Xoom, mas, às vezes, as colunas são teimosas e seguem os seus próprios caminhos. Não quis contrariá-la. Na semana que vem, se ela me obedecer, falarei sobre este tablet tão interessante.


(O Globo, Economia, 30.4.2011) 

29.4.11

Aqui em casa não fazem isso...

Casamento Real


Tudo lindo, tudo bem -- mas o que são essas duas princesas?!



Essa a Bia me mandou como "A melhor foto do Casamento Real": LOL! 

Update: O objeto não identificado que a Princesa Beatrice estava usando na cabeça virou meme na rede. Tem página no Facebook (quando eu olhei já estava em quase 66 mil likes, se é que a palavra pode ser usada no caso), e está dando margens a todo tipo de variantes. A minha favorita é, claro, essa:



Janelas

O site AnyTrip.com fez uma coleção de "50 vistas incríveis das janelas dos outros". Para mim, a conta é de 49...


(Descoberta do Tom: de quem mais havia de ser?)

Um joguinho divertido

Quer testar o seu português?


Clique AQUI.

28.4.11

Com alguns dias de atraso, mas a emoção de sempre

Um dia ideal para o peixe banana


Instagram: mania de foto



Nem tudo que é tecnologia é tecnologia. Para ser mais exata, nem toda tecnologia é apenas tecnologia. No momento em que passa a ser usada e a influenciar o dia a dia das pessoas, a tecnologia, tão necessariamente precisa, perde espaço para toda a sorte de especulação social, e transforma-se em cotidiano, papo de botequim e de cabeleireiro.

A internet e os celulares são apenas os exemplos mais recentes e bem sucedidos dessa mutação. Desenvolver hardware e software continuam sendo as tarefas fundamentais para que o mundo se mantenha nos trilhos dos quais não consegue (e nem quer) mais sair, mas o que ocupa as manchetes e o tempo de todos nós é, sobretudo, o uso que se faz desses elementos. Ainda não vi pesquisa sobre o assunto, mas tenho certeza de que hoje há muito mais páginas escritas sobre o impacto da internet na sociedade do que sobre a internet em si mesma -- de servidores a protocolos, passando por modems, roteadores e tudo o mais que é necessário para que o que eu escrevo no Rio, por exemplo, seja lido, na mesma hora, em qualquer ponto do globo.

E por que tudo isso agora e, especialmente, por que tudo isso no Segundo Caderno? Porque, como eu escrevi lá no primeiro parágrafo, a tecnologia não se faz só de tecnologia. A turma que usa iPhone, iPod Touch e iPad está se esbaldando numa grande caixa de areia chamada Instagram. Quando vi este aplicativo pela primeira vez, achei que era apenas mais um dos muitos brinquedos para fotografia; mas ele é bem mais do que isso. Permitindo a divulgação rápida e simples de fotos pelas várias redes sociais, o Instagram tornou-se, ele mesmo, a mais divertida de todas as redes de divulgação de imagens. Ele reedita, numa escala mais simples e mais portátil, o fenômeno Fotolog, que durante muito tempo manteve usuários de fotografia do mundo inteiro entretidos com troca de mensagens e imagens. Até hoje cultivo amizades feitas na época, e já me hospedei em casas de fotologgers pelo mundo afora.

* * *

O Instagram é gratuito e, por enquanto, só funciona nos gadgets da Apple (o que o torna por enquanto um tanto elitista). Foi lançado em outubro do ano passado e, em três meses, alcançou um milhão de usuários; em fevereiro deste ano, já tinha dois milhões. Neste momento, deve estar se aproximando de dois milhões e meio, já que cresce à razão de 130 mil usuários por semana. Isso é muito, mesmo pelos números estratosféricos em que se mede a rede. Ainda não existe versão Android do aplicativo, e tenho a impressão de que deve demorar – o Instagram mal está dando conta dos usuários que já tem no mundo Apple. 

* * *

O que há de tão diferente do Instragram para, digamos, o Twitter? Simples: o Instagram fala a linguagem universal da imagem, e prescinde da palavra, que pode gerar muitos mal entendidos, especialmente quando estão na linha pessoas que não escrevem bem língua alguma, sequer a própria. Em contrapartida, nada aproxima mais dois seres humanos do que ver que, no fundo, tutto Il mondo è paese, como já diziam os italianos, muito antes da Aldeia Global. Somos diferentes no atacado, mas iguais no varejo. Uma ferramenta de troca de imagens é, essencialmente, uma ferramenta de paz.
As traquitanas da Apple aceitam um aplicativo chamado Emoji, que substitui as letras do alfabeto por figurinhas. Há flores, carinhas cobrindo o escopo das emoções humanas, presentes, bombas, drinks, minúsculas ferramentas de comunicação sem fronteiras. Com elas, o mundo do Instagram se entende, mesmo na ausência do inglês.

* * *

Há mais coisas que tornam o Instagram um brinquedo interessante. Do ponto de vista fotográfico, é curioso como, depois da febre das panorâmicas, voltamos subitamente ao quadrado, tamanho dos negativos 6 x 6 das antigas Rolleiflex. Mesmo para mim, que comecei com Rollei, mas já estava acostumada há décadas ao formato retangular das 135mm, está sendo uma ginástica mental interessante encontrar cortes que se adaptem aos novos tempos.

O Instagram vem com uma série de filtros que modificam as fotos, dando-lhe ora um ar antigo, ora hiper-moderno, ora mais do que detonado. Esses filtros são engraçados e, bem usados, podem transformar a foto mais trivial numa boa imagem. Na esteira, pipocam na Appstore quantidades de outros aplicativos, cuja única finalidade é incrementar ainda mais as figurinhas para o programa.

Já vi fotógrafos profissionais dizendo que têm engulhos quando vêem o que está sendo feito por lá. Pois não deviam. O Instagram está sendo o primeiro passo para interessar muitas e muitas pessoas pela sua arte. Que seja bem-vindo, com todas as suas falhas e virtudes.

* * *

Recomendo “Sonhos Bollywoodianos”, de Beatriz Seigner – a história de três meninas (Paula Braun, Lorena Lobato e Nataly Cabanas) que vão tentar a sorte como atrizes em Bollywood, sem sequer saber direito onde fica a Índia no mapa mundi. O filme é um “mockumentary”, uma ficção com jeito de documentário. Foi feito com pouquíssimos recursos, uma idéia na cabeça, uma câmera na mão e, acima de tudo, muita coragem. Os créditos finais passam voando, coisa raríssima nesses tempos em que qualquer projetinho à toa tem nomes e nomes e nomes a desfilar. Aliás, os créditos são lindos.

“Sonhos Bollywoodianos” é simpático e despretensioso, não leva a Índia nem as aventuras das nossas heroínas excessivamente a sério, e é impossível de encaixar em qualquer categoria de filme que eu me lembre de ter visto por essas bandas. Só por isso já vale o ingresso.


(O Globo, Segundo Caderno, 28.4.2011)


23.4.11


Escritores & gatos



Aí está um xiita adorador de gatos: João Guimarães Rosa com Araci, sua mulher, a minha tia Ara. Para quem quiser ver outras fotos parecidas, recomendo um dos blogs mais bonitos que vi ultimamente, o Writers and kitties.

22.4.11

Tem gente que pensa em tudo...

O celular disfarçado




Tirando tabletes de barro, pergaminho, papiro e outras mídias anteriores à segunda metade do século passado, já escrevi de praticamente todas as maneiras, em uma variedade infinita de suportes; mas o que estou fazendo agora me traz, apesar de tudo, um gosto de novidade. Estou usando uma lapdock da Motorola, à qual se encontra conectado um celular Atrix. Quer dizer: estou usando um celular como se usasse um netbook ou um notebook, ou vice-versa.

Como contei na semana passada, o Atrix, novo smartphone da empresa, tem uma quantidade de acessórios diferentes. O mais interessante é, disparado, esta lapdock – um netbook elegante e fininho, que tem apenas tela, teclado e bateria. Todo o resto que faz de um computador o que é – processadores, software, possibilidades de conectividade – está no celular. O netbook só ganha vida quando o celular é espetado a uma base que ele tem na parte traseira. O Atrix é o seu sistema vital, seu coração e cérebro.

Como ainda não perdi a capacidade de me espantar, acho uma espécie de milagre que aquele telefone miudinho lá atrás esteja comandando tudo o que estou fazendo aqui na frente – onde, como sempre, estou com algumas janelas abertas. Para minha surpresa, tudo se faz através do Firefox. Considerando que o Atrix é um Android, não entendi porque os desenvolvedores da Motorola não optaram pelo Chrome, tão mais enxuto e mais rápido. Mistério – ou não. O webtop do Atrix é Linux, e o Firefox sempre foi o queridinho da comunidade do software livre. A resposta pode estar aí.

A sensacão é a mesma de estar usando um netbook caprichado e elegante. Para escrever a velocidade da máquina é mais que suficiente, a tela é excelente e o conjunto todo bastante confortável. Digo "bastante" e não "muito" porque o trackpad, infelizmente, é muito ruim, e porque não descobri ainda como criar certos caracteres acentuados: as vogais com acento agudo e as cedilhas. O til e o acento grave, que têm uma tecla só para eles, funcionam nos conformes, assim como o circunflexo. Isso impede que o meu texto possa seguir diretamente daqui -- do celular disfarçado de netbook -- para o jornal; ele terá que fazer uma parada obrigatória num dos meus computadores para ser corrigido antes de seguir em frente.

Nenhum desses problemas chega a ser um pecado mortal. Trackpads ruins resolvem-se com mouses portáteis -- mas aí beleza do conjunto mínimo fica prejudicada pelo trambolho a mais. A questão da acentuação, que é um problema de software, pode ser resolvida com um pequeno remendo; mas, até lá, a praticidade do conjunto fica prejudicada para quem precisa de textos corretos.

Há uma meia-sola possível em casos de desespero, que é usar, junto com o teclado físico da lapdock, o teclado virtual do celular, que apresenta sugestões contínuas de palavras do seu dicionário -- todas elas bem acentuadinhas. A sensação que esse modo de escrita me deu, contudo, foi a de uma vaga esquizofrenia datilográfica.

A idéia da Motorola é um sonho, mas é preciso que esses dois senões sejam corrigidos. A acentuação se resolverá com certeza num upgrade próximo; espero que a questão do trackpad, mais séria, seja revista na próxima encarnação da lapdock.

* * *

Outro acessório do Atrix que testei durante a semana foi a sua base multimídia HD. Essa base, que é um bloquinho preto com três portas USB e uma HDMI transforma o celular num computador (com a ajuda de um monitor, teclado e mouse) ou num complemento muito prático de qualquer televisor com entrada HDMI.

No primeiro caso, basta conectar a base via HDMI a um monitor ou uma TV, espetar nas USBs teclado, mouse e, eventualmente, uma unidade de memória externa, e pronto, tem-se o mesmo efeito que se tem com a Lapdock – um simples celular transformado em desktop. O efeito não tem a magia da lapdock porque, a essa altura, todos nós já fizemos conexões dos nossos smartphones aos nossos PCs; não é a mesma coisa, mas a sensação é bem parecida.

No caso da conexão à TV, entra em cena uma interface muito bonitinha em que podemos escolher entre músicas, fotos ou vídeos, todos diretamente do celular para a televisão. Há até um controle remoto miudinho para facilitar a operação.

* * *

Aí virão, claro, as Grandes Perguntas:

-- Você acha que a base HD é necessária? Se eu comprar um Atrix, você acha que eu preciso comprar uma lapdock?

Bom. Precisar, precisar, ninguém precisa. Mas que a vida se torna mais engraçada quando nos cercamos de brinquedinhos, lá isso se torna...


(O Globo, Economia, 23.4.2011) 


Com vocês, a Orquestra Barroca da Unirio!

21.4.11

O Rio no cinema



Linda noite de lua cheia e temperatura agradável. O Cinepolis Lagoon estava cheio de gente. Gente muito grande. Tão grande que o Lucas, que tem quase dois metros de altura, reparou. Ficamos matutando sobre o fenômeno.

-- Será por causa do filme?

Não me parecia provável. A seguir essa lógica, numa pré-estréia dos Smurfs predominariam as pessoas azuis. Sim, estávamos na badalada pré-estréia mundial de “Velozes e furiosos 5” e se vocês me perguntarem o que raios eu estava fazendo lá terão feito uma boa pergunta, porque nem eu mesma sei a resposta.

O Lucas, que conhece todo mundo, era a minha bóia de salvação.

-- Está vendo aquele cara grandão ali?

Só havia caras grandões para onde ele apontava.

-- O careca.

Só havia carecas.

-- O careca grandão entre os dois grandões carecas.

Ah, agora sim.

-- É o astro do filme. Vin Diesel.

Descobri, a partir disso, que todo careca grandão entre dois grandões carecas era alguma coisa no filme. Os grandões nas laterais eram seguranças. Uma fauna curiosa, que não costumo ver todo dia. Moças enormes também, com saltos vertiginosos. Eu estava me sentindo um cogumelo que entrou na receita errada. A sensação continuou quando fomos para a sala de projeção: caímos, ou mais provavelmente fomos gentilmente colocados pela produção do evento, na sala onde se reunia o elenco e a equipe do filme. Quando Vin Diesel fez o tradicional discurso de abertura, e perguntou se havia brasileiros na sala, se uma dúzia de mãos se levantou foi muita coisa.

-- Tudo bem, galera! – gritou o gigante gentil, sendo muito aplaudido por todos. A luz apagou-se e fomos ao filme.

* * *

Dia desses, Sérgio Sá Leitão, da RioFilme, escreveu um artigo na página de Opinião explicando porque a realização de um filme como “Velozes e furiosos 5” é importante para o Rio. Disse quanto dinheiro a cidade ganhou e quantos empregos foram gerados. Ora, quando o CEO de uma distribuidora municipal que promove a cidade no exterior se vê obrigado a dar este tipo de explicação, ninguém precisa assistir ao filme em questão para saber que lá vem chumbo.

Dito e feito. “VF5” perpetua todos os clichês dos quais a cidade tenta, a duras penas, se livrar. Ele começa com uma fuga espetacular nos Estados Unidos, depois da qual imagens de jornais televisivos mostram âncoras se perguntando onde estará o meliante. Corta. Linda aérea do Rio, com o Cristo em primeiro plano e todos aqueles etceteras que a gente já conhece. Na sequência, o bandido chega a uma favela onde todos andam armados e têm sotaque espanhol.

Claro: “VF5” foi filmado em Porto Rico. O elenco passou quatro dias apenas no Rio, só para dar um clima, mas para qualquer brasileiro em geral, e carioca em particular, a ambientação é mais falsa do que uma nota de três. Ao contrário de “Bossa Nova”, onde todo mundo tinha vista para a praia de Ipanema, mesmo quando morava no Flamengo, em “VF5” todo mundo tem vista para a favela, mesmo quando mora no Leblon. Tirando as famigeradas aéreas e algumas cenas de favela, nada mais é reconhecível como Rio, a começar pelos veículos da polícia, uns carrões lindos, mas perfeitamente ridículos, diante da realidade.

O suposto dono da cidade é o ator português Joaquim de Almeida, fazendo o papel de um tipo chamado Hernan Reyes (!), sempre vestido de mafioso italiano de filme B. Hernan Reyes fala “Tudo bom” em vez de “tudo bem” e luta tanto contra o seu sotaque luso que consegue o prodígio de soar ainda pior em “carioquês” do que os porto-riquenhos com quem contracena.

* * *

Não entendo isso. Gastam-se milhões de dólares para fazer um filme como “VF5”. Que diferença faria contratar um consultor brasileiro, e meia dúzia de atores locais? Aliás, já que estamos falando em dinheiro, eu gostaria que o Sérgio Sá Leitão me explicasse qual é a vantagem que um filme desses traz ao Rio, já que o grosso da grana fica em Porto Rico? Não seria melhor fazer ao contrário, filmar aqui e esculhambar com San Juan?

* * *

“Velozes e furiosos 5” é absolutamente idiota como dramaturgia, e não resiste a um mínimo de análise lógica. Sei que o público de filmes desse gênero não vai ao cinema para encontrar um bom roteiro, mas o que me espanta é que com os mesmos elementos se poderia fazer algo bem menos tosco. Os bandidos, que na verdade são os mocinhos da fita, moram mal e mal têm o que comer, mas isso não impede que convoquem comparsas do mundo inteiro, que consigam carros tunados, cofres que custam  milhões e equipamento de rastreamento de última geração.


O tom da narrativa segue o clássico estilo “Me Tarzan you Jane” com que Hollywood trata o resto do mundo. Tudo é primário e acintoso, quando não ridículo. A polícia brasileira, mirrada e corrupta até o último homem, está toda no bolso do tal Hernan Reyes. Este, moço precavido que é, só faz negócios em dinheiro, para não deixar rastros. E quando suas bocas são estouradas, qual é a moeda que aparece? Dólar, naturalmente. Para que o espectador dos Estados Unidos, imagino, entenda que aquilo é dinheiro. Argh!

* * *

Todo mundo já disse, eu sei – mas “Rio”, em compensação, é o filme mais lindo e engraçadinho dos últimos tempos. As ararinhas e demais bichos são ótimos personagens, a cidade é tratada com carinho – quem é que não gosta disso, de vez em quando? – o roteiro é simpático, competente e bem escrito. Mesmo que vocês não tenham crianças em casa como desculpa para ver filme de animação, não deixem de assistir. Poucas vezes o custo de um ingresso pagou tanta felicidade.
  

(O Globo, SEgundo Caderno, 21.4.2011)

19.4.11

Um dos cantos favoritos

Uma foto 360 graus!


Meu amigo Ayrton fez uma foto minha em 360 graus, quer dizer, uma foto da minha casa em 360 graus na qual faço figuração. Ficou linda! O apartamento ganhou uma dimensão gigante, maravilhosa (quero descobrir como se faz isso na vida real).


Para ver a foto, clique AQUI.

16.4.11

Lucas

Atrix, o super smartphone


Sanjay Jha

Processador dual-core de 1GHz; 1GB de RAM; display qHD de alta resolução, Gorilla Glass, com cores 24 bits; porta HDMI; leitor biométrico de impressões digitais para segurança do aparelho. Configuração de netbook? Não, configuração do Atrix, o novo smartphone da Motorola – que, além de tudo isso, é lindo e bom de pegada, e tem uma série de 3acessórios inédita no mercado. O Atrix é um Android 2.2 com promessa de upgrade para 2.3 e 16GB de capacidade interna, expansíveis via cartão.

Confesso que, pela primeira vez, acho que estou diante de um substituto à altura do meu já folclórico Nokia N95. Digo isso porque os únicos defeitos que consigo apontar na máquina depois de três dias de uso são a falta de um disparador para a câmera, e a posição do liga/desliga, que fica justamente por trás do leitor biométrico. Este segundo defeito não chega a me incomodar muito, porque não sou animal com ilusões de privacidade, e já tive bastante convívio com leitores biométricos para saber que me dou melhor com senhas.

Outros Androids que vêm por aí têm características similares, mas os acessórios do Atrix o tornam um ser realmente à parte. O pacote básico já anunciado pela Vivo traz uma base multimídia que pode conectar o celular às TVs HDMI e que, ainda por cima, tem duas portas USB. Bom: basta dizer que, no outro dia mesmo, comprei um player de Blue Ray, não porque pretenda trocar todos os meus dois mil DVDs por Blue-Rays, mas porque o player tem uma porta USB fundamental para que eu possa ver o conteúdo dos meus pendrives na tela grande...

O Atrix tem também uma inteligentíssima casca chamada Lapdock, que consiste no seguinte: um netbook perfeito, do qual ele é a CPU. Entenderam? Todas as peças que vêm dentro de um netbook e o fazem funcionar como tal estão, agora, no celular. Basta acoplá-lo à traseira da Lapdock, e voilá! As vantagens de um sistema desses são inúmeras, sendo a mais óbvia a, digamos, concentração da mobilidade. Está tudo junto, num pacote só. Nada de carregar notebook para cá e para lá, pendrives e outras extensões da nossa já tão sobrecarregada memória. Deixa-se a Lapdock no escritório, por exemplo, e anda-se por aí com o Atrix – que, em casa, pode ser conectado ao notebook ou ao desktpo para eventuais atualizações. É a convergência levada a um grau de materialização radical.

Se isso vai funcionar como esperado, ainda não posso garantir, porque não tive tempo suficiente para destrinchar tudo. Mas vi o conjunto funcionando lindamente em São Paulo, por ocasião do seu lançamento, e pretendo que ele repita a performance aqui em casa. De qualquer forma, vocês ainda vão me ouvir falar um bocado desse aparelhinho, cujas possibilidades estou longe de esgotar – assim como do seu primo parrudo, o Xoom (pronuncia-se Zoom), tablet apresentado na mesma ocasião.

* * *

É óbvio que a Motorola de hoje não tem nada a ver com a Motorola de uns anos atrás. A empresa, aliás, tem a curiosa capacidade de reinventar-se periodicamente, e de renascer das próprias cinzas, como uma Fênix tecnológica. Quando os primeiros celulares de fato portáteis chegaram ao mercado, o primeiro a cair nas graças do público foi o Startac. Durante um bom tempo a Motorola surfou sozinha na onda, até que a Nokia tomou conta do mercado e a Motorola submergiu com modelos pouco atraentes, devoradores de bateria. Algum tempo depois, relançou-se como Moto, e apresentou ao mundo o V3, o famoso Razr, um dos celulares mais vendidos da História – e copiado por todas as empresas, mais ou menos como, anos depois, aconteceria com o iPhone. Passada a onda do Razr, a Motorola novamente desapareceu do mapa dos produtos espertos, até renascer com o Android. O Droid (ou Milestone) é o ícone do início desses novos tempos. A empresa agora tem um ramo especialmente dedicado à mobilidade, a Motorola Mobility, e seu CEO, o indiano Sanjay Jha, esteve no Brasil para fazer as honras da casa.

Perguntei a ele o que causou esses ups e downs da Motorola, e como ele pode garantir um up de longo prazo, e ele foi muito sincero:

-- Nós não soubemos fazer a transição do 2G para o 3G, e chegamos muito atrasados ao mercado de câmeras. Não podemos ser arrogantes e achar que o sucesso está garantido. Temos também que ficar alertas, para não perder o momento certo da transição.

Sob este aspecto, a lição foi aprendida. O Atrix é um 4G, prontinho para o futuro.


(O Globo, Segundo Caderno, 16.4.2011)

14.4.11

Ninguém pensou nos jovens



Não, eu não fui ao Theatro Municipal no dia da abertura da temporada da OSB. Muito me arrependo: perdi um espetáculo histórico, uma lição de cidadania e de lealdade dada por jovens instrumentistas solidários com seus mestres e colegas.

Recapitulando, para quem estava de férias em Marte: a nossa Orquestra Sinfônica Brasileira, tal como a conhecíamos, acabou. Metade dos músicos foi demitida pela Fundação OSB, por se recusar a passar por uma avaliação, se não mal intencionada, pelo menos muito mal explicada pelos diretores. A questão é que um bom maestro tem a possibilidade de avaliar seus músicos a cada ensaio, assim como, digamos, um bom editor avalia a sua equipe a cada edição do jornal. Mal comparando, propor a avaliação de toda uma orquestra, nos moldes propostos pela FOSB, equivale a mandar uma redação inteira fazer vestibular de jornalismo.

Bom. Com a OSB no limbo, a abertura da temporada caiu em cima da OSB Jovem, que fez tudo direitinho. Entrou em cena com seus instrumentos, sentou-se e, assim que o maestro, debaixo de vaias, ergueu a batuta, levantou-se em peso e retirou-se do palco, deixando o senhor Minczuk colher a tempestade que tinha plantado.

Representantes da OSB Jovem retornaram ao palco pouco depois, para ler um manifesto, mas a palavra lhes foi negada. O que queriam dizer os jovens?  Leiam o que escreveu Matheus Moraes, um dos membros dessa valente e correta orquestra:

“Por que nós fizemos o que fizemos? Antes de responder a essa pergunta, eu gostaria de fazer uma outra, que me consumiu por noites inteiras: por que o concerto não foi cancelado? As razões pelas quais o concerto deveria ter sido cancelado não cabem numa carta. A OSB está passando por uma crise de proporções nunca vistas. Praticamente toda a comunidade musical se manifestou contra o que está sendo feito pela FOSB. Só de cabeça, a Unirio, a UFRJ, a Fundação Villa-Lobos, a Petrobrás Sinfônica, a Sinfônica do Theatro Municipal, a Ordem dos Músicos do Brasil e o SindMusi publicaram notas oficiais em repúdio. Artistas de calibre internacional se recusaram a se envolver com a orquestra nesse período, como Nelson Freire, Cristina Ortiz, Roberto Tibiriçá, Ana Botafogo, Alex Neoral, Fabiano Segalote e Marina Spoladore, ou manifestaram-se por carta aberta contra as atitudes da FOSB, caso de Isaac Karabtchevsky, Alex Klein, Ricardo Rocha, Allison Balsom e dúzias de outros.

Nós, músicos jovens e (pelo menos no meu caso) pouco experientes, nos vimos na posição de substitutos involuntários de nossos colegas – e em inúmeros casos, também nossos professores, mentores, amigos, exemplos profissionais. Nós sofremos com isso, e não foi pouco.  Nós fomos colocados como defensores das atitudes de nossos superiores. Afinal de contas, se continuamos tocando sob suas ordens e acatando suas decisões, como poderíamos estar a favor de nossos colegas demitidos?

Fora tudo isso, havia o acúmulo de carga em volta do concerto em si. Mais de uma vez, os assinantes das séries da OSB vieram a público manifestar que não queriam, nem haviam pago, para assistir a uma orquestra jovem. É fato sabido que músicos da OSB estariam tocando do lado de fora do teatro em protesto; e que músicos de outros grupos e localidades entrariam no teatro com o único intuito de protestar contra Minczuk e vaiar os músicos.  

Coloquem-se, por um minuto, na situação em que a OSB Jovem se via: seu público dividido entre assinantes desconfiados e músicos hostis, e, do lado de fora, nossos ofendidos colegas e mestres tocando em protesto ao concerto que nós estaríamos executando. Daí a minha pergunta: por que o concerto não foi cancelado? Por que esse concerto foi levado a cabo, até às últimas conseqüências, se tudo e todos estavam contra ele?

A OSB Jovem é um projeto pedagógico; nós estamos ali para aprender. O que poderia ser aprendido sob essas condições? Por que nem um único dos 11 membros do Conselho levantou a questão de o quanto estar naquele palco, naquele dia, seria prejudicial para nós? Colocando de outra maneira, entre Maestro, Fundação, Conselho, patrocinadores, produção e público; por que ninguém pensou na gente?”

Parabéns, Matheus, parabéns, meninos e meninas. Ninguém pensou em vocês, mas vocês souberam pensar por si próprios, e deram aos adultos uma linda aula de coragem e lealdade.

* * *

A essa altura, não há uma só orquestra no mundo que ignore o que está acontecendo no Rio. Entre as centenas de emails que circulam à velocidade da luz pela internet, destaco um trecho de Ole Bohn, spalla da Orquestra Nacional da Noruega, enviado para a garotada da OSB Jovem:

“Como vocês sabem, o único responsável por esta situação é o senhor Minczuk. Ele usou mal o seu próprio instrumento, que são seus músicos. Quando tentou tocar outro instrumento – vocês – ele o maltratou igualmente. Mas vocês se mantiveram firmes e merecem a nossa maior consideração. (....) O que vocês fizeram terá grande impacto no futuro de músicos em todos os países. Vocês nos deram esperança e a prova de que dignidade e respeito ainda são parte da nossa profissão.”

* * *

Pessoas, é dramática a situação dos cães e gatos abandonados do estado, desde as enchentes da Serra. Neste domingo, no Parcão da Lagoa, das 10hs às 16hs, haverá feirinha de adoção, com um bicho mais lindo do que o outro esperando um bípede para chamar de seu. A Ama Animal, que organiza o evento, fará também um bazar beneficente e pede doações de todos os tipos: remédios, ração, caminhas, coleiras e guias, produtos de limpeza e produtos pet em geral. 

Vamos lá?


(O Globo, Segundo Caderno, 14.4.2011)

13.4.11

Flash mob no Canadá

Carta aberta de Nelson Niremberg


Aos Músicos, Conselho e Administradores da Orquestra Sinfônica Brasileira:

Desde tenra idade estou ligado à Orquestra Sinfônica Brasileira. A família Nirenberg é parte da história da OSB.  Meu pai, Prof. Jaques Nirenberg, juntamente com o saudoso Maestro José Siqueira fundou a OSB, e formou diversos de seus integrantes.

Meu tio, Maestro Henrique Nirenberg, regeu, foi Spalla, assim como ensaiou e preparou, para regentes menos aptos, a OSB para as turnês aos Estados Unidos e Europa.

Meu irmão Ivan Sérgio Nirenberg integra a OSB há mais de 30 anos, ocupando a posição de Concertino do naipe violístico.  

Após vencer diversas vezes os concursos para solista da OSB nos anos 60, com ela apresentei-me e fui o criador do Projeto Aquarius em 1970, custando-me dois longos anos para convencer a já, então, inepta administração que este era o momento de renovação de platéias e de associação com as Organizações Globo. Regi e fui solista simultaneamente no primeiro concerto na Quinta da Boa Vista em 14/05/1972, despedindo-me do Brasil e prosseguindo minha carreira nos Estados Unidos e Europa. 

Posteriormente, em 1975, solicitado pelo Prof. Otávio Gouveia de Bulhões e Israel Klabin, fiz um projeto de valorização dos músicos da OSB, com incentivos para aprimoramento e desenvolvimento da Escola de Formação de jovens músicos da OSB, com a participação dos professores da orquestra.  Nada aconteceu.  E retornei por mais algumas dezenas de anos aos Estados Unidos.

Preliminarmente, lamento que a administração da OSB não tenha memória e respeito a nada e com ninguém.  Apenas aproveita os fundos que recebe e poucos sabem como são utilizados. Mas, os salários dos músicos permanecem insuficientes para que se dediquem integralmente.  Mesmo assim, não desistem nunca e, apesar de todas as dificuldades que enfrentam, trabalham com afinco e garra.

Após 30 anos como Professor de Regência e Maestro Titular/Diretor Artístico de várias orquestras profissionais no exterior, tendo sido eleito pelos músicos das orquestras profissionais que dirigi, surpreendeu-me a notícia que os músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira teriam que realizar prova pública de avaliação - a meu ver um novo injusto concurso. 

Jamais soube que um membro de uma orquestra profissional em qualquer parte do planeta, com possível exceção da antiga Alemanha Oriental e da Coréia do Norte, tivesse que fazer provas públicas após seu ingresso na orquestra.

Hoje vejo a destruição de uma instituição septuagenária, por surto de megalomania. A evidente vaidade, a arrogância e o puro interesse de aparecer como ”dono” da música no Brasil no jornal International Musician, lido por empresários e músicos das principais orquestras, oferecendo vagas na glamorosa cidade do Rio de Janeiro, com audições em Londres e Nova York, supera qualquer vontade genuína de elevar a qualidade artística e de fazer Música.

Há de se esclarecer que uma orquestra não é formada por solistas e sim por outro tipo de talento musical.  Um talento especial que permite se agregar e acrescentar à constelação orquestral.  Como no céu existem estrelas de brilhos diferentes, ao observamos o céu límpido notamos que o conjunto destas luminosidades distintas fazem um belíssimo e completo espetáculo. 

Analogamente, a tarefa deste encontro de estrelas musicais, passa a ser do Maestro – catalizador destas energias e brilhos heterogêneos. Mas, caso não compreenda sua função, não tenha o conhecimento, a arte, a sensibilidade e a competência necessárias, jamais poderá elevar o patamar artístico de uma orquestra e sequer ser considerado como tal.   

Não se eleva artisticamente um conjunto, desagregando-o. Basta estudar e praticar música de câmara para se compreender o que é e como deve funcionar uma orquestra sinfônica. Resumindo: diálogo constante.

O músico é um dos poucos profissionais que se expõe e é avaliado em sua labuta diária perante multidões e por seus próprios colegas.  Coincidentemente, a experiência demonstra ser um dos profissionais que mais reconhece suas limitações e o momento de cessar com suas atividades.  Se um regente não conhece seus músicos em curto espaço de tempo, ele é desqualificado para exercer esta complexa profissão.

Assim, jamais se tornaria necessário fazer uma absurda execração pública de profissionais, como a planejada pela administração da OSB, muitos no auge de sua sapiência, quando estão transmitindo todo cabedal de conhecimentos aos jovens colegas e ao público.

Músicos que deram literalmente suas vidas, e, como deveria ser do conhecimento de todos o caso da Orquestra Sinfônica Brasileira, passaram por privações e até momentos de fome, pois a inepta administração não lhes pagava seus salários, merecem respeito. Somente através destes abnegados foi que a OSB conseguiu sobreviver os desmandos  que ocorreram nestes 70 anos de existência.  O momento é de honrá-los, prestigiá-los como artistas que são. Não tratá-los como escória.

Que péssimo exemplo às futuras gerações a administração da OSB oferece.  A moral, a ética e a memória, faltantes em nossos dias, deveriam permear instituições que vivem de tradições e, supostamente, se afirmam, como a OSB, em prol da cultura e educação, e com recursos públicos!

O regente deve ser uma fonte de inspiração artística para seus colegas, um facilitador da linguagem musical, seu trabalho consiste no convencimento de seus colegas através do seu preparo, conhecimento, profunda “artisticidade” e sensibilidade.  Música é sensibilidade, é transformar o ar em sentimentos e emoções que integram todos os recônditos da existência humana.  Pergunto-me como pode alguém fazê-la, interpretá-la, e liderar um conjunto orquestral sendo tão insensível aos sentimentos de seus semelhantes?

Portanto, desejo expressar meu integral apoio aos colegas da Orquestra Sinfônica Brasileira. Lutem por seus direitos, não permitam que injustiças e ditaduras venham a dominá-los. Atos fascistas – NUNCA MAIS.  Excelência alcança-se através de lideranças sensíveis, competentes, direitos assegurados, trabalho e capacidade, capazes de escutar e aprender sempre.

Força e Dignidade,

Nelson Nirenberg

Emergência felina!



Amigos, a nossa Fernanda Lacombe está precisando doar duas ninhadas de gatinhos nascidos no seu condomínio. Os bichinhos são o que há de lindo, e há gatinhos para todos os gostos, inclusive uns siamesinhos muito parecidos com o Lucas quando era bebê. Vejam o que ela escreve:



"Estou divulgando esses gatinhos recém nascidos para adoção. Ao todo são 11 gatinhos. Eles são filhotes de duas gatinhas que moram no meu condomínio e que não conseguimos ainda castrar. Eles estão, no momento, na varanda da casa de uma vizinha, pois ela tem vários cachorros dentro e fora de casa que não gostam de gatos. O problema é que agora eles não estão mais ficando dentro do cestinho e o risco de serem atacados ou irem para a rua é muito grande. E nós não queremos que eles fiquem na rua, pois estamos com um problema no condomínio de envenenamento de gatos por alguns moradores que acham que há uma população muito grande. A Glaucia também está tendo muito trabalho com os bichinhos e, infelizmente, não tem muito tempo para cuidar deles, pois trabalha fora. Eles estão bem carentes de atenção, pois se apegam ao ser humano com muita rapidez. Enfim, quem se interessar é só enviar um e-mail para mim - fernandalacombe@gmail.com ou para a Glaucia (que está cuidando dos gatinhos) - glaucia.canto1@gmail.com"

 

10.4.11

Me dá uma ligada



Ri com a manchete do nosso “Digital & Midia” de segunda passada, “Se for pra mim diz que não estou”, em matéria que o Carlos Alberto Teixeira escreveu sobre a fobia a telefone que vem sendo desenvolvida por tantos usuários nesses tempos de comunicação teclada, de email a SMS, passando por todas as redes sociais possíveis e imagináveis.

É que faço parte de uma vertente diametralmente oposta de bípedes, aqueles que mal abrem as caixas postais, odeiam SMS e, cada vez mais, só se comunicam pelo telefone.

Quando abri a minha primeira conta na internet vocês não eram nem nascidos, e ter uma caixa postal era algo de fato emocionante. Normalmente a gente trocava email com outros malucos que já tinham descoberto a internet, e que freqüentavam os mesmos fóruns da Usenet.

Gente de todas as partes do mundo, com muita coisa em comum. Era um tempo de inocência tecnológica, em que era possível dar a volta ao mundo hospedando-se nas casas de outros usuários da rede, apenas por termos trocado dois emails. Eramos tão poucos que os nossos perfis eram forçosamente parecidos.

Um dia, naqueles tempos, saí para jantar com um grupo de amigos, e a certa altura um deles disparou:

-- Você está aqui jantando com a gente, mas a sua cabeça está na porcaria daquele computador, não é?

Era verdade. Eu estava imensamente curiosa em saber o que havia chegado à caixa postal. Nos dias mais movimentados, chegavam até dez emails! Até hoje tenho amigos que nunca encontrei na Islândia, na Escócia, na Austrália, na Alemanha. O próprio CAT, que escreveu a matéria de segunda-feira, viajou como ninguém nessa época, batendo às portas dos amigos virtuais nos quatro cantos do planeta e sendo sempre recebido de braços abertos.

Para quem viveu essas caixas postais emocionantes, não há nada mais desanimador do que abrir as caixas postais de hoje, cheias de spam, de promoções e materiais que não são exatamente spam, de apresentações de slides engraçadinhas e alertas sem noção, onde se perdem os bilhetes de quem está logo ali na esquina e poderia mais facilmente dar um telefonema.

Para quem é jornalista a coisa fica ainda pior, porque nos tempos em que as mensagens viajavam apenas pelo correio, as assessorias de imprensa filtravam o que vinha para cada um de nós. Com a facilidade do email, porém, recebo releases sobre celebridades de quem nunca ouvi falar e dezenas de coisas que não me interessam, de novas cores de esmalte a peças automotivas.

A morte do email já é dada como certa por alguns futuristas. Eu não aposto tão alto, mas acho que vamos ter de encontrar um jeito para conviver com esse excesso de informação. Amigos que conhecem a minha aversão à mailbox avisam pelo Twitter ou pelas caixas de comentário do blog quando me enviam algo importante para o Gmail.

O problema com o SMS, por sua vez, é que nem todo mundo têm talento para teclar em espaço tão miúdo – e eu me incluo nesse grupo. Sou bastante fluente no T9 que se usava nos teclados numéricos, mas péssima no teclado virtual dos touch-screens, exceção feita aos Android com swipe, forma menos dolorosa de digitação.

Assim, o círculo se fecha, e há uma resposta totalmente nova e revolucionária à clássica pergunta “Qual é o jeito mais fácil de eu me comunicar com você?”: pelo telefone, é claro.

O único ponto negativo disso é que, por “telefone”, hoje, deve-se entender “celular” – aquele objeto convenientemente pequeno, que está sempre ao meu lado, dia e noite, levando metade da minha vida: conexão à internet, fotos, agenda, música, diversão e até um pouco de trabalho.

Em países que já entenderam a importância deste objeto, os custos do seu uso são razoáveis; no Brasil, onde a ficha demora séculos para cair (quando cai), o custo é um dos mais altos do mundo. Resultado? No tempo da comunicação instantânea e universal, a comunicação, para a minha tribo, virou artigo de luxo.

* * *

As fotos são uma seleção do que andei postando no Instagram por esses dias – à sua maneira, uma outra volta ao passado, que está fazendo todo mundo ver o mundo novamente em 6 x 6, o clássico formato de filme das Rolleiflex & similares.  


(O Globo, Economia, 9.4.2011)

7.4.11

Sobrou para os gatos



Costumo escrever a crônica entre segunda e terça. Na semana passada, às oito da noite da terça, eu ainda não havia conseguido uma única linha. Tinha começado e recomeçado, experimentado um assunto e outro, mas faltava liga a tudo. Grande problema! O Segundo Caderno de quinta-feira é fechado relativamente cedo na quarta. Como sou um animal noturno, ter essa manhã à disposição significa apenas que posso entrar pela madrugada à vontade, vale dizer uma terça espichada.


Andei pela casa, brinquei um pouco com o Toró (que, como todo filhote, está sempre disposto a correr atrás de umas bolinhas de papel) e me deitei no chão da sala, olhando para o teto – lugar de onde, curiosamente, sempre vem alguma inspiração.


Dessa vez, nada.


Fui à geladeira, pesquei um cachinho de uva, voltei para o escritório e, em absoluto desespero de causa, resolvi, pura e simplesmente, descrever o espaço onde me encontrava emocionalmente: o fundo do poço.


A crônica foi escrita de forma singela, mais ou menos como, na escola, escrevíamos as redações com tema dado pela professora, como “Minhas férias” ou “Um dia de sol”. Eu nunca poderia imaginar a sua repercussão, muito menos a quantidade de emails cheios de preocupação e carinho que recebi de leitores que, embora não conheça, são meus amigos.


Agradeço a todos de coração. Tenho esperança de, um dia, conseguir responder a cada um, pessoalmente -- mas confesso, desde já, que há um certo otimismo nessa esperança. Assim peço que, por favor, não imaginem que não dei valor às suas palavras se por acaso não receberem resposta; saibam que, ao contrário, elas foram da maior importância, e me deram alento num momento muito difícil da vida.

* * *

Entre tantos emails e mensagens no Twitter, no Facebook e no blog (só lá foram 170 comentários), fiquei espantada ao descobrir como tenho vizinhos e colegas de profundeza. Como constatou a Monca, quando os comentários do blog andavam mais ou menos pela metade:


“Mon Dieu! Olhando daqui, o fundo do poço parece um continente superpovoado.”


Também fiquei com essa impressão; e, no fim da semana, depois de ler tantos emails aflitos e confessionais, acabei mesmo com a certeza de que ir ao fundo do poço é muito mais freqüente do que se imagina. Se não percebemos isso no dia a dia é que quem está no fundo do poço aprende a disfarçar.


A tristeza, ao contrário da depressão, é uma emoção relativamente simples de explicar e de entender. É o avesso da alegria, e em geral suas causas são compreensíveis por todos, por triviais que sejam. Tristeza se cura com uma noite bem dormida, com um ombro amigo, com meia dúzia de chopes, com uma ida ao shopping.


O fundo do poço, porém, é mais complicado. Quem está lá (aqui) embaixo enfrenta alguns preconceitos, a começar por uma auto cobrança cruel, em que a gente se culpa de não estar “reagindo”, como tanto recomendam os amigos.


É preciso parar tudo para por os pingos nos ii: alguém pode “reagir” contra uma perna quebrada? Não, claro que não. Pode-se tratar da perna quebrada – mas é mais fácil cuidar de uma perna quebrada que está bem à vista de todos do que da descida ao fundo de um poço que ninguém vê.

* * *

Do outro lado da caixa postal, aquele que não foi ao fundo do poço, as coisas também não andam nada boas. Acompanho a luta constante dos protetores e das ONGs de defesa animal para educar a população nas suas relações com os bichos. É uma dura batalha contra a maldade, o preconceito e a idéia de que bichos são objetos que podem ser abandonados de qualquer jeito, em qualquer lugar.


Pois na segunda, essa luta tão digna sofreu um grave revés. Numa cena da novela “Insensato coração”, a personagem da Camila Pitanga vê um gatinho lindo em cima do capô do carro e pede à amiga que o pegue, porque ela está grávida:


-- Eu não posso pegar não, pega para mim, Claudinha?


-- Você não adora gato?


-- Eu adoro, mas não posso. Não posso nem chegar perto. A Sônia disse, eu corro risco de pegar toxoplasmose, é perigoso.


A cena está no You Tube, onde a vi, na terça, depois de receber uma enxurrada de emails indignados – e com toda a razão. Se pegar em gatos durante a gravidez fosse perigoso, todas as veterinárias grávidas estariam correndo risco. Felizmente, elas são bem informadas e sabem que só se pega toxoplasmose dos gatos ingerindo as suas fezes; e, para tornar o processo ainda mais complicado, desde que eles, gatos, estejam contaminados com a doença.


O diabo é que uma cena desinformada dessas, em pleno horário nobre, joga por terra anos de trabalho educativo. Não gosto nem de pensar na quantidade de gatos que serão abandonados – ou deixarão de ser adotados -- porque alguém ouviu na novela que as grávidas não podem sequer se aproximar deles!


Só para esclarecer: no Brasil, a principal causa de toxoplasmose é a ingestão de hortaliças mal lavadas e de carne crua ou mal passada. Às grávidas recomenda-se -- como, aliás, a todo mundo – lavar bem as mãos depois de limpar a caixa de areia dos gatos. E isso por noções básicas de higiene, e não por medo de toxoplasmose, que não dá em gato doméstico que come ração.


Para quem quiser maiores informações sobre a conexão entre gatos e toxoplasmose: http://bit.ly/eNUFcD. Este link leva, entre
outros posts, a uma crônica que publiquei aqui mesmo em setembro de 2003. 


Faz tempo que a gente bate nessa tecla.




(O Globo, Segundo Caderno, 7.4.2011)