30.9.10

Colinha para as eleições

















O Globo fez uma colinha muito engenhosa e fácil de usar, ótima para relembrar os nomes dos candidatos, ou para quem sabe o nome  mas não tem o número.

Fica AQUI.

Eu sou você amanhã: será?


  
Sempre que se fala em Olimpíada no Rio de Janeiro, a primeira cidade lembrada é Barcelona: Barcelona era uma cidade em decadência antes dos jogos, ninguém visitava Barcelona, o porto de Barcelona era infecto, a segurança de Barcelona também era precária... Eis que se realizaram as Olimpíadas e presto!, de ruína urbana Barcelona virou destino obrigatório para turistas descolados, exemplo vivo do que um evento esportivo pode fazer por uma cidade detonada.

Outra cidade muito lembrada é Londres, que vai sediar as Olimpíadas do ano que vem. Mas será que é mesmo para essas cidades que deveríamos olhar? Barcelona é muito menor do que o Rio e nunca teve problemas tão sérios quanto os nossos. Já a capacidade de organização inglesa é ligeiramente diferente da brasileira; basta dizer que, em Londres, as obras estão adiantadas em relação ao cronograma!

Tenho a impressão de que faríamos melhor olhando para Nova Delhi, onde começam, neste domingo, os jogos da comunidade britânica, os Commonwealth Games, que a cada dois anos reúnem as ex-colônias inglesas durante dez dias de esporte de alto nível. Nem que seja para pôr as barbas de molho e aprender como não fazer.

Nova Delhi ganhou a corrida para sediar os jogos em 2003 – e deitou-se sobre os louros até 2008, quando a burocracia começou, enfim, a discutir o que, como e quando construir. Quando estive lá, há um ano, a cidade parecia um canteiro de obras. Não havia praticamente calçada intacta – as velhas calçadas estavam sendo removidas para dar lugar a novíssimas calçadas, perfeitas e sem buracos.

Mas, no começo dessa semana, faltando menos de dez dias para o começo dos jogos, as calçadas – segundo o noticiário -- continuavam na mesma. Já o orçamento inicial das obras passara de US$ 405 milhões para US$ 2,5 bilhões, com a possibilidade de chegar a estarrecedores US$ 15 bilhões, na esteira de uma corrupção nunca antes vista na história daquele país.

Das 34 torres de alojamentos para as delegações, apenas 18 estavam prontas e, ainda assim, com ressalvas: de acordo com o chefe de missão escocês, os apartamentos visitados por ele eram “impróprios para habitação humana”. Os banheiros vazavam, as descargas não funcionavam e as instalações elétricas eram precárias ou inexistentes.

Sheila Dikshit, ministra chefe de Nova Delhi, garantiu, no começo da semana, que na quarta-feira (ontem!) praticamente todos os apartamentos estariam prontos. Mas, ainda que isso venha a acontecer, os problemas da Vila do CWG não terão acabado. Desobedecendo aos conselhos de arquitetos e urbanistas, que recomendavam outra localização, as torres foram construídas às margens do rio Yamuna. A cidade vem de um período de seca e o pobre Yamuna, no mais das vezes, é um tímido leito de água que não ameaça ninguém.

Só que, este ano, para atrapalhar ainda mais as já atrapalhadas autoridades, a Índia teve as piores monções em três décadas. O Yamuna transbordou, alagou parte do complexo esportivo e deixou, na vazante, sinistras poças de água parada, de onde saíram nuvens de mosquitos carregando uma epidemia de dengue, com mais de cem casos registrados até agora.

Não foi tudo. Por causa da construção feita às pressas, uma passarela que levava do estacionamento ao estádio Jawaharlal Nehru – onde será realizada a cerimônia de abertura – veio abaixo, ferindo 23 operários. O teto da arena de boxe desabou. Pelo menos um dos estádios programados para os jogos, o Shivaji, já foi descartado, porque os próprios responsáveis pela construção reconheceram que não ficaria pronto a tempo.

A imprensa indiana denunciava o estado das obras há tempos, mas lá, como cá, o governo tende a achar que qualquer notícia que não seja a favor é pura conspiração. Foi preciso que vários atletas de renome se recusassem a ir aos jogos, alegando motivos de saúde e de segurança, e que os delegados estrangeiros pusessem a boca no trombone, para que, enfim, alguém tomasse uma atitude.

Até o começo da semana, ninguém tinha certeza se os jogos seriam ou não realizados. Houve pressão de todos os lados, o primeiro ministro Manmohan Singh pisou firme, alguns funcionários foram demitidos, outros contratados. Levas de trabalhadores foram recrutadas para limpar o entulho; diretores e gerentes de hotéis cinco estrelas foram chamados às pressas para ajudar no que fosse possível.

Na segunda-feira, finalmente, menos de uma semana antes da abertura dos jogos, apareceu na internet a primeira foto de um quarto limpinho, bonitinho, com duas camas cobertas com lindas colchas temáticas alusivas aos jogos. Ao mesmo tempo, as primeiras delegações começaram a chegar à capital indiana mas, pondo as barbas de molho, instalaram-se em hotéis, até que as chefias dessem sinal verde para a Vila do CWG.

Os dramas da realização dos Jogos de Delhi não terminam (e nem começam) aí. Decidida a mostrar uma fachada civilizada para os visitantes, a prefeitura decidiu tirar das ruas 250 mil cães, 45 mil vacas, 350 mil vendedores ambulantes, 120 mil mendigos, 80 mil moradores de rua, para não falar em números não quantificados de camelos, cabras, carneiros e elefantes. Não se sabe em que pé está isso.

E nós com isso? Espero que nada. Mas espero, também, que as autoridades responsáveis por Copas e Olimpíadas estejam acompanhando o que acontece em Nova Delhi, para ver como pode dar errado o que dá errado.

(O Globo, Segundo Caderno, 30.9.2010)

27.9.10

Boa notícia!





















Vejam só que coisa boa: Morceguinha foi encontrada! Estava andando pelo Centro, foi vista por alguém que tinha visto o apelo e, pouco depois, estava em casa.

Detalhe: ela tinha sido resgatada, escapou do lar temporário onde a Ivone estava cuidando dela para pô-la para adoção, mas, agora, não vai mais embora -- depois dessa aventura toda, já garantiu casa e comida. 

Um clic na Camerata


Para vocês, em primeira mão, a foto oficial da Camerata, com o violoncelo consertado em lugar de destaque! Faltam algumas pessoas, que posteriormente serão adicionadas graças às artimanhas da tecnologia. A foto foi feita por Bruno Jatobá Descaves.

Olhem só quem foi à praia...


iPhone: aplicativos mais votados



Como é que a gente vivia antes do Twitter e do FaceBook? Por exemplo: essa semana, eu quis saber quais são os aplicativos para iPhone que as pessoas mais têm usado. A resposta foi instantânea. Sim, é verdade que nos (não tão) velhos tempos também não seria difícil descobrir isso saltitando pelos fóruns de iPhone, mas, ainda assim, a velocidade que as mídias sociais trazem à resposta de qualquer dúvida é impressionante...

E qual foi o resultado da pesquisa? Naturalmente, no Twitter todo mundo respondeu que o seu aplicativo favorito era o Twitter, ou uma das ferramentas tuiteiras, como o Echofon e o Twitterrific; e no Facebook, todos responderam que era o aplicativo do Facebook. De modo que reformulei a pergunta, deixando o óbvio de fora.

O mais votado foi o Shazam, favorito dos amantes de música: ele é capaz de identificar qualquer música que “ouça” e prontamente traz à tela um mundo de informações a seu respeito.

Outro muito bem votado, para minha surpresa, foi a previsão do tempo nativa do iPhone. Confesso que este eu sempre chutava pra longe e agora, depois de tantas boas opiniões, trouxe de volta à tela principal e passei a consultar. Outras duas aplicações nativas bem cotadas são o Mail, caixa postal muito competente, e o Mapas (uma das minhas preferidas).

Três lindos brinquedinhos fotográficos: Morelomo, que imita direitinho uma Lomo; Pano, o melhor de muitos aplicativos que fazem panorâmicas (até 16 fotos!); e Color Splash, que recentemente foi indicado pela Apps Store. Este permite que a gente transforme uma foto a cores em PB, e mantenha apenas um detalhe em cores (vide foto). É muito eficiente e fácil de usar – o segredo é ter paciência.

Entre os games, Angry Birds é o sucesso do momento, mas Futebol de Botão, que eu nem sabia que existia, teve um voto solitário, que menciono pelo exótico.

O Skype, previsivelmente, foi muito votado. Os aplicativos de leitura, como o NYTimes e o iBooks, também, assim como ferramentas de trabalho como o DocScanner (um verdadeiro scanner de bolso) ou o Dropbox (para sincronizar arquivos com o computador), e dicionários como o Longmans, o Dictionary.com, o Aurélio (que já tem o novo acordo ortográfico) ou o Larousse.

A turma que viaja recomendou o Kayak, que faz buscas de vôos e controla aqueles que você marcou (basta enviar o e-tkt por email) e o 4Rodas; para sonhar com o mundo e se localizar, Google Earth.

Imperdível para quem gosta de cinema é o Cine Mobits, que traz a programação de todos os cinemas brasileiros, com nome original do filme, diretor, elenco, sinopse e até trailer, uma perfeição – e grátis, ainda por cima.

Foram, enfim, muitas revelações. Aos poucos, vou trazer o resto dos aplicativos mencionados para vocês. E, como sempre, agradeço de coração às minhas simpaticíssimas e super prestativas turmas do Twitter e do Facebook.


(O Globo, Revista Digital, 27.9.2010) 

25.9.10

Brinquedinho bom


Que tal isso, não é interessante? É um aplicativo do iPhone chamado Color Splash. Bem fácil de usar... 

Fala, Laura!


Para não dizerem que não aviso nunca: Concerto da OBU (a Orquestra Barroca da Unirio) no domingo agora, dia 26, às 11hs. Entrada franca (e risonha!).


Reestréia do cello consertado; execução de peça do barroco sueco (quem já ouviu?). 


Ocasião rara de ver os garotos bem vestidos! 


Onde? 


Anotem aí: 


MIDRASH CENTRO CULTURAL
Rua General Venâncio Flores, 184
Leblon - Rio de Janeiro - RJ
55 (21) 2239-1800

23.9.10

Viva o Ribondi!!!

Atenção, pessoas -- vejam que recado maravilhoso acabo de receber:
"Cru saiu do Festival do Rio (que terminou hoje) com prêmio de melhor texto, melhor ator para Chico Santanna, melhor figurino, melhor ator coadjuvante e melhor direção. Além disso, foi indicado para melhor ator Sergio Sartorio (que empatou com o Chico e foi desempatado na hora de tirar a nega)."
Iuhuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!
 

Emergência canina!

Escreve a Ivone, uma leitora do jornal, pedindo ajuda:

"Morceguinha é uma cadelinha vira-lata muito dócil, pequena e assustada. Ela fugiu no dia 12/09/2010, em Laranjeiras. Procuramos por ela durante toda a semana incansavelmente. Uma das pessoas que ajudam a procurá-la chegou a vê-la atravessando a pista do Aterro para a calçada do restaurante Amarelinho na Glória, no dia 17/09/2010. Dia 21/09, pela manhã, uma pessoa viu Morceguinha no centro do Rio, atravessando a 1º de Março, da Praça XV para a 7 de setembro e disse que ela andou até a rua da Quitanda, mas como a pessoa entrou na rua da Quitanda, não a viu mais.

Alguns olham esta foto e pensam que Morceguinha não tem rabo, mas é por ela mantê-lo sempre entre as patinhas. Ela tem grandes orelhas, sempre levantadas, o focinho meio ruço, e os mamilos grandes, como se estivessem inchados. No dia em que fugiu, ela usava uma coleira vermelha de nylon, mas não sabemos se ainda está com ela, pois alguém pode ter retirado, de tão mansa que é nossa Morceguinha. E como ela deve estar assustada, perdida e insegura..."

Corda bamba

Mundo animal



Na manhã do dia 2 de setembro, cerca de 80 alunos das turmas 55 e 56 do curso de medicina veterinária da Universidade Federal de Goiás assistiram a uma palestra do professor de medicina preventiva e do veterinário responsável pelo Centro de Controle de Zoonoses de Aparecida de Goiania. A idéia era que aprendessem como vacinar um cão, já que, no dia 18, participariam da campanha de vacinação antirrábica da cidade.

Terminada a parte teórica, passou-se a parte prática: os alunos formaram duplas para treinar a vacinação. Enquanto um segurava o animal, o outro o vacinava. Tudo certo e civilizado, não fosse por um detalhe: havia apenas cinco cachorros para 80 alunos. Cinco cachorros jovens, saudáveis, retirados do CCZ de Aparecida de Goiania. Que foram vacinados cinco vezes cada um, num crescendo de pânico e de sofrimento; e que, depois, foram friamente assassinados.

Esta aula de crueldade e de estupidez poderia ter sido evitada de inúmeras formas, mas, pelo visto, numa aula de veterinária!, ninguém se preocupou com os cães martirizados. A falta de ação dos alunos em prol dos animais é, claro, menos grave do que a dos professores, que deveriam dar exemplo e ensinar, entre outras coisas, o respeito à vida e ao sofrimento alheios.

Esses professores indignos do nome também não se preocuparam em transmitir a seus alunos o conhecimento do primeiro parágrafo do artigo 32 da lei 9065/98, fundamental no cumprimento da sua futura profissão:

“Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:
Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.
§ 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.”


Espero que as entidades de proteção a animais de Goiás tomem as devidas providências para processar os professores, o CCZ, a universidade e demais responsáveis, não só por violação da lei 9605/98, mas também por estarem usando o dinheiro do contribuinte para cometer crime. Assim, quem sabe, os alunos de veterinária da Universidade Federal de Goiás talvez aprendam que -– apesar do que se vê em Brasília, do que se lê nos jornais, do que se vê à nossa volta -- nem todos os crimes ficam impunes no país.

* * *

Numa troca de emails com a Bia, minha amiga Ana Yates, protetora de animais, foi direto ao ponto:

“Infelizmente, isso se repete no Brasil inteiro. Os Centros de Controle de Zoonoses são fornecedores de animais para as mais horrendas e desnecessárias práticas que, pasme, ainda são comuns em escolas de veterinária. Como é possível formar um profissional que se propõe a tratar e a salvar seres vivos, maltratando e matando seus "clientes"? É por isso que, com frequencia, esbarramos em veterinários incompetentes e insensíveis, que não respeitam e banalizam a vida dos animais.”

* * *

O respeito pela vida não é maior no Rio. Teria sido bom encontrar algum motivo para comemorar o Dia da Árvore, mas, para onde quer que se olhe, o que se vê é o mais completo descaso pela natureza. Há algumas semanas, um grupo de moradores da Lagoa subiu o Parque da Catacumba e fincou, lá no alto, uma bandeira do Brasil. O ato foi motivado pela devastação que vem acontecendo desde o final do ano passado, quando eles foram acordados pelo barulho de motoserras.

Estava em curso o que foi definido pelas autoridades incompetentes como “plano de manejo”, uma idéia de jerico travestida em nome politicamente correto. Decidiram essas autoridades que a única vegetação que merece espaço é a nativa; tudo o que for exótico (ou exógeno, outro nome pomposo) é descartável. Ora, como as pobres árvores que cresciam no topo da Catacumba não eram, dizem, autóctones (!), foram abaixo. Não importa que fossem bonitas e crescidas, com troncos de mais de meio metro de diâmetro, e que estivessem cumprindo, ali, os importantes papéis de conter a encosta e servir de moradia aos animais silvestres.

Na época, depois de discussões acaloradas, as autoridades concordaram em dar uma trégua à derrubada. Ficou combinado que uma reunião seria marcada em data oportuna, para que se chegasse, eventualmente, a uma solução benéfica para todos (árvores e animais incluídos). Em março e abril, o desmatamento teve conseqüências sérias: durante as chuvas torrenciais, toda aquela área do parque veio abaixo (e abaixo continua, à vista de quem quiser conferir).

Tem mais. Desde o primeiro ataque das motoserras, a fauna local diminuiu visivelmente. Os micos foram embora, os gambás sumiram, os tejus estão virtualmente extintos.

Apesar disso, há algumas semanas, as motoserras voltaram –- sem nenhuma reunião, nenhuma explicação das autoridades, nada. Um trecho do morro, que equivale a uns três campos de futebol, virou clareira. As árvores mortas, cortadas, estão lá em cima, secando ao sol, numa fogueira que só espera a próxima queda de balão; as árvores novas ainda são um paliteiro, incapaz de segurar encosta ou abrigar pássaros e outros bichos.

Os moradores estão desconsolados. Não se conformam nem com a matança das velhas árvores, nem com a falta de respeito de que foram vítimas. Mas também, pudera: são cidadãos que ocuparam o espaço que ocupam legalmente, pagaram caro pelos seus apartamentos e gastam uma pequena fortuna anual em IPTU. Otários.


(O Globo, Segundo Caderno, 22.9.2010)

20.9.10

Awwwwwwwwwwww...

Recortei há tempos de um jornal inglês

Keaton, cansada de ser estrela

Brincadeirinha com a Keaton

iPhone 4: a noite da social

Quinta-feira, dia 16, 22h30, Barrashopping: corredores vazios, lojas fechadas. Aqui e ali um comerciante atrasado confere uns papeis ou arruma umas coisas, mas, no geral, o shopping se prepara para a noite. Quem tem um mínimo de discernimento busca a saída mais próxima, certo? Hmmm... quase certo, exceto pelo detalhe da data. Explico: é que, à meia-noite, começava o dia 17, primeiro dia de venda do iPhone 4 no Brasil – e, do lado de fora da loja da Vivo, nesse fim de expediente, já havia uma fila considerável, à qual se juntavam ainda malucos que não paravam de chegar.

Desde que a Microsoft inventou a moda da venda à meia-noite, ainda no milênio passado, não se faz mais um lançamento para geeks em horário normal; assim é que as filas noturnas viraram tradição tech. Para quem está de fora, parece programa de índio. Qual é a diferença entre comprar um sistema operacional ou um celular à meia-noite do primeiro dia de vendas ou às dez da manhã do mesmo dia ou – vá lá -- às quatro da tarde do segundo dia? Ou, esconjuro!, em algum momento do terceiro dia?!

Também já pensei assim, especialmente em relação às filas mais radicais, em que cidadãos montam acampamento às portas das lojas, e passam dias dormindo no chão pelo prazer (?) de ganhar umas poucas horas de dianteira em relação aos seus semelhantes. Continuo desconfiada que essa relação custo x benefício não compensa, mas hoje acho engraçadas as filas menos sofridas. A questão é que ter o produto é só um detalhe; o divertido é encontrar outras pessoas com a mesma determinação e o mesmo gosto pela novidade. O barato é a festa, a social.

Aqui no Rio, estar entre os primeiros proprietários do iPhone 4 foi um pouco mais complicado do que na maioria das outras cidades: as duas lojas que deram plantão para agradar aos aficcionados estavam em shoppings – a já mencionada Vivo no Barrashopping, e a loja da Tim no New York City Center, também na Barra, onde – diziam -- a fila dobrava a esquina. E em shoppings, como é sabido, não se entra depois do horário de fechamento.

A estratégia de lançamento do iPhone 4 foi, portanto, um pouco diferente da vida selvagem habital. Os clientes interessados tiveram que se inscrever previamente para o lançamento, e seus nomes estavam na portaria. Nas lojas, eram esperados com coquetéis e salgadinhos chiques; mas quem queria saber de coquetel? O negócio era correr para a fila, para pôr logo as mãos no cobiçado celular...

Depois, sim, tudo era festa. Os vendedores, que poderiam estar aborrecidos com as longas horas extras, estavam entre os mais empolgados: tiravam fotos das filas, da decoração e uns dos outros. Para eles, afinal, aquele também era um momento ansiosamente aguardado: há meses só se fala em iPhone 4 no mundo celular. A madrugada ia alta quando voltei para a planície, mas as lojas continuavam bombando na Barra.


(O Globo, Revista Digital, 20.9.2010)

19.9.10

Uma teoria do Ribondi

"Teoria universal da timidez das canetas: quando o telefone toca, todas as canetas, tímidas feito elas só, se escondem. As que não conseguem se esconder, e são apanhadas, ficam tensas e bloqueiam. Não adianta esfregá-las em papel: elas não liberam a tinta."

(Alexandre Ribondi)

16.9.10

Da série "Eu amo a minha cidade"

Está bonita a praia...

As peças da engrenagem



A cidade chinesa de Dongguan, no delta do rio Pérola, fica a uma travessia de barca da fervilhante Hong-Kong, mas a uma distância incomensurável das aldeias vizinhas, de onde vem o grosso da sua população. Dos seus quase sete milhões de habitantes, mais de cinco milhões saíram do campo, onde a vida pouco mudou ao longo dos séculos.

Muitos desses migrantes deixam a zona rural ainda adolescentes, fugindo da miséria e da falta de possibilidades dos vilarejos. Na cidade, adotam rapidamente novos costumes e transformam-se em mão-de-obra escrava – ou quase isso. Vários chegam a perder os próprios nomes, já que, para burlar a fiscalização que proíbe o trabalho de menores, usam carteiras de identidade de parentes ou amigos mais velhos.

Lu Qingmin, por exemplo, saiu de casa aos 16. Com dois anos de curso técnico, além do ensino básico, era uma das pessoas mais bem preparadas da sua aldeia. Ainda assim, por causa da idade, teve que aceitar o primeiro emprego que apareceu, numa fábrica de eletrônicos. A jornada de trabalho ia das oito da manhã à meia-noite, era proibido conversar na linha de montagem, as folgas eram raras e o salário mensal não passava de 50 dólares, sendo os dois primeiros meses retidos pela fábrica a título de “garantia”, para evitar o abandono do emprego antes de um ano de serviço. No alojamento infecto, cada quarto era dividido por 12 operárias; a alimentação era ruim e insuficiente.

Depois de dez meses massacrantes, Lu Qingmin abandonou o emprego e, graças à sua boa caligrafia, conseguiu se livrar da linha de montagem. Foi contratada como auxiliar de escritório em outra fábrica, trabalhando “apenas” dez horas por dia, e ganhando cem dólares mensais. As condições do alojamento, onde cada quarto era dividido por oito operárias, também eram melhores, assim como a comida. Mais tarde, trocou essa segunda fábrica por uma terceira, e assim sucessivamente, até chegar a um salário menos cruel.

Lu Qingmin é uma das personagens que Leslie T. Chang acompanha em “As garotas da fábrica” (Intrinseca, 373 páginas, tradução de Clovis Marques), um dos melhores livros da temporada, mais empolgante do que qualquer obra de ficção. Americana de origem chinesa, fluente em mandarim, Chang foi correspondente do “Wall Street Journal” em Pequim durante dez anos, e na sua busca pelo lado humano do crescimento econômico da China, passou três anos indo e vindo de Dongguan, onde alugou apartamento, visitou fábricas com mais de 70 mil funcionários e conheceu incontáveis moças como Lu Qingmin, que entram e saem do livro como entram e saem dos empregos e das vidas umas das outras.

Num lugar como Dongguan, onde nada é permanente e tudo muda mais rápido do que se pode perceber ou registrar, a coisa mais fácil do mundo, diz Chang, é perder alguém de vista. Pessoas vão e vêm e, na maioria das vezes, ninguém sabe nada a respeito de ninguém, exceto o nome (frequentemente falso) e um número de telefone. Quando um celular é perdido ou roubado, por exemplo, todas as relações desaparecem junto com ele, e é preciso começar a construir um novo círculo social a partir do zero. Leslie Chang ficou frustrada por perder de vista diversas entrevistadas, mas, não obstante, conseguiu traçar alguns perfis notáveis.

A própria Dongguan, pautada pelos horários e necessidades das fábricas, adquire, em seu livro, dimensões de personagem. Durante o dia, quando os migrantes estão sendo esfolados nas de montagem, lembra uma grande cidade fantasma, com as ruas desertas; à noite ganha vida, carrocinhas de comida, camelôs, aulas de inglês e de informática para quem ainda tem energia depois da árdua jornada de trabalho.

Mergulhada em corrupção, é povoada por figuras sinistras que passam a vida aplicando golpes nos ingênuos migrantes roceiros, de professores que sequer falam as línguas que se propõem a ensinar a vendedores de produtos milagrosos, passando por empreendedores que trabalham em sistemas de pirâmides a empresários ligados a bordéis. Dongguan é, aliás, a capital chinesa da prostituição, carreira de tantas moças que não suportam o cotidiano das fábricas; como o mundo é muito mais igual do que diferente, elas exercem seu ofício em bares de caraoquê, salões de massagem, saunas...

Chang escreve com simpatia, sem tecer julgamentos. Acima das ásperas condições da vida em Dongguan, brilha a determinação das moças, com suas ambições, suas relações conflitantes com as famílias que deixaram para trás, seus namoros, seus sonhos, suas vitórias e derrotas. O mais extraordinário é que, apesar dos pesares, a vida na cidade ainda representa, para muitas delas, uma efetiva forma de ascensão social, e o único caminho para a liberdade.

Uma outra saga de migrantes atravessa a das garotas da fábrica, como uma espécie de livro dentro do livro: é a busca de Leslie Chang por suas raízes. As idas e vindas de sua família, vítima da Revolução Cultural, acompanham as idas e vindas da própria História chinesa. Já não há ninguém da família na antiga aldeia e a casa ancestral desapareceu, mas de fragmentos de memória se reconstrói, afinal, o que foi.

* * *

Vocês se lembram da mostra do cinema indiano contemporâneo na Caixa Cultural? Pois foi um sucesso tão grande que, além da sala inicialmente programada, ocupou também uma segunda sala – e, agora, vai ter repescagem na Cinemateca do MAM. A mini-mostra, com oito filmes no total, começa hoje, e vai até o próximo dia 26. A entrada é gratuita.


(O Globo, Segundo Caderno, 16.9.2010)

14.9.10

O lançamento do ano



Cut&Paste do release, que explica tudinho:
"Será nesta quarta-feira, dia 15 de setembro a partir das 19 horas, na livraria Argumento do Leblon (rua Dias Ferreira, 417 - Leblon - Rio de Janeiro), o lançamento de POEMAS REUNIDOS de GERALDO CARNEIRO, volume que abrange mais de 30 anos de seus escritos, numa celebração assinada pela Biblioteca Nacional em co-edição com a Nova Fronteira. Um telão mostrará o filme “Miragem em Abismo” de Eryk Rocha, que traz atrizes como Mariana Ximenes e Ana Paula Pedro lendo seus poemas; em outro telão, um filme de Jorge Brennand entrevistando o poeta em três diferentes épocas: aos 35, aos 45 e aos 55 anos. E para confundir todas as épocas, veremos Grande Otelo, de casaca prateada, bem no estilo do Cassino da Urca, também às voltas com um poema do autor."

13.9.10

Não comerei da alface a verde pétala

E, enquanto, lá de Salvador...
"Querida Cora:

Lembra de mim?

E eu nem sei se continuo a mesma mas... continuo gostando daqui, lendo sempre que consigo.

Minha Xará está um primor, linda como suas fotos.

Caso não lembre de mim isso nem importa muito, pois eu sou uma criatura chata agora (nada de dizer que sempre fui que isso vai magoar e ando sensível): já não fumo, não bebo por causa dos remédios, caminho na praça toda manhã, como verduras e frutas, estou insuportávelmente correta (mas ainda não politicamente, por favor!), nem coca-cola tomo mais, só em festas, sou a própria prova da minha teoria que vida saudável e certinha é mentalmente broxante, já nem escrevo mais nada, branco total na mente, a vida pode ser saudável mas a saúde anda péssima, a mente anda desprovida de idéias, durmo tão cedo que até dá vergonha de contar (nove horas já estou de pijaminha na cama, um nojo total), acordo com os passarinhos (já até ando desconfiando que eu que acordo eles), sou uma criatura perdida e desencontrada, outro dia comi até um alface, Vinícius me atormentou em pesadelos a noite toda, só não sou um caso perdido porque sei que estou no caminho disso, a mente ainda reage, mas não sei até quando...

Enfim, saudades mis, beijos mis, ai, ai, bom saber que aqui existe, um cheiro,

Matilda"

Imperdível!

Com vocês, Alexandre Ribondi:
"Quem é que vai deixar de ir?

Na quinta-feira, dia 16, às 20hs, o espetáculo Cru, de Alexandre Ribondi, será apresentado no Teatro Laura Alvim, em Ipanema.

Cru já passou por várias cidades brasileiras e foi convidado, em maio, para representar o Brasil no Teatro dei Filodrammatici, de Milão. Deu até no jornal: "Atores ovacionados de pé, por mais de 5 minutos". Bom isso, né não?

E eu vou estar no Rio, mais precisamente na casa da dona do blog, Cora Rónai, la señora de la rodilla rota.

Então, quem não for ao Laura Alvim na quinta é mulher do padre.

Até lá."

Grande e pequena


A foto não ficou boa, mas eu queria mostrar a vocês a diferença de tamanho entre o Tiziu e a Matilda...

Cinco peças básicas

Há perguntas aparentemente inocentes que são muito difíceis de responder. Exemplo: me perguntaram ontem quais são os cinco gadgets indispensáveis da minha vida. Cinco? Parece pouco, mas, pelo contrário, é muito: pensando bem, e com sinceridade, o único tech-objeto realmente fundamental da minha vida é o celular.

Isso explica, talvez, porque acho tão difícil encontrar um que faça tudo o que espero dele, e com a qualidade que preciso. O celular é a minha câmera compacta, o meu player de música, a minha calculadora, o meu conversor de medidas, o meu bloco de anotações de viagem, o meu GPS, o meu gravador... e, claro, às vezes é até o meu telefone.

O que mais eu poderia acrescentar à lista? Corri para a Wikipedia para ver o que pode ser oficialmente considerado gadget. Eis a definição:

“Gadget (em inglês: geringonça, dispositivo) é um equipamento que tem um propósito e uma função específica, prática e útil no cotidiano. São comumente chamados de gadgets dispositivos eletrônicos portáteis como PDAs, celulares, smartphones, leitores de mp3, entre outros. Em outras palavras, é uma "geringonça" eletrônica.”

Portanto, em tese, gadget é um treco com pilha ou tomada. E isso me ajudou a encontrar o segundo gadget ao qual dou grande importância: o carregador de pilhas. É espantoso o número de coisas que me cercam que precisam de pilhas. Além de todos os controles remotos, uso teclado e mouse sem fio. Isso equivale a uma ou duas trocas mensais de dois jogos de duas pilhas. Inviável e antiecológico ao extremo com pilhas comuns, mas perfeitamente razoável com pilhas recarregáveis.

Eu disse tomada? Pois chegamos, então, ao terceiro gadget da parada: o adaptador universal, que já me salvou a vida na Inglaterra, na Índia, na Dinamarca e em outros cantos dotados de tomadas esquisitas. Um adaptador universal não pode ser considerado um gadget ortodoxo, porque não se resolve em si mesmo, mas acho que posso me dar essa liberdade editorial. Afinal, onde mais seria noticiada a existência de um novo modelo, se não numa seção de gadgets?

Faltam ainda dois gadgets para completar a lista. Um dos objetinhos mais úteis que me cercam é o pendrive da Kingston, um data traveler de 32Gb, que uso para carregar fotos de cá pra lá, e para transferir arquivos entre diferentes máquinas quando é pouca a coisa. Elemento parecido, guardadas as devidas diferenças, é o Seagate externo de 500Gb, no qual está o backup do grosso do meu trabalho. O pendrive é mais gadget por ser miúdo e portátil; o Seagate corresponde melhor à descrição oficial por precisar de tomada. Vou deixar esta importante decisão por conta do Lucas Landau, que me fez a pergunta.

Falta, afinal, um único gadget. E agora? Tenho uma linda lanterna de leds que é uma mão na roda para iluminar as entranhas do computador quando, por algum motivo, preciso abrir a caixa; ela também é muito útil em tempos de apagão. Mas será que uma lanterna de leds não é coisa prosaica demais, utilitária demais, para que possa ser qualificada como gadget?

Ou escolho o antigo iPhone, ainda daquela primeira geração de lombo prateado? Este quase não foi usado como telefone, mas, quando o aposentei, passou a desempenhar um papel crucial na vida da casa. É que comprei um daqueles ótimos amplificadores da Bose, espetei-o lá e, desde então, ele cumpre com louvor a função de som da sala. Nos seus 8Gb cabem as minhas óperas favoritas, muito Bach, uma quantidade de músicas soltas e quase toda a maravilhosa coleção de world music da Putumayo, com capinhas coloridas e tudo.

É, acho que a lanterna de leds acabou de dançar.


(O Globo, Revista Digital, 13.9.2010)

Juntem-se 100 gatos, uns móveis e objetos lindos e...

Cem gatos foram soltos numa loja da Ikea para a gravação de um anúncio; o resultado, que ficou lindo, é o primeiro video.

O segundo é uma espécie de making of.




10.9.10

Shakespeare em versão "faça você mesmo"



Atenção, jogadores de sudoku! Há um novo passatempo na praça, muito mais interessante do que o seu brinquedinho de números: escrever sonetos. Quem aponta para essa conclusão surpreendente é o cineasta, escritor, tradutor, ex-jogador de sudoku e homem de sete instrumentos Jorge Furtado:

-- Para começar, o soneto é feito com palavras, muito mais simpáticas que os números. Depois, você há de convir que levar meia hora para escrever 152843796 é uma perda de tempo considerável. O que significa 152843796? Absolutamente nada, não serve nem para jogar no bicho. Compare 152843796 com “Nada como o sol são os olhos da minha amada”. E então?

Mais notável ainda é que, ao fazer essa proposta, Jorge Furtado não está pensando num soneto qualquer. A comparação com o sudoku é a introdução da mais nova edição dos “Sonetos de Shakespeare”, agora em versão “Faça você mesmo” (Editora Objetiva, 124 páginas).

-- O soneto – continua Furtado – é, está provado, muito mais bonito do que o sudoku. E é muito mais difícil de fazer e muito mais difícil de tentar.

Um grupo de amigos do diretor concordou com a premissa, e lançou-se de corpo e alma à tradução dos sonetos de Shakespeare, até para provar que a obra do bardo não é nariz de santo. Ao contrário dos que a imaginam empalhada para sempre na estante dos elizabetanos, tossindo segundas pessoas do plural a torto e a direito, ela está viva e bem, e comparece agora nas ilustres e divertidas companhias, entre outras, de Aderbal Freire Filho, Wagner Moura, Fernando Meirelles, as Fernandas Torres e Veríssimo (esta última em dupla com a irmã Mariana), Guel Arraes, Lazaro Ramos... é uma longa lista.

-- O jogo proposto por Jorge era que cada um de nós traduzisse, à sua maneira, um dos sonetos, -- diz Lázaro Ramos. -- Sempre que o Jorge falava sobre os cálculos da métrica do soneto, e sobre a sua quantidade de versos, eu pensava na tradução exatamente dentro dessa formula, já que era um jogo. Demorei um mês e meio e ainda assim foi uma dificuldade! Mas o melhor é que a busca, mais do que o resultado, acabou sendo muito enriquecedora. As conversas com o dicionário e as reflexões a respeito do que cada palavra ou verso queriam dizer fizeram com que eu aprendesse muito.

Nem todos levaram a questão da métrica tão a sério. Fernanda e Mariana Veríssimo, filhas do Luis Fernando, atacaram o Soneto 19, em que o poeta pede ao tempo que poupe as feições de sua amada, e foram fundo na iconoclastia. Dobraram o número de versos e capricharam nos anacronismos, mas traduziram com perfeição o espírito do poema, trazendo até o Brasil de 2010 o sentido do que Shakespeare escreveu no Século XVI.

-- Fiquei meio constrangida em por “Miss Venezuela” no meio do Shakespeare, -- confessa Fernanda, que mora em Porto Alegre, está na reta final da tese de doutorado e fez sua tradução por meio de uma intensa troca de emails com a irmã Mariana, em São Paulo. – Mas, como é uma versão pop, fica valendo.

Como seus colegas de desafio, ela também destaca a intimidade que ganhou com os sonetos como um dos melhores aspectos da história, que começou como brincadeira doméstica da família Furtado.

-- Sempre fui apaixonado pelos sonetos, desde que li a tradução do Ivo Barroso, -- diz Jorge. -- Tenho gravações com vários atores ingleses, ouço como se fosse música. Mesmo quando não se entendem todas as palavras, a sonoridade dos sonetos é incrível. Quando meu inglês começou a ficar melhor, comecei a traduzir os sonetos que o Ivo não traduziu. Fiquei deslumbrado ao perceber as várias versões possíveis. Os meus filhos Pedro e Julia (de 26 e 24 anos, respectivamente) começaram a se interessar e a dar sugestões; e logo estavam traduzindo também. Aí pensei, porque não espalhar isso entre os amigos?

Salvo Caetano Veloso e Adriana Calcanhoto, que ficaram assustados com a responsabilidade, os demais convocados caíram dentro com entusiasmo e, em alguns casos, passaram adiante para outros amigos, numa espécie de corrente:

-- Recusei muito, tentei não fazer, mas o Jorge insiste nos amigos – lembra Fernanda Torres. -- Tenho pânico de tradução, cada palavra que você usa abre um arbusto de possibilidades... e o pior, com poesia, é que você ainda tem que achar a rima! A primeira versão que eu fiz foi uma coisa meio “The cow went to the swamp”. Mandei pro Jorge, que me mandou de volta dando um toque: “Olha, Nanda, existe uma coisa chamada métrica...”

Cada um dos convocados pode escolher um soneto para traduzir. Essa liberdade de ação fez com que alguns sonetos acabassem sem tradução, ao passo que outros tiveram várias interpretações: o Soneto 23, por exemplo, ganhou versões de Aderbal Freire Filho, Fernando Meirelles e Clarice Falcão. É muito interessante ver como cada um enfrentou, à sua maneira, as mesmas dificuldades.

-- Na verdade, cada pessoa que faz uma tradução faz um soneto novo -- diz Jorge Furtado, que não se incomodou em deixar alguns poemas sem tradução na antologia. – Como a idéia é convocar os leitores a fazerem suas próprias traduções, ter um ou outro soneto não traduzido ajuda àquelas pessoas que, eventualmente, poderiam se sentir intimidadas por uma tradução já existente.

A ajuda ao leitor é uma constante no livrinho, a começar por uma pequena aula de Liziane Kugland sobre a arte do soneto, em que métrica, rima e ritmo são explicados, a um glossário de termos do inglês elizabetano, também elaborado por Liziane, e uma lista de referências úteis na internet. “Sonetos de Shakespeare faça você mesmo” dá até papel para o leitor se aventurar – ao lado de cada poema, há uma página pautada com espaço para que o candidato a tradutor registre a sua versão. Só fica faltando mesmo o lápis com borrachinha, mas isso, afinal, nem as revistas de sudoku oferecem.

Finalmente, vale lembrar que é tudo por uma boa causa. Como lembra Lázaro Ramos, embaixador do Unicef, os direitos autorais do livro foram doados ao fundo, e serão aplicados em programas de incentivo à leitura.


(O Globo, Segundo Caderno, 9.9.2010)

9.9.10

Emergência... equina!

Eu era assim:


Fiquei assim:


Pessoas, a Bia e a Valéria me encaminharam um pedido de socorro do Projeto Quatro Patinhas:

"Ao longo desses sete anos que venho tocando o projeto, mas mais especificamente nos últimos três, após me mudar com os abrigadinhos para o sítio, eu me deparei com alguns cavalos precisando de ajuda. Uns passando fome, como a Pequena, outros sendo despejados do local onde moravam, e de quebra uma jumentinha que se chama Madonna.

Tenho mantido eles durante esses três anos, sendo que eles têm hoje em dia um cuidador somente para eles, comem ração, farelo, além de capim. Eles não conhecem mais a dor da exploração, não puxam carroça, não são chicoteados nem maltratados com espora. Nem mesmo são montados ultimamente.

Desses cavalos, duas foram resgatadas grávidas e têm dois potros lindos.

São seis cavalos no total e o gasto mensal deles é de cerca de 600 reais, entre o pagamento do cuidador e sua alimentação. Está sendo pesado continuar mantendo esse gasto além do que tenho com os três empregados no abrigo, mais alimentação, remédios e consultas dos gatinhos e cães abrigados.

Com muito pesar e tristeza, pois os amo como filhos, tenho pensando em doá-los para ongs que tenham estrutura de cuidar deles de forma melhor, ou doá-los para haras ou pessoas que não os explorem, e que lhes possam dar uma vida feliz, bem alimentados e cuidados.

Se você conhece locais sérios com os quais eu possa entrar em contato, por favor me escreva.

Se você pode apadrinhar um desses cavalinhos, ajudando mensalmente, também por favor entre em contato.

PS: Eu não tenho transporte próprio e eles estão em Guapimirim.

OBS: Seguem fotos da Pequena ao ser resgatada e 1 ano depois.

Muito obrigada,

Kika"

Pipoca

Não quero falar sobre isso




Na quarta-feira passada, logo cedo, mandei a crônica para o jornal, como sempre faço. Continuava contando o que vi na península escandinava, lugar menos misterioso e atraente do que a Índia, meu penúltimo destino de férias, mas não menos estranho, por ser, no todo e nas muitas partes, o exato oposto do Brasil.

Mais tarde, lendo o jornal cheio de notícias sobre a campanha política, me veio uma certa sensação de inadequação por estar falando de algo tão distante, em todos os sentidos. Acontece, contudo, que o cronista é, antes de tudo, um ser humano -- e o ser humano que assina esta crônica anda sem coração ou mente para a "política" que se pratica no país.

-- Mas você não vai falar nada de nada sobre a campanha? – perguntou a Bia, quando conversamos sobre o assunto.

-- Não vou não. Nunca vi uma campanha tão feia, tão mentirosa, tão marqueteira. Além disso, o que será dos leitores se todos os cronistas e colunistas escreverem sobre o mesmo tema? Não dá para ser mais objetiva do que o Merval, nem mais sarcástica do que o João Ubaldo.

Para que uma campanha política consiga motivar os eleitores, ela precisa, em primeiro lugar, ser... política! Mas não há nada de político, no antigo e nobre sentido da palavra, no que nos vem sendo apresentado. O mundo em que os candidatos vivem não guarda nenhuma relação com a realidade que pretendem administrar. Aliás, salvo a Marina, os próprios candidatos deixaram de passar qualquer impressão de autenticidade. São fantoches de si mesmo, criaturas de propaganda que apresentam não o que são, mas o que gostariam de ser. Ou nem isso; apenas o que seus marqueteiros acham que vende melhor.

Assim, de pessoa notoriamente tida por prepotente e atrabiliária (mas diplomaticamente apresentada como "difícil"), Dilma tenta passar por senhora educada, por mãe ocasionalmente severa, mas sempre gentil e compreensiva; de oposicionista de poucos amigos, Serra pretende ser acessível, religioso, popular. Não é, não são. Isso para não falar em todo o cardume menor, salpicado de criminosos e de figuras ridículas.

O presidente, que devia pelo menos fingir que respeita as leis, usa sem qualquer pudor a máquina do governo, que há tempos deixou de ser para todos e transformou-se em criminosa ferramenta partidária; a oposição, cheia de aspas, desvirtua um tenebroso caso de polícia para tentar ganhar no tapetão, repetindo as práticas antidemocráticas do PT.

Cadê a política nisso?! Cadê os projetos, cadê as propostas para a educação, base de tudo, que está indo para o brejo à velocidade da luz?

* * *

Durante os governos que antecederam a Era Lula, o PT fez a oposição mais cerrada e hidrófoba que já se viu. Bastava uma idéia ser apresentada pelo governo para que a militância a estraçalhasse, como uma matilha de hienas destroça o cadáver de um antílope (vide Nat Geo Wild). Teria sido curioso ver como se portaria o PT no governo diante de uma oposição semelhante; mas, feito para governar, o PSDB nunca soube fazer oposição.

Por causa disso, todos os “malfeitos” do governo Lula ficaram por isso mesmo, por “malfeitos” e “futricas menores” – e o país, que já não andava muito bem no quesito da ética, desandou de vez. A falta de moral generalizada e a pasmaceira apontada por Plinio Sampaio são os grandes legados da Era Lula, mas a responsabilidade por essa herança maldita não cabe apenas ao PT. A culpa é também dos partidos de oposição, que não conseguiram encostar ninguém contra a parede e dizer que certas coisas não se fazem.

A rigor, porém, nem sei por que estou falando nisso; eu já disse que não vou escrever sobre a campanha política. Não me reconheço no que vai pela televisão. Meu país é melhor e mais rico, mais diversificado, criativo e inteligente. E, apesar de saber que eles não vieram para cá em espaçonaves, nem surgiram por geração espontânea, continuo achando que o Brasil não merece os políticos que tem.

* * *

E mais uma vez, quando o coração anda pesado com o que acontece à nossa volta, Maria Bethânia surge no horizonte, esplendorosa, e põe os pingos nos ii, mostrando que, apesar de tudo, o Brasil tem muito bem onde se segurar. Dessa vez, na última quinta-feira, ela contou com o auxílio de uma platéia formada por alunos da rede pública de ensino, que foram ouvi-la em “Bethânia e as palavras -- leituras”, espetáculo de pouco mais de uma hora de poesia.

É provável que os meninos e meninas que estavam lá nunca tenham ouvido poesia falada, mas todos entraram perfeitamente no clima do recital. Ficaram atentos e encantados, responderam com longos aplausos quando seus professores foram mencionados e, sobretudo, quando Bethânia, homenageando um antigo mestre, lembrou que ali estava uma ex-aluna do recôncavo baiano – prova de que é possível “uma boa, devida e plena educação nas escolas públicas”.

“Bethânia e as palavras” não é só um comovente (e imperdível) recital de poesia; é também um manifesto pela educação, em que são recorrentes as imagens dos cadernos, dos lápis, da leitura, do encanto pelas palavras e pelos poemas. Um manifesto, enfim, pela sensibilidade e pela delicadeza.

De tudo o que eu tenho visto e lido, é, disparado, o melhor antídoto contra a campanha eleitoral.


(O Globo, Segundo Caderno, 9.9.2010)

8.9.10

Em quem votar



A WSPA, sociedade de defesa de animais completamente apartidária, fez uma lista de candidatos amigos de animais para facilitar a vida de quem ainda não sabe em quem votar.

É só clicar AQUI, escolher a sua região e o seu estado, e conferir as listas.

Detalhe: a lista não é necessariamente de bons candidatos, nem se propõe a julgá-los por conjunto de obra. É apenas de candidatos que fizeram alguma coisa pelo bem-estar dos bichos.

Update: A dra. Preci levanta objeções ao nome de Paulo Cerri, que consta na lista como candidato a deputado estadual no Rio. Diz ela:
"Fui informada que o candidato a deputado estadual Paulo Cerri está sendo indicado pela WSPA como legislador pelos animais. Entrei, incrédula, no site desta Ong, e confirmei a informação! Dou a todos os defensores de animais e a própria WSPA – que certamente desconhece o fato - (caso contrario não o citaria como candidato defensor de animais) as seguintes informações:

De janeiro de 2001 a dezembro de 2008, acompanhei o movimento legislativo da Câmara dos Vereadores torcendo pela aprovação das leis de Claudio Cavalcanti, vereador que tinha como plataforma a defesa dos animais. Nos primeiros dois anos Paulo Cerri foi suplente e nos seis seguintes lider do governo Cesar Maia.

PauloCerri foi o maior opositor que Claudio Cavalcanti encontrou às leis de defesa dos direitos dos animais.

Enfatizo, dentre outras abaixo citadas, a atuação deste senhor em relação à lei que proibiria a vivissecção e experiências com animais em laboratórios. Cerri, defensor da tortura dos animais de laboratório e claramente com vistas a ganhos políticos e pessoais, organizou armadilha contra a causa, convocando furtivamente vivissectores para que sabatinassem e crucificassem Claudio Cavalcanti por ter apresentado a lei.
Votou diretamente contra a maioria das leis de Claudio e a favor de todos os vetos interpostos pelo então prefeito Cesar Maia.

As leis que Claudio conseguiu aprovar, o fez a despeito de Paulo Cerri. Segue a lista dessas leis em defesa dos direitos dos animais e dos projetos de lei, contra os quais Cerri votou:

*Multa por Maus Tratos a animais – Lei 4731/2008

*Proibição de Rodeios – Lei 3879/2004

*Proibição de Circos com Animais – Leis 3402/2002 e 3444/2002

*Atendimento veterinário gratuito para animais abandonados – Lei3775/2004

*Pronto-Socorro veterinário gratuito 24h para animais abandonados – Lei 4244/2005

*Abrigos para Animais abandonados – Lei 3641/2003

*Autorização para freqüência de cães na Praia do Diabo - Lei 4276/2006

*Introdução do Bem Estar animal nas Escolas Municipais - Lei 3844/2004

*Proibição de Criadouros para abate e comercialização de peles - Lei 4347/2006

*Regulamentação do Uso de Animais de tração - Lei 3350/2001

*Proibição de raticidas (chumbinho) - Lei 4362/2006

*Proibição da permanência e manutenção de animais doadores sistemáticos de sangue em clínicas veterinárias - Lei 4537/2008

*Criação de conceito do “animal comunitário” - Lei 4956/2008

*Recursos a Instituições de defesa dos animais em estado denecessidade - Lei 4963/2008

*Proibição da experimentação científica com animais – Projeto de Lei 1687/2008

*Proibição do uso de animais para carga e tração – Projeto de Lei 368/2005 (reapresentada em prazo legal)

Já escrevi para a WSPA para saber como este cara entrou na lista por eles aprovada.

Mais um update: A WSPA informa que recebeu várias reclamações em relação ao nome do candidato Paulo Cerri, e que ele está sendo retirado da lista. Ele entrou na lista por sugestão de uma das entidades afiliadas à WSPA por ter sido autor do PL 1033/2007 que dispõe sobre a proibição da utilização de charretes puxadas por cavalos na ilha de Paquetá, e autor da Resolução 1.043/2006, que criou a Comissão Permanente dos Direitos dos Animais no Rio de Janeiro; além disso, quando era Secretário de Projetos Especiais de Niterói, criou a Comissão de Conscientização dos Direitos dos Animais naquela cidade.

7.9.10

6.9.10

Bombaim nos anos 50

Momento Cinema Indiano: cena do filme C.I.D., de 1956, com Johnny Walker. A música ficou famosa, e foi utilizada nos créditos finais de "Mumbai Meri Jaan", de 2007. Para mim, é muito melancólico ver como Bombaim -- onde nunca estive -- era uma cidade bonita e espaçosa; mais ou menos como ver algumas cenas de cinema que mostram o Rio dos anos 60, quando ainda era uma espécie de paraíso urbano.


Passeios pela rede




A pintura mais famosa da China, Qīngmíng Shànghé Tú (“Ao longo do rio durante a festa de Qingming”), foi realizada no Século XII para divertir um imperador entediado. Ela estende-se por mais de cinco metros, e mostra centenas de cenas do cotidiano na então capital Bianjing (hoje Kaifeng), pintadas com tal riqueza de detalhes que não é difícil imaginar o encanto do imperador (ou de quem quer que seja) diante daquele mundo interminável.

Pois esse rolo de seda mágico foi “traduzido” para formato digital, e é uma das peças de destaque na Expo de Xangai. A obra foi consideravelmente ampliada – a versão digital ocupa um painel de 130 metros de comprimento por seis metros de altura – e ganhou animação graças ao trabalho do Crystal CG, principal estúdio de computação gráfica chines. O trabalho, realizado com o mesmo apuro do original, é tão cheio de detalhes, que até as expressões faciais das pequenas personagens, e o dia transforma-se em noite a intervalos regulares.

Há dois bons links para esta peça excepcional. Em http://bit.ly/9bUEJV chega-se à revista eletrônica Gizmag, onde há fotos e um vídeo com o painel digital, e uma boa matéria (em inglês) sobre a execução do trabalho. Em http://bit.ly/9D1ei9 há uma reprodução do rolo original, com alguns detalhes da animação. Chega-se a eles clicando nos quadradinhos do frame inferior, ou nos quadrados brancos que aparecem ao longo do "passeio".

* * *

Andando pelo Facebook, encontrei a frase perfeita para essa época de eleições, em que ninguém escuta ninguém e as pessoas são tão useiras e vezeiras em partir para a ignorância em vez de usar argumentos; estava em espanhol, e preferi deixar assim, porque 1) todo mundo entende; e 2) fica muito mais divertido:

"Nunca discutas con una persona imbecil, te hara descender a su nivel y alli te ganará por experiencia."

* * *

No Youtube, a sensação da semana é a propaganda de um produto chamado Tipp-ex, um daqueles corretores de escrita que cobre o trecho a ser eliminado com uma faixinha branca, para que a gente possa escrever de novo por cima.

Na tela, que à primeira vista não tem nada demais, aparece o vídeo de um caçador que precisa atirar num urso. Mas, surpresa!, como ele não quer cometer essa violência, pega o Tipp-ex no frame ao lado, cobre o verbo do título “A hunter shoots a bear” e pede para que a gente ajude a reescrever a história, teclando qualquer outra ação do “shoots” agora apagado.

Sugiro que vocês experimentem dance, erase, see, shoot (sim, insistam!), hug, kiss, love, fart, meet, smoke, work ou mesmo brush teeth –- sim novamente, eles escovam os dentes!, e não, não é preciso flexionar os verbos.

As variações são muitas e muitas, todas bem engraçadas. O brinquedinho fica em www.youtube.com/tippexperience.


(O Globo, Revista Digital, 6.9.2010)

3.9.10

Matilda, ajudando na faxina

Olha só quem já está quase andando...

Um violoncelo para a Camerata

A campanha para a compra de um novo cello para a Camerata Quantz, da Unirio, continua de pé!

Vocês se lembram da história, né? O intrépido violoncelista do grupo escorregou escada abaixo, tendo a queda amortecida pelo instrumento; ele escapou, mas o mesmo não se pode dizer do violoncelo, cujo conserto vai custar R$ 3.500, quase o preço de um novo.

Laura e os demais músicos pedem doações para o conserto e/ou compra do novo cello. Qualquer dinheirinho, por miúdo que seja, será muitíssimo bem-vindo. Até o momento, a campanha contabiliza cerca de R$ 1 mil. Aí vão os dados da conta do Leo, tesoureiro do grupo:

Leonardo Cerante Moreira
CPF: 108125937-07
Banco: 341-Itaú
Agencia 8701
Conta corrente itaú: 08291-2

Laura diz:
"A Camerata agradece penhoradamente qualquer contribuição e oferece um concerto em homenagem a nossos benfeitores, depois que conseguirmos comprar um novo cello!"


Pesquei esses dois agradecimentos postados pelo pessoal nos comentários do post anterior, que já tinha sumido da tela:
"Olá a todos os colaboradores!

Quem escreve é o Leonardo, tesoureiro e violinista da camerata.

Quero deixar um GRANDE E SINCERO AGRADECIMENTO a todos os benfeitores e colaboradores.

Os recursos serão muito bem empregados e terão grande retorno em qualidade sonora, vamos dizer assim!

Bom, estou emocionado com a ajuda recebida! Muito mesmo!

Aproveito e convido quem mais quiser contribuir, nem que seja com um real, será muito bem vindo e terá seus nomes muito bem lembrados no hall de benfeitores do projeto!

Leo"

"Cada grãozinho de areia será como aquele que entra nas ostras e cria uma pérola. Depois de camadas de nácar, vai virar uma jóia rara!

Muito obrigada, de verdade.

Assinado: Alexandre, Claudio Frydman, Claudio Yabrudi, Doriana, Eduardo, Elione, Emerson, Flank, Lauro, Leandro Finotti, Leandro Turano, Leonardo Cerante, Leonardo de Uzeda, Luciana, Manoela, Marcos, Milena, Murilo, Oswaldo, Paulo, Pierre, Roger, Sophia, Thiago e Laura"

2.9.10

Brinquedinho bom

É uma história de urso. Cliquem AQUI.

Achei no Facebook

"Nunca discutas con una persona imbecil, te hara descender a su nivel y alli te ganará por experiencia."
Não é ótimo?!

Impressões de viagem II








Imaginem uma cordilheira parcialmente submersa: as montanhas vêm lá de baixo, e erguem-se centenas de metros acima do nível do mar. A meio caminho, encontram-se cobertas de água, e aí se transformam em estranhos rios sem nascente e sem praia, ladeados por paredões de rocha. Os fjords noruegueses, que foram cavados nas rochas pelas geleiras derretidas durante a última era glacial, são mais ou menos assim – relativamente estreitos, mas tão fundos, que são percorridos regularmente pelos mega navios de cruzeiro.

É uma paisagem espetacular, em que montanhas brotam da água por todos os lados. Em alguns pontos a rocha é nua, em outros já sai daquilo que parece rio coberta por uma vegetação bem comportada, em tons de verde suaves, diferente em tudo da associação amazônica água-vegetação que me vem automaticamente à cabeça.

Em Geiranger, lugar tão bonito que foi nomeado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, pegamos um dia de sol perfeito, espremido, segundo a meteorologia, entre dois dias de chuva. O ar é limpo e, aqui e ali, traz o cheiro das flores que os habitantes da região cultivam aos milhares.

A pequena aldeia plantada na ponta do fjord, habitada permanentemente por 250 pessoas, é visitada por mais de 160 navios de cruzeiro durante os quatro meses da temporada turística. O movimento é tão intenso que é difícil encontrar foto de Geiranger no verão sem um ou dois mega navios ancorados no porto.

Os problemas de logística são tremendos: no dia que passamos lá, havia 64 ônibus indo e vindo por montanhas onde, habitualmente, circulam apenas dois, o escolar e o do transporte público. As estradas são íngremes e estreitas, ultrapassagens são impraticáveis e até mesmo mão e contramão exigem perícia e boa vontade, sobretudo nas curvas fechadíssimas que seguem o contorno da montanha. Ainda assim, tudo é tão bem organizado que, tirando a fila do sorvete num ou noutro quiosque, ninguém chega a reparar que está no meio de uma multidão.

* * *

De Geiranger, subimos montanha afora em direção a Herdalssetra, uma “fazenda de verão” que, há cerca de 300 anos, funciona espetada no meio de uma vista deslumbrante. Como outras da região, ela só pode ser usada entre junho e setembro; quando o frio começa, gente e bichos descem em direção ao vale, e invernam em Norddal.

Ao contrário da maioria das fazendas de montanha, Herdalssetra sobreviveu à modernidade e às tecnologias que transformaram a pecuária em todo o mundo. É mantida como atração turística, mas para que a atração funcione a contento, ela tem que mostrar a que existe – e o faz por meio de dois queijos e de um caramelo.

Uns e outro são preparados com o leite de cerca de 200 cabras, tão acostumadas a conviver com turistas que correm para cercar os ônibus que chegam, na esperança de ganhar um petisco diferente. Um dos queijos é um tradicionalíssimo e delicioso queijo cremoso, muito branco e leve; o outro é um queijo marrom, com cara e consistência de doce de leite duro. É forte e adocicado e, para o nosso paladar, não chega a ser exatamente bom, embora seja interessante e cheio de personalidade. O gosto não vem de açúcar nenhum adicionado à receita, mas sim do excesso de lactose: são precisos 40 litros de leite para produzir um quilo desta iguaria que só se encontra na Noruega. O caramelo, finalmente, é bem parecido com o nosso pingo de leite, com a diferença de ser feito com leite de cabra, e é muito gostoso.

Quem nos apresentou a esses acepipes foi Åshild Dale, atual proprietária da fazenda, cuja família cuida da terra e dos bichos desde 1790. Além das cabras, vivem lá vacas, carneiros e os lindos cavalos louros dos fjords. Alguns dos 30 galpões e casas podem ser alugados para férias e feriados; eles são pequenos, robustos, e têm lindos telhados de grama, perfeitos como isolante térmico.

* * *

Ao longo dos fjords, vêem-se casas isoladas e encarapitadas feito cabras na montanha. Algumas formam vilarejos mínimos, outras são a solidão em pessoa; a gente não consegue deixar de pensar no que leva alguém a construir em locais tão remotos, ainda por cima sujeitos ao clima impiedoso. Assim como jamais vou conseguir entender o que se passa no inconsciente coletivo chinês, por exemplo, desisto também de compreender a alma escandinava.

* * *

Por onde quer que se ande na Noruega o altíssimo IDH é visível, quase palpável. Não há nada remotamente parecido com uma favela, as calçadas não têm buracos, as casas são bem conservadas e não têm pichações nas paredes, a população é saudável e veste-se bem, os carros são novos e bons.

* * *

Em Oslo, a guia nos descreve o ano: em setembro, começa a gear. Outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março e abril são meses escuros e frios; em maio é primavera, e o verão dá as caras em junho, julho e agosto. Mas nem sempre. Alexandre Falcão, que mora lá, contente, me tuitou na semana passada:

-- "Fugistes" de Oslo em boa hora! Não para de chover desde então e faz um frio de matar... Ontem teve até granizo... em pleno verão!

Em suma: assim como as nossas estações variam pouquíssimo ao longo do ano, parece que as deles também não mudam muito. Poderíamos até ser – e não só no clima -- verso e reverso da mesma medalha, dessa medalha esférica e complicada que gira, azul, no espaço.

(O Globo, Segundo Caderno, 2.09.2010)