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31.5.09 30.5.09 Enxugando geloNa semana passada tomei duas decisões radicais: arrumar os livros, que têm o hábito de brotar aqui em casa como cogumelos, e botar as caixas postais em dia, porque uma quantidade enorme de emails tem se perdido na vala comum.O resultado é que, apesar de ter sumido do mundo, mal consigo vislumbrar o fim das tarefas. Quanto mais arrumo os livros, mais as pilhas crescem e se desarrumam. É mais ou menos como comer alcachofra: a gente termina com mais coisa no prato do que quando começou. Além disso, arrumar livros tem um efeito colateral complicado. É que, no meio do caminho, sempre paro para ler um trechinho aqui e outro ali -- e, quando dou por mim, o dia acabou. Nada disso seria problema se, ao menos, eu estivesse lendo coisas maravilhosas. Não estou. Não encontro nada que verdadeiramente me empolgue, de modo que a sensação de tempo perdido é avassaladora. Quanto a pôr a correspondência em dia, essa é uma batalha perdida de antemão, porque, à medida em que vou respondendo a emails, outros vão chegando. Dá vontade de detonar as caixas postais existentes e recomeçar do zero, mas não tenho coragem de assassinar a velha correspondência a sangue-frio. Em suma: só me resta imaginar como seria bom se a vida tivesse tecla "Pause". Assim, a gente poderia dar um tempo no futuro enquanto ajeita o presente. 29.5.09 28.5.09 A cara do Rio![]() Desculpem o atraso na publicação! É que sai cedo de casa e só voltei agora, quase meia-noite. O Rio contradiz os poetas e as letras de música que cantam a primavera. É só olhar pela janela para ver que o outono é, disparado, a estação mais bonita da nossa cidade: céu azul, temperatura razoável e aquela luz que transforma tudo. Nesses dias, sobretudo à tardinha, pouco antes do sol se por, a gente consegue até esquecer os problemas de que se queixa no resto do ano. A praia está uma glória, e a Lagoa parece mesmo um espelho d’água, refletindo as nuvens nos mínimos detalhes. A imagem só se quebra quando garças e biguás aparecem para jantar, quando um peixe salta no ar ou quando os remadores dão a volta, lépidos e atléticos, matando de inveja os sedentários que os observam das margens. Qualquer desavisado que resolva interpretar a cena pela quantidade de celulares e de câmeras apontados para a paisagem pode imaginar, perfeitamente, que estamos numa das cidades mais seguras do mundo. No Jardim Botânico, um casal de turistas pede que eu faça a sua foto em frente ao chafariz. A câmera é uma velha Pentax analógica, que me desconcerta por alguns instantes: cadê o visor? Capricho no clique, e eles se despedem me desejando um bom resto de tarde e uma viagem segura de volta. Eu agradeço e vou embora sem esclarecer o equívoco. Não quero humilhar ninguém dizendo que moro aqui. * * *Por falar em Jardim Botânico, finalmente conheci o teatro mais charmoso do Rio. Inaugurado no final do ano passado, o Espaço Tom Jobim foi construído dentro de um galpão tombado, que servia como depósito. Ele fica nos fundos do Jardim Botânico, se é que se pode dizer que um jardim tem fundos, e, para chegar lá, atravessa-se um bom trecho do que, no escuro, passa por verdadeira, ainda que pequena, floresta. O trânsito maluco dá lugar a uma região de sossego, e o próprio ar fica mais fresco. O teatro, com 400 lugares, é espaçoso e elegante, um perfeito contraponto para as casas de show que dominam a cena musical.Fui assistir ao delicioso show da Olívia Byington, “A vida é perto”, que já tinha visto na estréia, há dois anos, na Casa de Cultura Laura Alvim. No palco grande ele perdeu a sensação de intimidade que o teatrinho de Ipanema proporcionava, mas, em compensação, o espetáculo cresceu, assim como a habilidade da Olívia no violão. O show já saiu de cartaz, mas não custa ficar de olho, porque nunca se sabe quando volta. Também não custa ficar de olho no Espaço Tom Jobim, que combina tão bem com tudo o que o Rio tem de bom. Hoje, por exemplo, tem Lenine: não estou dizendo que esse teatro é um luxo? * * *Já o filme que melhor combina com esses dias lindos é “A mulher invisível”, do Claudio Torres: é leve e engraçado, e o espectador sai feliz do cinema, contente por ter feito um programa tão bom. O roteiro, também do Cláudio, é um achado, e conta a história de Pedro (Selton Mello), um controlador de tráfego (!) abandonado pela mulher. Cansada da vida previsível, ela resolve viver perigosamente ao lado de um alemão, de quem, para adiantar as coisas, já está grávida.O pobre Pedro cai em depressão. Esquece os amigos, o trabalho e a conta de luz, até que Amanda, a vizinha (Luana Piovani), bate à porta pedindo uma xícara de açúcar. Linda, insinuante, cheia de amor para dar, ela o conquista num piscar de olhos, e os dois passam a viver a relação dos sonhos de todo homem. Amanda arruma a casa como ninguém, faz faxina usando lingerie sexy, prepara banho de espuma para o maridinho que chega cansado do trabalho, nunca tem um dia ruim e gosta tanto de futebol, mas tanto, que não só assiste jogo da terceira divisão como, ainda por cima, sabe dar palpite sobre a escalação dos jogadores. O único problema com Amanda é que ela não existe. Até descobrir isso, porém, Pedro paga vários micos, se desentende com o chefe e ainda corre o risco de perder outra vizinha, Vitória, a mulher possível. O filme é de Selton Mello, que tem o ingrato papel de fazer uma série de inesquecíveis cenas meigas com... ninguém. Qualquer ator menos talentoso estaria fadado ao ridículo, mas o seu Pedro é simpático e convincente. Luana Piovani foi uma grande surpresa para mim. Ela é tão bonita, e aparece metida em tanta confusão, que o seu trabalho de atriz fica em segundo plano; mas a verdade é que só ela poderia ser a mulher invisível. De resto, o elenco está afinadíssimo: Maria Manoella faz uma Vitória melancólica e bem mineirinha, Vladimir Brichta é Carlos, o colega canalha, e Fernanda Torres rouba a cena como Lúcia, a irmã mais do que pragmática de Vitória. Para nós, cariocas, o filme tem ainda o charme extra de ser passado no Rio: lá estão os prédios nossos conhecidos, o Cine Leblon (com o Gregório Duvivier de gerente), as ruas em que andamos todos os dias, a Livraria da Travessa. Cidade bonita tem disso, a gente nunca se cansa de olhar. (O Globo, Segundo Caderno, 28.5.2009) 27.5.09 26.5.09 DesafiosRecebi por email do meu amigo Hermano. Eu já tinha visto essas brincadeiras há muito tempo, mas me esqueci completamente delas, e gostei de reencontrá-las:Só pssaoes epsertas cnsoeugem ler itso. Outra: Conte todos os Fs do seguinte texto: Como começar bem o diaÀs oito da manhã do dia 29 de março, algo muito estranho aconteceu na Estação Central de Antuérpia... 25.5.09 Emergência felina!Pessoas, a situação é séria: esse gatinho lindo está prestes a ser abandonado pelos humanos de meia-tijela com que convive há oito anos. Cismaram que ele causa alergia a um dos membros da família... Ele é castrado, bobão, muito carinhoso. E é a cara do Irineu! Se o temperamento for igualmente parecido, é, com certeza, um companheirinho formidável. Quem estiver interessado em adotá-lo deve entrar em contato com a Viviane. Vida.com: parem o mundo!![]() Na quinta-feira, em desespero de causa, escrevi isso no Facebook: “Cora Rónai está com o trabalho todo atrasado!”. É só parcialmente verdade. TUDO está atrasado na minha vida, e não vejo como mudar esse estado de coisas. A sobrecarga de informação acertou o passo comigo, me ultrapassou e periga me jogar fora da estrada; como todo mundo, eu também precisaria de um dia de 48 horas para ficar minimamente em dia com o que me cerca. Recebo e compro mais livros do que consigo ler, tenho mais DVDs do que posso assistir pelos próximos dez anos, CDs e revistas se amontoam ao meu redor, há mensagens por responder na secretária eletrônica, no celular e na mailbox. Olho para os gatos cochilando no tapete e tenho certa inveja da sua vidinha tranqüila. A quantidade de informação que um gato administra está perfeitamente de acordo com o seu tempo físico e com a capacidade do seu cérebro: onde ficam os potinhos de água e de ração, quem são os bípedes e quadrúpedes do pedaço, o que significam os vários ruídos da casa, o que é bom para brincar e o que é melhor deixar quieto. É um universo simples e descomplicado, que permanece mais ou menos igual desde que os gatos vieram ao mundo. Já a complexidade da vida dos humanos, depois de alguns milênios em banho-maria, está se acelerando a uma velocidade inimaginável. Como o nosso cérebro continua o mesmo, o tempo encolhe proporcionalmente, já que tem que ser dividido em fatias cada vez menores. Aquele mundo em que MacLuhan disse que um dia todos teriam quinze minutos de fama ainda era um mundo controlável, pré-internet. A maior dificuldade da equação era a fama, que não passava de uma figura de retórica; hoje é o tempo, que é real. Quinze minutos são uma eternidade, uma abundância de segundos de que ninguém mais dispõe. O ser humano é, por definição, um animal multi-tarefa, mas há um limite para a sua capacidade de processamento de dados. Se já não a ultrapassamos, estamos perto disso, como provam os esquecimentos, os “brancos” e a quantidade de vezes em que nos queixamos da memória. Quem tem lembrança de um pai ou avô que sabia longos poemas de cor fica admirado: como era possível? Como eram superiores as pessoas de antigamente...! Mas não é bem assim. A capacidade de armazenagem dos antepassados notáveis não era muito diferente da nossa; apenas estava ocupada de outra maneira. Entre outras infinitas coisas, eles certamente não tinham 597 contatos no Orkut. (O Globo, Revista Digital, 25.5.2009) 24.5.09 O caso das aves apreendidasHá algum tempo, recebi uma circular da Valéria Serra Cordeiro, em que ela denunciava a apreensão de um papagaio e de uma arara pelo Ibama. Aparentemente, os dois viviam bem e esta apreensão teria sido uma arbitrariedade.Encaminhei o email para o Ibama, para saber o que tinha de fato acontecido. Na semana passada, recebi resposta do biólogo Carlos Magno Abreu, da Superintendência do Rio de Janeiro. É um longo email, no qual ele fala do trabalho tantas vezes incompreendido do Ibama, e ao qual anexa a manifestação dos técnicos que apreenderam o papagaio e arara que motivaram a denúncia da Valéria. Entre outras coisas, ele diz, com absoluta razão: "Algumas pessoas ainda acreditam que estão cuidando bem de seus pássaros, como se a disponibilizarão de água e de alimentos, muitas vezes deficiente, pudesse compensar uma vida inteira atrás das grades e ainda acreditam, muitas vezes de boa fé, que estão contribuindo para a preservação do meio ambiente. Cumpre-nos informar-lhes o quão equivocada é essa noção. Para cada animal traficado que chega vivo ao seu destino final, outros nove, no mínimo, vêm a óbito." A seguir, o que escreveram os técnicos. Eles não são gentis com a Valéria, a quem respeito muito e que é uma das vozes mais atuantes na defesa animal, mas é preciso reconhecer que ela também não teve a devida consideração pelo trabalho deles, que enfrentam todo tipo de dificuldade e constrangimento em prol do meio-ambiente e do bem-estar dos bichos: "Efetuamos a apreensão, há cerca de dois anos, de uma arara canindé e de um papagaio verdadeiro, que encontravam-se engaiolados no interior do Parque Municipal Cremerie, em Petrópolis. Fomos lá motivados por denúncia da Linha Verde (0800-618080). No local, constatamos que os animais não tinham comprovação de origem legal, o que caracteriza que foram capturados na natureza, fato extremamente danoso ao meio ambiente e que a legislação tenta resguardar, sendo, por isso mesmo, considerado crime e infração administrativa, segundo estabelece a legislação vigente, a qual os servidores públicos devem se ater para que não incorram em prevaricação. 23.5.09 22.5.09 21.5.09 Cantando a pedra![]() “As calçadas de pedra portuguesa são características do Rio desde o início do século passado, quando o prefeito Pereira Passos importou profissionais calceteiros de Portugal para suas obras de remodelamento urbano. Trata-se de um piso simples, de baixo custo, que permite todo tipo de desenho e pode ser combinado com outros materiais com excelente resultado plástico. É, no entanto, material que exige cuidados contínuos, pois na sua execução as pedras são justapostas num sistema intertravado, e basta que uma se solte para que toda superfície em seu entorno se desestruture. Portanto, a manutenção deve ser constante, a exemplo do que se faz em Lisboa, que possui grandes extensões deste piso meticulosamente conservado. Se aqui não temos profissionais preparados para sua conservação e recuperação, problema detectado desde a ocasião das obras do Rio Cidade, quando calceteiros foram trazidos de Minas, porque não criar uma escola convidando profissionais do ramo para transmitir a técnica em oficinas? Como resultado teríamos a possibilidade de recuperação de um ofício extinto e oportunidades de trabalho permanentes. Além disso, a cidade ganharia muito mantendo sua tradição.” (Jane Santucci) “Nos anos 60, a Revista Arquitetura, do IAB, apontava os pisos mais eficientes em termos de manutenção para os espaços urbanos, e as pedrinhas portuguesas entravam no rol. Os piores eram as lajotas de hidráulicas, pisos cerâmicos, cimento e grandes placas de granito, por causa da dificuldade de serem removidos ou por terem de ser destruídos em caso de intervenção. Um dos autores da matéria foi o Conde, o cara que colocou cimento na Av. Copacabana e lajotas hidráulicas na Real Grandeza e na Voluntários. O que mata as pedrinhas no Rio são 1) carros e caminhões, muitos a serviço do poder público, circulando ou estacionando pelas calçadas; 2) a incompetência das concessionárias de serviços públicos que, além de não terem plano de manutenção, não conseguem tapar seus buracos; e 3) a falta de mão de obra especializada para manter as calçadas. Mas o maior problema de todos é mesmo o poder público, que aqui se dana para tudo.” (Andre Decourt) “Quando era garoto, via os calceteiros portugueses trabalhando na calçada da praia com grande seriedade. Faziam aquilo com o ar compenetrado de quem executa uma tarefa muito complexa. Acho até que não riam. Nem pareciam operários comuns, pareciam artistas. Tinham uns moldes de madeira com as ondas e, depois de demarcar a área a ser refeita, selecionavam as pedras com a precisão de quem resolve um quebra-cabeça. Havia a lenda urbana de que aqueles trabalhadores eram especializadíssimos, e ninguém mais seria capaz de mexer nas calçadas quando eles se aposentassem. E não é que era verdade?” (Pio Borges) “Minha noiva está em Lisboa e, lendo sua coluna, disse-me que as famosas pedras portuguesas continuam dominando o cenário, sempre bem colocadas, juntinhas e sem buracos. Mesmo as áreas mais recentes da cidade são cercadas por quilômetros quadrados de pedras portuguesas, sem buracos, desníveis ou reclamações de senhoras de salto alto. O problema não é das pedras, é da incompetência na instalação e da falta de manutenção. Na nossa cidade até o asfalto é mal cuidado e esburacado, a cara da curriola que a governa e administra há anos. Quero muito, muito, mas muito sair daqui! Quem mora na Zona Norte, fora dos jornais, sem polícia ocupando socialmente o morro, sem paisagens bonitas e inspiradoras, e absolutamente sem presença do estado e da prefeitura, não tem o menor apego, inspiração ou vontade de ficar no Rio.” (Leonardo Guimarães) “Moro no bairro de Campo Grande, houve um Rio Cidade aqui há uns dez anos, uma obra grande, "belas" calçadas de cimento colorido, bloquetes de cimento fazendo mosaicos, tudo nos conformes. Hoje está uma réplica da superfície da Lua, sendo mais fácil andar na rua, que incrivelmente está com menos buracos e desníveis. Já vi muitos tropeçarem, torcerem o pé, caírem... Lembro que, quando eu era criança, cada imóvel era responsável pela sua calçada. Quem fiscalizava? A Comlurb, com os garis que varrem as ruas. O supervisor da equipe notificava o proprietário a fazer os reparos em determinado prazo, além de aplicar multa. Assim cada um cuidava de seu pedaço na calçada.” (Simas) “Aqui na Bahia tiraram as pedrinhas portuguesas do Farol e do Porto, puseram um cimento horroroso, sem a mínima alegria, arrancaram também algumas árvores ente a barra da baía e o Forte na calada da noite (disseram que estavam velhas, nem árvores podem envelhecer em paz nesse país), deixaram um concreto fuleiro que a última chuva já esburacou em alguns pontos, um troço sem poesia, sem a pátina do tempo, completamente sem charme e cidade nenhuma sobrevive sem charme, sem referências antigas, sem tataranetos pisarem o mesmo chão que tataravôs pisaram; sem referências cidades não são cidades, são depósitos de gente, e gente que sem referências perde o respeito pelo bem público e junto perde o respeito pelo conterrâneo; sem a história e o vivenciar local dela é tudo uma imensa invasão, não uma cidade. Aqui nessa terra um Coliseu já teria virado um estacionamento ou um centro de compras, com passeio de cimento nojentinho, passeio de cimento é como flor de plástico, não tem estrago mas também não tem perfume.” (Matilda Penna) (O Globo, Segundo Caderno, 21.5.2009) ![]() Uma gatinha andarilhaQuem descobriu foi a Luciana Pordeus: a gatinha da foto, Kitty, está participando de uma longa caminhada refestelada nas mochilas de Laetitia e Guillaume, que sairam de Miami e pretendem chegar a Ushuia a pé -- e, igualmente difícil, gastando só um euro por dia cada.Kitty foi encontrada há três meses na Luisiana; estava com um mês e meio. Ela se adaptou muito bem à vida na estrada. Salta de um ombro para outro à vontade, às vezes segue seus humanos a pé e, sempre que pressente perigo, se enfia mochila adentro. AQUI há um filminho muito bonitinho com essa autêntica estrela felina. Grande dica, Pordeus! :-)![]() Escrevi essa orelha para o livro "Budapeste 1900", de John Lukacs, que acaba de ser publicado pela Editora José Olympio: Filha e neta de refugiados húngaros, cresci ouvindo histórias de Budapeste, da sua vida artística, de seus teatros, seus cabarés, seus incontáveis intelectuais que frequentavam os cafés como extensões da própria casa. Lá encontravam os amigos, liam os jornais e trocavam idéias sobre um mundo que, infelizmente, ia de mal em pior. Ainda assim, mesmo nas lembranças mais sombrias, era possível perceber o fulgor de uma cidade cosmopolita e sofisticada, uma espécie de Paris para iniciados, para onde convergiam todos os talentos. Encontrar essa cidade extraordinária em livros e filmes sobre o Império Austro-Húngaro sempre foi, porém, tarefa mais difícil. Viena, a outra capital, invariavelmente rouba os louros de Budapeste. É compreensível. Além de ser maior e mais importante, lá falava-se (e fala-se) o alemão, muito mais conhecido e acessível do que o impenetrável idioma magiar. Viena é, também, consideravelmente mais antiga do que Budapeste, que só passou a existir a partir de 1872, com a fusão das cidades de Buda e Pest. Mas essa relativa juventude era, como propõe o historiador John Lukacs (não confundir com o filósofo marxista Georg Lukacs, que sequer era seu parente), o que distinguia a capital da Hungria na virada do século. Viena entrava em decadência enquanto Budapeste fervia. E se as lembranças dos velhos imigrantes são matéria fugidia e impressionista, os dados da pesquisa mostram-se sólidos argumentos. Um único deles é suficiente para dar idéia do que era essa cidade em desenfreado crescimento: em 1900, publicavam-se, em Budapeste, nada menos de 22 jornais diários! Quem lia tanta notícia? E quem escrevia tanta notícia? A verdade é que ali havia toda uma nação descobrindo-se a si mesma, buscando as suas raízes literárias e musicais, às voltas com as várias refrações visuais de si mesma. Budapeste continua única até hoje; seus edifícios, seu jeito de ser, os sons da rua em que o barulho dos bondes mistura-se à fala das pessoas. Os anos dourados que Lukacs foi buscar, na esperança de resgatar a memória da cidade abafada pelos anos de comunismo e, sobretudo, pelo mito criado em torno da Viena da Belle Époque, duraram muito pouco. A amável e criativa convivência entre a aristocracia urbana, os ricos proprietários de terras e a burguesia em ascendência foi tragada pelo torvelinho de um nacionalismo malsão que pôs tudo a perder. É difícil enquadrar “Budapeste 1900” numa categoria específica; o livro mistura em doses mais ou menos iguais memória e história política, estudo demográfico, ensaio urbanístico. O que eu sei é que, se o título já não tivesse sido usado, “Fragmentos de um discurso amoroso” cairia, aqui, como uma luva. 20.5.09 19.5.09 18.5.09 Ora, direis...Vou relativamente pouco ao Centro; mas, quando vou, me divirto, como acontece com tanta gente que não precisa trabalhar lá e pode se dar ao luxo de curtir a movimentação. Semana passada fui resolver uns assuntos na Cinelândia e, na volta, passei pelo Avenida Central e pelo Largo da Carioca. O Avenida Central, vocês sabem, é o ninho do comércio de eletrônicos. Há sempre muitas coisas que me tentam, mas o efeito geral do prédio é invariavelmente o mesmo: embarco numa trip filosófica sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Tudo porque acho fascinante ver num mesmo local, a preços acessíveis, tantos objetos com os quais sequer sonhávamos há alguns anos. O mesmo acontece, numa escala reduzida mas ainda mais surpreendente, no Largo da Carioca (e em todos os cantos onde haja barraquinhas de bugigangas). Os mais desvairados sonhos de consumo transformaram-se, com o tempo, em quinquilharias sem valor.Exemplo: o meu primeiro disco rígido, que comprei nos anos 80 ao ridículo preço de US$ 750, que tinha o tamanho e o peso de um tijolo, e capacidade de... 20Mb. Vinte megabytes! Lento como uma tartaruga, vinha dos Estados Unidos por baixo do pano (a reserva de mercado proibia a importação) e era cercado de não-me-toques. Hoje, qualquer banquinha tem estoque de pen drive, e a gente faz pouco quando eles têm menos de 1Gb. Lanterna de LED, uma tecnologia que já deixou muito queixo caído, é o que há de banal. E os chaveirinhos com mini-câmeras digitais? E os enfeites (em geral horríveis!) de fibra ótica? Vi fibra ótica pela primeira vez em Baltimore, nos Estados Unidos, a bordo de um navio da AT&T que funcionava como oficina de reparos de cabos submarinos. Depois nos apresentaram a uma fábrica daqueles finíssimos fios de vidro e nos deram, a cada um, um pedacinho da grande maravilha, envolvida nas várias camadas de isolantes e protetores que compõem os cabos submarinos. O meu pedacinho foi venerado, em casa, como suprassumo da tecnologia. Enquanto isso, na entrada da pequena feira, uma moça se especializa numa arte incrivelmente low-tech: ela escreve em grãos de arroz que, depois, põe num tubinho e transforma, com uma miçanga e um fio preto, num modesto e original colarzinho. O conjunto todo, com até três nomes e um minúsculo desenho, custa quatro reais. (O Globo, Revista Digital, 18.5.2009) 17.5.09 Nossos classificadosPessoas, a Bia está precisando de empregada, que trabalhe de segunda a sexta e não durma no emprego.A moça precisa ser de confiança, obviamente, e gostar de gatos e de bebês. Alguém tem uma boa indicação? Em tempo: o email da Bia é biaronai no gmail.com 16.5.09 15.5.09 14.5.09 A justiça brasileira é uma piada de mau gosto!Acabo de ler no Globo Online que Suzane Richthofen, que mandou matar os pais a pauladas, pode ser solta a qualquer momento. Foi condenada a 39 anos mas, como se comporta bem na cadeia, pode ter regime semi-aberto.Aparentemente, tudo é absolutamente legal. Ela ficou seis anos na cadeia. Tomara que tenha filhos, e que eles puxem por ela. On the rocks![]() Volta e meia, as nossas calçadas de pedras portuguesas ficam sob fogo cruzado. O argumento é sempre o mesmo: o perigo que a falta de manutenção representa para os transeuntes. Mas, se o problema é a manutenção, por que tirar as pedras? O que leva alguém a supor que uma cidade incapaz de manter um calçamento de pedras portuguesas será capaz de manter um calçamento de qualquer outra coisa? Já vimos este filme durante o Rio-Cidade, quando almas iluminadas tiraram as pedrinhas da Avenida Copacabana, substituindo-as por materiais supostamente mais resistentes. Hoje, passados quinze anos, sofremos com as conseqüências: não há nada mais feio, pobre ou antigo do que aquele cimento. Será que é isso que queremos para a cidade toda?! Não sei se vocês se lembram, mas, na época, enquanto desqualificava as pedrinhas na Zona Sul, a prefeitura construía, na Ilha do Governador, mais de 15 quilômetros de calçadas... em pedra portuguesa! Coerência, para que vos quero? O pior é que estou convencida de que as pedras removidas em Copacabana foram revendidas, a peso de ouro, para a obra da Ilha; mas isso são outros 500. Ou 500 mil. O fato é que, ao contrário do que gostam de pregar seus detratores, os mosaicos são uma excelente forma de calçamento, que vem provando seu valor há milhares de anos. Variações das nossas calçadas usadas na Mesopotâmia, no Egito e na antiguidade greco-romana sobreviveram a toda espécie de desastre, e podem ser vistas até hoje. É verdade que, no máximo, enfrentaram terremotos e erupções de vulcões, e não administrações do Cesar Maia; mas, ainda assim.. Duvido que outras formas de calçamento se conservem tão bem através dos séculos. Para ter idéia de como se comportam atualmente, basta ver as ruas lindas e impecáveis de Lisboa, onde é quase impossível, se não impossível de todo, ver pedra fora do lugar. * * *O diretor-adjunto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, Cristóvão Duarte, também pensa assim. Em artigo publicado no Globo Online no último dia 28, ele aponta, entre as vantagens dos mosaicos de pedras portuguesas, a sua imbatível flexibilidade, que permite acompanhar os menores declives do terreno e todas as formas geométricas encontradas pelo caminho; a economia do sistema, que reaproveita sempre o mesmo material, e dispensa o uso de cimento (basta que as pedras sejam assentadas bem próximas umas às outras, e não de qualquer maneira, como se faz aqui); a praticidade do assentamento, que pode ser aberto para obras subterrâneas e fechado em seguida com um mínimo de barulho e transtorno; e a sua capacidade drenante.Esse é um ponto particularmente interessante. As pedras são (ou deveriam ser) assentadas sobre uma camada de areia que, por sua vez, recobre um solo compactado e devidamente preparado para drenar as águas superficiais. Ou seja: choveu, a calçada se enxuga rápido e sozinha. Para isso, porém, as pedrinhas devem ser instaladas como manda a boa técnica, sem uso de cimento ou aderentes. A única “desvantagem” das pedras portuguesas em relação aos outros tipos de calçamento é o custo. Elas são muito mais baratas e, por conseguinte, muito menos lucrativas para quem faz as obras. Nós sabemos o que significa o custo Brasil, mas, sinceramente, já estava na hora disso mudar! Muito melhor e mais barato do que desfazer todas as calçadas e enfear o Rio era criar um curso permanente de calceteiros, que formasse mão-de-obra especializada no assentamento de pedrinhas. Fazendo a coisa certa, em breve poderíamos até exportar know-how, já que, por acaso, temos as calçadas mais famosas do mundo. No mais, é como diz o professor Cristóvão: “Uma cidade precisa ser construída e reconstruída todos os dias, pedrinha por pedrinha, tal como os mestres calceteiros nos ensinaram ao longo da história das cidades. A força de cada pedrinha decorre da força do sistema como um todo, gerado pelo fato de todas as pedrinhas compartilharem, solidárias, o mesmo projeto de cidade.” * * *Por falar em pedras: juro que, até agora, não entendi a polêmica sobre os muros nas favelas, abordada mais uma vez na página de opinião pelo secretário-chefe da Casa Civil do estado, Regis Fichtner, na segunda-feira passada. Concordo com o que escreveu. Eles não afastam pessoas, não isolam comunidades, não têm tranca nem porteira. Apenas separam as áreas construídas das matas, na (talvez vã) esperança de impedir que, um dia, não exista mais nada para separar. A comparação com muros historicamente malsãos não tem razão de ser, exceto, a meu ver, pelo fato de se chamarem muros. Tivessem sido chamados de “divisórias”, “cercas”, “salva-matas” ou qualquer outra coisa, ninguém teria dito nada; mas muros, que horror!A verdadeira questão é se vão ou não deter o avanço sobre o pouco que resta de área verde nas nossas encostas; se, a partir da sua construção, as autoridades não cruzarão os braços de vez, achando que fizeram o que tinham de fazer; se, uma vez erguidos, serão conservados, ou acabarão, derrubados, servindo de apoio para mais algumas centenas de moradias irregulares. O resto, sinceramente, me parece falta de assunto e conversa fiada. (O Globo, Segundo Caderno, 14.5.2009) ![]() Uma sombrinha gostosa no Largo da Carioca ![]() Essa moça escreve nomes em grãos de arroz. Cada grão comporta até três nomes e um desenhinho: corações, escudo de time de futebol, essas coisas. O colarzinho com o grão escrito custa quatro reais. ![]() Irineu e Lolita 13.5.09 Volta ao mundoEssa foi o Lucas quem mandou: "O tempo deste clipe é de 1m 12s, que representa as 24 horas de um dia inteiro de viagens de avião. Cada segundo de filme representa, aproximadamente, 20 minutos reais. 12.5.09 Que vergonha, Jockey Clube!Fala Ana Yates:"Alguns de vocês devem ter tomado conhecimento da colocação de telas nos muros do Hipódromo para impedir que colocássemos ração e água para uma colônia de cerca de 20 gatos. Colo abaixo o que enviei a alguns em meados de novembro do ano passado. Apesar das telas, conseguimos cortar um pouco dos arames que predem as telas às grades dos muros para dar passagem às mãos e pequenos potes (fundos de garrafas) para água.Sistematicamente,os potes e ração têm sido removidos. E eu tenho ído todas as madrugadas para repor o alimento - e dar chance que o grupo coma e beba. Emergência felina!Fala Fernanda Lacombe:"Estava dando aula na faculdade quando um funcionário avisou que um filhote de gato havia entrado nas engrenagens do carro de uma professora. Depois de três horas tentando resgatá-lo, finalmente conseguiram tirá-lo do carro e o colocaram no canteiro de um prédio. Eu adoro gente que, por acaso, tem uma caixa de transporte no carro. E, como lembrou a VanOr, o gato não é "cinza chumbo, bem peludo". É um pelo longo azul. Fernanda Lacombe 11.5.09 vida.com: a happy-hour do FacebookTodos as noites, por volta das dez, dou um break no trabalho e vou para o Facebook. Passo cerca de uma hora por lá, depois saio e volto para o lado sério da vida; mais tarde, antes de desligar o computador e encerrar a jornada, volto para ver as novidades. Pelo que observo em relação a boa parte dos meus amigos online, e pelas notas do gênero “Tchau, vou dormir!”, esse é um comportamento mais ou menos comum. Ao contrário do Twitter, em que todo mundo fala rápido e sozinho, no Facebook acontece uma espécie de happy hour virtual, com a vantagem de que ninguém precisa ir à festa ao mesmo tempo. Como já escrevi aqui, entrei no Facebook com o pé atrás, mais para ver qual era a do novo brinquedo do que para ficar lá. Mas a idéia é cativante e divertida e, ao longo dos últimos meses, fui descobrindo as suas vantagens. Hoje, chego a achar mais interessante passar uma hora online pondo a conversa em dia com os amigos, do que ir a eventos onde mal consigo conversar com alguém. Cheio de gente por cheio de gente, o Facebook pelo menos é silencioso, e pode ser freqüentado a qualquer hora, sem que eu precise me arrumar e sair de casa. No Facebook, todos estão livres de algumas das piores pragas da noite: ninguém fura a fila, ninguém aluga ninguém indefinidamente, ninguém se estressa por causa de curralzinho vip. À semelhança das boas festas, no Facebook só se encontra gente legal – até porque cada um escolhe a sua turma. Há muitas rodinhas de conversa, formadas em torno de assuntos curiosos – notas, filmes, fotos. O bom é que a conversa acontece no decorrer do período, à medida em que os facebuquianos passam por lá. Com isso, é perfeitamente possível responder à tarde ao que alguém disse de manhã... e continuar o papo na madrugada do dia seguinte. Gosto disso! Não é nada novo, mas o Facebook tem a melhor implentação de interatividade que conheço. Também gosto muito das amizades que estou consolidando com algumas pessoas que só conhecia de “Olá!”, e com outras que me foram apresentadas por amigos. Vale lembrar que o Facebook só funciona bem com um mínimo de “base instalada” e de empenho no social. Como na vida real, ninguém se entrosa com ninguém se entra mudo, sai calado e passa o tempo pelos cantos. Ao mesmo tempo, é preciso saber fazer um mínimo de conversa. Muita gente acha que basta postar frases feitas para participar; grave erro. Ninguém faz questão de filosofia ou de grandes declarações, mas espontaneidade e senso de humor são fundamentais. Como, aliás, em qualquer lugar. (O Globo, Revista Digital, 11.5.2009) DJ Leo, nessa terça: confirmadoPessoas, está confirmada a vinda do DJ Leo, nessa terça, dia 12.O encontro vai ser no Clube Paissandu, no Leblon, no fim da tarde (tipo 18h). Peço a quem vai comparecer a gentileza de escrever o nome aí nos comentários, para que a Monica possa deixar a lista na portaria. Valeu! Recado da Laura![]() Pessoal, 10.5.09 9.5.09 8.5.09 7.5.09 A caminho da ÍndiaDo alto da minha mesinha de cabeceira, quase vinte livros me contemplam. Eles estão sendo lidos mais ou menos ao mesmo tempo, mau hábito do qual não consigo me livrar e que implica, num caso extremo como esse, a releitura de muitas páginas previamente lidas. É que, quando saio de um e volto para outro, já esqueci onde estava. Os marcadores marcam o espaço físico onde a leitura foi interrompida; o espaço do conhecimento e da lembrança fica sempre um pouco antes. Mas não há de ser nada. Isso já me aconteceu antes e consegui chegar, sã e salva, ao outro lado da pilha. Normalmente, não leio mais do que dois ou três livros ao mesmo tempo. O número aumenta quando me interesso particularmente por algum assunto. Ao longo dos anos a mesinha foi tomada por levas de livros sobre etimologia, sobre o Império Otomano, sobre as viagens de Darwin, sobre os exploradores ingleses na África... Agora é a vez da Índia, que ando namorando há tempos e que a novela de Gloria Perez fez a gentileza de trazer à tona: tornou-se impossível entrar em qualquer livraria sem encontrar logo ali, no balcão da frente, pequenas coleções dedicadas ao país. Nelas estão, lado a lado, três dos melhores romances que li recentemente, e que recomendei, aqui, em ocasiões distintas: “O Deus das pequenas coisas”, de Arundathi Roy, “O tigre branco”, de Aravind Adiga, e “A distância entre nós”, de Thrity Umrigar (às vezes, acho que a sonoridade dos nomes dos autores é meio caminho andado). De quebra, vêm os deliciosos contos de “Hotel Yoga”, de Maura Moynihan. Esses livros, porém, já deixaram a mesinha de cabeceira, e conquistaram espaço definitivo nas estantes. A despeito do tema comum, a pilha que me entretem no momento é muito variada. Ela vai de uma versão do monumental Mahabharata, com 941 páginas, a um pequeno e despretensioso guia de hábitos e cultura para o viajante, com 168 páginas bem miudinhas. Entre um e outro estão os belos guias da Dorling Kindersley/Publifolha e da Insight Guides, e um especial para mochileiras (“A girl’s guide to India”, cheio de bons conselhos para qualquer mulher que viaja sozinha); “Kipling Sahib”, de Charles Allen, biografia dos anos indianos de Kipling; “The last mughal”, excelente história do motim de 1857 escrita pelo mesmo William Dalrymple que assina “A City of Djinns”, diário de um ano em Nova Delhi que recomendo para qualquer anglo-parlante, interessado ou não pela Índia; dois volumes sobre Bollywood; um livro de viagem da série “Travelers’ tales”, em que diversos autores narram as suas aventuras; “Índia, da miséria à potência”, de Patrícia Campos Mello, sem dúvida o mais saboroso livro de análise econômica que já li; os romances “Sob o sol da Índia”, de Julia Gregson, e “Paixão Índia”, de Javier Moro, para não falar em “Jogos sagrados”, de Vikran Chandra, um policial ainda mais parrudo do que o Mahabharatha, com incríveis 982 páginas; e “Indian Style”, da Taschen, um colírio cheio de fotos. Entre tantos e tão variados livros, meu favorito, disparado, é o dicionário de Jean-Claude Carrière. É uma paixão antiga. Lançado no Brasil numa edição caprichadíssima em 2001, como parte da coleção “Olhar amoroso”, da Ediouro, ele me conquistou à primeira folheada. Bonito, bem produzido e otimamente traduzido por Claudia Fares, é o livro perfeito para se ler quando não se tem tempo, pois vem dividido em tópicos independentes que seguem o alfabeto, de Agra a Yudishsthira. O coitado passou muito tempo esgotado; agora, finalmente, foi relançado com nova capa e novo título, um sucinto “Índia”, seguindo do subtítulo “Crenças, costumes e sabedoria de uma das civilizações mais antigas do mundo”. Eu preferia a apresentação e o título anteriores, mas a tradução felizmente é a mesma, assim como o miolo bem cuidado. Jean-Claude Carrière, um dos grandes roteiristas do cinema mundial -- é o nome por trás de “A bela da tarde”, “A insustentável leveza do ser”, e “Danton”, entre uma quantidade de obras-primas – descobriu a Índia nos anos 80, quando encenou o Mahabharatha com Peter Brook. Na ocasião, percorreu o país quase todo, enfiando-se em vilarejos perdidos, revirando idéias e preconceitos. Depois fez trinta outras viagens “mais ou menos longas”, e até hoje se surpreende: “A cada nova chegada alguma coisa salta aos meus olhos, alguma evidência, instalada ali há cinco mil anos, e que eu nunca havia notado antes”. Não consigo imaginar guia melhor do que ele, ao mesmo tempo cético e aberto às profundas diferenças culturais que o separam do que vê. Ele conhece demais o mundo e as pessoas para cair na idéia de uma Índia “espiritual”, mas, ao mesmo tempo, observa o tempo peculiar que rege o subcontinente e que o separa de qualquer outro espaço terrestre. Mais ou menos como Churchill, que achava que a Índia não é um país, mas uma noção geográfica, como o equador, Carrière chega à conclusão de que a Índia, pela sua amplidão e diversidade, não existe – e, no entanto, existe. Vá entender! O fato é que, por causa dele, me interessei pelo Mahabharatha, que até então considerava impenetrável e, pior!, dispensável para bípedes modernos. Nada poderia recomendar melhor este lindo dicionário: um livro que consegue levar o leitor, com tanta curiosidade, a outros livros, é um livro perfeito, que atingiu o nirvana das idéias. (O Globo, Segundo Caderno, 7.5.2009) 6.5.09 5.5.09 Amigo à vista!Pessoas, no próximo dia 12, terça-feira, o nosso DJ Leo passa pelo Rio; vamos fazer um encontro no fim de tarde para conhecê-lo?Aceitam-se sugestões de local. Piadinha rodada, mas muito boaRecebi pelo email; apesar de conhecer há tempos, dei risada mais uma vez...Urgente! Um grupo de bandidos fez um arrastão em Brasília e seqüestrou quase todos os deputados. O grupo pede um milhão de dólares para libertá-los; caso o resgate não seja pago em 24 horas, os bandidos vão banhar os reféns em combustível e atear-lhes fogo. 4.5.09 "Life is for sharing"Nova interpretação do slogan da T-Mobile: 13.500 pessoas atenderam à convocação da operadora e foram para a Trafalgar Square, em Londres, sem saber que participariam do maior karaoke jamais visto... N96 e N85: um erro e um acertoVisto ao lado do N96, o meu Nokia N95 8Gb parece um animal algo antigo: é que o design, que segue o do antológico N95 de 2006, começa a mostrar a idade. Já o N96, com seus cantos arredondados e sua tela brilhante, tem o look que se espera hoje de um topo-de-linha, acompanhado por uma versão bem mais esperta do sistema operacional.O meu encanto com o N96, porém, durou apenas o tempo de tentar fazer uma foto: o disparador é tão duro de apertar que acaba sendo praticamente impossível usá-lo para fotografar. Considerando que este é um aparelho com câmera Zeiss de 5 Megapixels, a questão é grave. De início, achei que estava testando um modelo defeituoso; depois, conversando com pessoas que já o usaram e lendo opiniões na web, cheguei à conclusão de que o problema é congênito, e comum a todos os N96. Como sou fã declarada dos Nokia, em geral, e da série N, em particular, fiquei abalada com isso: esta foi a primeira vez em que não tive qualquer vontade de trocar o antigo pelo novo. Na verdade, nem ao menos posso recomendar o novo, já que a questão do disparador não é um simples problema de software, que se resolve com um upgrade. Pouco depois, porém, travei contato com o N85 – e aí encontrei o que esperava, um concorrente à altura para o N95. Ele não é só lindo; é, também, muito competente. Para começo de conversa, tem uma característica que salta aos olhos: a tela mais brilhante do mercado. Além disso, é bem construído, com um slide que é uma tentação para abrir e fechar, um tamanho excelente e uma “pega” ótima (embora meu amigo Andre Arruda esteja, justamente, enfrentando problemas com o slide). O sistema operacional também dá show; uma das coisas de que mais gostei é uma bobagenzinha, mas todos sabemos que é com bobagenzinhas que se regala a vida: quando se buscam as fotos, na barra das capturadas há um rodízio das imagens, uma na vertical e três na horizontal. Ao contrário do N96, o disparador é muito bom de usar – fica até um pouco elevado em relação à lateral do celular – e a lente tem o protetor que tanta falta fez às últimas versões do N95. Quem está acostumado aos comandos antigos, aliás, pode estranhar a falta de controles da câmera, que, à primeira vista, não tem controle de branco, tom de cor, compensação de exposição e de sensibilidade à luz, além de outras necessidades básicas. Mas isso é só à primeira vista. Os controles estão todos lá, basta chamá-los pela opção “Mais atalhos”. A qualidade das fotos é boa, mas inferior à do N95: a cor tende a puxar para o vermelho, o que em geral melhora a aparência das pessoas, mas atrapalha todo o resto. Não é grave, porque sempre se pode consertar isso no computador, mas seria melhor que não acontecesse. O valente aparelhinho brilha em todos os demais quesitos, som inclusive -- nos headphones, ele desbanca o iPhone tranquilamente. Em suma: depois do susto com o N96, esta é a primeira vez, desde que tenho o N95, que penso seriamente em trocar de celular. (O Globo, Revista Digital, 4.5.2009) 3.5.09 2.5.09 Não consegui evitar o assassinato![]() Quando Mamãe e eu voltamos do restaurante, encontramos o Irineu com a lagartixa na boca. A coitada estava sem rabo e mal se mexia. Eu me portei como uma autêntica heroína. Me escondi atrás da pilastra e gritei: -- Mamãe!!!!!! Salva essa lagartixa!!! Mamãe, que ao contrário de mim é valente, bem que tentou; mas o Irineu foi mais rápido, e fugiu rosnando, de lagartixa na boca. 1.5.09 Mais um Momento BollywoodA cena é de Kabhi Khushi Kabhi Gham, que acabei de assistir agora: o filme tem inacreditáveis 211 minutos e, quando termina, dá a maior pena. Ele tem todos os elementos clássicos de um bom Bollywood: uma trama comprida e rebuscada, muito luxo, comédia, jovens que se casam por amor contra a vontade dos pais, brigas familiares, instrução indireta para as massas, cenas emocionantes de perdão e, claro, muita música e dança. Bollywood sabe fazer cenas dramáticas de alto impacto. Tenho certeza de que, vendo esse filme, todo mundo sai do cinema feliz, mas de olhos vermelhos de tanto chorar. A parte cômica é que deixa, como sempre, a desejar: os indianos se levam a sério demais para fazer humor, e invariavelmente erram a mão. Kabhi Khushi tem, vejam só, legendas em português. São péssimas, e logo pulei para inglês; mas se vocês quiserem ver um ótimo filme (que vale por uma pequena minissérie) corram atrás. Encontrá-lo na rede é tão fácil que chega a ser covardia. |
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